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Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome

Não se limitando apenas a ser apenas um filme sobre um romance LGBT (e nem é seu objetivo principal), Me Chame Pelo Seu Nome encontra sua força ao realizar um recorte tocante sobre o significado que pessoas e situações ganham em nossas vidas
Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome

Que o leitor me permita uma pequena divagação (como já fiz outras vezes antes) antes de ir diretamente ao filme:

Há uma “batalha” constante dentro da cabeça de um cineasta que se propõe a realizar uma obra cujo tom se apoia num pretenso objetivo máximo de naturalidade: obter êxito ao mesmo tempo que busca escapar de convenções narrativas que existem justamente porque sempre funcionaram, como mostra a própria tradição cinematográfica. E porque elas funcionam? As décadas de existência da linguagem do cinema nos mostraram que a realidade não é exatamente o que buscamos em um filme, ou, pelo menos, não é ela que nos transporta para a "magia do cinema", essa sim vem através das facilitações narrativas e os atalhos dramáticos aprendidos ao longo de muito tempo. Claro que esses elementos também foram desafiados e questionados (vide o caráter cíclico das revoluções que ocorrem na linguagem), mas o grande público, principalmente, sempre parece recorrer à segurança da tradição quando decide gastar seu precioso dinheiro numa sessão.

Note que quando me refiro a ‘naturalidade”, quero dizer a condução de uma narrativa que não pareça ter sido floreada com inúmeros recursos que se valem de uma rápida assimilação que nos permita investir imediatamente nossas emoções, mesmo em histórias que já vimos várias vezes. Me permito dizer tudo isso pelo fato de que Me Chame Pelo Seu Nome despertou minha atenção justamente por ter me ludibriado – no melhor sentido possível – a pensar que, novamente, a naturalidade com que seu diretor conta sua história denuncia falta de peso dramático, quando, na verdade, o tempo que gasta para fazer isso é o responsável por transformar esse aparente vazio numa realização surpeendentemente emocionante, calorosa e profunda.

E esta veio na forma de um romance que floresce entre dois personagens e que é usado como condutor para uma história que fala sobre as descobertas diante de elemento inesperado. O personagem é Elio (Timothée Chalamet), jovem de 17 anos que passa as férias de verão em algum lugar da Itália (como é dito no próprio filme), e o elemento que chega para chacoalhar o universo do protagonista é Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que aparece como convidado dos pais de Elio – dois eruditos vividos por Michael Stuhlbarg e Amira Casar – com o objetivo de auxiliar o Sr.Pearlman (Stuhlbarg) em suas pesquisas históricas.

Se tem algo que fica claro depois de algum tempo da projeção é que o objetivo do diretor Luca Guadagnino (100 Escovadas Antes de Dormir, Um Sonho de Amor) é nos mostrar como o verão monótono de Elio (e o próprio personagem reconhece isso) passa a ser lentamente ressignificado pela presença de Oliver, que surge como o turista capaz de chamar naturalmente a atenção de todos que habitam aquele pequeno universo que envolve a família e seus conhecidos. Se falei tanto na tal naturalidade, é porque a maneira como a dinâmica entre esses dois personagens é estabelecida se vale por uma calma construção que surge tão orgânica que parece não fazer parte de uma ficção. Grande parte dessa construção envolve duas personalidades diferentes que acabam se convergindo por um magnetismo que une um Elio inexperiente – orgulhoso o bastante para “aceitar o desafio” imposto por uma personalidade mais impetuosa de Oliver – e um Oliver que não necessita fazer muita força para projetar uma certa intimidação de volta a Elio, o que se revela uma semente de uma atração que vai crescendo entre os dois.

Usando a ideia de um verão de férias que, gradativamente, se torna um pedaço de tempo e espaço quase mágico para o protagonista (em oposição que ele mesmo se queixava anteriormente), a trajetória do relacionamento entre os dois parece ser um fruto natural dos ambientes os cercam, repleto de paisagens belas e naturais e habitada por pessoas que foram atraídas para aquele local por uma aparente pré-disposição e se permitir a descoberta de novas coisas ou explorar a reflexão sobre as velhas, seja a paixão da jovem Marzia (Esther Garrel) por Elio, por exemplo, ou a doce representação do afeto dos Pearlman pelo filho e a troca de experiências de vida que acaba consequentemente existindo entre eles.

Mas é mesmo a forma com que Guadagnino trabalha a relação amorosa e suas consequências que é o grande mérito do filme. Inicialmente reagindo um ao outro através de pequenas provocações, principalmente envolvendo a tentativa de Elio em não demostrar sua insegurança a Oliver, a estes personagens jamais é dado um caminho mais fácil ou direto que os faça embarcar numa jornada sentimentalista repleta de obstáculos externos. Os conflitos atravessados pelos dois são intimistas e o roteiro, adaptado do livro homônimo pelo veterano James Ivory, nunca os transforma em bandeiras ambulantes para uma causa ou algo do tipo. A história aqui é, acima de tudo, envolta numa sensualidade crescente e numa relação que não se preocupa em receber rótulos (amor, paixonite, atração sexual, que seja) e como ela vai organicamente sendo introduzida numa narrativa que trata seus personagens com respeito, sempre dando tempo e substância para que jamais pareçam unidimensionais, fazendo com que o longo tempo que nos é pedido para acompanhá-los seja recompensado posteriormente.

Há de se destacar, claro, as atuações principais e como elas se encaixam com a condução de Guadagnino. Armie Hammer caracteriza com precisão o ar de segurança de Oliver e como esse elemento se confunde ocasionalmente com uma leve arrogância. Já Timothée Chalamet é certeiro em misturar a insegurança e seus momentos de instabilidade emocional com a necessidade inerente a um jovem de tentar sempre parecer mais maduro do que realmente é. O diretor, procurando unir aos poucos as duas personalidades, transforma suas trajetórias em jogo de descoberta que encontra uma representação no texto fluido de Ivory e na maneira como trabalha a mise-en-scéne – nesse sentido, o destaque fica para o uso da ambientação como forma de trabalhar a dinâmica entre Elio e Oliver, principalmente a que concerne os quartos vizinhos com um ambiente compartilhado e como isso serve de ótimo exemplo de como usar o espaço para construir a relação entre dois personagens.

Dando ainda mais importância ao termo “natural”, durante grande parte do filme não parece que estamos assistindo a um no sentido mais tradicional, já que a narrativa é estruturada em cima de acontecimentos que não se apoiam numa construção de conflitos como manda o manual, mas sim através de uma representação mais lentamente ritmada e que não se priva de gastar todo o tempo possível para transformar detalhes aparentemente inúteis em elementos que futuramente ajudarão muito a conferir um senso de realidade ao aspecto emocional do filme. É importante salientar que, de fato, essa característica pode pesar e tornar alguns segmentos maçantes, mas elas acabam ganhando razão de ser quando colocadas na balança. Dessa forma, por exemplo, o timbre do piano de Elio se incorpora com a trilha sonora pontual, os momentos de tédio vão dando lugar a uma expectativa crescente e quando achamos que “nada está acontecendo”, muito já aconteceu.

Não se limitando apenas a ser apenas um filme sobre um romance LGBT (e nem é seu objetivo principal), Me Chame Pelo Seu Nome encontra sua força ao realizar um recorte tocante sobre o significado que pessoas e situações ganham em nossas vidas, mesmo que durem pouco tempo. Repleto de personagens que parecem viver no auge de seu conhecimento cultural e de suas boas vidas, é uma demonstração honesta de como cada um confere valor ao que vive e aprende a reconhecer a importância do presente, mesmo que seja obrigado a lidar com a insegurança que traz o futuro – tema que ainda é magistralmente tratado durante um belíssimo diálogo entre dois personagens no 3º ato, que facilmente vai figurar nos melhores momentos do Cinema em 2018 (além de ser digno de palmas para a atuação de Michael Stuhlbarg).

O curioso é que mesmo sendo claro que a obra não pretende levantar bandeira de teor mais político, é justamente o que eu acabaria indicando para tal. Afinal de contas, não há argumento mais poderoso contra a ignorância do que fazer com que muita gente enxergue a intensidade da trajetória desses personagens em si mesmas, transformando seus receios anteriores em meros detalhes. 


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