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51º Festival de Brasília - Abertura e Hors Concours (14/09) | Imaginário e Domingo

Dia 14 de setembro de 2018 aconteceu a abertura do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Cine Brasília. Ao todo serão 10 dias com uma programação repleta de curtas e longas selecionados na Mostra Competitiva, Mostra Brasília, Festivalzinho
Foto: Assessoria de Imprensa/Junior Aragão

Dia 14 de setembro de 2018 aconteceu a abertura do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Cine Brasília. Ao todo serão 10 dias com uma programação repleta de curtas e longas selecionados na Mostra Competitiva, Mostra Brasília, Festivalzinho (com filmes infantis), FESTUNI (Festival Universitário do Cinema de Brasília), fora o Curta nas Escolas, Cine Voador e Mostra Futuro Brasil. Além das tradicionais exibições, o evento ainda conta com painéis especiais, masterclass, laboratórios, oficinas e diversas outras atividades paralelas.

A cerimônia inicial foi apresentada pelos atores Chico Diaz e Letícia Sabatella e o tema foi principalmente sobre a importância do fomento à atividade audiovisual no Brasil e os espaços cada vez maiores (e ainda necessários) preenchidos pelas mulheres na produção cinematográfica nacional.

Cerimônia de abertura
Seguindo a temática, a veterana atriz Ítala Nandi (que participa do 1º longa exibido na noite) e a montadora Cristina Amaral receberam o Prêmio Leila Diniz pela contribuição feminina na história do cinema brasileiro. A Medalha Paulo Emílio Salles Gomes foi dada a Walter Mello, um dos fundadores do festival, e a Ismail Xavier, um dos grandes críticos e teóricos do cinema no país. Para fechar, ao corpo docente do curso de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB) foi homenageado com o Prêmio ABCV pelos esforços duradouros em manter o curso como um dos mais bem avaliados do país em meio ao sucateamento das universidades.

Impressões sobre o 1º dia

Marcada para começar às 19:00, a abertura de fato só se iniciou depois de uma hora de atraso. Entre alguns problemas técnicos com microfones, o restante funcionou bem e a tela do Cine Brasília continua encantando. A sala ficou bem cheia (a capacidade total é de 607 lugares) e o ambiente externo foi ampliado para disponibilizar uma maior área de alimentação e um sistema de som suficiente para a extensão do local. A estrutura externa foi agraciada com rostos e imagens icônicas do cinema brasileiro e a decoração interior ficou caprichada.

Na abertura e em si, os apresentadores se atropelaram um pouco em meio a improvisos que não deram muito certo e os discursos se alongaram mais que o necessário. O tema ficou repetitivo, mas trouxe bons momentos, como a ótima fala da montadora Cristina Amaral (interrompida de maneira bem inconveniente por Ítala Nandi, causando protestos na plateia), que poderia ter substituído facilmente qualquer outra durante a cerimônia. No fim das contas, o tempo foi melhor aproveitado quando as equipes do curta e do longa tiveram seu espaço para apresentar os trabalhos e fazer os agradecimentos. O destaque negativo vai para as constantes e irritantes manifestações políticas durante as projeções, infelizmente inevitáveis devido ao teor do Festival e ao momento atual no país.

Aos interessados em comparecer – e apesar de correr risco de lotação – sugiro não chegar em cima da hora, principalmente nos horários da Mostra Competitiva (depois das 18:00), já que existe uma porção da sala reservada para os veículos de imprensa. O estacionamento está em obras e a forma mais fácil de encontrar vagas é nos blocos residenciais das proximidades (Entrequadra Sul 106/107). O melhor conselho é optar pelo metrô e os aplicativos de transporte.   

Apesar das ressalvas, o balanço ainda é positivo e se você tem interesse em prestigiar o Cinema nacional, a oportunidade é imperdível.

Os filmes

Agora indo direto para as exibições, o 1º dia foi reservado para um curta e um longa-metragem no HORS CONCOURS:

IMAGINÁRIO (Cristiano Burlan, documentário, SP, 18 min)

O curta começa com transmissões de rádio entre o período de 1945 a 1964. Ressoando fortemente com a intensidade nas vozes cobrindo os importantes momentos políticos do Brasil nesse período, principalmente focado na culminância do golpe militar após deposição de João Goulart, o curta se vale quase que unicamente de material de arquivo (com exceção da trilha sonora). A narração vai de Repórter Esso até a famosa “sentença” de Auro de Moura Andrade: “declaro vaga a Presidência da República...”. Juntando os discursos, o posicionamento político é claro ao alertar para (segundo a obra) a manipulação midiática como incentivo à polarização política, colocando a famosa reforma agrária de Jango como um plano de golpe comunista. Enquanto isso, as imagens em preto e branco alternam entre desfiles militares e atividades da classe trabalhadora em fábricas e no campo, surgindo como símbolos maiores dos grupos que se beneficiariam (segundo, novamente, à visão do autor e dos discursos) caso continuasse o regime democrático.

Buscando causar a reflexão entre a narração e as imagens, a narrativa usa o que se vê como extensão maior da ideia que se fala. O operário que aparece curioso não é “só” um operário, ele é O Operário, a imagem e símbolo maior – o que remete, inclusive, ao poder intrínseco do cinema em transformar o alcance do significado imagético através da reprodução da realidade. A trilha sonora leva o “terror” do ambiente político como o vilão e carimba o pessimismo que se confirma quando o discurso esperançoso de Rubens Paiva é sucedido pela instauração dos Atos Institucionais (aqueles que foram suspendendo os direitos fundamentais aos poucos). 

Apesar da abordagem se tornar um pouco cansativa (mesmo com apenas 18 minutos), vale a reflexão pela correspondência do clima da época com o grau de histeria política de hoje.


DOMINGO (Clara Linhart e Fellipe Barboa, ficção, RJ, 95 min)

Elenco do longa Domingo


A trama se passa na casa de campo da matriarca Laura (Ítala Nandi), cuja família se reúne para passar o dia a base de churrasco e muita instabilidade emocional. Já há algum tempo apresentando sinais de desgaste em suas estruturas, o casarão é o símbolo de orgulho que resiste nas súplicas de Laura para que sua neta tenha sua festa de 15 anos sob o teto persistente do lugar. Servindo como ambiente que acolhe cada personagem em seus pequenos arcos, o lugar é o palco que Carla Linhart e Fellipe Barbosa (do excelente Gabriel e a Montanha) estabelecem para deixar que cada um encontre seu momento para revelar seus conflitos.

Cada pessoa, independentemente da idade ou gênero, encontrará seu momento entre o choque de gerações, geralmente através de confissões e explosões emocionais sobre suas vidas pessoais e profissionais. O artista Miguel (Ismael Caneppele) se encontra frustrado com o rumo de sua vida e compartilha com Bete (Camila Morgado, ótima no papel) trancados em um quarto enquanto sonham planejar o futuro da casa que representa o passado. Eliana (a sempre excelente Martha Nowill) está na iminência de ter um filho (o surgimento da nova geração) e seu marido Eduardo (Michael Wahrmann) ensina o filho mais novo a “ser homem” quando o pega em uma brincadeira usando colares de mulher e maquiagem. Já a neta de Laura escuta Engenheiros do Hawaii no seu cantinho de adolescente enquanto o irmão e primo de idades semelhantes passam pelas descobertas sexuais características (as vezes de forma bastante complicada...).

Mantendo a câmera mais tempo sobre os personagens, Barbosa e Linhart investem em tomadas mais longas que exploram bem os espaços no plano e na profundidade, traçando o retrato familiar cheio de seus conflitos normais, mas também com afeto e um genuíno sentimento fraternal, mesmo que acidentalmente nocivo. No pano de fundo social, é evidente o comentário de classe feito pela obra, tanto de forma mais sutil como direta. O dia do churrasco é o mesmo da posse do 1º mandato de Lula como presidente e as televisões ligadas pela casa ecoam o discurso em favor da “mudança” enquanto o conflito entre patroa e empregada se desenrola impregnada na tradição – esta vem de forma mais evidente na forma como Laura se refere à filha de uma delas ao reclamar de sua presença como se estivesse na casa para “passar as férias” enquanto cuida de suas taças de cristal, e também representada no neto que julga ter uma espécie de direito herdado em suas insinuações sexuais em quem acha estar ali para servi-lo de qualquer forma.

A narrativa se enfraquece quando martela a correspondência do tema com o discurso político, se tornando por vezes inverossímil quando coloca alguns personagens reagindo como se estivessem encantados e hipnotizados com a fala do ex-presidente (não há nenhuma tentativa de esconder o posicionamento da obra). Fora isso, Domingo consegue dar a seus personagens diferentes graus de profundidade que enriquecem a obra através de conflitos identificáveis na maioria das reuniões familiares e com um bom balanço entre humor e drama, mesmo que flertando com uma caricatura que faz até sentido no microcosmo daquelas pessoas.


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