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Crítica: Star Wars - Os Últimos Jedi (Sem spoilers)

A nova retomada da franquia vem fazendo jus ao material que a transformou numa fonte riquíssima de histórias para todas as mídias (além de vender muito produto).
Crítica: Star Wars - Os Últimos Jedi (Sem spoilers)

O que a saga Star Wars tem de mais interessante para você?

A resposta varia muito de pessoa para pessoa. Há aqueles que sempre se divertiram com as raízes de opera espacial e uma mistura de faroeste místico aventuresco; há quem admire os elementos filosóficos presentes na ideia da Força – influenciada por questionamentos vindos de uma aura meio religiosa meio metafísica – e de como elas se inserem organicamente em um blockbuster. O fato é que, além de ter modificado para sempre o sistema de produção hollywoodiana, Star Wars ganhou uma força inabalável com o tempo, se tornando um dos maiores fenômenos de cultura pop mundial. Se tem algo que todo esse tempo nos ensinou é que seus melhores exemplares foram aqueles que mantiveram suas boas ideias originais, entretanto, as aprofundando de alguma maneira, seja pelo resgate do passado ou pela ousadia da mudança. Os Últimos Jedi se sai como um dos melhores filmes da saga, pois teve a coragem de questionar algumas de suas bases estabelecidas ao mesmo tempo em que brindou uma legião de fãs com o que há de mais empolgante e familiar em sua história.

Vejamos, por exemplo, porque O Império Contra-Ataca é apontado como o melhor dos oito filmes até hoje? Porque ele usou de fundamentos estabelecidos no episódio anterior e os usou para envolver sua trama e seus personagens de maneira que o resultado fosse uma união de um grupo carismático e icônico com uma história que tinha a ideia de "Força" como um elemento místico e misterioso (o que foi levemente sabotado em A Ameaça Fantasma) que dava profundidade à jornada do herói. A trilogia original fez tudo isso tão bem que o aspecto naturalmente maniqueísta de luz vs lado sombrio não se transformou em um entrave, preferindo investir seu foco no conflito da escolha entre os dois lados.

Mas o que, de fato, são esses lados? Pois é nisso que este mais recente episódio decide focar. Ao apresentar Luke Skywalker como um remanescente amargurado dos jedi, seu personagem acaba se apresentado como aquele que mais tem experiência sobre a Força, portanto, o que mais tem a bagagem para questionar a maneira como o seu próprio universo enxerga os valores que sempre permearam os milênios que compõe a história dos Jedi e dos Sith. Afinal, porque seria necessário mais uma nova trilogia se fosse apenas para manter todos os elementos anteriores e apostar nas mesmas tramas? (Ok, o episódio VII repete muito, mas ainda é eficiente e divertido). Pois este traz um novo respiro, e se eu julgava esperar que as coisas se desenrolassem de maneira mais previsível, seja por trailers ou pela própria saga, me peguei genuinamente surpreendido pelo roteiro de Rian Johnson, que não só soube aproveitar os alicerces anteriores, mas aprofundar seus novos personagens e conflitos de maneira que as reviravoltas da trama realmente surtissem impacto.

E o maior trunfo aqui é que quem julgávamos deter a sabedoria é quem agora se vê perdido no meio da incerteza de quem foi traído pelo conhecimento que achava deter. O Luke do episódio V era apenas um garoto que deslumbrava o potencial arrebatador de seu treinamento com Obi-Wan e Yoda, o de hoje é um mestre que tem a mesma insegurança de sua pretensa pupila. Antes se era seduzido pelo lado negro, agora a escolha vem intrincada e aos poucos, como se as migalhas que definem bem e mal estivessem misturadas num enorme recipiente e os personagens quebrados não soubessem como separá-las. Nesse sentido, esse é o filme mais original da franquia (fora aquele que começou tudo, obviamente), pois aquelas reflexões do treinamento de Luke em O Império Contra-Ataca ganham novos significados (além de uma bela rima temática), e com isso ganha também a mitologia da série, tanto em suas ideias como em sua narrativa.

Rian Johnson, aliás, não decepciona na condução. Conferindo personalidade ao longa, o cineasta usa sua elegância costumeira (A Ponta de Um Crime, Looper) para incrementar a narrativa sem que se abandone a tradição (como, por exemplo, as transições em cortina e a montagem paralela como construção de clímax). Suas escolhas estéticas funcionam tanto como apuro visual como apoio para a narrativa. Assim, são notáveis, principalmente, aquelas que se relacionam à maneira como a ilha, com suas encostas, mar, cavernas e isolamento, é usada para representar a trajetória de Rey (Daisy Ridley) e sua busca por respostas em relação ao seu passado e à própria Força – o que rende ótimas sequências como a que a protagonista busca seu passado através de uma viagem quase psicodélica.  Também, os momentos onde a narrativa navega na complicada relação entre as motivações de Rey e sua crescente descoberta quanto à verdadeira história envolvendo Luke e Kylo Ren, mérito da montagem, que estabelece relações curiosas entre os antagonistas, além de manter um ritmo que se mantém frenético durante quase todo o filme.

O novo episódio é um espetáculo visual à parte e me vi, particularmente, satisfeito com a decisão de usar efeitos práticos onde, hoje, qualquer filme não resistiria ao CGI, o que dá um senso curioso de homenagem aos filmes clássicos. Claro que o filme depende do recurso para funcionar, mas ele não parece inundar a tela ou nos tirar do filme em momento algum. Quanto às batalhas espaciais, não há nenhuma que apresente momentos épicos ou realmente marcantes (exceto uma que envolve a velocidade da luz), porém o filme compensa com a urgência e a tensão de sua trama e seus personagens. Mesmo assim, olhar para Os Últimos Jedi acaba sendo uma experiência gratificante. A narrativa apresenta um equilíbrio visual que preza a importância do uso racionado de cores mais fortes. Na maior parte do tempo, a fotografia levemente dessaturada da ilha e o contraste primário que compõe o núcleo da Primeira Ordem fazem com que as intrusões do vermelho soem narrativamente calculadas e esteticamente deslumbrantes (vide uma batalha num planeta salgado e um ambiente específico dos vilões).

Falando em vilão, outro personagem que merece destaque é o do antagonista (não o Snoke). Nunca compreendi a birra que muita gente tem com o fato de Ren ser um vilão volátil e sujeito e ataques de raiva, como se isso o fizesse ser fraco. O fato do personagem ser repleto de conflitos internos não só o transforma em um personagem mais multidimensional como ainda faz com que seu destino seja um dos mais interessantes de se acompanhar – mérito de Adam Driver, que transita bem entre o choque de trajetórias que pintam de cinza a luz e a sombra que o circundam. O conflito retratado no personagem é o que desenha o principal tema: não resta saber só que lado escolher, e sim se há um que sempre será melhor que o outro, ou se todo o nosso destino será desenhado pelo peso da tradição (novamente, o questionamento das ideias originais da saga).

Mas o filme tem sua parcela de elementos que não funcionam muito bem. Se agora finalmente o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) ganhou tempo de tela merecido – e aqui sua participação definitivamente é importante e o ator tem tempo para desenvolver a persona do herói – o mesmo não pode ser dito de Finn (John Boyega), que acaba tendo a tarefa ingrata de protagonizar a subtrama mais inchada do filme. Sim, ela tem seu significado de expandir as consequências da guerra para fora do núcleo principal (algo que sempre faltava na saga), mas há um tempo demasiado longo para que seu arco – e o de Rose (Kelly Marie Tran) – terminem numa solução que poderia ter sido reduzida pela metade. Isso talvez faça o filme ficar um pouco longo para parte do público, mas como dito, há momentos suficientemente impactantes para que a espera compense.

Pois Os Últimos Jedi tem de sobra sequências com o potencial de entrar para a sessão de inesquecíveis da série. Além de resgatar e questionar o que os filmes tiveram de melhor no passado, este episódio VIII tem a originalidade que se esperava de uma nova trilogia, mesmo com suas homenagens imprescindíveis – e como há belas homenagens aqui: ao menos uns dois momentos que poderiam ser emoldurados num quadro, tanto pela estética, quanto pela carga emocional, num uso da icônica trilha de John Williams como não se via há muito tempo numa galáxia cinematográfica muito, muito distante.

A nova retomada da franquia vem fazendo jus ao material que a transformou numa fonte riquíssima de histórias para todas as mídias (além de vender muito produto). Que venha, portanto, o episódio IX, e que ele tenha a capacidade de realizar os feitos de seu antecessor, assim como fez O Império Contra-Ataca em 1980 e, agora em 2017, Os Últimos Jedi.


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