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Crítica #2: Deadpool 2

Como uma comédia de ação, Deadpool 2 ainda funciona devido à capacidade de David Leitch em misturar os elementos absurdos de humor com as fórmulas do gênero e a possibilidade de apontar para si mesmo de forma que não pareça um desrespeito com os milhares de fãs
Deadpool 2

Logo no início de Deadpool 2, o protagonista faz uma piada envolvendo Hugh Jackman e seu Wolverine enquanto começa a contar sobre as motivações da história: “Fui eu quem comecei essa coisa de maiores de 16 anos...”, se referindo ao triunfo do filme anterior, quando o improvável projeto teve de ser conquistado por Ryan Reynolds, com a ajuda do público após viralizar um teste do ator que tinha vazado na internet. Antes disso – desde de o início dos anos 2000, especificamente – a intenção de realizar um blockbuster sobre o anti-herói da Marvel já existia, mas o obstáculo da classificação indicativa fazia o risco subir em meio a grandes produções voltadas para o infanto-juvenil. Aliado ao fracasso do personagem (e do filme) em X-Men Origens: Wolverine, interpretado pelo próprio Reynolds, cresceu a vontade de insistir no projeto depois do clamor dos fãs.

Acabou que a aposta deu muito certo. O resultado foi um sucesso e o tom completamente debochado derivado dos quadrinhos foi adaptado para uma sátira despudorada sobre o universo dos heróis no cinema e cultura pop em geral. Não era preciso nenhuma bola de cristal para saber que a Fox logo se interessaria por uma continuação, que veio agora em 2018.

Nela, Wade Wilson (Ryan Reynolds), que agora vive em um relacionamento feliz com Vanessa (Morena Baccarin), é o ex-militar que veste o uniforme de Deadpool para combater a maior quantidade possível de gângsters (como ele diz em certo instante). Depois de um acontecimento em sua vida pessoal, o herói passa a questionar seu próprio papel ao mesmo tempo em que é solicitado por Colossus (Andre Tricoteux) e Míssil Adolescente Megassônico (Brianna Hildebrand) para ajudar um mutante descontrolado, Russell/Punho de Fogo (Julian Dennison), enquanto ainda tem de lidar com a ameaça do supersoldado Cable (Josh Brolin). Com a ajuda de Dominó (Zazie Beetz) e seus amigos Weasel (T.J. Miller) e Dopinder (Karan Soni), o herói enfrentará novos desafios numa jornada ainda mais desbocada e nonsense que a anterior.

Sempre que falamos sobre o longa/personagem, é necessário pontuar adjetivos que se enquadram numa sátira, que é justamente a razão de tudo ter der dado tão certo. Não só por fazer o papel de uma comédia que tem a capacidade de rir de si mesmo, esse desprendimento com o personagem possibilitou que ele se tornasse uma ligação direta do filme com público, sem se preocupar com a divisão entre ficção e realidade, que é característica desse tipo de abordagem. Assim, a divulgação pega empresado da própria obra e o personagem aparece desde trailers que brincam com a metalinguagem do gênero, até esquetes televisivas envolvendo celebridades mundiais (Celine Dion e David Beckham, as mais recentes).

E esta é a marca da franquia, para o bem ou para mal. É difícil imaginar Deadpool “apenas” como uma comédia tradicional, ou com o humor característico do gênero. É preciso haver o elemento absurdo que faz com que o espectador se divirta vendo uma obra que constantemente quebra a diegese e os lembre de estar vendo um filme. Os alvos, na continuação, continuam os mesmos: os super-heróis, a cultura pop, a música, os anos 80 e 90, e o próprio Ryan Reynolds, que escolheu fazer parte na zoação de seus fracassos anteriores. Nesse sentido, Deadpool 2 continua a nos fazer gargalhar com diversas referências divertidas e um ótimo timing cômico do ator (sobra até para um clássico moderno de Cameron Crowe...). Desbocado e com a licença dada pelo sucesso anterior, o mercenário tagarela vai da sátira ao pastelão em segundos sem que isso saia da proposta narrativa, dando liberdade para o público para que se engaje numa história que jamais se leva a sério. Assistir ao longa de 120 minutos é como relembrar daquelas obras dedicadas a serem grandes trocadilhos satíricos, como Corra Que a Polícia Vem Aí ou Top Secret, com a diferença de que enquanto as clássicas não tinham nenhum compromisso com a verossimilhança, esta está obrigatoriamente inserida no contexto de um blockbuster que precisa ter ao menos os elementos básicos de fórmula que garantam seu sucesso.

Mas não adianta, o quesito novidade no cinema sempre pesa. Com o original, o espectador deu uma respirada no gênero, como se alguém tivesse lhes dado a permissão de se soltar completamente de uma preocupação com universos unificados (ainda que este faça parte) e grandes arcos de personagem. Agora, mesmo que muitas das piadas ainda funcionem, os roteiristas Rhette Reese, Paul Wernick (ambos do 1º filme) não conseguem exatamente o mesmo impacto alcançado anteriormente, principalmente por uma estrutura que surge mais desequilibrada entre gags muito extensas e tentativas de inserir dramas que subitamente mudam o tom da narrativa. É verdade que parte desses elementos ainda dão certo e mostram o talento dos roteiristas em manter o deboche (os melhores são o que envolvem a concorrente da Marvel) enquanto não deixam o público ter a sensação de estar vendo, de fato, um filme de super-herói, mas é possível já observar que vários deles são repetições das anteriores.

E é principalmente nesses que se evidenciam um inevitável esforço de manter a imagem construída da paródia que também pode sofrer sua paródia. Mesmo parecendo que a proposta dá o aval para que tudo obrigatoriamente funciona dentro da desculpa de “isso é tudo uma grande piada”, o desgaste aparece em segmentos que são prejudicados pela necessidade de parecem um recorte humorística um pouco deslocado do restante da obra e por uma certa falta do senso de “já basta”, quando alguns deles são tão alongados que perdem o impacto em silêncios narrativos vazios depois uma punch line (me lembrando agora de uma que envolve os ajudantes do protagonista e sua preparação para um golpe...). A impressão é que o filme se força a manter a qualidade do 1º enquanto luta para não parecer uma cópia. É aquela velha coisa de continuações e produções massivas de gênero: é legal, mas já vimos tudo antes.

Esse problema na estrutura ainda causa outros resultados desfavoráveis que vão desde o apelo a um aspecto mais dramático que acaba por afetar o balanço no tom da narrativa quando insiste em situações que logo serão descontruídas pelo humor, até um prejuízo para alguns personagens. Nesse caso, por exemplo, Cable, mesmo com uma presença sempre forte de Josh Brolin, demora um pouco para aparecer e é o que mais sofre com mudanças na necessidade de acompanhar a abordagem da narrativa. Do mesmo modo, o mutante Punho de Fogo se perde um vácuo na história que acaba por limar grande parte do impacto que deveria ter para o protagonista, se tornando o arco mais artificial e o personagem mais unidimensional do longa. Já Dominó é uma boa adição ao elenco, embora também tenha tempo reduzido, ao contrário do taxista Dopinder, que agora ganha mais participação, mesmo esgotando a graça depois das primeiras duas piadas.

Na direção, o longa tenta aliviar os problemas de estrutura investindo mais na ação (com mais verba depois do sucesso anterior). Maior no quesito, o filme tenta deixar sua parcela diante de uma década repleta das mais megalomaníacas produções. A tarefa de se destacar é difícil depois do público ter se acostumado a ter muito em pouco tempo. O resultado é satisfatório e há, ao menos, umas duas sequências visualmente interessantes e bem conduzidas (uma em uma prisão e outra numa perseguição de carros), que é o que se espera do diretor David Leitch, experiente em trabalhar com a câmera de forma dinâmica e clara. O cineasta coordenador de dublês já trabalhou com muitos nomes em Hollywood (Hugh Jackman, Matt Damon, irmãs Wachowski) e fez um excelente trabalho de ação em John Wick (2014) – com piada, inclusive, sobre o próprio diretor e o infame episódio do cachorro de Wick – e Atômica (2017), para citar os mais recentes. Talvez por isso, era esperado um pouco mais, ou ao menos que saíssemos da sessão com algum momento memorável na cabeça. No fim das contas, ainda é um bom exemplar do tipo, mesmo que o espectador mais exigente provavelmente ache apenas correto.

Como uma comédia de ação, Deadpool 2 ainda funciona devido à capacidade de David Leitch em misturar os elementos absurdos de humor com as fórmulas do gênero e a possibilidade de apontar para si mesmo de forma que não pareça um desrespeito com os milhares de fãs (nesse pode, gente, porque é tudo brincadeira). Como uma obra que se propõe a desvirtuar tudo e tirar o espectador da mesmice, não consegue a proeza do primeiro, por não contar com a novidade e por ser mais desequilibrado, soando muitas vezes como uma grande piada requentada. Ainda assim, dificilmente o público não irá se divertir com o personagem, além de ser um exemplar de competência dentro de uma gama de filmes similares. Além disso, há uma cena pós-crédito (que acontece no início deles, não no final) que é provavelmente a mais hilária desde que a prática virou clichê.

Se depender da resposta dos fãs, o deboche ainda vai longe. E se depender dos produtores – e como diz o próprio Wade em certo momento, “um grupo forte o bastante para carregar sua própria franquia por uns 10 ou 12 anos” – Deadpool ainda vai quebrar muita parede por aí.


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