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Crítica: O Protetor 2

O Protetor 2 é constituído de paradoxos: sua história é ordinária, mas o suficiente para envolver; suas subtramas são descartáveis, mas uma delas se revela essencial; sua ação é benfeita, mas as irrupções de brutalidade são grosseiras..
O Protetor 2

Antoine Fuqua é um cineasta sutil e aprazível como a pata de paquiderme pressionada contra a caixa torácica de um ser humano. Suas obras são recheadas de testosterona, porte de armas, consumo e tráfico de drogas e, de muita, mas muita violência gráfica. Goste-se ou não destas características e do resultado final de seus trabalhos, o fato é que Fuqua possui marcas autorais perceptíveis e coerentes em sua carreira.

O Protetor 2 (The Equalizer 2, 2018), sequência do filme homônimo lançado há quatro anos, funciona à base de paradoxos, sendo um deles a completa ausência das marcas do diretor em alguns momentos da narrativa: se por um lado, celebra-se a minimização da estilização do capítulo anterior, por outro, porém, lamenta-se a impessoalidade aplicada em certas cenas, que terminam por ralentar o ritmo e tornam a história desinteressante.

Já aposentado de suas funções como agente de defesa, Robert McCall (Denzel Washington) vive tranquilamente em um pequeno apartamento em Massachusetts e trabalha como motorista de aplicativo. A quietude de seu cotidiano é abalada quando sua amiga de longa data, Susan (Melissa Leo), é assassinada durante uma missão especial em Bruxelas. Robert não poupará esforços para encontrar os culpados, nem que precise ceifar meio mundo até atingir sua meta.

Parte significativa da irregularidade daqui advém do roteiro de Richard Wenk (também responsável pelo texto do predecessor e colaborador no trabalho anterior de Fuqua, o remake de Sete Homens e um Destino). Os primeiros minutos de projeção fogem das convenções dos manuais de roteiro ao ignorar o estabelecimento de uma premissa, ponto de partida ou conflito. Contudo, esta aposta é arriscada e acaba falhando, uma vez que é a verdadeira proposta do script tateia, parece não saber o que pretender contar. É neste prólogo que Wenk aposta em uma quantidade dispendiosa de subtramas: uma garota turca sequestrada pelo próprio pai, uma jovem estagiária abusada física e sexualmente por seus patrões, um senhor separado da irmã durante o Holocausto, um garoto com tendências marginais.

A abordagem não é só episódica, mas, como já afirmado, diminui o ritmo da narrativa, que se complica ainda mais por a trama principal começar tardiamente. Soma-se ao desnivelamento a previsibilidade do enredo, pontuado por reviravoltas telegrafadas (só o fato de a câmera permanecer junto a um personagem mais tempo que o necessário é suficiente para que o espectador suspeite dele) e um clímax mais óbvio que o desfecho de uma novela das seis.

A boa notícia é que, do alto de seus 63 anos (aparentando vinte a menos, diga-se de passagem), Denzel Washington se mantém como um astro de ação bastante instigante ao criar um personagem analítico e enigmático, dotado de uma energia precisa e de um pragmatismo que beira o admirável. Ademais, o ator é hábil ao conferir certa afabilidade ao sujeito e ao transitar em questão de segundos entre o desagradável e o paternal, como em uma cena entre Robert e Miles (Ashton Sanders, intérprete da versão adolescente de Chiron, protagonista do excepcional Moonlight) na cozinha, em que repreende o rapaz por sua expansividade, para acolhê-lo em seguida.

Seguindo também o que poderia se esperar de melhor a respeito, Fuqua dirige as sequências de ação com elegância, clareza e fluidez, destacando-se os combates físicos (a luta que acontece dentro de um carro é uma aula de como construir uma setpiece efetiva). O diretor e sua equipe de caracterização se preocupam com os pequenos detalhes do protagonista, marcando-o com elementos azuis minimalistas, tais quais os visores de seu relógio e a cor de sua camisa. Além disso, o cineasta também tem uma boa mão para as cenas de confronto psicológico, filmando-as paulatinamente, confiando na força de seus atores e, por fim, gerando a tensão almejada.

Entretanto, o uso da violência é bastante discutível, como em quase toda a obra de Fuqua. De maneira discreta, o filme parece advogar a favor da barbárie, justificando as ações do personagem central, contrapondo-o à escória que comete crimes pavorosos. “Não importa quem está sendo morto ou torturado. Se fez algo errado, tem que pagar, e muito caro.”, o longa-metragem parece nos dizer. Sendo assim, todos os vilões são pulhas mortais, traidores e sanguinários, enquanto Robert McCall é o justiceiro que expurgará o pecado e a venalidade, eliminando os maus e deixando o mundo livre apenas para os justos. Absolutamente indefensável e sem pé nem cabeça. A representação visceral (literalmente) não tem sustentação. É só uma questão de estética.

Retomando o que asseverei acima, O Protetor 2 é constituído de paradoxos: sua história é ordinária, mas o suficiente para envolver; suas subtramas são descartáveis, mas uma delas se revela essencial; sua ação é benfeita, mas as irrupções de brutalidade são grosseiras; como filme, ainda que não seja brilhante ou inesquecível, também não é exatamente medíocre ou descartável. Ao menos, é melhor do que os enlatados genéricos de ação estrelados por Steven Segal ou John Travolta.


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