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Crítica: Sicário - Dia do Soldado

No fim das contas, temos um primeiro exemplar digno de Villeneuve, um segundo bem conduzido – porém, aquém do potencial – e uma forte possibilidade de um terceiro que, torçamos, continue ao menos na mesma intensidade do olhar de Alejandro Gillick.
Sicário - Dia do Soldado

A sensação que tive ao sair de Sicário: Terra de Ninguém, dirigido por Denis Villeneuve e lançado em 2015, foi de alívio. Porém, não causado por uma experiência cinematograficamente decepcionante, mas por finalmente me ver livre de um sentimento de angústia e desesperança cuja intensidade havia sido cuidadosamente construída no momento em que aquele universo violento e moralmente corrompido deixava claro que não iria se transformar em alguma resolução particularmente positiva. Fruto de um excelente trabalho do diretor canadense, o filme apresentava uma narrativa mergulhada num constante mistério de trama e de personagens cujas decisões eram tão inesperadas quanto suas origens e motivações, algo que definitivamente contribuía para o nosso envolvimento com a história.

Desta vez, esses mesmos (com exceção daquela interpretada por Emily Blunt, que não retorna) agora voltam com a velha capa de anti-heróis (muito mais para anti, dependendo do ponto de vista) nesta continuação, Sicário: Dia do Soldado. Embora eficiente em reproduzir parte daquela atmosfera marcante de seu antecessor, já não apresenta mais o benefício da descoberta de seus personagens, além de ter uma narrativa bem mais convencional e despida do mesmo mistério de antes.

Depois dos eventos ocorridos anteriormente, o agente da CIA Matt Graver (Josh Brolin) é recrutado secretamente para investigar o envolvimento de carteis de drogas com recentes ataques terroristas perto da fronteira com o México. Para isso, recorre novamente a Alejandro Gillick (Benicio Del Toro), que continua com seu passado misterioso de envolvimento com as autoridades e os chefões do tráfico. Quando os dois se envolvem com o sequestro da filha de um deles, Isabela Reyes (Isabela Moner), são novamente testados em meio a uma guerra entre rivais e terão de encarar as consequências resultantes da natureza sombria de seus trabalhos.

Envolto por um pessimismo constante, o mundo concebido por Villeneuve no 1º filme era aterrador. Talvez por isso, a presença de personagens que agiam como estivessem em um dia qualquer de serviço tornava o nosso choque ainda maior – o que continua, felizmente, aqui. Mais especificamente, Matt Graver é a personificação de alguém tão calejado que basicamente representa um poder “lateral” que age conforme interesses de poderosos – precisamente, quando estes querem permanecer longe do escrutínio público. Apresentado em seu primeiro momento em um plano que o revela usando tênis sem meias e bermuda enquanto caminha entre militares altamente operacionais, sua caracterização mistura ameaça e um cinismo constante, não hesitando em machucar inocentes ou propor operações que deixarão rastros de morte por todo os lugares. Sempre com um olhar que denota conhecimento sobre o mundo e, principalmente, sobre as intenções daqueles que solicitam sua ajuda, ele é a solidez em pessoa, o que faz com que seus breves momentos de dúvida sejam imediatamente traspassados para o espectador, tornando-o um personagem sempre interessante (ao menos até certo momento).

Se um é definido pela dureza e um profissionalismo amedrontador, outro é o mistério em pessoa. O Alejandro de Benicio Del Toro tem a capacidade de ameaçar apenas na maneira como encara alguém ou muda levemente a inflexão de conselho para advertência (em mais uma excelente composição do ator). Juntando ao passado trágico (que foi também brevemente abordado no filme antecessor), seu senso de vingança é implacável, o que também deixa sempre nebulosas as linhas morais que circundam suas motivações. O primeiro sinal de mudança ocorre justamente com a entrada de Isabela em seu caminho. A relação (se é que podemos chamar assim) entre os dois é o elemento principal do roteiro de Taylor Sheridan (Terra Selvagem, A Qualquer Custo) responsável por colocar a inflexibilidade do personagem em cheque. A garota, vivida com bastante expressividade por Isabela Moner, é a figura que nasceu dentro das estruturas dos carteis e cuja posição elevada não a impede de ter suas ilusões destruídas pela instabilidade do próprio mundo – e pelos planos de Matt Graver. O artifício dá certo, adicionando uma camada a mais para um personagem cujos resquícios de empatia pareciam ter desaparecido com o tempo. 

Já Graver, por sinal, acaba tendo grande parte de sua caracterização prejudicada pelas soluções encontradas por Sheridan. Não só em relação a ele, mas, infelizmente, a trama perde força considerável ao apelar para algumas reviravoltas exageradas no 3º ato. Estruturalmente, várias das narrativas paralelas concebidas aqui dependem mais da coincidência por si só do que outra coisa quando finalmente se encontram (note como no 1º filme, também escrito por Sheridan, esse aspecto ganhava significado), como aquela que envolve o rapaz sendo recrutado para se tornar um sicário (assassino para o cartel). Todas essas decisões surgem como uma tentativa de humanizar personagens e pontos da trama que não necessitavam de humanidade alguma, já que a frieza inerente desse universo funciona perfeitamente em um tom diferente. Embora tenha bons momentos – particularmente, sacadas interessantes que envolvem diálogos sobre a natureza do terrorismo e alfinetadas nas políticas de fronteira dos EUA – o roteiro investe “demais” em mudanças e tentativas de explicar motivações e em dar significado ao que não precisava.

Por outro lado, o diretor Stefano Sollima (Suburra) consegue conduzir sua narrativa com segurança. Reproduzindo parte da tensão constante que havia no 1º filme, a obra funciona como um bom thriller policial, colocando o espectador em um estado de atenção durante boa parte do tempo. A trilha sonora em acordes graves e pulsantes aparece em diversos momentos (ainda que um pouco exagerada), conseguindo reproduzir um pouco daquela sensação de “algo errado” que tanto contribui para o elemento de suspense. Exibindo também segurança com a câmera, as sequências de ação são bem coreografadas e, ainda, sem apelar para movimentos caóticos; do contrário, há um ótimo uso de travellings e panorâmicas que servem tanto para organizar nosso ponto de vista geográfico quanto revelar informações visuais num tempo milimetricamente calculado (vide a ótima sequência do sequestro).

Mesmo com esses elementos funcionando de forma operante, não há como não reparar que eles tentam emular várias das características impressas por Villeneuve anteriormente. O fato é que antes havia mais mistério evolvendo trama e personagens, o que deixa o nosso estado de tensão e descoberta muito mais intenso. Aqui, alguns desses elementos soam mais como uma obrigação de continuação – como acontece, por exemplo, com as filmadas em visão noturna (antes eram um clímax, aqui são um capricho), ou com as transições feitas sempre utilizando planos abertos que usam as imensas paisagens planas e secas de forma opressora, algo que quase personificava a fronteira como uma vilã e agora aparece quase reduzida a uma marca de uma possível franquia – fora que ainda contava com a bela cinematografia de Roger Deakins. Fotografado agora por Dariusz Wolski (Todo o Dinheiro do Mundo, Alien: Covenant), a beleza estética permanece, mas falta a exploração enigmática da imensidão desértica aliada à trilha sonora, fatores sensorialmente responsáveis pelo clima inquietante da narrativa.

Analisando Sicário: Dia do Soldado como uma obra isolada, é possível dizer que ela atende bem às expectativas de gênero: apresenta um bom suspense, investe em algumas boas sequências envolvendo trama e personagens (embora não haja nada excepcional como o tiroteio no engarrafamento do 1º filme) e ainda traz Brolin e Del Toro excelentes. Apesar disso, a tentativa de expandir temáticas e motivações acaba prejudicando um pouco o resultado, além de apelar para facilitações muito convenientes no 3º ato e usar tempo de tela para apresentar subtramas que claramente servem mais como gancho para uma continuação.

No fim das contas, temos um primeiro exemplar digno de Villeneuve, um segundo bem conduzido – porém, aquém do potencial – e uma forte possibilidade de um terceiro que, torçamos, continue ao menos na mesma intensidade do olhar de Alejandro Gillick.

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