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Crítica: Mare Nostrum

A obra assim ganha pela delicadeza e lucidez com que trata das mágoas existentes nas relações, pela simplicidade dos personagens comuns e o olhar lúdico sobre os acontecimentos construídos com um olhar honesto e muito bem conduzido.
Mare Nostrum

Ricardo Elias (Os 12 Trabalhos) nos apresenta Mare Nostrum, seu terceiro longa metragem depois de intervalo de 12 anos sem produzir. O longa, criado a partir das memórias do diretor, ressalta que os desejos e sonhos demandam sacrifícios e escolhas. Há poesia e magia na narrativa e o ponto central da obra está em incluí-las em um relato cotidiano dos personagens.

Protagonizado pelo jornalista afro-brasileiro Beto (Sílvio Guindane) e pelo desenhista nissei Mitsuo (Ricardo Oshiro), as questões familiares estão no centro da trama, que inicia com a negociação de um terreno no litoral paulista entre seus pais 30 anos antes. Já no futuro, os dois brasileiros retornam da Espanha e do Japão, respectivamente, sem as esperadas conquistas dos imigrantes que deixam o Brasil e apostam no sucesso em outra pátria. Recém chegados os personagens enfrentam problemas financeiros, impasses afetivos, ressentimento com as figuras paternas e encontram suas famílias desestruturadas e com as quais eles estão agora desconectados. Enquanto tentam reorganizar suas vidas, travam um reencontro involuntário onde tentam entre conflitos e dificuldades dar conclusão à venda do antigo terreno adquirido pelo pai de Beto. No entanto, alguns eventos fazem com que eles acreditem que o terreno é mágico.

Como uma fábula, o filme constrói um singelo e afetivo apelo ao entendimento e mostra através do olhar cotidiano das vidas de Beto e Mitsuo, que para se obter alguns desejos é preciso abster-se de outros. Ao reverem suas trajetórias e a forma como enxergam suas vidas, ambos refazem seus elos familiares bem como se transformam e resgatam suas essências humanas.

O filme foge dos estereótipos, os diálogos são pragmáticos e enxutos e os personagens foram entregues a um elenco aplicado. No entanto alguns complicam a fluência da história com a irregularidade nas atuações. Guindane convence e aplica carisma embora as demandas do personagem não exijam grande esforços. Carlos Meceni tem um ótimo desempenho como o hilário corretor de imóveis Orestes. Parceiro constante de Ricardo Elias, Meceni esteve com ele em seus três filmes. Apesar de coadjuvante sua atuação chama atenção ao personagem com as frases feitas engraçadas que cita e o jeito meio malandro e natural que acrescenta ao papel. Oshiro não conquista a empatia do público e ainda dá ao seu personagem um tom simplório e pouco crível. A atriz mirim Lívia Santos, que tem papel de destaque como uma pré adolescente mais realista que o pai, tem algumas incoerências e apesar de se esforçar para passar os sentimentos com alguma eficácia está mecanizada em diversos momentos.

Com uma fotografia irretocável, planos bem escolhidos e boas locações no litoral paulista e em Santos, o longa tem um excelente trabalho visual feito quase que em sua totalidade com luz natural.

O ponto franco é a pouca consistência e previsibilidade de alguns diálogos e textos que podiam ter uma construção mais bem executada. Mas o diretor, também coautor do roteiro, acerta ao explorar bem os desdobramentos que promovem diferentes temas em discussão. A escolha de protagonistas de etnias distintas, o retorno ao lar, filhos que repetem os comportamentos que condenam nos pais e a revelação de uma geração incapaz de lidar com frustrações e renúncias. Todos os temas são colocados de forma singular e com a opção pela leveza.

A obra assim ganha pela delicadeza e lucidez com que trata das mágoas existentes nas relações, pela simplicidade dos personagens comuns e o olhar lúdico sobre os acontecimentos construídos com um olhar honesto e muito bem conduzido.

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