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51º Festival de Brasília - Mostras Competitiva e Brasília (20/09) - Guaxuma, Ilha, Terras Brasileiras, A Sombra do Pai & mais

Depois de uma pausa para cuidar das atribuições da vida normal, tive o prazer de voltar ao glorioso 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nessa quinta-feira, dia 20/09.
51º Festival de Brasília
Foto: Assessoria de Imprensa/Junior Aragão

Depois de uma pausa para cuidar das atribuições da vida normal, tive o prazer de voltar ao glorioso 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nessa quinta-feira, dia 20/09.

Infelizmente, perdi os curtas e os longas da Mostra Competitiva dos dias 17 e 18. Já os de ontem consegui ver na reprise – aliás, quem quiser pegar as sessões perdidas (somente as do dia anterior) pode comparecer ao Museu Nacional da República. Os horários estão disponíveis no site www.festivaldebrasilia.com.br.

Aos interessados em comparecer – e apesar de correr risco de lotação – sugiro não chegar em cima da hora, principalmente nos horários da Mostra Competitiva (depois das 18:00), já que existe uma porção da sala reservada para os veículos de imprensa. O estacionamento está em obras e a forma mais fácil de encontrar vagas é nos blocos residenciais das proximidades (Entrequadra Sul 106/107). O melhor conselho é optar pelo metrô e os aplicativos de transporte. 

*Há um desconto no Uber especial para o Festival (cód: FESTIVALDEBRASILIA).

Vamos aos filmes.

Mostra Competitiva do dia 19/09:

AULAS QUE MATEI (Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia, ficção, DF, 24 min)


É um curta que toca num ponto bastante sensível do ensino público. As aulas de filosofia são interrompidas por dois policiais militares que aparecem para revistar os alunos por causa de uma suspeita de envolvimento em crimes por alguns deles. O professor se mostra desesperançoso e o longa demonstra a crítica social através de elementos visuais poéticos pontuados na narrativa. Apesar de um plano final interessante e simbólico sobre a vida nas ruas vs escola, o filme não encaixa muito bem no restante da abordagem, soando mais pretensioso do que profundo.


ILHA (Ary Rosa e Glenda Nicácio, ficção, BA, 94 min)


O longa-metragem baiano tem como trama o sequestro de um famoso diretor, Henrique (Aldri Anunciação) por um aspirante a cineasta local, Emerson (Renan Motta), que deseja manter o cativo à força até que ele o ajude a fazer um filme sobre sua vida.

Já na primeira cena, os diretores Ary Rosa e Glenda Nicário (vencedores do Júri Popular no festival do ano passado com Café com Canela) brincam com a metalinguagem ao colocar os personagens discutindo qual plano irão usar para captar a melhor emoção do sequestrado. Quase todo passado do ponto de vista subjetivo da câmera que documenta o making of da obra de Emerson, o filme mantém o comentário sobre o fazer cinematográfico constante, não só nas discussões acerca da melhor maneira de conduzir uma sequência como na própria narrativa em si. Nesse ponto, a reflexão dos cineastas sobre temas como criatividade, arte e vontade de fazer cinema é bem pertinente e a dupla brinca o tempo todo com a questão do “filme dentro do filme”, justificando até momentos que pareceriam artificias se não estivessem apoiados nessa desculpa (uma boa desculpa).

Também no aspecto da trama, a obra consegue despertar o apego do público ao gradativamente inserir informações sobre o passado de Emerson através das próprias encenações e escolhas de elenco feita por ele, o que não deixa de ser uma bela reflexão sobre a natureza de “farsa” do cinema e seu poder em emocionar como se fosse real. Há alguns outros recursos que acabam tropeçando, como a representação do Brasil em um personagem ou as mudanças abruptas no relacionamento entre outros, mas mesmo assim Ilha é um longa muito interessante e emocionante.


Agora partindo rapidamente para os 6 curtas de hoje da Mostra Brasília:

CASA DE PRAIA (Duda Affonso, ficção, DF, 16 min)


Curta que trata, como diz a própria sinopse oficial, do ócio a da melancolia da juventude brasiliense. A protagonista é convidada (ou se convida) para ir à praia com conhecidos. A comunicação é propositalmente apática e todos parecem alheios a qualquer coisa à sua volta. Mesmo sendo esse o ponto, a abordagem faz mais é irritar pelas sequências desnecessárias e pela obviedade do desfecho.


TERRAS BRASILEIRAS (Dulce Queiroz, documentário, MS, 29 min)


Um ótimo documentário sobre os conflitos entre índios e produtores rurais perto da fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai. O início peca um pouco pelas explicações desnecessárias escritas na tela e por uma trilha que prometia martelar toda a projeção, mas logo tudo se acerta e a diretora Dulce Queiroz consegue fazer algo difícil em um festival de visão política unilateral: ouvir os dois lados. O posicionamento da obra é claro, mas mesmo assim ela evita a vilanização e traça uma discussão rica para mostrar que a solução ainda está longe, simbolizada na montagem alternando índios nas terras onde seus antepassados já viviam e fazendeiros de posse das escrituras em mãos.


RISCADOS PELA MEMÓRIA (Alex Vidigal, ficção, DF, 20 min)


O icônico Antônio Pitanga interpreta o dono de uma loja de LPs que vende e compra discos usados. Além da música, eles guardam memórias e o peso das histórias daqueles que os possuíram. O problema é que a narrativa jamais deixa que o espectador absorva a mensagem e as reflexões, já que insiste em exteriorizar tudo através de constantes exposições que tornam a coisa beirando a breguice, fora os flashbacks banhados num filtro novelesco.


IN MEMORIAM (Gustavo Fontele Dourado e Thiago Campelo, ficção, DF, 24 min)


Faço uma confissão: pouco consigo dizer sobre o curta porque pouco o compreendi. A ideia da história se passar num mundo onde há uma fixação midiática por obituários é interessante e o tema é sobre lembrar dos que se foram. Mas o desenvolvimento é bastante disperso e parece reter o máximo de informações que pode, prejudicando nosso envolvimento. Veria de novo com certeza para reavaliar minha impressão.


PRESOS QUE MENSTRUAM (Alisson Sbrana, ficção, 20 min)


Baseado no livro homônimo de Nana Queiroz (que não é ficção), o filme fala de como o sistema carcerário trata suas detentas grávidas. Gardênia foi presa após uma operação policial na favela e passa por todo o processo desumano de gerar um filho enquanto presa. Em pouco tempo, a narrativa consegue abordar a realidade das prisioneiras usando de recursos dinâmicos através de uma montagem bastante ágil, que mistura humor, drama e denúncia.


*Achei injusto falar sobre o último curta da Mostra Brasília, À Tona, pois vi apenas partes devido a uma incômoda dor de cabeça e irritação causada pela falta de educação do público (no setor de imprensa, inclusive).

Indo, finalmente, para os dois curtas e longa-metragem da Mostra Competitiva (um dos melhores dias):

PLANO CONTROLE (Juliana Antunes, ficção, MG, 16 min)

O nome do curta equivale quase ao que você está pensando, só que com uma particularidade: o plano de celular dá viagens de teletransporte ao invés de sms e ligações. Marcela deseja ir para Nova York, mas seu pacote só cobria a cidade brasileira chamada Nova Iorque. A ficção é só uma desculpa para a diversão e o filme usa da nostalgia para o humor descontraído. Um defeito no sistema faz com que a protagonista se desloque no tempo através de momentos marcantes na TV dos anos 90 e, a partir daí, a narrativa se desliga de grandes pretensões e presta homenagens a novelas, banheira do Gugu, Xuxa e Mamonas Assassinas.


GUAXUMA (Nara Normande, animação, 14 min)


Uma inesperada e belíssima surpresa da noite. A animação feita em stop motion e colagens de imagens reais fala sobre a lembrança de um personagem que vai da infância até o amadurecimento. A abordagem é onírica e os traços granulares (que remetem à areia da praia) casam perfeitamente para demonstrar a natureza fragmentada da memória. A narração só engrandece o peso das lembranças e o resultado é de uma densidade emocional que consegue abordar o passado, as perdas e o próprio tempo.


A SOMBRA DO PAI (Gabriela Amaral Almeida, ficção, SP, 90 min)

Considerando os trabalhos anteriores da diretora (no recente Animal Cordial e no roteiro de Quando Eu Era Vivo), este novo junta duas características importantes: o pé no realismo fantástico e o exercício de gênero.   

A trama gira em torno da família da pequena Dalva (Nina Medeiros), que perdeu a mãe recentemente e convive com um pai, Jorge (Júlio Machado), ainda afetado pelo luto e com nítida dificuldade em cuidar sozinho da filha. A tia, Cristina (Luciana Paes), é obcecada em ter um relacionamento estável e olha com desconfiança para a inclinação da sobrinha para crendices e superstições mórbidas.

O filme sugere vários elementos sobrenaturais e a cineasta mostra domínio em induzir uma atmosfera inquietante na composição recheada de sombras bem calculadas e silêncios carregados de uma tensão vinda de algo que pouco sabe. Há homenagens temáticas a algumas obras famosas de terror (que não falarei para não dar spoilers) e uma habilidade em misturar um tom realista com elementos de gênero.
Para o público mais desavisado, a obra pode parecer estranha até demais, mas seu grande mérito é usar essa estranheza para uma camada surpreendentemente comovente sobre solidão e abandono de uma maneira corajosa e que falta ao cinema nacional.


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