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Reflexões de Um Cinéfilo: o Oscar de Melhor Filme Popular

O tradicionalismo do Oscar tem buscado se adaptar a todos os formatos possíveis que o cinema tem aplicado, desde a inclusão da categoria de Melhor Animação em 2002 até a mudança dos votantes da academia para integrantes mais pluralizados
Oscar de Melhor Filme Popular

O tradicionalismo do Oscar tem buscado se adaptar a todos os formatos possíveis que o cinema tem aplicado, desde a inclusão da categoria de Melhor Animação em 2002 até a mudança dos votantes da academia para integrantes mais pluralizados. No entanto, o interesse do público – mesmo com as minorias ganhando mais visibilidade, especificamente nas duas últimas edições – tem caído drasticamente, e sua importância tem atingido um nível duvidoso para até os mais fiéis seguidores da premiação.

Na beira da sua centésima cerimônia, os prêmios da academia de artes e ciências procura voltar as graças dos cinéfilos e telespectadores em geral com a criação de mais uma categoria: Melhor Filme Popular. Em vista que a tão prezada audiência diminui ano após ano, a introdução desta categoria é clara o suficiente para pensarmos realmente no intuito da premiação, que, até certo ponto era um momento para celebrar as realizações cinematográficas e reconhecer o trabalho árduo de artistas.

Blockbusters geralmente não possuem muito espaço na cerimônia, tendo o Oscar um nicho específico dos filmes a serem premiados, e oferecer uma categoria apenas para premiar os tais blockbusters não ajudam esses filmes, no caso, populares e muito menos a academia. A credibilidade de ambos se abala. Dos produtores dos filmes que podem fazer parte dessa categoria – que no momento não há uma especificação dos requisitos necessários para ser indicado –, se acomodando com seus números de bilheteria, independente da real qualidade que possam possuir – embora subjetivo –, levando filmes como, por exemplo, baseados em histórias em quadrinhos a se estabilizarem já em seus conceitos do que faz sucesso atualmente, despreocupando-se de vez em aprimorar seu conteúdo promissor, que já deu passos importantes com Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) e Logan (2017). E em questão da academia, seus números de audiência podem aumentar, certamente.

Contudo, seu reconhecimento vindo dos artistas que, ainda que neguem o desejo pela estatueta, possuem no mínimo a vontade de estar listado como um dos indicados, torna-se algo simplório o suficiente para diminuir o valor da premiação. Ainda que pareça uma opinião drástica diante de algo “banal” como a criação de uma categoria para filmes massificados, a falta de distinção das categorias no Oscar sempre foi exatamente o que o tornava especial e único, e o grande ápice da temporada de premiação. Ao iniciar uma categorização por gênero, os valores há tempo obtidos diminuem e o prêmio se reduz a grupos e o reconhecimento do que foi lançado de melhor em cada gênero ao invés de exaltar o que foi lançado de melhor no ano em geral.

Com a academia basicamente tendo sido forçada a agregar as minorias em seus votantes e o lançamento de Pantera Negra neste ano, quebrando diversos recordes de bilheteria, o medo das represálias caso Pantera Negra não for indicado em nenhuma categoria – ou até ganhar em nenhuma categoria – pode ser umas das razões para tentar abrir espaço para filmes mais populares. A academia tem recebido críticas pesadas pela falta de inclusão, gerando protestos entre os próprios artistas e hashtags que circularam a internet nos últimos anos. Com os elogios a Pantera Negra e os números altíssimos de público, a aparente necessidade de criar a categoria exclusiva para filmes populares vai além do termo blockbuster, mas expõe os preconceitos na academia que propõe um espaço que deveria ser inerente à mulheres, negros, LGBTQs etc, por saber que o seu conservadorismo não abre portas para certos grupos.

O seu prestígio, ainda que não tão sólido como em décadas passadas, não se altera – por hora –, entretanto, produções como Star Wars e o Universo Cinematográfico da Marvel, com seus espaços já estabelecidos em categorias técnicas, estão a cada ano causando o alerta dos produtores da cerimônia com a baixa audiência, tendo esse ano alcançado seu pior nível desde a medição do número de telespectadores. A fome desesperada por audiência é outro fator que não só é base para premiar o filme mais popular como também expressa a sensação da insuficiência de glorificar as pessoas que nos oferecem escapismos e prazeres sensoriais com sua arte em uma época conturbada como esta, colocando meros números acima do objetivo que inaugurou o Oscar: premiar o melhor filme do ano e o trabalho artístico.

O público espera que Velozes e Furiosos receba alguma indicação, assim como uma “comédia” do Adam Sandler ou a ficção adolescente romântica e/ou distópica do momento, e suas bilheterias exorbitantes provavelmente serão um fator para serem indicados na nova categoria. E a expectativa das pessoas e a decepção de não os verem indicados, neste caso, não se deve ao Oscar em si, mas a divulgação diminuta de produções com valores além do entretenimento. Filmes independentes como Moonlight (2016) e O Lagosta (2016) passam despercebidos, pois não existe divulgação a filmes que, aparentemente, não irão trazer números de bilheteria. O Brasil é um exemplo, tendo as produções consideradas como “cinema arte” como algo inacessível ao público periférico, que, são deixados para consumir apenas o que alcança o nível blockbuster nos EUA e, distantes dos centros metropolitanos, não chegam a saber que existem filmes falando sobre suas próprias realidades particulares sendo comercializados para a burguesia das grandes cidades. Pensando matematicamente: o público periférico é apenas aproximado aos blockbusters, enquanto as classes mais altas consomem tanto os blockbusters como o que a academia irá prestigiar em fevereiro, levando o público menos favorecido a não ter interesse em algo que exibe algo que não conhecem.

A categoria de Melhor Filme Popular ultrapassa a vontade de simplesmente premiar o melhor filme popular do ano. Sem perceber, os produtores da cerimônia abriram a todos seu reconhecimento dos defeitos que existem na academia e a disparidade de públicos para os filmes. Até a imposição dessa nova categoria ainda era possível acreditar na validade dos prêmios da academia. Entretanto, escancarando a necessidade por audiência, e até propondo premiar algumas categorias técnicas durante os intervalos, basicamente diminuindo a importância de maquiadores, técnicos de som, cinematógrafos etc, causa estranheza do que é o Oscar afinal se não mais uma plataforma de entretenimento capitalista.


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