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Crítica: Johnny English 3.0

A grande ironia está no fato de Johnny English 3.0 ser uma comédia à moda antiga, de execução protocolar, sem qualquer pretensão de inovação e subdesenvolvida em termos dramáticos, mas que se mostra muito mais engajante e engraçada do que a metade das comédias lançadas nos últimos anos.
Johnny English 3.0

A comédia contemporânea, da segunda metade dos anos 2000 para cá, parece ter abandonado várias convenções lançadas nos anos anteriores. Notadamente, após o surgimento de James Bond nos anos 1960, o gênero ganhou uma nova variação denominada spy spoof, paródias ou sátiras aos filmes de espionagem. O estilo é caracterizado por forte humor físico e gags visuais, que se sobrepõem ao enredo, de maneira geral.

Contudo, o humor no Cinema mudou exponencialmente na última década: há uma valorização ao texto e ao improviso, pontuados por referências pop e progressão verbal rápida, objetivando uma possível reverberação popular entre o público jovem.

Então, o que explicaria a existência de Johnny English 3.0 (Johnny English Strikes Again, 2018), uma comédia pautada exclusivamente em humor físico e em piadas ingênuas? Se a presença do longa-metragem dirigido por David Kerr pode parecer anacrônica diante de um cenário tão díspar, ao menos, acaba por relembrar ao espectador mais experiente os fundamentos de uma matinê cômica e despretensiosa.

Nesta continuação direta dos longas-metragens lançados em 2003 e 2011, respectivamente, vemos Johnny English (Rowan Atkinson) ser chamado de volta à ativa quando as identidades de todos os agentes em campo são expostas. English, até então, estava aposentado do serviço e atuava como um professor de geografia, uma fachada para o que realmente fazia: ensinava os truques de espionagem mais variados aos alunos, da camuflagem até o desarmamento de bombas de pequeno porte. Retornando ao batente, encontra-se com Bough (o ótimo Ben Miller), seu antigo ajudante. Juntos, eles precisarão combater a ameaça de um ataque cibernético que pode colocar toda a credibilidade do Reino Unido em jogo.

Em termos de trama, o roteiro de William Davies é profundo como um pires. Não só a premissa é manjadíssima (já utilizada em Agente 86 e 007- Operação Skyfall, por exemplo), como o próprio desenvolvimento do enredo é incapaz de gerar a mais ínfima surpresa (só uma criança não intuiria quem é o vilão). Ademais, o texto também não parece muito preocupado em garantir motivações claras aos personagens, mesmo que tenham certa importância, como os casos de Ophelia Bhuletova (Olga Kurylenko, cada vez mais bonita) e Jason Volta (Jake Lacy, perfeitamente canastrão), que apenas são o que são, sem motivação ou background. O máximo de refinamento que se pode encontrar reside na figura da Primeira-Ministra, que, na interpretação efusiva de Emma Thompson, exibe características bastante similares a premiê Theresa May.

Porém, é evidente que o intuito não é caprichar na história ou inová-la, mas sim, investir nas sequências de comédia visual. Neste aspecto, tanto Davies quanto o diretor David Kerr optam por uma abordagem mais convencional, quase blasé. Entretanto, ao contrário do que esses adjetivos normalmente indicam, o saudosismo do resultado final é bocado agradável.

Novamente, o mérito recai sobre Rowan Atkinson, cuja elasticidade facial e corpo empertigado são responsáveis pelo sucesso de parte significativa das cenas cômicas. Há duas sequências quase antológicas em que o talento do comediante fica evidente, agregando elementos já vistos em sua encarnação mais conhecida (Mr. Bean) a uma abordagem próxima a de Peter Sellers. Além disso, a dicotomia entre velho e novo também rende boas piadas e, especialmente, uma referência deliciosíssima a Blackadder (1983-89), sitcom pseudo-histórica estrelada por Atkinson.

A grande ironia está no fato de Johnny English 3.0 ser uma comédia à moda antiga, de execução protocolar, sem qualquer pretensão de inovação e subdesenvolvida em termos dramáticos, mas que se mostra muito mais engajante e engraçada do que a metade das comédias lançadas nos últimos anos.

Kevin Hart pode esganiçar sua voz aguda, Amy Schumer pode proferir quantos palavrões quiser e Tyler Perry pode despejar seu lixo fílmico incontáveis vezes ao ano, mas nenhum deles jamais superará o levantar de sobrancelhas ou o olhar contrariado de Rowan Atkinson.




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