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Crítica #2: A Freira

Apesar do design de produção competente, do carisma do elenco e do clímax estrambólico, A Freira é um filme de terror previsível e sem qualquer impacto emocional ou sensorial.
A Freira

É interessante ver como, em meio a tantos blockbusters de super-herói, a franquia Invocação do Mal tem se estabelecido desde seu lançamento, há cinco anos. Claro, não é a primeira cinessérie de terror (A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, O Exorcista, A Profecia, O Massacre da Serra Elétrica e muitas outras estão aí para provar isso), contudo, é uma das poucas que têm uma preocupação em expandir sua mitologia e criar um universo conectado. A recompensa nas bilheterias também tem se provado gloriosa: mais de $1,2 bilhão arrecadado, em um orçamento total de $81 milhões.

Entretanto, para se solidificar junto ao público e a crítica é necessário que haja um investimento criativo mais sofisticado e que procure escapar das convenções. Ou seja, é preciso que os responsáveis evitem bobagens insípidas como o primeiro Annabelle (2014) e o recém-chegado A Freira (The Nun, 2018), que, mesmo não sendo ruim, é superficial o bastante para que o descartemos assim que saímos da sala de cinema.

Estamos em 1952. Duas freiras foram mortas em um abade aparentemente amaldiçoado em uma vila romena. O Vaticano convoca os esforços do Padre Burke (Demían Bíchir) e da Irmã Irene (Taissa Farmiga, irmã de Vera) para ir ao local e verificar o que há de errado. Chegando lá, contam com a ajuda do galanteador Maurice (o charmoso Jonas Bloquet), que encontrou o corpo de uma das freiras. Juntos, combaterão uma ameaça demoníaca incrivelmente forte e obstinada em fazer maldades.

Visualmente, o diretor Corin Hardy faz o arroz com feijão típico do gênero: para gerar sustos, deixa de enquadrar os atores e aposta em pequenos travellings horizontais para a direita, retornando rapidamente e mostrando uma presença inesperada atrás do personagem. Com exceção de um plano geral circular acima dos objetos em cena (os atores) e de uma ou outra imagem mais memorável (um conjunto de freiras ladeadas e sem rosto, encarando o padre Burke), não há qualquer insight ou tratamento psicológico dado às cenas e aos jump scares.

Aliás, este último quesito serve como mais uma prova da inexperiência de Hardy como cineasta, assim como a ineficiência do roteiro de Gary Dauberman. Primeiro, a ambientação (neblina, quartos escuros, corredores cinzentos); segundo, os gatilhos realistas-fantásticos (portas que rangem se abrindo sozinhas, rádios ligando no meio da noite); terceiro, os sons de impacto não-diegéticos, não necessariamente pertencentes à trilha sonora do excelente Abel Korzeniowski; quatro, a desorientação dos atores e personagens, cujos traumas e inseguranças pessoais foram expostos ao público momentos antes da supostamente assustadora cena acontecer. Dito isto, quando a temida freira aparece em cena, limita-se a emergir lentamente da escuridão ou surgir refletida em espelhos. Os sustos deste longa-metragem são tão óbvios, calculados e telegrafados que se torna impossível ser pego desprevenido ou tremer nas bases da poltrona.

Para completar as sequências de horror pouco eficazes, o roteiro não é hábil ao entregar personagens convincentes ou psicologicamente profundos. O fato de a irmã Irene ainda não ter feito seus votos perpétuos serve, na metade inicial, como uma pequena pista para uma possível ambição temática sobre sexo, culpa, desejo e fé, mas o roteirista abandona essa possibilidade logo aí. Nem mesmo a personagem-título ganha uma profundidade maior do que assustar pobres católicos indefesos.

Apesar do design de produção competente, do carisma do elenco e do clímax estrambólico, A Freira é um filme de terror previsível e sem qualquer impacto emocional ou sensorial. A não ser, isto é, que você seja muito ingênuo, impressionável ou pouco afeito ao gênero, já que só alguém assim poderia perder o sono à noite por causa de uma coisa tão inofensiva.

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