Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Meu Ex É Um Espião

Pueril, sem graça e inadequadamente longo para uma comédia tão trivial (117 minutos), Meu Ex é um Espião é uma comédia de ação sem a menor dimensão do que quer ou deve ser...
 Meu Ex É Um Espião

Paródias ou sátiras de espionagem viraram lugar comum nos cinemas desde, pelo menos, o surpreendente sucesso da cinessérie Austin Powers. De lá para cá, alguns filmes conseguiram se sobressair o bastante para serem lembrados por mais de duas horas, como o recente A Espiã que Sabia de Menos (2015), com qual Meu Ex é um Espião (The Spy Who Dumped Me, 2018), que estreia nesta quinta-feira no Brasil, guarda algumas semelhanças. Todavia, a comparação não o beneficia, pelo contrário: apenas realça o quão insosso e tateante é o projeto.

Audrey (Mila Kunis) e Morgan (Kate McKinnon) são amigas de longa data. Audrey está inconsolável com o término de seu relacionamento com Drew Thayer (Justin Theroux, o Kevin da série The Leftovers). Um dia, ela descobre que seu agora ex-namorado era um agente da CIA. As amigas passam a ser perseguidas por assassinos treinados, agentes de uma organização global. Incumbidas de realizar uma missão no lugar de Drew, Audrey e Morgan passarão por aventuras dignas de James Bond.

A diretora Susanna Fogel aposta em uma violência gráfica incomum para uma comédia supostamente despretensiosa: há gente sendo constantemente metralhada, jorrando ou espirrando sangue de um forte vermelho escuro ao seu redor; pescoços são quebrados, pessoas são empaladas, etc. Não existe nenhum impedimento quanto a este tipo de carnificina em uma comédia. No próprio A Espiã que Sabia de Menos, víamos coisa ainda pior: gente empalada coberta por vômito, personagens relativamente importantes levando um tiro na cabeça e uma garganta sendo gradativamente corroída por ácido, só para citar alguns exemplos.

A grande diferença é que Fogel carece da sensibilidade de Paul Feig para o humor negro. A representação visual não é cartunesca nem apresenta qualquer grau de estilização. No caso de Feig, este feito era obtido pela artificialidade dos efeitos visuais e pelas reações da protagonista interpretada por Melissa McCarthy às mortes que presenciava ou causava indiretamente. O cômico era imaginar como alguém normal, gente como a gente, encarava o corre-corre e o banho de sangue típico dos filmes de ação.

Mesmo tendo uma premissa similar, o roteiro de Fogel explora parcamente esta ideia. Audrey e Morgan, ainda que jogadas em um mundo desconhecido e perigoso, acabam se adaptando e gostando do ambiente – como já é de se esperar neste tipo de subgênero. Entretanto, em momento algum da narrativa, a dupla sente, reage ou esboça qualquer sentimento plausível que apresente pavor humorístico implícito ou relacionável. Trocando em miúdos: a cineasta parece conduzir sua história a sério, mesmo que os absurdos se avolumem inquestionavelmente e não haja conceito sofisticado que outro longa-metragem não tenha abordado.

Assim, se as risadas já estão ausentes nas sequências de ação, assassinatos e na trama de espionagem, nas cenas avulsas, então, chega a dar vontade de chorar. Poucas são as exceções, como o momento no qual as protagonistas tentam se localizar em uma estação de trem austríaca - arranhando um alemão incompreensível ao ler os nomes das estações em voz alta –, assim como pela participação especial de Edward Snowden e, por fim, pelas interações entre Morgan e seus pais (os ótimos Jane Curtin e Paul Reiser, em rápida participação). De resto, não há uma linha de diálogo espirituosa nem uma dinâmica cênica inspirada. Ademais, o longa padece de um problema considerável na construção de suas piadas: volta e meia, Morgan submete-se a uma situação visivelmente constrangedora – sendo constantemente aconselhada por seus amigos a parar -, que, espera-se desembocará em um desfecho hilariante. Só que não, como se diz atualmente. Morgan se humilha (apesar de não perceber a enrascada em que se meteu), nos faz (aparentemente) rir e pronto, conquista seu objetivo e a trama segue em frente. As piadas têm ponto de partida, mas padecem de desenvolvimento. Pior: além de incomodamente bobas e de não possuírem brilho natural, parecem descoladas da história, sem função narrativa.

Prejudicada pelas tentativas mastodônticas de Fogel em convertê-la na “maluquinha simpática” comum neste tipo de produção, Kate McKinnon faz o que pode para se sobressair. O texto não é dos melhores e sua personagem flerta sempre com o irritante, mas a atriz injeta-lhe uma energia louvável que a mantém minimamente interessante. Em escala menor, mas igualmente carismática e bela, Mila Kunis carrega um ar descompromissado e leve, mesmo que o roteiro tente (sem sucesso) dar alguma motivação a Audrey e empoderá-la para justificar o “grande” plot twist do terceiro ato.

Pueril, sem graça e inadequadamente longo para uma comédia tão trivial (117 minutos), Meu Ex é um Espião é uma comédia de ação sem a menor dimensão do que quer ou deve ser: não percebe o potencial das premissas (do enredo, das piadas, da violência), leva-se a sério demais sem ter estofo para tanto e obriga duas ótimas atrizes a se submeterem a um material de categoria questionável.
Caso esteja procurando por uma comédia de ação genuinamente engraçada, estrelada por mulheres e que não dá a sensação de tempo desperdiçado, vá assistir ou rever A Espiã que Sabia de Menos, sem dúvida, um entretenimento completo.

Deixe sua opinião:)