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Crítica: Mamma Mia - Lá Vamos Nós de Novo!

Imbuído da vitalidade de uma garota de dezessete anos e despretensioso como os musicais das décadas de 1940 ou 1950, Mamma Mia- Lá Vamos Nós de Novo! é entretenimento puro, escapista e nostálgico.
Mamma Mia - Lá Vamos Nós de Novo!

A trama do primeiro Mamma Mia (2008) era despida de qualquer sofisticação ou inspiração. Superficial e boba, a história servia mais como uma desculpa para costurar as estupendamente empolgantes canções do grupo sueco ABBA e justificar a presença de um elenco estelar, encabeçado por ninguém menos que Meryl Streep. Porém, por mais descartável que fosse, tinha uma conclusão dramática fechada, sem pontas soltas.

Então, qual é o motivo que justifica a existência de Mamma Mia- Lá Vamos Nós de Novo! (Mamma Mia!- Here We Go Again, 2018)? Obviamente, trata-se de uma questão financeira, uma vez que o longa-metragem anterior faturou mais de US$ 600 milhões na bilheteria mundial. No entanto, ocorre aqui um efeito absolutamente inesperado e surpreendente: ainda que sem uma necessidade narrativa explícita, e criada para continuar rendendo cifras estratosféricas ao estúdio, esta continuação supera o original em quase todos os quesitos, do texto ao design de produção, passando pelo elenco fortemente satisfeito com o que está fazendo.

Desta vez, o protagonismo recorre quase inteiramente a Sophie (Amanda Seyfried), que está prestes a reabrir o hotel após a morte de Donna (Meryl Streep) um ano antes. Em flashbacks, conhecemos uma Donna na fase áurea da vida (Lily James), desbravando o mundo e se envolvendo com Harry (Hugh Skinner, de Harlots), Bill (Josh Dylan) e Sam (Jeremy Irvine), os três prováveis pais de sua filha.
Antes de tudo, deve-se atribuir o êxito ao diretor-roteirista Ol Parker, substituindo a vaga antes ocupada por Phyllida Lloyd (também responsável pela montagem original na Broadway, em 1999).

Conhecido por ter escrito o script do simpático O Exótico Hotel Marigold (2011) e sua continuação assim-assim (2015), além da comédia romântica Imagine Eu e Você (2007), Parker traz uma concepção mais arrojada para os números musicais, preocupando-se tanto com a coreografia física quanto com a concepção musical de cada ato, qualidades evidentes nas encenações de “When a Kissed the Teacher”, “Waterloo” (os integrantes originais do ABBA, Björn Ulvaeus e Benny Andersson, fazem participações especiais nestes dois respectivos momentos), “Super Trouper” (que traz todo o ensemble em cores neon e figurinos apertadíssimos) e “One of Us”, sendo que esta última, devido à inteligência da edição de Peter Lambert e ao design de produção de Andrew Palmer e Dominic Capon, estabelece habilmente a conexão entre Sophie e Sky, distinguindo seus ambientes pela cor e fazendo-os interagir entre fusões e justaposições.

O diretor também merece receber créditos pela forma como pulveriza quase por completo o clima histérico e excessivamente sorridente do antecessor. Agora, Christine Baranski e Julie Walters estão menos afeitas aos berros e as caretas a que recorreram dez anos antes, aproveitando com garra cada linha de diálogo ou a mínima oportunidade de fazer humor físico, como acontece em “Angel Eyes”. Ademais, há uma graciosa piada recorrente envolvendo um fiscal grego (interpretado pelo comediante persa Omid Djalili) e uma referência nada implícita a Titanic (1997), que funcionam organicamente dentro do novo tom adotado pelo cineasta. Aliás, mesmo que seja creditado apenas pelo argumento e como um dos produtores executivos, o excelente Richard Curtis (escritor de Quatro Casamentos e Um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill, Simplesmente Amor e Questão de Tempo) deve ter exercido decisiva importância no produto final, já que o estilo refinado e dinâmico (as chamadas one-liners, punchlines) é mais característico de sua obra do que o trabalho pregresso de Parker ou de Catherine Johnson, a “culpada” pelo roteiro – teatral e cinematográfico – da incursão anterior.



Outra provável deficiência que os realizadores convertem a seu favor é a história, cuja extensão não necessitava (ou não possibilitava) uma continuidade sólida. Assim, o fato de conciliar duas linhas narrativas paralelas, constantemente espelhadas uma na outra, acaba fortalecendo-o dramaticamente: Sophie e a jovem Donna passam por situações semelhantes, no presente ou no passado. Portanto, o que seria uma inconsistência acaba não só revitalizando a cinessérie, mas também diferencia os capítulos e confere significativo tratamento dramático.

Aliás, o tratamento visual de Parker e do diretor de fotografia Robert Yeoman é consideravelmente mais sutil: saem as luzes artificiais alaranjadas, aproveita-se mais a luz natural das locações (passado na Grécia, foi gravado na Croácia). Da mesma maneira, o design de produção adota tons de branco e azul para isolar a fictícia Kalokairi dos demais locais, deixando de recorrer unicamente à água azul do mar para efeito de caracterização e espalhando as cores pelos cenários. Uma pena que o uso de chroma key em externas à beira-mar ou à luz do luar seja, novamente, extremamente artificial e reduza o impacto de algumas sequências, como a já antológica dança entre Ruby (Cher) e o sr. Cienfuegos (Andy Garcia).

No que tange ao elenco, o saldo é igualmente positivo. Ainda que a ausência de Meryl Streep crie certa desolação nos espectadores mais afeiçoados, as novas adições se revelam bastante engajantes: intérpretes das versões jovens de Rosie e Tanya, Alexa Davies e Jessica Keenan Wynn estão bem caracterizadas e assemelham os trejeitos das atrizes veteranas; o inglês Hugh Skinner, apesar de ligeiramente careteiro e de particularidades linguísticas mais acentuadas, faz uma boa versão de Harry, ao passo que Josh Dylan pouco regista como Bill mais novo.

Colin Firth, Stellan Skarsgard, Dominic Cooper, Celia Imrie e Andy Garcia têm pouco a fazer, porém, aparentam extremo contentamento por estarem em cena. Surgindo no clímax da narrativa, Cher, em seu retorno ao Cinema depois do terrível Burlesque (2010), é apresentada com toda pompa e circunstância, ganhando planos detalhes próprios e surgindo em meio a sombras. Entretanto, a legítima estrela aqui é Lily James. Mais conhecida por seu trabalho nas temporadas finais de Downton Abbey (2010-15) e por ter estrelado a última adaptação de Cinderela (2015), James substitui seu sotaque tipicamente britânico, dá mostras da composição física empregada por Streep e injeta admirável energia, carisma e espontaneidade em sua personagem. De fato, torna-se difícil não se encantar por criatura tão simpática, levemente picante e resiliente. Todavia, o mesmo não pode ser dito sobre Jeremy Irvine, cuja falta de carisma, timing cômico e expressividade tornam impossíveis qualquer credibilidade junto à plateia.

Desta vez, a trilha sonora desperta sentimentos mistos: há instantes demasiadamente enérgicos, mas a metade da projeção é coberta de canções levemente desinteressantes, especialmente aquelas cantadas pelos personagens mais jovens. Possivelmente, faixas já utilizadas uma década atrás, como “SOS”, “Voulez-Vouz”, “The Winner Takes It All”, “Does Your Mother Know” ou “Take Chance on Me” cairiam bem para o andamento da narrativa. No entanto, reconheço a necessidade das canções mais chorosas inseridas no segundo ato da projeção. Uma distribuição melhor, talvez, criaria uma sensação menos fastidiosa.

Imbuído da vitalidade de uma garota de dezessete anos e despretensioso como os musicais das décadas de 1940 ou 1950, Mamma Mia- Lá Vamos Nós de Novo! é entretenimento puro, escapista e nostálgico. Não se deve esperar elucubrações existencialistas de uma história com uma linha temporal tão ilógica quanto um poema decassílabo escrito em um código incompreensível por um doente mental entorpecido. Resumo da ópera: diversão espirituosa e executada com convicção, que valida sua existência sendo superior ao predecessor em termos técnicos e contagiando na mesma proporção. How can we resist it?


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