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Crítica: Hotel Artemis

Dentro de uma produção confusa, com um material atraente, mas mal escrito, e um trabalho técnico bem calculado em grande parte do filme, Hotel Artemis cumpre seu papel como um simples escapismo
Hotel Artemis
Histórias a partir do ponto de vista de vilões já se tornaram recorrente nos cinemas, com seus próprios clichês já criados e reproduzidos, além de premissas interessantes, e em muitos casos, mais interessantes do que as próprias histórias sobre heróis. Hotel Artemis busca um gênero “solidificado” na indústria, mas com uma trama diferenciada e atraente devido a um questionamento básico que provavelmente todos se perguntam durante e/ou após os filmes: Para onde vão os feridos depois de tantos tiroteios, lutas, etc?

A história se passa no ano de 2028, um futuro que aparentemente está à beira da distopia, em uma Los Angeles controlada por motins contra a polícia local. Em meio ao caos, um andar de um hotel é utilizado como base médica para foras da lei, encabeçado pela Enfermeira (Jodie Foster). Contudo, a reunião de bandidos, assassinos profissionais, mafiosos, etc, dentro de um andar fechado se torna o cenário para o descontrole dos hóspedes.

A ambientação futurista mesclada com a tecnologia atual constrói um cenário estranho, mas ao mesmo tempo charmoso de se ver. A elegância do hotel contornada por aparatos tecnológicos dos próprios personagens abrilhantam a base da produção que é exatamente o prédio, com paisagens turísticas pintadas em paredes e a tensão quase palpável entre quatro paredes. Claustrofóbico, e a cada pequena intriga entre os personagens, a sensação de aprisionamento aumenta com o acúmulo de discussões - feito que é carregado especialmente pela trilha sonora sintetizada de Cliff Martinez. Com batidas fortes e bem presentes, empurrando o desequilíbrio por completo e manipulando o senso enervante quando o caos das ruas se estabelece dentro de um andar lacrado. Ao contrário da música pulsante e estrutural, a edição é cortada demais e falta fluidez na regularização do enredo, com exceção das cenas de ação que são mensuradas de acordo com a direção do estreante Drew Pearce (roteirista de Homem de Ferro 3). A sonoridade é bem utilizada ao trabalhar o fechamento do ambiente com barulhos de armas e combates corpo a corpo, levando em conta a “jaula” em que todos são colocados.

A cinematografia possui um tom amarelado desconcertante, esfumaçado e opaco, mexendo com a percepção tanto dos hóspedes em suas confusões particulares quanto do público que procura compreender as peças colocadas no cenário. Horizontalizada em algumas cenas, procurando uma paisagem na perdição metropolitana, enquanto que se esforça para enquadrar todos os personagens em uma cena só, exaltando a claustrofobia. A cinematografia é auxiliada pelo jogo de câmera que não se move alvoroçadamente quanto poderia, escolhendo se distanciar e deixar a ação acontecer em pouquíssimos metros quadrados, mas regida medianamente, tendo mais a oferecer em suas cenas de ação.

Com aspectos técnicos bons, Hotel Artemis tinha no mínimo uma base sólida o suficiente para oferecer uma história agradável e divertida nos moldes escapistas do gênero. No entanto, o roteiro é incrivelmente fraco em questão de diálogos e previsibilidade. O enredo se desenvolve em cima da Enfermeira, buscando sua redenção e sua libertação pessoal devido a seu passado conturbado. Lembrança que é bem colocada dentro do filme, de uma forma já vista outras vezes, mas que funciona dentro de um enredo que logo em seus primeiros momentos não se espera muito, com pobreza dialógica, pontuando situações passadas de personagens e coisas das quais eles são capazes de fazer para depois expô-las apenas para mostrar ao público que era real o que eles haviam falado. O humor forçado simplesmente combate toda a seriedade que o diretor e roteirista buscava implementar. Humor que não só é incômodo – pensando na proposta do enredo – em sua maioria, como também acaba com qualquer tentativa de acompanhar o brilhantismo do cenário, cinematografia e trilha sonora – anulando completamente o trabalho de Martinez. A impressão de ameaça está presente, porém, o real temor não existe.

O elenco é estrelado, certamente, entretanto, o roteiro não lhes oferece material para que todos possam vender seus personagens. A performance de Sterling K. Brown é decepcionante, robotizada e inexpressiva. Dave Bautista e Brian Henry Tyree são os pontos onde o humor é colocado, com Brian funcionando nos poucos momentos em que aparece – na medida do possível –, e Bautista simplesmente interpretando mais uma versão de todo personagem que lhe é oferecido em Hollywood. Zachary Quinto, Charlie Day e Jenny Slate apenas compõem o elenco e as personalidades necessárias para o enredo andar convencionalmente. Sofia Boutella claramente se esforça em seu papel, que se mostra uma engrenagem importante para a história, mas nada funciona com, novamente, um roteiro pobre em seus personagens, até os que possuem algo a mostrar; a presença de Jeff Goldblum é ruida pelas más escolhas do roteiro, retirando sua importância e enfraquecendo o que poderia ser um grande clímax. Jodie Foster é o destaque, sem uma grande apresentação, mas seu desenvolvimento é o mais atraente de se acompanhar com sua busca por libertação mental.

Drew Pearce assina não só como diretor, mas como roteirista também, e ambos os trabalhos mostram falhas. Desde um argumento fraquíssimo até a direção aparentemente sem posicionamento algum, como se os próprios atores estivessem se dirigindo até que a ação chegasse e então o diretor põe sua mão na produção, mostrando capacidade para criar espetáculos de lutas.

Hotel Artemis possui sua beleza em seu futurismo visual e sonoro, apresentando uma produção que transmite tecnicamente o que se espera de um filme baseado em tensão. Entretanto, a fraqueza do roteiro é grande o suficiente para acabar com qualquer interesse, especialmente a previsibilidade e o humor deslocado do conteúdo central. Sofia Boutella e Jodie Foster buscam carregar o filme com duas performances convincentes e com presença moderada, entretanto, não é suficiente para ordenar através de diálogos basicamente ruins. Drew Pearce tem seus momentos a serem reconhecidos, tanto nas cenas de ação quanto na escolha em colocar a violência gráfica explícita, largando a ideia de redimir foras da lei. Dentro de uma produção confusa, com um material atraente, mas mal escrito, e um trabalho técnico bem calculado em grande parte do filme, Hotel Artemis cumpre seu papel como um simples escapismo de um filme em que termina e desconhece seu próprio gênero.


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