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Crítica: Por Trás dos Seus Olhos

Eficiente no começo e equivocado no restante, Por Trás dos Seus Olhos é uma leve ascendente seguida de uma queda vertiginosa, se refletindo tanto nas escolhas do roteiro como na abordagem de seu diretor.
Crítica: Por Trás dos Seus Olhos

Confesso que quando procurei saber do que se tratava este filme, foi difícil não me lembrar da semelhança com o drama romântico À Primeira Vista (Irwin Winlker, 1999), que contava uma história baseada num ensaio de autoria do saudoso neurologista Oliver Sacks, cuja inspiração veio do caso real de Shirl Jennings, que recuperou a visão depois de passar a maior parte de sua vida enxergando apenas sinais de luminosidade. Sua principal linha narrativa era sobre como a vida de Virgil (Val Kilmer) era afetada depois de uma cirurgia inovadora e como sua relação com Amy (Mira Sorvino) se transformava devido às drásticas mudanças na rotina do casal. O resultado foi um fracasso (com cotação muito baixa nos agregadores de críticas) e hoje, geralmente, entra em diversas listas de piores romances de todos os tempos. Dezenove anos depois, uma premissa bem semelhante pode ser notada neste Por Trás dos Seus Olhos (não confundir com um livro de mesmo nome e que nada tem a ver com o filme), que, apesar de se sair até bem até a primeira metade, vai desabando num esforço notável para figurar nas listas junto com o supracitado ao abandonar uma abordagem que estava funcionando para dar lugar aos exageros e a uma tentativa de soar mais profundo do que realmente é.

Neste caso, a protagonista é Gina (Blake Lively), que perdeu a visão em um acidente e vive um casamento feliz com James (Jason Clarke). Conseguindo um lugar numa fila de espera para um transplante de córnea, a protagonista começa a recuperar a visão e, com isso, ter a possibilidade de experimentar uma independência da qual jamais esperava se livrar. Só que sua vida começa a mudar de maneira inesperada quando sua nova condição começa a revelar que sua relação com o marido não era tão perfeita como parecia.

O simples fato de uma pessoa voltar a enxergar depois de passar grande parte da adolescência e o começo da vida adulta já indica uma expectativa grande de conflito. Imagine a brusca perspectiva alterada diante de um novo mundo que se abre com a adição de um sentido tão essencial. É, literalmente, um ambiente completo a ser reinterpretado e aproveitado. Por isso mesmo, se há uma qualidade presente na obra é justamente como passamos a notar a mudança na personalidade de Gina. Mas não é somente pelo aspecto físico, e sim como o emocional é afetado pela inerente necessidade que o ser humano tem de experimentar novas sensações e atravessar barreiras impostas pelas circunstâncias; mais do que isso, não se julga negativamente (ao menos na primeira metade) os “percalços” resultantes em um casamento que parecia sólido. Conseguimos entender o porquê de suas ações e simpatizar com suas escolhas quando paramos um pouco para pensar no impacto da mudança na personagem – e é num desses momentos quando identificamos o subtexto revelador quando ela diz “eu imaginava você diferente. Não melhor, apenas diferente” através de uma expressão dúbia ao olhar para o marido pela primeira vez, em uma das poucas boas sutilezas da narrativa.

É esse o conflito que vemos na protagonista e que se desenvolve a partir da alteração na dinâmica de seu relacionamento. Dinâmica essa que ganha mais questionamentos à medida que nos perguntamos qual sua verdadeira natureza. Qual era a real distância entre o amor mútuo do casal e a dependência inevitável resultante de uma condição física? Essa dúvida é inserida organicamente através de acontecimentos graduais na trama, principalmente os que envolvem a amizade do casal com a irmã de Gina, Carla (Ahna O´Reilly), e seu marido Ramon (Miquel Fernández), que parecem ter um casamento invejável e uma vida sexual mais do que ativa. E quando os conflitos não se originam pela comparação com outro casal, vêm de uma obviedade na qual não pensamos muito até ela aparecer: o simples fato de voltar a enxergar interfere enormemente na atração por outras pessoas e o filme acerta quando o sugere (em compensação erra feio quando começa a julgar a personagem).

Dirigido e escrito (com colaboração de Sean Conway) por Marc Forster (Guerra Mundial Z), o filme parece ter sido juntado por duas abordagens bem diferentes, tanto em sua direção como no roteiro. Adotando uma lógica que preza o “ponto de vista” da protagonista, acompanhamos suas sensações através das mãos deslizando pelos ambientes em suas descobertas de texturas e formatos, além da óbvia distorção que experimentamos quando são intercaladas as imagens como ela as vê. Mas, além disso, o cineasta demostra cuidado ao inserir alguns planos-detalhe que servem para denotar a maneira como Gina percebe seu ambiente (o foco na boca de outros personagens quando dizem algo importante) ou outros planos abertos que espelham pequenos momentos na sua construção sensorial de mundo (imaginar um mar gigantesco quando está prestes a saltar no trampolim de uma piscina). A montagem de Hughes Winborne também tem seus bons momentos quando insere rápidas cenas que parecem desconexas com a situação, mas tem uma relação que liga a personagem ao seu passado, como quando um fluxo de sons e imagens de seu acidente aparecem em momentos mais tensos – o que faz todo o sentido, já que essas foram as últimas sensações que experimentou quando ainda tinha a visão.

Em compensação, o diretor se atropela na própria abordagem quando parece não conseguir manter a lógica que criou, o que apenas é um dos sinais de que a obra toma um caminho descendente depois de sua segunda metade. Ora, porque manter as mesmas distorções no ambiente de Gina em planos objetivos que nada tem a ver com seu ponto de vista? Ou colocar as vozes que ela escuta igualmente deformadas? Se a intenção era dizer que a audição de um cego fica apurada, bastavam os planos-detalhe para que a informação fosse entendida (aqui fica parecendo uma super-heroína). Fora isso, há um exagero que vai aumentando quando alguns simbolismos imagéticos soam dispensáveis, ainda mais no 3º ato, quando estes tentam estabelecer significados profundos em uma tentativa de expandir por caminhos que o filme nunca consegue chegar.

Mas é mesmo na trama onde os maiores problemas estão. A partir de um certo momento especifico envolvendo a relação entre o casal, Forster parece ter acionado o interruptor “novelão”, inclusive, deixando de lado os questionamentos mais interessantes que tinham sido levantados antes e partindo para emular uma espécie de thriller desengonçado onde reviravoltas começam a acontecer, saídas de uma necessidade de aumentar o significado da história. São motivações inverossímeis de personagens que havíamos conhecido durante uma hora ou mais e soluções preguiçosas que se somam a uma pressa que transforma o 3º ato em uma completa bagunça. A impressão é que um outro filme invadiu os planos de um primeiro e tomou conta de uma narrativa que vinha funcionando razoavelmente bem. O resultado é que o tema era interessante quando nós éramos capazes de interpretá-lo e absurdo quando decidiram expô-lo.

Se não é o bastante, ainda há a forma problemática como a narrativa começa a julgar a protagonista de uma maneira irresponsável. Numa época onde o Cinema tem buscado o caminho de personagens femininas fortes e histórias que contribuam para a quebra de velhos paradigmas na arte, é decepcionante notar como Gina perde a força durante o filme. Como se não bastasse, o seu arco ganha uma espécie de dedo inquisidor por causa de escolhas que foram tratadas normalmente na primeira metade – e para isso, basta notar como a trilha sonora propositalmente negativa incide sobre uma certa sequência de sexo (para não dar spoilers, quem ver irá reconhecer).

Eficiente no começo e equivocado no restante, Por Trás dos Seus Olhos é uma leve ascendente seguida de uma queda vertiginosa, se refletindo tanto nas escolhas do roteiro como na abordagem de seu diretor. Levando em conta que os agregadores também apontam para um certo fracasso, não vou me admirar se alguém citá-lo daqui há alguns anos como um contraexemplo.


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