Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegue aqui

Crítica: Um Lugar Silencioso

Provando que é possível ainda tirar um bom terror convencional a partir de uma manipulação narrativa que se aprende lá com os pioneiros da sétima arte, Um Lugar Silencioso não inventa a roda, mas mostra muito bem que o terror pode vir dos silêncios calculados tanto quanto dos sustos escancarados.
Crítica: Um Lugar Silencioso

Há mais ou menos 30 anos de seus aproximados 120 de idade onde o Cinema reinou mudo.

A ausência dos diálogos, mais precisamente, não impediu a narrativa cinematográfica de florescer e ficar marcada como um período onde a linguagem visual provou sua beleza e eficiência antes que o público fosse convencido de que precisava ouvir as vozes e o ambiente para sentir que a experiência fosse completa. Muito tempo passou e a fala é parte integrante dos filmes que vemos hoje em dia. Já nos emocionamos com belos discursos, diálogos profundos e textos recheados de perspicácia – a voz que auxilia, completa e enriquece. Mas, certamente, isso não foi um entrave para que seu uso caísse frequentemente na malfadada exposição desnecessária – a que menospreza o público e revela a preguiça de um roteiro. Vivemos na era da superinformação, dos grandes blockbusters e da tentativa de economizar quando se trata de passar uma informação ao receptor, mesmo que isso custe a qualidade e a elegância de uma obra.

Talvez o culpado por essa introdução seja o terror/suspense que chega aos cinemas essa semana, Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, EUA, 2018). Embora esteja longe de ser mudo em sua concepção original, o filme comandado e co-estrelado por John Krasinski (ou, nosso eterno Jim, de The Office) se beneficia do silêncio como um dos seus principais recursos narrativos, o que, mesmo em premissa, já é um certo respiro numa época onde o barulho está cada vez mais alto nos cinemas (em todos os sentidos). Na trama, Lee Abbott (Krasinski) e sua mulher Evelyn (Emily Blunt) vivem com seus filhos, Regan (Millicent Simmonds) e Marcus (Noah Jupe), em um futuro não muito distante onde o planeta está tomado por criaturas misteriosas que caçam através dos ruídos, o que faz com que a família Abbott seja obrigada a sobreviver em sua fazenda aprendendo a se relacionar numa rotina de silêncio.

Palavrinha poderosa, essa. Ao optar por construir seu roteiro levando em conta a ideia, Bryan Woods e Scott Beck – depois com a colaboração do próprio Krasinski – deixaram nas mãos do ator/diretor a tarefa de conduzir sua narrativa com a obrigação de não contar com diálogos durante a maior parte do tempo, mesmo que a comunicação acabe sendo traduzida em legendas. Você pode até pensar: “mas então há pouca diferença real para um filme repleto de diálogos...”, mas o caso é que, ainda assim, a utilização do recurso é comedida e encontra equilíbrio numa frequência pontualmente necessária para que nenhuma informação importante seja relevada (uma versão anterior do texto continha somente uma linha de fala). O que se tem nas mãos é o objetivo de todo bom exemplar do gênero: envolver o espectador pela ambientação do suspense, levá-lo a se importar com o destino dos personagens e tornar os sustos justificáveis; aspectos alcançados por um trabalho competente e cuidadoso na relação dos elementos técnicos com a trama.

Tudo acaba se resumindo naquilo que o som representa em nossa conexão com a narrativa. Quando ele sempre está lá, permanente, não costumamos prestar atenção em seus detalhes. Mas, quando ele está ausente, sua ocasional intromissão ganha poder quando contrasta com o silêncio angustiante. E basta uma sequência inicial simples e eficaz para que o suspense se instale e entendamos que viver como os Abbott é, literalmente, andar de fininho e sussurrar. Por consequência, esse silêncio força o espectador a dobrar a atenção e se simpatizar com os personagens. Soma-se, ainda, um vilão (vários deles) ameaçador, direto e com a audição bastante aguçada. A trama não enrola e as pistas são plantadas de maneira clara com o objetivo de realçar a ameaça de cada passo em falso ou cada descuido que resulta num vidro quebrado ou uma reação inevitável de dor.

Conduzido com bastante segurança por John Krasinski, o filme sabe trabalhar com esses elementos de maneira equilibrada, e mais, sabe dar a eles a importância devida no tempo certo. Há os momentos mais tensos onde tememos por cada deslize, mas há a saída natural de cada diálogo que vem como uma recompensa – como é bem mostrado numa sequência onde pai e filho finalmente podem trocar palavras ao lado de uma queda d´água, o que não só tem a intenção óbvia de servir como um segmento de estabilidade da narrativa como revela, mais uma vez com eficiência, as regras do universo onde ela se passa. Não só no trabalho preciso com a câmera, que sabe usar a indução de algo estar “acontecendo” fora de quadro, a estrutura concebida pelo cineasta organiza as dicas inseridas visualmente (um carro estacionado, um aparelho de audição e até um prego em um lugar específico) como uma forma de manter o espectador à frente dos personagens quando necessário e “no escuro” quando menos se espera, o que torna a tensão presente durante todo o tempo, garantindo o sucesso da obra dentro do que se espera. É verdade que o resultado final poderia ser um pouco menos revelador, mantendo as ameaças mais escondidas, mas mesmo assim, funciona, e funciona bem.

É claro que tudo isso seria bem menos eficaz se não nos importássemos nem um pouco com o destino dos personagens. Felizmente, o relacionamento entre eles vem do mesmo acerto em relação ao som na construção do suspense. A dificuldade da comunicação fora da dinâmica como a conhecemos na realidade dá substância aos pequenos momentos de ternura quando estes surgem como um alívio. É fácil sentir empatia por eles e cada um tem seu momento, já que a própria natureza do silêncio intensifica o que é demonstrado pelas expressões e pelos gestos pontuais. Assim, é preciso bem pouco para que uma simples dança ao som de uma canção vinda de fones de ouvido revele o carinho entre Lee e Evelyn (também fruto da química natural do casal na vida real); fato que também permite que Emily Blunt tenha a mesma carga dramática em sua personagem, que, inclusive, passa pelos segmentos mais angustiantes do longa.

Da mesma forma, é reconfortante que os filhos do casal também despertem nosso interesse, sendo grande parte do sucesso resultado da expressividade de Noah Jupe e Millicent Simmonds (que é deficiente auditiva na vida real), um fato que, geralmente, é ignorado em filmes de terror, mas aqui faz parte integrante de nossa relação pessoal com a trama. Mesmo que as aspirações dramáticas do longa não sejam dignas de um estudo de personagem, o operante é bem feito o bastante para que o filme complete suas funcionalidades e tenha os dois elementos principais já citados em sintonia.

Partindo para o 3º ato, Um Lugar Silencioso tende ao exagero e ao desgaste da fórmula, mas consegue contornar a repetição através de um ritmo afiado, que une cada segmento ao próximo num equilíbrio entre o drama e o terror. Apesar de algumas facilitações e conveniências que incomodam quando confrontadas com questionamentos maiores, seus efeitos conjuntos compõe uma ótima experiência de gênero. Fora isso, a obra ainda tem seus momentos inspirados por algumas boas inventividades visuais (particularmente, a que coloca um dos personagens em um esconderijo que lembra um caixão é uma das mais interessantes) e questionamentos que vêm naturalmente (sem serem impostos por diálogos) acerca do futuro da daquelas pessoas e, por consequência, da própria raça humana. Como será possível se perpetuar na obrigação de um silêncio constante? Já imaginou como seria criar um filho de 1 ou 2 anos de idade na iminência de um ataque mortal a cada pequeno ruído? Apesar do filme não se preocupar muito em deixar várias delas em aberto, essas reflexões surgem orgânicas e suficientemente razoáveis como uma adição a um bom exemplar de gênero.

Provando que é possível ainda tirar um bom terror convencional a partir de uma manipulação narrativa que se aprende lá com os pioneiros da sétima arte, Um Lugar Silencioso não inventa a roda, mas mostra muito bem que o terror pode vir dos silêncios calculados tanto quanto dos sustos escancarados.


Deixe sua opinião:)