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42ª Mostra | Crítica: A Favorita

Abordar peculiaridades e estranhezas já é uma marca de Yorgos Lanthimos, e colocar essas características em cenários diferentes realça sua capacidade de brincar com o imaginário humano e ultrapassar as barreiras da originalidade um tanto ausente atualmente.
 A Favorita

Abordar peculiaridades e estranhezas já é uma marca de Yorgos Lanthimos (O Lagosta, O Sacrifício do Cervo Sagrado), e colocar essas características em cenários diferentes realça sua capacidade de brincar com o imaginário humano e ultrapassar as barreiras da originalidade um tanto ausente atualmente. Ao utilizar a atmosfera da realeza britânica no século XVIII durante o reinado de Ana da Grã-Bretanha para suas camadas de humor negro e extravagância, Lanthimos proporciona a desconstrução da beleza irretocável e da visão celestial que temos da realeza historicamente, com seus contrastes humorísticos e a visualização social de ângulos diferentes.

O fato de se posicionar diante de histórias únicas como as suas com ambientações tão particulares e representativas em certos aspectos coloca Yorgos Lanthimos como um dos principais manifestantes artísticos – em todos os meios – conceitualmente e originalmente. Arte já reconhecida com indicação ao Oscar, além de premiações nos principais festivais, como Cannes e Veneza.

A Favorita rebusca a vida da Rainha Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman), com sua histeria e nervos à flor da pele, acompanhada pelos conselhos de sua confidente Sarah Churchill (Rachel Weisz). A atmosfera da realeza se altera a partir da chegada da prima de Sarah, Abigail (Emma Stone), criando uma disputa pela atenção da rainha e pelo poder de ser sua confidente.

O que é conhecido por nobreza é inteiramente desconstruído pelas mãos de Lanthimos, ao menos intelectualmente, pois, os ornamentos do castelo perfeitamente moldados junto a cômodos que remetem a antiga realeza britânica de forma tão estonteante e realmente maravilhosa – no mais alto grau do sentido da palavra – que cada enquadramento auxiliado pela cinematografia parecem pinturas renascentistas. A recriação perfeccionista, entre ambientações amplas e reluzentes, e figurinos deslumbrantes, buscando cores mais neutras e escuras do que cores fantasiosas – intencionalmente – fazem com que o humor seja mais eficaz do que qualquer outro filme de comédia em cenários atuais. A caracterização por completo do filme cria um claro senso imaginativo de uma época reconhecida por suas formalidades e vestem essas personagens histéricas e sarcásticas com a fineza que elas não possuem, como pessoas influentes que se apresentam conservadoramente, mas não seguem os “valores” e tradicionalismo que pregam.

Dentro deste recorte de personalidades fortes temos a rainha, a confidente e a prima recém-chegada que tumultua a tranquilidade do castelo. O principal fator da história de Yorgos Lanthimos que faz ser original e interessante, além de todo o lado cômico da realeza que apresenta, é o simples posicionamento de duas mulheres disputando a rainha ao invés do rei, como é constantemente colocado no cinema. E mais que isso, a rainha é a peça-chave do enredo que influencia as performances de Emma Stone e Rachel Weisz extraindo o melhor das duas atrizes.

A força escandalosa do roteiro eleva as personagens, e as duas atrizes visivelmente se entregam por completo às mulheres que interpretam. Ironicamente, uma constrói a outra com o decorrer do enredo, com Rachel Weisz iniciando como uma confidente manipuladora, fazendo com que até mesmo o público confie em suas palavras, exalando um charme e confiança palpáveis pela atriz, assim como a postura inabalável e sua capacidade de controlar a então rainha da Inglaterra. Weisz alcança uma altura em sua performance que em cada cena que aparece coloca o recinto em submissão, através de uma presença corporal sólida que atrai a todos com seus olhares e feições silenciosas, mas principalmente pela tonalidade de sua voz, medida calculadamente com uma habilidade de persuasão indescritível. Emma Stone se opõe a essa tranquilidade e seriedade, enquanto Weisz controla a todos, especialmente a rainha, com seu equilíbrio e concentração, Stone apela para a manipulação emocional e o “coitadismo”, se desenvolvendo ao longo do filme, mostrando as garras ao estilo Anne Baxter em A Malvada. A cada maltrato de Rachel Weisz, Stone aumenta o volume de sua personagem, e, enquanto Weisz controla precisamente sua personagem, Stone abandona as medidas e entrega loucura, manipulação, charme, inteligência, no limite exato do exagero. Weisz e Stone são as duas engrenagens do enredo, e uma eleva a outra, sendo impossível separar uma interpretação da outra, pois, quando uma delas está em cena com Olivia Colman, com a Emma Stone por exemplo, o pensamento fica preso na preocupação e angústia pela possibilidade de Rachel Weisz aparecer repentinamente, e vice-versa.

O roteiro na verdade é centrado na rainha, mesmo as intrigas e disputas acontecem devido à ela. Papel que Olivia Colman impressionantemente domina, se sujeitando a todos os extremos e extravagâncias que o roteiro oferece e entregando a performance de sua carreira. Pra resumir, ela está extremamente engraçada. O sarcasmo, ironia e humor negro do roteiro estão em seus ombros, e a capacidade de transmitir essa histeria cômica da personagem é perfeita. A voz estridente, egoísmo criticando os luxos da alta classe, vulnerabilidade e raiva quase simultâneas, confusão, com o maior desequilíbrio possível e no nível preciso de ser contagiante, divertido e causar a sensação de querer ver mais dessa rainha, e assim como suas coadjuvantes, está sempre presente sensorialmente ainda que não esteja fisicamente.

O que faz a personagem ser única é o histórico de rainhas do cinema, interpretadas por Judi Dench, Cate Blanchett, Helen Mirren etc, rainhas contidas, racionais, conscientes, entre outros atributos angelicais. Lanthimos faz questão de retirar as molduras do patriotismo britânico e deixa Olivia Colman se colocar nesse quadro de atrizes como a mais humana de todas, com seus defeitos e realismo.

O surrealismo de Yorgos Lanthimos é reproduzido no roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, aplicando os mesmos toques sarcásticos e ainda acompanhando a linha cinzenta que tinge a cinematografia de Lanthimos. Em meio do humor ácido terá sempre a ambiguidade das palavras recitadas e o intuito por trás deste humor. Todo o criticismo é regido pelo sarcasmo e pela ironia, centrado categoricamente na realeza e sua suntuosidade – questionavelmente – indiscutível. O que é visível no caso de termos uma rainha como a de Olivia Colman no mínimo esdrúxula pelos padrões da realeza já interpretada. Além de que colocar duas mulheres brigando por outra mulher é mais representativo do que o olhar masculino possa reparar.

Yorgos Lanthimos conduz suas personagens como uma ópera. Alguns são esquecidos pelo caminho e abordados pela narrativa abruptamente, e largados mais rápido ainda. No entanto, recriar algo sobre-aproveitado como a realeza britânica de forma original e interessante nos dias de hoje é um feito a ser louvado. Os aprofundamentos nos espaços e suas personagens; a permissão do exagero que é claramente fruto do roteiro, mas autorizado pela direção; pontos específicos de uma obra de arte que não iguala a outras comédias contemporâneas, podendo-se dizer que é um filme modernista com assuntos classicistas.

Yorgos Lanthimos se concretiza como um visionário numa terra com pouco espaço para originalidade. Sua ópera é realmente regida por músicas clássicas ao fundo nesta comédia de nervos, sendo inacreditável saber que não foi escrita por Shakespeare.

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