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42ª Mostra | Crítica: Em Chamas

As ilusões de Hae-mi constroem o enredo e influenciam a fragilidade masculina tanto quanto a sensação de algo à espreita com os anúncios norte-coreanos ressoando ao longe da fronteira e o contínuo toque do telefone de Jong-su e ninguém nunca respondendo do outro lado
Em Chamas

A filmografia de Lee Chang-dong (Poesia, Sol Secreto) possui conceitos básicos de humanidade que carregam a dramaticidade contundente ao tratar de deficiências e suicídio, cruzando as linhas do cinema leve e brando com dramas pessoais de seus personagens – até difíceis de acompanhar em certos casos. Em Chamas apresenta a capacidade do diretor sul-coreano de explorar zonas diferentes do que costuma abordar. Na verdade, bem diferente, saindo de dramas simbólicos e reais para um suspense intrigante elevado por mistérios, inveja e subjetividade.

Baseado no conto Os Celeiros Incendiados de Haruki Murakami, Em Chamas traz Lee Jong-su (Yoo Ah-in), um rapaz introvertido que reencontra uma amiga de infância, Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), após anos. Ao reaver a amizade, Hae-mi embarca em uma viagem para o Quênia contando com o favor de Jong-su para cuidar de seu gato durante sua ausência. No entanto, quando retorna, Hae-mi está acompanhada de um rapaz, Ben (Steven Yeun), que conheceu em sua viagem, causando um desconforto em Jong-su devido ao interesse amoroso aflorado anteriormente, mas principalmente pelo mistério que este desconhecido carrega.

Suportado pelo enredo misterioso e instigante, Em Chamas atrai a atenção de seu público para esse suspense brilhantemente carregado por Steven Yeun, atiçando a cada cena com olhares e gestuais capciosos. Com presença constantemente enervante, seus intuitos com Hae-mi são sempre verbalizados, mas as entrelinhas deixam traços de insegurança para Jong-su e para o público. O que Lee Chang-dong opta por não mostrar causa mais instabilidade do que grandes exibições tipicamente hollywoodianas, mostrando objetos e propagandas nos cantos, sons ao longe e o fato de Jong-su morar na fronteira com a Coréia do Norte. Escolhendo a subjetividade e delineando com cinematografias etéreas do horizonte ao fim da tarde, ao mesmo tempo em que guarda segredos e sensações nos armários do cenário, deixando seus personagens realmente escondidos, mostrando-os fisicamente, mas ressaltando as lacunas que o trio possui. Os armários guardam mais do que meros objetos ou peças de roupa, mas lembranças e sentimentos, passando suposições nunca comprovadas através de jóias e acessórios – talvez pela falta de algo para acreditar além de suposições –, e questionamentos pessoais pela dúvida de si mesmo, seja profissionalmente como sexualmente, como se as respostas estivessem em qualquer possível esconderijo ou um desespero por achar convicções em objetos físicos.

Frutas idealizadas, gatos “imaginários”, a fronteira norte-coreana, entre outros simbolismos particulares e meticulosos. Nisso se deve a opção por acreditar em qualquer suposição ou intuição. A incerteza permeia o roteiro estranhamente. Coisas físicas presumidamente reais, porém nunca vistas. Ideais formando conceitos e alimentando – assim como as frutas ilusórias de Hae-mi – a imaginação faminta por desejos, ponto que visualiza a cegueira humana quando palavras bonitas e discursos utópicos são oferecidos. A inveja e ciúmes de Jong-su são presentes sem tornar o personagem irritante, sendo sua desconfiança convencida pela grande atuação de Yoo Ah-in, sem se afetar pelo que poderia ser um filme basicamente sobre egoísmo e possessão, e se estende firmemente com seu suspense na curiosidade de Jong-su e os espaços em branco entre os três personagens.

O dito mistério é forte o suficiente para manter o envolvimento do público. Existe um drama de tribunal se aprofundando na vida de Jong-su com seu pai que simplesmente não encaixa e nem parece fazer parte do mesmo filme, o que infelizmente atrapalha o que se desenvolvia de forma independente causando um problema de excesso de tempo, se alongando por quase duas horas e meia sem necessidade alguma.

Jeon Jong-seo é o fio condutor entre Steven Yeun e Yoo Ah-in, sendo primordial para a tensão e o desenrolar do enredo. Contudo, ambos os homens são tão fortes em suas personalidades – personagens bem chamativos e intrigantes – que Jong-seo nunca passa do rótulo de fio condutor, sendo suas ausências e sua fragilidade algo mais útil para a engrenagem do filme, além dos conceitos de ilusão que oferece e estabelece na história e na cabeça de Jong-su que, buscando por entendimento de seu antagonista, busca autoentendimento e sanidade. Sanidade pontualmente desequilibrada por Hae-mi e diminuída a cada cena de Jong-su, guiando a obsessão por questões que o personagem se sente convicto, mas a dúvida das entrelinhas aumenta o desespero por respostas pacientemente e até charmosamente concedidas por Ben.

O gênero de suspense só funciona quando bem calculado e principalmente quando interessante. Lee Chang-dong progride na dubiedade e na subjetividade, deixando mais questões do que respostas ao longo do filme. Mesmo com uma história simples em mãos, a complexidade prevalece grandiosamente. Passando uma mensagem quase subliminar através de Jong-su que se torna incrivelmente palpável, fazendo com que compremos a ideia do personagem sem pestanejar. A simples afirmação de Ben ao dizer que queima celeiros como hobby nos coloca automaticamente na posição de acreditar nisso com a mesma surpresa que Jong-su e mais ainda, já concluir suas ações. Os silêncios prevalecem e a questão é: seriam celeiros uma metáfora para – como diz Ben – coisas dispensáveis? Ou afinal de contas, seria tudo a mostra da obsessão masculina transmitida por Jong-su e seu desespero por aceitação?

É sempre prazeroso se deparar com filmes que te deixam com muitas perguntas na cabeça. E mais ainda quando deixa a subjetividade como protagonista, especialmente diante de um mistério tão poderoso e forte como no filme Em Chamas. As ilusões de Hae-mi constroem o enredo e influenciam a fragilidade masculina tanto quanto a sensação de algo à espreita com os anúncios norte-coreanos ressoando ao longe da fronteira e o contínuo toque do telefone de Jong-su e ninguém nunca respondendo do outro lado. Os espaços e os cantos são reveladores – ou quase –, o que nunca se revela é a integridade dos dois homens que mantém o mistério de quem são realmente senão possível sociopata perseguido por um jovem desesperado por desmascará-lo e ajudar sua amiga, ou um jovem invejoso e obsessivo incapaz de aceitar a si mesmo devido a problemas de infância e encontra um bode expiatório para suas paranoias.


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