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Trama Alternativa: Pecados Íntimos

Com um tom de humor cínico tão satisfatório quanto sua densidade emocional, Pecados Íntimos é uma pequena obra-prima que merece ser redescoberta tanto pelos temas atuais de seu roteiro, a sagacidade notória de sua direção e o talento de seus atores.
Trama Alternativa: Pecados Íntimos

Se lembram daquele personagem pianista de De Olhos Bem Fechados? Aquele antigo amigo do personagem de Tom Cruise, que passa para ele o endereço da mansão onde está acontecendo um “evento” de cunho sexual? Pois então. Esse ator é Todd Field, que também é diretor e roteirista. Field havia lançado em 2001 um dos dramas mais famosos dessa década, Entre Quatro Paredes, sendo indicado a vários prêmios internacionais, inclusive ao Oscar. O filme trazia um elenco formidável (Sissy Spacek, Tom Wilkinson, Marisa Tomei) em uma história fatalista. Cinco anos depois, o diretor lançaria outro drama, igualmente denso e “real”. E mesmo que o longa-metragem contasse com um elenco igualmente estelar (Kate Winslet, Jennifer Connely, Patrick Wilson), curiosamente não obteve o mesmo reconhecimento, por parte do público, do filme anterior. Uma pena. Pois Pecados Íntimos exibe uma inteligência cada vez mais rara nas produções de Hollywood.

Assim como Beleza Americana, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, As Horas, Animais Noturnos, Dogville e, de certa forma bizarra até As Criaturas Atrás das Paredes de Wes Craven, Pecados Íntimos é um filme que deseja ver além do idealismo da “tradicional família americana” e acompanhar as angústia que estão escondidas ali por trás. O roteiro de Field e Tom Perrota (que também roteirizou o ótimo Eleição, de Alexander Payne) adapta as histórias de um livro escrito pelo último. Em um tradicional subúrbio estadunidense, acompanhamos Sarah Pierce (Kate Winslet), que claramente não consegue se “adequar” ao estilo das outras mães do local e se encontra frustrada por seu casamento; Brad Adamson (Patrick Wilson, o Ed Warren da franquia Invocação do Mal), um advogado que não conseguiu passar no Exame da Ordem e passa os dias cuidando dos afazeres domésticos; e Ronnie MvGorvey (Jackie Earle Haley, o Freddy Krueger da péssima refilmagem de A Hora do Pesadelo), um pedófilo condenado por se expor a crianças que está retornando da prisão para uma nova, e temerosa, vizinhança.

O título original, Little Children, utiliza uma simbologia interessante que se perde no título brasileiro. Todos os personagens principais são, por dentro, “pequenas crianças”. Apesar da madura idade, os três não conseguem ver além de seus próprios interesses e se frustram por não conseguirem ser “mais” do que já são, ou conseguirem o que almejam; negligenciando os que estão ao redor. Direta, ou indiretamente, o “american way of life” é responsável pelo modo como eles se sentem; precisando se adequar a certos padrões que são necessários para a vida social naquele ambiente.

Sarah, por exemplo, é completamente amargurada. Sua baixa-estima é exposta não somente pelo modo como não demonstra nenhuma vaidade (reparem na ausência de maquiagem em comparação às outras mães no parque) ou até por suas vestimentas largas, “masculinizadas” e com cores blasé (uma boa sacada da figurinista Melissa Economy). Impaciente com sua filha Lucy (a impressionante Sadie Goldstein), Sarah a trata com uma impessoalidade que só rivaliza com a falta de afeição por seu casamento. Sarah parece só ter algum apreço por seu quarto particular, uma lembrança de seu passado como pesquisadora e idealmente fotografado por cores mais calorosas por Antonio Calvache (que também trabalhou na bela fotografia de Ente Quatro Paredes).

Aliás, Sarah é interpretada por Kate Winslet, com seu talento DESCOMUNAL, em um papel similar ao do razoável Foi Apenas um Sonho. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em 2007, Winslet se prova cada vez mais como “a nova Meryl Streep” ao conseguir transparecer sentimentos extremamente complexos somente pelo olhar. O fato é que Sarah poderia ter se tornado uma personagem absurdamente antipática se tivesse sido encarnada sem o esmero necessário. Winslet contrabalanceia a falta de sensibilidade com Lucy (como ao gesticular impacientemente para ela sair de seu quarto) através de um semblante exausto por uma vida que não pediu e por saber que está sendo julgada por outras mulheres do “ofício” (como ao esquecer o lanche da filha). Inclusive, as expressões de Winslet são tão eficazes, que acabam tornando a narração em off um elemento desnecessário do filme. Notem, principalmente, a relevância da explicação dada pelo narrador quando o diretor foca na expressão de Winslet no momento que Brad está indo embora de um parque. São pequenos detalhes que Winslet fornece que conseguem humanizar ainda mais a complexa Sarah. Seja pela singela humilhação ao “perdão” de uma colega, ao pegar em sua mão desajeitadamente; ou seja, ao demonstrar uma vitalidade renascida ao se contemplar no espelho após um encontro libertador, a atriz demonstra controle absoluto da evolução dos sentimentos da personagem.

Porém, o grande momento de Winslet no filme vem mesmo no encontro do clube do livro, quando ela tem um monólogo inteligente ao criar um paralelo de sua vida com a obra Madame Bovary. Exprimindo uma segurança quase ameaçadora, Winslet expurga os receios de Sarah quanto ao seu entrelace amoroso de uma forma delicada e apaixonada, além de fazer um comentário feminista contundente. Nesse momento em particular, o trabalho de câmera de Field é hábil ao acompanhar, em primeiro plano, o perfil da atriz enquanto ela se pronuncia para frente em acordo com a intensidade de suas falas. E quando ela se recosta, o plano do diretor nos fornece as expressões de resposta das outras personagens em cena, que Sarah estava obliterando até então. Com uma montagem afiada de Leo Trombetta (do ótimo Temple Grandin), a sequência ainda exibe vigor ao criar cortes rápidos para expor as reações de outros personagens, e ainda coloca Winslet como centro da ação mesmo ela estando no canto.

Já os dilemas de Brad são caros há muitos homens que ainda se veem preso à imagem da sociedade patriarcal antiquada. Brad não é quem coloca o “pão em casa”, e apesar de se sentir incomodado com isso, ele não vê problema em expor a situação para outras pessoas de forma reveladora. Além disso, ele ainda se sente frustrado pelo fato do filho idolatrar a mãe (como Field registra adequadamente com um slow-motion) e pela falta de contato mais íntimo com esposa. Essa problematização do personagem pelo roteiro é essencial para que compreendamos a “fuga” que Brad busca da realidade com Sarah. Patrick Wilson, aliás, exibe um carisma sincero como Brad, principalmente ao nos fazer compreender suas motivações ao apostar em pequenas alegrias juvenis como entrar para um time de futebol americano, ou observar garotos skatistas. Apesar de ser excelente pai e dono de casa, é inegável que Brad se sinta preso a um estilo de vida que não era antecipava, e Wilson é delicado ao nos retratar esse impasse.

Quanto aos problemas de Ronnie, os roteiristas nos convidam a julgar nossos próprios julgamentos. Inicialmente, é completamente compreensível que a vizinhança se sinta preocupada com a presença de Ronnie; é natural que todos os pais temam pela segurança de seus filhos. Mas qual o limite da expressão desse temor? Até que ponto nós estaríamos apenas protegendo nossos filhos? Como nossas ações podem piorar as ações dessa pessoa? Field e Perrota trazem questionamentos quanto à alimentação da violência pela própria sociedade como Stanley Kubrick e Anthony Burgess no clássico Laranja Mecânica. Com muita sagacidade e elegância, o diretor Field arquiteta a primeira grande cena de Ronnie no filme como um momento da natureza selvagem, quando um plano plongée registra a saída de vários jovens de uma piscina da mesma forma que cervos saindo correndo desesperados de um lago após a chegada de um crocodilo.

Jackie Earle Haley, também indicado ao Oscar pelo papel, tem a fisicalidade “estranha” certeira para nos causar um desconforto pela imagem do personagem. Sabiamente apostando em uma personalidade introvertida estranhamente ameaçadora, Haley nos mantem em completa dúvida sobre suas intenções durante toda projeção, culminando em uma reveladora cena de jantar com uma pretendente. No entanto, Haley revela um lado sensível ao lidar com sua mãe May, a excelente Phyllis Somerville (O Curioso Caso de Benjamin Button), o que humaniza seu personagem através dos olhares carinhosos dirigidos para a personagem. Além de ser um alívio ver Haley voltando a atuar depois de 13 anos; o que nos possibilitou ver o genial trabalho do ator na pele de Rorschach no subestimado Watchmen - O Filme.

Além dos três protagonistas, o filme ainda possui uma excelente participação de Jennifer Connely como Kathy, a esposa de Brad, que tem a oportunidade de destilar seu talento em um sutil momento durante um jantar. E também Noah Emmerich (O Show de Truman, Super 8) como um carente ex-policial da vizinhança que é responsável por terríveis acontecimentos.

Como já citado, a narração em off incluída em alguns momentos do filme são completamente desnecessárias, já que o trabalho detalhista do diretor consegue transparecer somente com imagens os pensamentos e conflitos. Além dos diversos momentos já citados anteriormente, deem especial destaque para a cena de jantar entre os casais protagonistas, e reparem nas trocas de olhares de Sarah e Kathy para Brad, além de um plano detalhe nos pés de Sarah. Toda a tensão e dúvida quanto à relação entre aquele triângulo fica exposta somente com o trabalho de câmera e dos atores, não há necessidade nenhuma de diálogos naquele momento. E é essa confiança que Field tem na inteligência do espectador que falta muito no cinema de hoje em dia, principalmente o hollwwoodiano. Há um singelo momento em que Field mostra a pequena Lucy deixando uma lembrança na cômoda da mãe, após ver uma porta fechada, e se dirigindo para seu quarto até sair completamente do enquadramento. Nas mãos de um diretor menos talentoso, o momento poderia virar um drama maniqueísta. Field o torna extremamente poderoso e cheio de significados, somente pela preparação de sua mise-en-scène.

Da mesma forma, a conclusão do filme não decepciona e aposta em um tipo de redenção que se torna igualmente emotiva, relevante e HUMANA. Caso os personagens não tivessem sido desenvolvidos com tamanha sabedoria, os eventos finais poderiam ter se tornados óbvios, mas não o são; principalmente pelo modo como o diretor transforma o ato de um adulto deitar no colo de uma criança como uma imagem incrivelmente reflexiva e dramática.

Infelizmente, o filme foi um fracasso comercial, rendendo nas bilheterias mundiais um total de US$ 14 milhões contra um investimento de US$ 26 milhões. De forma contrária, as premiações reconheceram o valor do filme, sendo que o longa concorreu a 57 prêmios e venceu outros 19. Além da indicação de Winslet e Haley para Atriz e Ator Coadjuvante no Oscar, o filme ainda concorreu ao troféu de Melhor Roteiro Adaptado. Dentre as outras premiações, o filme ainda concorreu ao Globo de Ouro, BAFTA e o Prêmio dos Sindicato de Atores. O filme também é muito bem quisto pela crítica, tendo angariado 80% de aprovação no "Rotten Tomatoes".

Com um tom de humor cínico tão satisfatório quanto sua densidade emocional, Pecados Íntimos é uma pequena obra-prima que merece ser redescoberta tanto pelos temas atuais de seu roteiro, a sagacidade notória de sua direção e o talento de seus atores. É do tipo de obra louvável por abraçar sua humanidade imperfeita.


Divulgaí

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