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Crítica: A Múmia

Falhando na sua mistura de elementos, A Múmia é um filme que já parece ter nascido como uma versão pior do divertido exemplar da década de 1990.

Para uma geração mais nova, falar em universo compartilhado no cinema se tornou algo comum. Crescendo diante de uma megalomania espetaculosa, o público jovem de hoje se acostumou com os blockbusters que vem unindo suas histórias a fim de criar franquias cada mais rentáveis. Não há nada de novo no fato de Hollywood estar investindo pesado em adaptar histórias fantásticas de outras mídias para as telas, ou até mesmo continuando os constantes ciclos de renovação de filmes que foram sucesso em outras épocas. Se há algo que podemos dizer ser sem precedentes é a escala com que isso vem sendo feito nos últimos 10 anos. Influenciando outros estúdios a seguir o mesmo caminho, a Marvel certamente foi a responsável por iniciar um caminho mais ambicioso de juntar filmes que, por si só, já são lançamentos gigantescos, com o objetivo de criar um universo onde as histórias e os personagens se ligam entre si (se isso é prejudicial ou não para a unidade narrativa de cada filme em particular, é um debate que guardaremos para outro momento).

Além da famosa editora de HQ´s já estar há tempos investindo no caminho, há também outros iniciando a jornada, como sua grande rival DC, o Monsterverse (Godzilla e King Kong), a Disney com a séria cogitação de criar um universo das princesas, e a Universal resgatando seus monstros dos primórdios do cinema falado: o chamado Dark Universe, que é um remake dos clássicos que o estúdio produziu com baixo orçamento das décadas de 1930 a 1950, agora juntos na onda do universo compartilhado. Infelizmente, com este primeiro exemplar, A Múmia, dirigido por Alex Kurtzman e estrelado pelo mega-astro Tom Cruise, o estúdio dá um início bastante moroso para a franquia e que nem o carisma do seu ator principal consegue salvar do tédio.

Ambientado nos dias atuais, Nick Morton (Cruise) e Chris Vail (Jake Johnson) são dois saqueadores de artefatos antigos que acabam encontrando uma antiga tumba no subsolo de um vilarejo iraquiano (antiga Mesopotâmia), onde se encontra o corpo mumificado da princesa egípcia Ahmanet (Sofia Boutella). Invocando por acidente uma antiga maldição, Nick, Chris e a pesquisadora Jenny Halsey (Annabelle Wallis) acabam libertando a poderosa múmia, que parte para dar continuidade ao seu antigo plano de conseguir um corpo para que nele possa invocar o espírito de Set, o deus da morte.

Procurando resgatar um clima familiar de aventura, como aquele visto na versão de 1999, o longa de Kurtzman inicia com ação, tiroteio, um pouco de mistério e muitas piadas. O problema é que se naquele a abordagem conscientemente e levemente descompromissada trabalhava a favor de um filme de aventura clássico, aqui há uma salada de tons que prejudica claramente a narrativa. Saltando entre humor, ação e suspense em meio a um enredo que perde o foco em contar sua própria história e inserir um plot que servirá de ligação dentro do futuro universo, A Múmia soa como um remendo que nunca consegue verdadeiramente fazer rir, entreter ou assustar, mesmo com um ator que costuma se entregar por completo em seus papéis. Se em 1999, o protagonista de Brandon Fraser lembrava um anti-herói clássico, Tom Cruise parece pouco à vontade, se deslocando entre o corajoso e egocêntrico, jamais ganhando profundidade necessária. É inegável o talento que o astro tem de se entregar visivelmente aos papéis que faz, principalmente quando doa sua inquestionável energia física nas sequências de ação, e por mais que essa história aparentemente seja focada na introdução do universo e consequente ligação com outros exemplares, o filme acaba sendo realmente para que o ator seja o centro das motivações.

Mas nem ele consegue segurar muito tempo um roteiro sem substância como este escrito por David Koepp, Christopher Mc Quarrie e Dylan Kussman. Jamais conseguindo suscitar grande empatia por Nick, passamos os 111 minutos do filme numa sensação de tédio intercalada por alguns poucos e bons momentos do filme. Grande parte do que nos é exigido em termos de motivação de personagem vem da relação entre ele, seu amigo e o interesse amoroso. Aliás, um romance que também jamais soa muito palpável desde o começo, quando aprendemos, através de exposição, que Nick e Jenny passaram uma noite juntos – não que isso fosse o problema, mas, aparentemente, os três roteiristas parecem acreditar que será o suficiente para que a cafonice dos diálogos entre os dois será o bastante para que acreditemos em sua relação. Em relação à trama, por mais que se faça um esforço para gerar interesse nas propriedades mágicas de adagas, pedras e deuses (tudo através de exposição), não demora para que se esvaia rapidamente nossa atenção, restando apenas deixar que o filme nos explique tudo.



Além desses problemas, há ainda a oscilação da narrativa. Se não é possível que acreditemos nas motivações emocionais de Nick e Jenny (esta também prejudicada pela unidimensionalidade do texto) fica difícil temer pelos heróis e comprar o peso dramático que o filme pede de tempos em tempos. Sendo assim, por mais que se invista em sequências de ação e efeitos especiais, o resultado é um enredo que parece demorar muito mais tempo que o necessário para se concluir. Ainda há a tentativa, através de uma constante mudança desajeitada de tom, de inserir humor e doses de terror na trama: o primeiro é quase sempre completamente fora de hora e simplesmente sem graça; o segundo é pincelado na narrativa por sustos pontuais onde não há tempo de construir uma atmosfera que os justifiquem.

Alex Kurtzman até tenta dar um dinamismo que faça jus aos seus valores de produção, mas ao final da sessão, há apenas duas sequências dignas de serem lembradas: uma que envolve a queda de um avião (já mostrada parcialmente nos trailers) e outra que se passa numa tempestade de areia nas ruas de Londres (pois é). Fora isso, A Múmia é um filme surpreendentemente entediante, e nem se pode dizer que a adição do elemento em comum que deverá constar nos outros filmes seja o suficiente para despertar nosso interesse, já que pouco ficamos sabendo sobre a tal organização misteriosa e seu personagem (o Dr. Henry Jekyll de Russell Crowe), os quais deverão servir de ligação para os outros filmes.

Quanto ao monstro da vez, a atlética atriz e dançarina profissional Sofia Boutella (Kingsman: Serviço Secreto) empresta sua impressionante agilidade para uma múmia que diverge bastante da ideia clássica do personagem. Infelizmente, a inabilidade da narrativa em fazer com que o espectador tema a presença de Ahmanet faz com que apenas a curiosidade seja o sentimento dominante, nunca realmente a ameaça. Sua caracterização acaba se limitando a saltos, superforça e um poder que basicamente aparece através de murmúrios e conjurações.

Falhando na sua mistura de elementos, A Múmia é um filme que já parece ter nascido como uma versão pior do divertido exemplar da década de 1990. Com uma narrativa que se arrasta, apesar de suas várias sequências de aventura, e um roteiro irritantemente expositivo, ficamos com a sensação ruim de um início sombrio para o universo de monstros da Universal. Resta saber se o estúdio saberá investir em mudanças para que tenhamos ao menos um todo bom, e não apenas partes ruins.


Divulgaí

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