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Crítica: O Filme da Minha Vida

Com ares de nouvelle vague, O Filme da Minha Vida é a prova viva de que há um grande potencial no cinema brasileiro.
Crítica: O Filme da Minha Vida

Baseado no livro Um Pai de Cinema de Antonio Skármeta, o novo longa-metragem de Selton Mello, O Filme da Minha Vida, é uma pérola no atual cenário cinematográfico brasileiro. Em uma indústria que prioriza as produções na televisão e as comédias intermináveis, é difícil pensar que haveria espaço para um filme sensorial, orquestrado por poesia, cinema e amor. Ambientado em uma época e lugar pouco retratados no cinema nacional, nas Serras Gaúchas em 1963, a obra adaptada de Selton Mello mostra um lado de um gênero que parecia que já estava esquecido.

Tony Terranova (Johnny Massaro) é filho de um francês, Nicholas (Vincent Cassel), e de uma brasileira, Sofia (Ondina Clais). Crescendo rodeado de amor de seus pais, assim que atinge sua juventude resolve ir estudar na capital. Em seu retorno, não encontra tudo que havia deixado quando partira. Seu pai desapareceu sem explicações, tendo ido embora para a França. Desolado com esse vazio e em um profundo estado de melancolia, Tony tenta se (re)encontrar nas ruas gaúchas das serras, enfrentando situações completamente inéditas: sentindo uma nova forma de amor por meio das irmãs Madeira, Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes), estabelecendo uma forte amizade com o seu vizinho Paco (Selton Mello) e conhecendo um mundo proibido com Camélia (Martha Nowill).

Existe apenas um protagonista no filme, mas suas ligações com os personagens secundários são tão importantes e marcantes que, sem eles, Tony perde seu encanto. Na coletiva de imprensa depois da exibição do filme, Selton Mello disse que Terranova não se sente como o protagonista de sua própria história – sempre estando às sombras do sumiço de seu pai – e só quando percebe que o meio do filme é tão importante quanto o início e o final, que ele realmente toma as rédeas de sua vida. Tal pensamento é nítido nos dois primeiros atos do filme: no início, Tony aparece em todas as cenas, mas sempre calado e em segundo plano, apenas à escuta das divagações de outros personagens como sua mãe e Luna, e apenas no começo do segundo ato, ele decide tornar-se o protagonista de sua história. Esse é um dos milhares detalhes sutis presentes em O Filme da Minha Vida, onde até os nomes dos personagens foram pensados e escolhidos com importância.

Johnny como Tony está bem confortável, mas exagera um pouco em suas facetas. Os brasileiros que realmente se destacam em cena são Selton Mello e Bia Arantes. Bruna Linzmeyer está ótima em seu papel e faz de Luna o contraste ideal de Tony. Vincent Cassel é uma figura poderosíssima em cena, sua presença é extremamente marcante e o ator rouba a atenção para si quando aparece. Há de destacar Rolando Boldrin como o maquinista do trem e Martha Norwill como a puta da Casa Vermelha, ambos excelentes em seus papéis.

A história segue uma cronologia linear que curiosamente, paira em um acontecimento passado, mas em momento algum se prende a ele. A introdução é um pouco atropelada, chegando a ser levemente confusa, por depender totalmente de um monólogo raso de Tony. No entanto, o filme engrena rapidamente com as novas informações postas na tela e começa a fluir como palavras em um livro. A dramaticidade da trama está na medida certa, com alívios cômicos vindos de diversos personagens como o grosseirão Paco e o grupo de amigos do pequeno Augusto, irmão de Luna. O toque intenso na cena em que Tony começa a sonhar assistindo a dança das irmãs Madeira ao som da composição Carmen Suite No.2 de Georges Bizet é uma das melhores cenas do filme, onde a edição intensifica o momento e a divagação do protagonista. Outro destaque é a grande revelação, que apesar de ser levemente previsível pelas várias pistas sutis deixadas ao decorrer do filme, é um dos melhores momentos. Há uma cena, no entanto, que foi forçadamente romantizada – a cena do bordel – que destoa do resto da sutileza e da simplicidade poética do filme restante.

O Filme da Minha Vida é esteticamente perfeito. A montagem e edição são uma das melhores características técnicas do filme, constituindo em cortes perfeitos e inteligentes que fazem uma “ponte” entre uma cena e outra, como por exemplo, quando o som do trem entrelaça com o de uma risada mudando rapidamente ou em um momento quando Tony fecha uma porta e abre outra revelando uma nova cena. Os pequenos detalhes entre esses cortes são extremamente bem feitos e só contribuem para a beleza do filme. Ao lado da montagem, a fotografia de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato e Abril Despedaçado) também se destaca, com tons escuros equilibrados (voltados para o ferrugem) que constroem a atmosfera de 1963, aderindo um ar aconchegante à trama. Os movimentos de câmera são precisos e detalhistas, um simples movimento foca em uma determinada parte do corpo de alguém e transmite totalmente o que ele está sentindo. Além de capturar paisagens poéticas belíssimas ao plano de fundo dos personagens.

O roteiro adaptado do livro de Skármeta pelo próprio Selton Mello é muito bem escrito, com várias mudanças entre a adaptação literária e a cinematográfica que variam entre modificações de nomes e até adesão de novas figuras. É possível notar o cuidado com o desenvolvimento de cada personagem, cada um com suas características únicas, rendendo uma grande teia de informações. E a delicadeza em cada detalhe do roteiro, uma simples pista ou uma ligação, enriquece o enredo. O título do filme, apesar de parecer genérico a primeira instância, faz total sentido à trama que Mello adaptou. Sua direção está excelente, tudo parece ser perfeitamente calculado e os atores estão em perfeita sintonia. Sua sensibilidade para conduzir a trama é transparente, dando vida à um filme poético, simples e apaixonado.

Com ares de nouvelle vague, O Filme da Minha Vida é a prova viva de que há um grande potencial no cinema brasileiro. Com pequenas ressalvas aqui e ali, é uma produção que chega forte aos cinemas. É um filme onde a beleza é exaltada e a poesia transborda – com características muito sensíveis. É difícil alguém ousar algo diferente, fora da grande bolha que o cinema e a televisão vivem atualmente, e é bom saber que temos diretores com a mesma delicadeza, perspicácia e talento como Selton Mello. Com a pequena história de Tony aprendemos que o início é importante pois é como conhecemos a história e o fim é sempre bonito, mas na grande ferrovia da vida, o meio é que faz totalmente a diferença.


Divulgaí

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