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Crítica: O Animal Cordial

Ao terminar o filme a sensação que fica é satisfatória ao ver personagens tão fortes, é daí que vem a sensação de que eles não serão tão fáceis de esquecer com o tempo, o tempo é o melhor curador para obras cinematográficas, mas existe a esperança de que Inácio, Sarah e Dejair sejam personagens lembrados pelo tempo.
Crítica: O Animal Cordial

Ah, o amor! Pense rápido, quantos são os personagens inesquecíveis do cinema nacional que lhe vem a mente? Dois ou três? Mané Galinha, Zé Pequeno, Capitão Nascimento, talvez o Bingo. O Nosso cinema por vezes carece de um Tyler Durden, James Bond ou John McClane, uma Sarah Connor ou uma Ripley. Talvez por isso O Animal Cordial parece ter um certo potencial para quem sabe ter um de seus personagens no hall daqueles que nos lembraremos quando a pergunta acima nos for feita novamente.

Dirigido por Gabriela Amaral Almeida, diretora que já há algum tempo tem despertado interesse no cenário de curtas-metragens, O Animal Cordial traz a história de um restaurante que a poucos minutos antes de fechar recebe um assalto, e o que já seria uma situação desconfortável se torna pior quando aos poucos uma série de assassinatos vão acontecendo neste espaço recluso.

A premissa do filme visa manter a ação acontecendo em um único ambiente, o que por si só já é algo desafiador, pois embora não seja raridade, não são todos os projetos de uma só locação que dão certo. Mas a direção de Gabriela faz com que este desafio não se pareça tão grande quanto realmente é, a diretora parece que sabe exatamente onde e como filmar os eventos relatados nessa produção. Apesar do roteiro seguir acontecimentos previsíveis para o seu gênero, pequenos detalhes fazem com que este se sobressaia dos demais. Um exemplo disso é a forma como as personagens se comunicam quando estão dentro da cozinha, pois quando os mesmos estão fora deste cenário, até o jeito com que as palavras saem são modificadas, tudo pode estar desmoronando, mas na área dos clientes o comportamento é outro.

Além do texto e performance, um aspecto que chama a atenção é a decisão de não transformar O Animal Cordial só em um Slasher, aqui temos também um romance bizarro, e como cita o título, animalesco. Existe inclusive uma ótima oportunidade de levantar temas como leis trabalhistas, preconceito, submissão e por aí vai.

Todo mundo no filme está cansado por algum motivo, cansado do casamento, horas exaustivas de trabalho, e a direção utiliza deste esgotamento como justificativa para que tudo seja iniciado. Inácio (Murilo Benício) só reage a tentativa de assalto pois anteriormente a polícia não resolvera seu problema, demonstrando todo seu esgotamento.

O elenco do longa é muito bem dirigido, as atuações são boas durante todo a exibição, com destaque para Murilo Benício, Luciana Paes e Irandhir Santos.

Murilo faz um Inácio cheio de dualidades, as camadas que revestem sua interpretação dão conta de um homem quebrado emocionalmente que não está contente em seu relacionamento. Alguém que vive as aparências mais do que realmente vive a vida, se vê como um bom chefe, e não é, crê possuir um restaurante melhor do que realmente é, o homem que traí sua esposa com a funcionária, o homem que perde o controle, o ser humano em busca da catarse que o tire da inércia. Não será surpresa se você sentir medo do ator por alguns instantes.

Luciana Paes está incrível. Sarah, sua personagem, tem diversas alternâncias ao longo da projeção, enquanto seu parceiro de cena vive uma crescente violência, Sarah se mantém mais humana, duvidando de si. A atriz transmite isso ao público com verdade. Sarah tem a sensação de ter poder sobre o outro quando ela fala com os funcionários da cozinha, apresenta submissão perante o seu chefe, e amor pelo seu superior. O desejo da personagem por seu patrão vai além do carnal, é algo animalesco como fora retratado na cena de consumação deste romance.

Irandhir Santos faz o cozinheiro Dejair. Este é o nome que você não vai esquecer ao fim da exibição, a força que ele emprega a seu personagem, a forma como ele reage as injustiças. Dejair é um personagem que representa minorias oprimidas por aqueles que querem a todo custo ter poder sobre alguém. Ele chama o personagem para si e é por quem torcemos para sair vivo ao fim do evento.

A direção de fotografia é eficiente com belas composições, fazendo o uso de um espelho para mostrar ao público quem realmente são aqueles personagens, o espelho é o pequeno rastro de verdade dentro de um amontoado de dualidades.

A trilha sonora também é destaque positivo, a maioria das músicas do longa são ouvidas pelas personagens e ela tem um papel importante na trama. Quando precisam camuflar algum barulho o rádio é ligado, quando se exige mais tensão o mesmo fica em silêncio.

Infelizmente o longa cai na mesma armadilha dos demais slashers, lá pela metade do filme a dúvida deixa de ser “quem vai sobreviver?” e se torna, “quando ele vai terminar de matar todo mundo?”.

Outro fato que pode ser considerado um deslize por alguns, é a escolha de não julgar suas personagens, o assalto por exemplo, pode ser culpa de qualquer um, pois nenhuma resposta é dada com a certeza, fica sempre uma pulga atrás da orelha.

Dito isso, ao terminar o filme a sensação que fica é satisfatória ao ver personagens tão fortes, é daí que vem a sensação de que eles não serão tão fáceis de esquecer com o tempo, o tempo é o melhor curador para obras cinematográficas, mas existe a esperança de que Inácio, Sarah e Dejair sejam personagens lembrados pelo tempo.

Não dá pra saber onde O Animal Cordial pode chegar, pois embora seja um trabalho excelente para o cinema nacional, é difícil de se compreender o público, é possível até que faça um sucesso internacional maior do que no mercado interno. O longa até repete as conveniências de seus colegas de gênero, mas entrega personagens complexos, e uma catarse visceral que não é comum de se ver em Terra Brasílis, mas pode ser bem aceita no exterior.

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