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Crítica: Velozes e Furiosos 8

Velozes e Furiosos 8 é um filme divertido e vai continuar agradando quem já era fã da série. Seu bom humor e suas boas sequências de ação conseguem imprimir ótimos segmentos de porradaria desenfreada, mesmo que fique difícil não notar um inevitável
Crítica: Velozes e Furiosos 8

Existe algo que todo cinéfilo, estudante de cinema e o público casual, na sua própria constatação, já percebeu desde quando começou a ver filmes pela primeira vez: todo o conceito de realidade de uma obra cinematográfica pode ser moldado a gosto por seus realizadores. Uma das coisas mais incríveis que o cinema pode te proporcionar é ter a capacidade de te fazer aceitar regras específicas de um universo no qual a nossa realidade jamais encontraria respaldo. Por isso sempre que vejo alguém restringindo suas opções cinematográficas por algum tipo de preconceito de gênero, costumo ter o impulso de defender que a melhor coisa de ser um cinéfilo é poder passar uma semana vendo uma retrospectiva de Ingmar Bergman, para, no fim de semana, poder sentar numa sala de cinema e ser entretido pela mais tola, porém honesta das propostas, mesmo que se tente diminuí-las com aquele famoso lugar comum de “isso é só um filme sem conteúdo”. Claro que o mais barulhento dos blockbusters não pode simplesmente se eximir de seus eventuais problemas apenas por sua proposta, mas ele tem sim o privilégio de levar milhões de pessoas para uma sala de cinema todos os anos.  

Claro que definir qualidade e ter senso crítico vai além de apenas reconhecer o que um filme é como produto. Definir que um blockbuster pode se manter apenas por suas pirotecnias não significa que ele seja sempre bom. Por isso é interessante ver como foi o caminho tomado por Velozes e Furiosos, uma das franquias mais rentáveis da história, e como ela nasceu, se modificou, passou por altos e baixos, e acabou acertando em ajustar sua proposta à exigência de um público bombardeado por produções similares o tempo todo.

Quando o primeiro filme estreou em 2001, não é exagero dizer que teve um significativo impacto numa certa faixa etária específica. Na época, era comum ver adolescentes percebendo (ou sendo influenciados) uma repentina paixão por carros, com tudo que ela poderia trazer junto. O mérito é que o primeiro exemplar da série soube reciclar as velhas fórmulas hollywoodianas com elementos imediatos que tinham o poder de conquistar uma parte do público (os carros tunados, os rachas e a velha história de dois antagonistas que acabam se aproximando no decorrer da trama). Suas duas continuações seguiram com a mesma proposta, mas sem conseguir o mesmo resultado, e isso muito mais pelos próprios defeitos do que por outra coisa.

Num momento em que parecia que a série estava afundando na mediocridade, acabou por ganhar um impulso influenciada por uma nova leva de filmes de ação que estavam pipocando em Hollywood. Quando o astro principal, Vin Diesel, retornou e os filmes passaram a mudar seu estilo de “filmes de racha” para uma ação que mistura elementos do gênero desde a década de 80, as coisas começaram a funcionar melhor. A reabilitação trouxe fôlego e a série embarcou sucessos de bilheteria no mundo todo. Não se tratava mais de só de carros, e sim de muito tiroteio, explosões, grandes planos de assalto, fugas impossíveis e tramas absurdas; isso tudo, claro, sem deixar de usar os carros. 

Agora chegando no oitavo filme da franquia – e o primeiro feito integralmente depois da morte de Paul Walker – Vin Diesel e sua crescente turma de rostos famosos do gênero se veem mais uma vez diante de uma trama mirabolante: Dominic Toretto está passando sua lua-de-mel em Cuba com Letty (Michelle Rodriguez) quando é surpreendido pela vilã canastrona da vez, Cipher (Charlize Theron), que o obriga a trair seus amigos e participar de um plano que colocará em risco a vida de milhões de pessoas. Enquanto isso, o restante do grupo se reúne com Mr. Nobody (Kurt Russell, se divertindo), Hobbs (Dwayne Johnson) e o vilão do filme anterior, Deckard Shaw (Jason Statham) para ir atrás de Dom e tentar deter Cipher e sua trupe de terroristas maldosos.



Para confirmar o que falávamos anteriormente, basta assistir a este novo filme e fazer a comparação com o primeiro, lançado há 16 anos, e notar como o tom de galhofa ganhou terreno e se assumiu como maior trunfo da franquia. Se formos levar em consideração uma análise de roteiro baseada em outros exemplares de ação mais sérios, seria impossível chegar ao final da sessão sem a sensação de estarmos sendo insultados. O 1º ato do longa serve basicamente com um fan-service para o público que sempre comprou a ideia dos filmes. Portanto, temos a exibição de carros estilosos, o efeito de vertigem nos turbos, a objetificação feminina ao extremo e a masculinidade sendo desafiada e resolvida através da capacidade de pilotar um carro – e somos também lembrados disso através desses diálogos que a série não se envergonha de entregar: “Não importa o que tem em baixo do capô, e sim quem está atrás do volante”. Se esses elementos remetem diretamente ao início da franquia, a partir do 2º ato o filme já ganha os contornos que têm marcado o exagero dos últimos exemplares, ainda mais quando envolve o grupo viajando para diversos locais do mundo planejando ações que já seriam complicadas se protagonizadas por um grupo de elite especialista, não que a turma de Dom já não tenha magicamente se transformado em um. 

Talvez seja interessante decidir: você vai ao cinema disposto a entrar no clima despretensioso de Velozes e Furiosos 8? Se sim, aconselho que se esforce a ignorar uma série de coisas, como por exemplo: a extrema facilidade com a qual a franquia muda uma relação de inimigos mortais para uma possível amizade em apenas uns poucos momentos de conversa; a insistência em querer dar peso emocional a Dom – e aí contribuem os mínimos recursos dramáticos de Vin Diesel – e relacionar motivações de personagens a outros que já eram rasos em outros filmes da série; os personagens que servem como recurso imediato para resolver conflitos que já não tinham sido estabelecidos de maneira convincente, como por exemplo Ramsey (a linda Nathalie Emmanuel): a hacker mais convenientemente habilidosa do cinema. Se assim mesmo você não conseguir se convencer de que não está vendo uma história que se preocupa com sua seriedade, o que pode servir de consolo é que o filme tem qualidades que podem divertir quem o assiste, assim como fez a este que vos escreve.

Até porque, no final das contas, o aspecto que interessa aos fãs da franquia e de filmes do gênero em geral é a condução de suas sequências de ação. Nesse quesito, o já veterano F. Gary Gray (Straight Outta ComptonCódigo de CondutaA Negociação) se sai particularmente bem. Uma das razões para isso é que Gray não apelou para o caos da câmera e nem para o CGI que salta aos olhos, mesmo que em alguns momentos, como nas sequências de luta, a velha montagem desmedida e a câmera excessivamente tremida acabem dando as caras. Já nas perseguições de carros, tanques, motos e até submarinos, essas sequências ganham escalas gigantescas e, ainda assim, parecem práticas e visualmente catárticas, principalmente as que envolvem dois segmentos que se passam em Nova York e outro na Rússia.

O importante é que o filme reconhece o que é e sabe utilizar elementos que o tornam um bom exemplar de ação, sendo um deles o humor. Um pouco diferente do que vinha acontecendo nos outros filmes, dessa vez não há somente o recurso de um solitário alívio cômico (Tyrese Gibson, como Roman Pearce), ainda que este seja utilizado ainda frequentemente. Grande parte de nossas risadas não ensaiadas vem do carisma de "The Rock" e sua relação com o personagem de Jason Statham. Nem todas as sacadas funcionam, mas o roteiro de Chris Morgan, que também escreveu o filme anterior, sabe utilizar as "personas" dos dois atores para brincar com suas imagens de brutamontes, que remetem aos heróis de ação da década de 80 e 90. Assim, já somos compelidos a aceitar, por exemplo, que Hobbs suporta tiros de arma de borracha sem sequer se incomodar e demostra sua masculinidade a Deckard malhando bíceps com um bloco de concreto. Juntando essas "licenças poéticas" com a hilária interação dos dois, eles acabam  servindo como um alívio cômico muito mais eficiente do aquele escrito como uma muleta para outro personagem. Claro que não estamos livres das piadas involuntárias produzidas pelos diálogos “exemplares” do filme, como aquela em que um personagem diz, usando sua grande perspicácia: “Eles roubaram um aparelho de pulso eletromagnético e códigos de uma bomba nuclear... acho que eles estão panejando alguma coisa!

Velozes e Furiosos 8 é um filme divertido e vai continuar agradando quem já era fã da série. Seu bom humor e suas boas sequências de ação conseguem imprimir ótimos segmentos de porradaria desenfreada, mesmo que fique difícil não notar um inevitável problema de ritmo que é intensificado pela desnecessária duração do filme (136 minutos). É mais um desses elementos que você será obrigado a relevar para que o filme funcione. Mas ora, valerá um pouco a pena se for para ver Dwayne Johnson desviando um torpedo com as mãos, um submarino perseguindo Vin Diesel no gelo ou uma chuva de carros nas ruas de Nova York.

Divulgaí

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