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51º Festival de Brasília - Mostra Competitiva (15/09) | Boca de Loba, Torre das Donzelas, Kairo e Los Silencios

Se depender da sensação deixada pelo início do festival, a semana promete deixar um gostinho especial da capacidade do nosso cinema.
51º Festival de Brasília
Foto: Assessoria de Imprensa/Junior Aragão

O 2º dia do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro certamente deixou uma boa impressão. Foram dois curtas e dois longas na Mostra Competitiva, fora mais dois documentários da Mostra Paralela (a qual infelizmente não conseguirei cobrir). Se depender da sensação deixada pelo início do festival, a semana promete deixar um gostinho especial da capacidade do nosso cinema. É uma pena pensar que a maioria deles encontrará uma dificuldade tremenda de distribuição, portanto se for de Brasília e puder, vá!

A categoria principal teve o retorno de Letícia Sabatella como apresentadora, agora acompanhada de Rocco Pitanga e Rosanne Mulholland. O discurso continuou na pegada da inclusão das minorias no cinema e no incentivo do cinema local, principalmente com filmes universitários e o 4º Festival de Filmes Curta-metragem das Escolas Públicas de Brasília.


Impressões do 2º dia

Dessa vez os horários foram mais respeitados e o atraso foi bem menor que na noite anterior. A apresentação continua um pouquinho travada apesar dos esforços para manter tudo na naturalidade. Esse também foi o dia em que a entrada foi liberada para o público geral e preciso salientar que as filas estão bem grandes. A entrada é franca para a Mostra Paralela e Brasília e 12 R$ (6 R$ a meia) para a Mostra Competitiva (o mesmo tradicional valor no Cine Brasília).

Aos interessados em comparecer – e apesar de correr risco de lotação – sugiro não chegar em cima da hora, principalmente nos horários da Mostra Competitiva (depois das 18:00), já que existe uma porção da sala reservada para os veículos de imprensa. O estacionamento está em obras e a forma mais fácil de encontrar vagas é nos blocos residenciais das proximidades (Entrequadra Sul 106/107). O melhor conselho é optar pelo metrô e os aplicativos de transporte.  

*Há um desconto no Uber especial para o Festival de Brasília (cód: FESTIVALDEBRASILIA).


Os Filmes

Todos os quatro filmes pertencem à Mostra Competitiva e os veículos de imprensa recebem um código para votar no Júri Popular (olha o Loucos Por Filmes participando!).

Os dois curtas da noite:

BOCA DE LOBA (Bárbara Cabeça, ficção, CE, 19 min)


É um pouco difícil definir sobre o que é esse trabalho dessa jovem diretora (24 anos) sem que se acabe descrevendo o filme plano a plano. Optando por uma abordagem bastante simbólica e silenciosa, a narrativa se vale de belas imagens que despertam curiosidade. Basicamente, acompanhamos um grupo de mulheres marginalizadas que vivem nos subterrâneos de Fortaleza (entram, inclusive, pelos bueiros), saindo às ruas numa aparente busca por entender os desígnios de uma entidade feminina cujas características são expostas numa leitura mitológica, uma espécie de deusa-mulher que representa a força resistente em uma (aparente) distopia.

Com um ótimo olho para a estética, a diretora não economiza no visual e a direção de fotografia é o elemento mais interessante. Além de conceber alguns planos marcantes por suas composições, o bom uso da cor torna ainda mais mítico o ambiente – com destaque para o roxo que torna mortas as ruas da cidade à noite e o amarelo/vermelho que se intensifica no mistério da entidade. Fora isso, há também um uso de uma trilha dissonante e um design de som que ajuda a conferir um ar excêntrico e enigmático para a obra.


KAIRO (Fábio Rodrigo, ficção, SP, 15 min)


Os corredores de uma escola na periferia de São Paulo são enquadrados vazios enquanto o som dos passos de alguém ecoa forte sem aparecerem inicialmente. A sensação de abandono e esquecimento é logo preenchida quando a assistente social (vivida por Vaneza Oliveira) vai buscar o pequeno Kairo na aula para um passeio. Os planos longos fazem questão de mostrar os caminhos percorridos pelos personagens e contribuem para a sensação de que o silêncio antecipa alguma revelação importante.

A construção da expectativa se dá tanto pela direção calculada quanto pelo roteiro, que joga as informações aos poucos através de diálogos que nunca parecem artificiais. É nos protestos e comentários inocentes do garoto que temos um vislumbre de que algo ruim vem acontecendo com sua família, aumentando nossa empatia sem precisar de muito tempo – que é justamente o que seria necessário para alongar um pouco mais a obra, já que ela termina num tom simbólico e abrupto que acaba evidenciando um potencial desperdiçado.


Os dois ótimos longas:

TORRE DAS DONZELAS (Suzanna Lira, documentário, RJ, 97 min)


Sobreviventes da Torre das Donzelas sendo ovacionadas no palco


Ao conjunto de celas da ala feminina do Presídio de Tiradentes (SP) foi dado o nome de Torre das Donzelas. O local encarcerou diversas jovens mulheres presas nos piores anos da ditadura militar, na passagem dos anos 60 para os 70, onde eram constantemente torturadas e tendo sua condição de gênero usada como forma de humilhação pelo sistema de exceção ao qual eram submetidas. Reunindo algumas dessas vítimas (hoje senhoras de idade), a veterana de documentários Suzanna Lira constrói um espaço cênico baseado nas lembranças das prisioneiras. Alternando entre diversos depoimentos, a obra leva o espectador para dentro do presídio e o coloca dentro da angústia de cada uma delas, expondo o absurdo e a injustiça de uma época que parece estar sendo (propositalmente, inclusive) esquecida.

Mas o filme não se limita a ser “apenas” um atestado da crueldade da tortura. Esbanjando humanidade, ele permite que cada pessoa ganhe sua complexidade representada ao lembrar do sentimento de fraternidade surgido do desespero. Sem que tivessem alguma ideia de quando (ou se) seriam libertadas, elas transformaram o local em uma casa com paredes invisíveis que as ofereciam um alento e uma impressão de vitória, mesmo em uma condição de total vulnerabilidade física.

Evitando recorrer ao burocrático estilo de entrevista, Lira procura sempre os detalhes nos depoimentos em planos fechados nas mãos, nos rostos e em ângulos que evitam a frontalidade, como se convocassem o público a sentir as pequenas manifestações físicas e emocionais causadas pelas dolorosas lembranças. A montagem também é um elemento essencial ao equilibrar perfeitamente o drama com toques de humor que ajudam a humanizar bastante a história.

Fora algumas encenações desnecessárias (bastam as próprias vítimas conversando) e uma tendência à se se repetir no 3º ato, Torre das Donzelas é um belo documentário sobre a importância de se manter a dignidade humana independente da visão ideológica.


LOS SILENCIOS (Beatriz Seigner, ficção, SP, 87 min)


Elenco de Los Silencios



Este foi definitivamente o longa que me marcou no 2º dia de festival.

A trama se passa na divisa do Brasil com a Colômbia, onde Amparo (Marleyda Soto) desembarca com seus filhos, Núria e Fábio, após o desaparecimento do pai (Enrique Diaz) em decorrência de conflitos envolvendo o governo colombiano, os paramilitares e as FARC. Traçando um retrato bem realista das dificuldades da família, o filme acompanha a mãe tentando conseguir trabalho e escola para os filhos, além do visto para permanecer no país, enquanto enfrenta a desconfiança local e espera por justiça em relação a uma indenização decorrente de um acidente em uma mineradora onde trabalhava o pai. Optando por uma condução silenciosa, o público segue a tentativa dos personagens se encontrarem em meio a uma situação que parece sem solução. As informações vão sendo colocadas aos poucos e a possibilidade de um elemento de mistério surge pelas beiradas nos diálogos e em situações aparentemente sem propósito.

A direção de Seigner preza por planos longos e estáticos que tendem a isolar a ação no meio de “vazios” narrativos de contemplação. A abordagem cadencia bastante o ritmo ao ponto de tornar a experiência tediosa em certo momento. Mas aí é que a obra decide nos puxar de volta de forma arrebatadora ao inserir algumas reviravoltas (sem spoilers) que não só são bem amarradas como justificam de forma comovente várias sequências anteriores, adicionando um significado e um peso dramático em dobro para elas. O efeito emociona e o desfecho ganha um belo simbolismo que alcança camadas pessoais e sociais.

Adoraria falar mais sobre, mas revelar algo além daqui certamente os privaria de uma ótima experiência.


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