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Crítica: Halloween

Inevitavelmente as qualidades acabam rebatendo mais no peso do personagem e da franquia do que por méritos totalmente individuais.
 Halloween

Os que estiverem na casa dos 30 anos (como o que vos escreve) se lembrarão que a 2ª metade da década de 90 foi invadida pelos filmes onde um assassino em série perseguia um grupo de adolescentes matando um por um, para, no final, quase sempre se revelar alguém conhecido com alguma motivação mirabolante (Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana). Esse foi o ciclo que marcou essa geração e que teve início com Pânico (Wes Craven, 1996), uma obra que já era uma homenagem a um conjunto de referências que viraram clichês na história dos slashers até então.

Pois bem, os gêneros no cinema tendem a se repetirem e a se referenciarem, e com esse não é diferente. Antes de tudo, a história aponta lá para o clássico Psicose (Alfred Hitchcock, 1960), os giallos italianos (Mario Brava, Dario Argento, entre outros) e finalmente Halloween: A Noite do Terror (John Carpenter, 1978), que acabou criando um formato que se repetiria incessantemente pelos anos seguintes. O vilão se tornou icônico, a trilha sonora ficou marcada e seu lançamento se tornou um desses marcos que serão lembrados para sempre na história do cinema. Então o que resta para o gênero e a franquia 40 anos depois? Halloween (David Gordon Green, 2018) traz de volta praticamente tudo, incluindo Michael Myers, Jamie Lee Curtis e o jeitão de tributo ao original.

Ignorando todas as continuações, a trama leva em conta somente os eventos do 1º filme, quando o psicopata Michael Myers (Nick Castle e James Courtney) retorna ao bairro onde cresceu e assassinou sua irmã quando criança para cometer outra chacina que ficou marcada na cidade de Haddonfield. Quatro décadas depois, ele escapa novamente do encarceramento preparado para retomar a matança. Só que dessa vez, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) está preparada após anos de trauma que a deixaram treinada para enfrentar o seu “bicho-papão” e proteger sua filha Karen (Judy Greer) e neta Allyson (Andi Matichack), mesmo com uma relação estremecida pelas consequências pessoais dos eventos de 1978.

Ao contrário do que geralmente afirmamos sobre filmes que pretendem fazer um exercício de gênero e metalinguagem, esse é claramente um presente de fã para o original, e não creio que ele funcione bem de outra maneira. Tirando o fato de que agora Laurie não é mais a vítima indefesa, o restante pega tudo aquilo de antes e repete de forma propositalmente nostálgica. Está tudo ali e a impressão que fica é de realmente estarmos de volta no tempo vendo uma versão “carinhosa” e honesta de algo que já está cimentado no coletivo cinéfilo. Ver novamente Myers e sua máscara icônica desperta aquela identificação prazerosa que temos quando reconhecemos um pedacinho da cultura que fez parte de nossa “formação” cinematográfica, mesmo que de forma indireta espelhado pelos seus inúmeros derivados.

O fato é que esse novo filme depende bastante dessa identificação e isso fica claro logo no início, quando o roteiro – escrito por Green, Danny McBride e Jeff Fradley – trata o retorno do vilão como um acontecimento quase sobrenatural, além de depositar o impacto de seu retorno claramente no peso de sua figura no imaginário. Essa característica, aliás, é algo que sempre permeou de forma intrigante e sutil sua primeira aparição décadas antes. Ao contrário do que iria acontecer com as continuações, Myers era humano até um limite onde a mente do espectador começava a questionar sua verdadeira natureza, o que ajudava muito a tornar a ameaça assustadora justamente pelo mistério que envolvia as possibilidades em torno de suas habilidades. Aqui, de forma acertada, a essência se mantem e aura clássica não se perdeu. Portanto quem deseja ver o assassino da maneira mais próxima ao original terá a expectativa preenchida no famoso caminhar calculado e nas leves inclinações com a cabeça como se estudasse com curiosidade sua próxima vítima.

Não só em relação ao antagonista, mas o equilíbrio no tom geral da narrativa se mantem de forma coesa. Não há uma preocupação em deixar tudo mais intenso e maior como se procurasse atender às exigências de um público já acostumado com os exageros do gênero. O foco é tentar reproduzir a mesma tensão através de situações mais contidas, assim como foi feito de forma distinta pela direção de John Carpenter em 1978. Desse modo, o melhor aspecto do filme é que ele consegue emular a maior parte da construção calculada que marcou o original, prezando um desenvolvimento mínimo do ambiente e da relação entre Michael e Laurie – esta que também surpreende por não ter cedido à tentação de transformar a protagonista em uma espécie de vingadora caricata; do contrário, o longa é inteligente em ressaltar o trauma e o poder aterrorizante que o assassino ainda exerce sobre ela, o que ajuda a resgatar uma ligação do público com a história e com os personagens.

Mas mesmo se ignorássemos isso, ainda sobrariam as diversas referências no roteiro e na direção de David Gordon Green (O Que Te Faz Mais Forte, Joe, Segurando as Pontas). Se fosse outro o caso, elas correriam o sério risco de soar dolorosamente gratuitas, mas aqui elas se encaixam na proposta de maneira orgânica: não são simplesmente copiadas, são integradas na trama, possuindo um valor narrativo e nostálgico. Assim, temos as aparições de personagens que desaparecem num piscar de olhos, a babá em perigo, os adolescentes excitados; fora outras pontuações técnicas e visuais que remetem imediatamente ao original, como aquela em que vários pacientes de um hospício são vistos em meio à névoa e a câmera que ora segue um plano contínuo do vilão mapeando o ambiente da próxima vítima, ora assume o papel subjetivo na espreita e na icônica respiração sob a máscara.

Infelizmente, toda essa característica de resgatar a admiração pela franquia acaba sendo o único elemento forte da obra. Para um público mais novo ou que não tem qualquer ligação ou expectativa com a história, Halloween é apenas um exemplar pouco inventivo do gênero e que não exercerá muito apelo para quem esperava uma grande subversão de clichês ou ao menos a oportunidade de recriar algo de verdade em cima do que já foi feito (talvez até marcando um novo reinicio de ciclo). Tirando os próprios Myers e Laurie, o restante dos personagens não tem força isoladamente. O elenco adolescente é completamente esquecível e o Dr. Loomis da vez é o pupilo Dr. Sartain (Haluk Bilginer), cujas motivações na trama beiram a uma caricatura que ultrapassa um pouco o aceitável dentro da proposta. Olhando de um ponto de vista mais geral, há de se reconhecer que talvez o único elemento que realmente aponta e arrisca comentar o clichê é o fato que o gênero masculino dessa vez é certamente o frágil, representando as falhas morais que as mulheres da história têm de consertar (repare no arco deles e compare com o delas).

Ainda assim, a sensação final é positiva pela honestidade com a qual David Gordon Green trabalha sua admiração pela referência. Difícil é não se empolgar nem sequer um pouquinho com a trilha marcante composta por Carpenter, provando a eficácia da simplicidade (no melhor estilo John Williams em Tubarão), ou até com pequenas alfinetadas nas continuações quando certo personagem comenta o boato de que Michael seria irmão de Laurie. Está vendo? Inevitavelmente as qualidades acabam rebatendo mais no peso do personagem e da franquia do que por méritos totalmente individuais.

Mas já que o mês pede, certamente ainda há um espaço garantido para Michael Myers.


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