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Crítica: Dunkirk

Dunkirk é mais um excelente trabalho na carreira de Nolan que conversa diretamente com o público, ainda que evite propor reflexões complexas em função de um ritmo constante e objetivo.
Crítica: Dunkirk

Quando Nolan dirigiu Amnésia, revelou ao mundo uma visão notável e diferenciada de fazer cinema, ao exibir uma ousadia marcante, estabelecida em um filme contado de trás para frente com um final singularmente subitâneo. Em seguida, Nolan explodiu cabeças ao sustentar sua forma e estilo com um amadurecimento inigualável de sua visão na brilhante trilogia do Cavaleiro das Trevas, que por mais que não agrade a todos, não há discussão que sua arte visionária mudou o modo de estruturar o gênero de adaptação – especificamente no incontestável Cavaleiro das Trevas, de 2008 -, ditando um novo padrão de narrativa e desenvolvimento de personagens centrais que se conectam a favor da história. O mesmo acontece com o belíssimo e enigmático A Origem, de 2010, onde o diretor estabelece sua visão na atmosfera da ficção-científica, um gênero que sempre flertou ao longo da carreira. E por mais que Interestelar não atinja o ápice de seu talento do ponto de vista de expectativa, com até mesmo falhas consideráveis da armadilha dos exageros, não deixa de ser uma obra essencial da mente do diretor. Agora, em Dunkirk, é a vez da superação novamente, contando a dramática história real da evacuação de Dunquerque durante a Segunda Guerra Mundial.

Em Dunkirk, Christopher Nolan conta a história da batalha de Dunquerque, que ocorreu entre os dias 25 de maio e 4 de junho de 1940, na França. O filme explora os tensos momentos da evacuação da força britânica com cerca de 300.000 soldados. Estrelado por Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Harry Styles, James D’Arcy e Keneth Branagh.

Enquanto diversos de seus trabalhos anteriores desenvolviam suas narrativas através da elaboração de seus personagens com variações de arcos dramáticos, Dunkirk se estabelece como um filme de instante, estruturando seu enredo com base em seu verdadeiro protagonista: a batalha de Dunquerque. E é por isso que em menos de 5 minutos de filme, Nolan joga o expectador no campo de batalha sem dar tempo de estabelecer um primeiro contato formal com seus personagens. Não há apresentação ou entrada triunfal. Note como não há destaque visual ou narrativo na primeira aparição de Cillian Murphy, que é apresentado de forma tímida e contraída em plano aberto. Algo parecido ocorre com a entrada de Rylance, dando fluidez ao ritmo em disposição do enredo. Isso porque o foco de Dunkirk segue sua proposta inicial de não centralizar sua trama na expansão de suas figuras principais, pois não se trata de um filme de personagens, e sim de pessoas.

E por mais que Dunkirk se prive ao não exibir a crueza da guerra de forma gráfica e sangrenta em função da censura, o filme causa impacto justamente por afirmar que eventos assim são cruéis e desumanos, exercitando apenas sua atmosfera em tela. Até porque, desta vez, há uma economia fundamental de diálogos que, quando usados, se tornam substanciais para a trama. Dunkirk é capaz de dizer muito sem usar palavras, tanto pelo expressionismo em sua estética quanto por elementos técnicos de produção. É por isso que Nolan se aprofunda em momentos distintos para elaborar tensão e urgência em cenas inesperadamente impactantes.

Este fator se deve a narrativa não-linear, que não apenas exerce a função de distribuir seus núcleos isolados sem deixar que se tornem desconexos (a alteração do ciclo dia e noite no mesmo ato, por exemplo, acaba se tornando fundamental para criar a ligação entre os núcleos), mas também cumpre um exercício adicional de tensão para o filme. Por exemplo, Nolan exibe um plano de ataque aéreo do ponto de vista dos pilotos, mas em outro momento posterior, em uma cena aparentemente de alívio para um outro núcleo, o filme resgata a tensão ao fazer o público entender que o ataque ainda vai acontecer naquele novo ponto de vista. É óbvio que o diretor não criou o formato não-linear, mas o modo como o utiliza para estabelecer o impacto atmosférico de suas cenas é algo brilhante.

Dunkirk é dramático em seu ponto de vista climático, além de atmosfericamente pesado e denso. Por mais que opte por não estudar o gênero com complexidades de desenvolvimento de personagens, o filme escapa da ação superficial ao valorizar as consequências da violência física e verbal. Ou seja, se Nolan dispensa dramas e diálogos habituais sobre familiaridade, fé e heroísmo - tão presentes em obras do gênero -, é para não se prender ao apego emocional com o espectador. Por outro lado, são justamente as consequências citadas que defendem a dramaticidade como pontapé para o aprofundamento da tensão em Dunkirk. Exemplo disso reside na cena do barco atolado, em um dos momentos mais tensos do filme, quando ao invés de se confortar nos diálogos habituais de desenvolvimento de empatia, Nolan desvia a atenção ao sugerir um conflito interno antes do real terror começar.

Inclusive, este aprofundamento se estabelece com elementos técnicos e pontuais da estrutura do filme, como a trilha sonora aterrorizante de Hans Zimmer, que exerce uma função tão impactante quanto a bela cinematografia crua e descorada de Van Hoytema (Ela, Interestelar). Ambos os aspectos se entrelaçam para trabalhar o subconsciente do espectador, tanto pela frieza melancólica representada por cores desbotadas quanto pelos segmentos compostos por Zimmer, utilizando o tique do ponteiro do relógio para guiar as músicas brilhantemente incômodas do filme. Aliás, Nolan dá absoluta importância para a sonoridade de Dunkirk, sem receio de explorar barulhos ensurdecedores da guerra, até mesmo para destacar o posicionamento e a distância de certos eventos.

Dunkirk é mais um excelente trabalho na carreira de Nolan que conversa diretamente com o público, ainda que evite propor reflexões complexas em função de um ritmo constante e objetivo. De fato, um dos grandes candidatos a filme do ano, como sempre.


Divulgaí

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