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Crítica: Benzinho

Graças ao excelente trabalho visual, com uma predominância de cores saturadas, ajustes de câmera precisos, o uso do widescreen juntamente com alguns planos minimalistas agregados com a trilha sonora pontual, o filme nos leva para um mundo íntimo e diário com o qual nos identificamos rapidamente.
 Benzinho


Filmes que abordam a síndrome do ninho vazio podem soar chatos demais para alguns públicos, mas há autenticidade e beleza em Benzinho, segundo longa de Gustavo Pizzi. Com a atenção voltada para os detalhes do cotidiano, o roteiro do diretor, em sua segunda parceria com a atriz Karine Teles, é um retrato cativante das alegrias e dores da vida familiar. Depois do bem sucedido Riscado (2010), Pizzi produz uma história de amor bonita e universal que é pouco convencional para algo tão familiar, se concentrando nos sentimentos e emoções que uma mãe de meia idade sente em relação à sua família. Pela descrição pode parecer que pouco acontece ao longo do filme, mas a direção dinâmica de Pizzi traz um mundo doméstico específico para um foco harmonioso e interessante.

A trajetória do longa segue Irene (Karine Telles), uma mãe casada de quatro filhos que vive em uma casa maltratada e decadente em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Diante de todas as dificuldades, ela leva uma vida alegre e feliz, cercada pelas torneiras que vazam, portas que emperram e pelas paredes em ruínas da casa agitada e problemática que parece estar a ponto de desmoronar. Apesar da desordem caótica em torno dela, os detalhes de sua vida calorosamente somam-se a uma coexistência estreita e amorosa com sua amada família. Além de ajudar a problemática irmã (Adriana Esteves), a matriarca precisa lidar com as instabilidades do marido (Otávio Müller), no entanto, quando o filho mais velho Fernando (Konstantinos Sarris), um talentoso jogador de handebol, é recrutado por uma equipe profissional na Alemanha, sua vida vira de cabeça para baixo. Estressada e vulnerável ela se preocupa com o futuro do filho e com suas perspectivas pessoais sem objetivo diante da iminente perda.

Através das situações que se apresentam, vemos como a família se adapta às circunstâncias e, em particular, como a protagonista nunca parece desistir, encontrando soluções alternativas para os problemas. O filme explora bem os papéis da família, especialmente em relação à figura materna e à percepção social errônea de que seu mundo gira somente em torno das tarefas domésticas. Mas a partida próxima e inevitável de seu filho acaba por ser o grande teste para esta mãe e esposa que tem dedicado sua vida à família, e que só agora, com 40 anos, conseguiu concluir o ensino médio.

Telles traz uma Irene de natureza doce para uma vida de realismo e dos problemas de sua jornada de meia idade onde tenta se reinventar, reavalia sua vida e de sua família e cria arranjos para proteger todos ao longo do caminho. Irene é o sol em torno do qual toda a sua família orbita. Ela opera com uma mistura de preocupação materna, cansaço e bom humor. Embora bastante assertiva sobre suas próprias necessidades, as demandas da personagem são sempre motivadas pelo que ela acha que é melhor para os outros. Deixando as tramas paralelas no fundo, Pizzi privilegia dar imersão à psicologia de Irene, uma mulher de grande força, mas também com a enorme fraqueza de não ser capaz de assimilar as mudanças que acontecem ao seu redor, especialmente aqueles que giram em torno da questão da perda do filho. Karine Teles traz um calor feroz e humor para o papel principal. Sem favorecer a simpatia do público, ela cria um ponto focal excepcionalmente simpático para uma história que envolve a ternura da vida como ela é vivida.

Embora contada em ordem cronológica, a história não se mostra necessariamente linear, devido a seu conjunto quase prismático de cenas, que oferecem entendimentos diversos sobre a rotina agitada da família. Não há fragilidades no roteiro que deixe a narrativa sem ritmo ou fora de tom. Cada cena é colocada em seu devido lugar, criando cadência e movimento. As coisas acontecem e cada uma delas é interessante e integrada em seu contexto geral, equilibrando a história do início ao fim. Nós acabamos por nos colocarmos no lugar dessa mãe, sentindo seu sofrimento que irradia com a verdade vivida por ela e os detalhes do dia a dia.

Graças ao excelente trabalho visual, com uma predominância de cores saturadas, ajustes de câmera precisos, o uso do widescreen juntamente com alguns planos minimalistas agregados com a trilha sonora pontual, o filme nos leva para um mundo íntimo e diário com o qual nos identificamos rapidamente. Os planos cuidadosamente escolhidos, com as cores primárias fortes da fotografia de Pedro Faerstein tem um ponto alto no filme, retratando os cenários com enquadramentos visuais poéticos, silenciosos e sentimentais, como a bela cena da boia no lago e a naturalidade como retratou o cotidiano familiar. Em algum momento, como espectadores, ficamos com a agradável sensação de estarmos assistindo a uma narrativa com a qual nos envolvemos intimamente com as conexões familiares que emergem da trama. É neste ponto que é bem sucedido o diretor. E com o valor cinematográfico que emprega no filme, ao evitar apelar para o sofrimento para retratar os dramas familiares, não negligencia em mostrar as contradições e dificuldades que ocorrem dentro de uma família lutando para sobreviver. Juntos, Pizzi e Teles conseguiram fazer com que os espaços da família parecessem tão ricos nos bem escolhidos detalhes e pontos de vistas que optaram para evidenciar os conflitos.


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