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Crítica: Buscando...

Todo o aspecto emocional do longa (embora funcione) não foge muito da trilha sonora não-diegética que torna a experiência quase melodramática e nem de algumas licenças poéticas que fazem uma investigação viral ter revelações que seriam óbvias frente ao escrutínio implacável da internet.
Buscando...

De certa forma, as experiências recentes de narrativa envolvendo filmes que se passam na tela de um computador são derivadas do found footage (literalmente, filmagens encontradas). Estes ficaram imensamente popularizados depois do sucesso de A Bruxa de Blair (Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, 1999) e tinham a cara da época em que se passavam. Quase duas décadas depois, internet e tecnologia juntaram tudo em pequenos dispositivos e unificaram a experiência em uma grande rede de desktops, notebooks e smartphones interligados (os primeiros já estão velhos). Em 2014, The Den (Zachary Donohue) e Amizade Desfeita (Leo Gabriadze), em 2015, mostraram ao grande público um exercício do gênero de terror unicamente sob o ponto de vista da área de trabalho de seus protagonistas. Agora com mais orçamento (as marcas e redes sociais são reais) e com a proposta semelhante, Buscando... se envereda mais no drama/suspense ao mostrar a história de um pai em busca da filha desaparecida.

Tudo começa quando Margot (Michelle La), de 16 anos, some sem deixar vestígios depois de uma conversa pelo computador, no dia anterior, com seu pai David Kim (John Cho). Com o passar do tempo e temendo pelo pior, ele procura a ajuda das autoridades, e a detetive Rosemary Vick (Debra Messing) é designada para liderar a busca. A investigação requer que David (recentemente viúvo) invada o computador da filha para tentar obter informações, o que acaba trazendo à tona segredos pessoais que ele julgava não existirem.

Diferente da limitação imposta pelas características do gênero nos exemplos anteriores, este consegue se aproximar mais de uma construção tradicional em termos de personagens ainda que exercendo a abordagem similar na sua lógica, que é a de que tudo que o espectador vê é o que está sendo transmitido no universo diegético do filme, em diferentes dispositivos e contando uma montagem mais fluida. Dessa forma, o roteiro do diretor Aneesh Chaganty e Sev Ohanian desenvolve bem os principais personagens, assim como suas relações soam verossímeis e seus conflitos reais – lembrando que isso tudo tendo como “barreira” a própria lógica que estabeleceu em sua premissa. A breve introdução sobre a história da família Kim até a doença da mãe é mostrada através de posts nas redes sociais, fotos compartilhadas e agendas eletrônicas marcando a linha do tempo, mostrando a habilidade de Chaganty em tecer uma narrativa coesa e que ainda consegue despertar uma rápida identificação emocional.

Se tem algo fascinante que esse subgênero (se não é agora, será no futuro) revela é notar como a gramática cinematográfica se adapta ao novo mesmo recorrendo à suas velhas regras. Os exemplos são vários, desde a lógica dos planos abertos e fechados como forma de intensificar a ação dramática até o aspecto simbólico de uma composição. Só que aqui ao invés de recorrer aos elementos tradicionais de cinematografia, David aparece, em certo momento, “cercado” pela janela do Skype no canto da tela enquanto recebe notícias não muito promissores sobre o caso da filha. Já quando começa a ser tomado pelo cansaço após passar horas perseguindo informações que se provaram becos sem saída, o caos emocional é traduzido pela sua imagem em meio a um desktop repleto de pastas e arquivos desorganizados.

Em termos de estrutura, a lógica é mais tradicional e o que vemos é basicamente um filme sobre um mistério a ser resolvido. Só que o grande mérito é conseguir delinear um retrato da cultura atual de internet dentro das características de gênero, e de forma bastante orgânica. Não é surpresa para quem já tem tempo de estrada online, portanto, que Margot projete sua adolescência normal para o pai enquanto passa a maior parte do tempo procurando uma conexão humana através do seu computador. Do lado oposto, as colegas de escola confessam ter a ter convidado para um sleepover somente pela necessidade de usar sua inteligência para fazer uma prova de biologia no dia seguinte, algo que mais adiante trará um outro comentário certeiro sobre o comportamento vida real vs redes sociais. Ainda mais imediato é outro paralelo quando constatamos que o julgamento e condenação popular instantâneo baseados em boatos é algo que tristemente espelha a vida real, colocando impressões superficiais que antes ficavam numa conversa reservada gravadas para sempre na rede como uma espécie de ficha suja permanente.

Como se vê, o filme é complexo tematicamente o bastante de forma que talvez outras tentativas na mesma linha se limitariam à trama em si. Quando a obra entra no 3º ato (não darei nenhum spoiler) é que ela começa a pedir com mais insistência para que sua lógica se mantenha impecável. De forma geral, é interessante notar como o espectador/câmera se confunde com o nosso próprio padrão de consumo atual em termos de comunicação. Por isso a narrativa se permite ir mais além que outros exemplares passados ao navegar pela trama como um observador subjetivo, mas convenientemente onipresente. Se por um lado isso é uma boa saída do roteiro para justificar as conexões na história, ela também é obrigada a criar certos artifícios para poder amarrar suas pontas – e em termos formais (no que tange às ferramentas de pista e recompensa em um roteiro), ela é bem costurada –, mesmo que recorra a certas escolhas que funcionam mais pelo impacto do que pela verossimilhança.

Seguindo o raciocínio, o longa “trai o movimento” em alguns momentos onde tem de buscar recursos externos, mesmo querendo manter o rótulo de inovador (um pouco precipitado, aliás). Assim, o todo o aspecto emocional do longa (embora funcione) não foge muito da trilha sonora não-diegética que torna a experiência quase melodramática e nem de algumas licenças poéticas que fazem uma investigação viral ter revelações que seriam óbvias frente ao escrutínio implacável da internet. Felizmente, isso não prejudica tanto o resultado final e Buscando... ainda se sai muito bem em captar o envolvimento do público e dialogar com ao menos duas gerações que viram o mundo de forma bem diferente em um espaço de poucas décadas.

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