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Reflexões de um Cinéfilo: Muito além do erotismo raso em “Love”, de Gaspar Noé

Love não é um filme para qualquer um. É para aqueles que estão dispostos a assistir uma história de amor sem cortes.
Reflexões de um Cinéfilo: Muito além do erotismo raso em “Love”, de Gaspar Noé

“Quero fazer filmes com sangue, esperma e lágrimas – a essência da vida” diz Murphy aos berros para uma garota que acabou de conhecer, sob o som alto de uma música eletrônica em uma balada. Quem já ouviu falar em Love, último filme do argentino Gaspar Noé, já sabe sobre a polêmica que o fez lotar as salas de exibição fora do Festival de Cannes 2015. E também sabe que muitos desses espectadores ansiosos que correram atrás de um assento na sessão fechada, acabaram saindo antes dos 5 minutos iniciais. Tudo isso por conta das muitas cenas de sexo explícito no longa-metragem, que não medem esforços em esconder nada. Claro que tais cenas – por seu conteúdo, duração e quebra de tabus – viriam ofuscar a produção ao todo. Mas o filme, intrépido desde os pôsteres até as cenas finais, vai muito além de suas cenas eróticas.

Love é uma ousada (e verdadeira) história de amor, envolta por sentimentos, erros, desejos, arrependimento, desprezo e (muito) sexo. Mostrando o amor em seu aspecto mais carnal, mais íntimo. Com um brilhantismo ao seu próprio modo, Gaspar Noé entrega um filme considerado por muitos como audacioso, erótico e polêmico. Mas que é, sobretudo, honesto. Quem conhece o diretor argentino de seus filmes anteriores (Irreversível e Viagem Alucinante), já conseguiria ter uma ideia do que uma história de amor poderia virar em suas mãos. E é nada mais nada menos do que o filme mais polêmico de 2015, Love.

O enredo segue uma narrativa simples - Murphy (Karl Glusman) é um americano morando em Paris, cujo sonho era se tornar cineasta, mas que trabalha como segundo assistente diretor em pequenos projetos para a televisão. Casado e com um filho pequeno, se sente solitário e triste ao lado deles. No primeiro dia do ano, recebe uma ligação da mãe de uma ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), por quem era loucamente apaixonado. Essa é a deixa para uma série de lembranças inundarem a mente do protagonista, relembrando todos os momentos passados com a ex-namorada e suas aventuras sexuais envolvendo desde sexo oral à menage à trois. Vale ressaltar que não é mera coincidência seu nome ser o mesmo da lei de Murphy, que diz que tudo que pode dar errado, dará.

A narrativa não-linear de Love é fragmentada em cenas do presente e do passado, que seguem o fluxo dos pensamentos do protagonista. Os flashbacks alternados com o tempo atual oscilam entre cenas tristes às felizes, raivosas às calmas, melancólicas às alegres, dolorosas às prazerosas. O que gera uma constante mudança dos sentimentos não só dos personagens, como dos próprios espectadores. As cores da fotografia de Benoît Debie (Irreversível e Spring Breakers) são intensas - buscam tons avermelhados, característicos do amor e sexo - e prezam a escuridão dos cenários, combinando com os sentimentos do protagonista e construindo a atmosfera do filme. E a cinematografia cuidadosa auxilia naquilo que a cena quer transpassar – é interessante os leves enquadramentos filmados de cima que passam a sensação de distanciamento, vazio e ausência.



O romance entre Murphy e Electra é projetado de forma crua e nua, no sentido mais literal possível. O objetivo de Noé era retratar justamente a parte carnal de um relacionamento, por isso o uso de tantas cenas sexuais. Usando palavras do próprio diretor, seu objetivo era caracterizar o "sexo real e emocional". E as tais cenas controversas de sexo são apresentadas de maneira real e sem censura, com os sentimentos dos personagens transbordando a flor da pele. A trilha sonora puramente instrumental dá um toque sentimental preciso às cenas, hora com o uso de músicas clássicas como Bach e Erik Satie, hora com músicas (carregadas de solos de guitarra poderosos) de John Frusciante e Funkadelic.

Murphy e Electra formam, a princípio, um casal feliz. Mas tudo chega ao fim em um dia de luxúria com sua vizinha Omi (Klara Kristin), quando uma camisinha estourada leva à sua gravidez, destruindo tudo com Electra. Murphy então se torna pai e vê a mulher que ama indo embora. Em contraste com as lembranças passadas com a ex-namorada, temos o arrependimento, tristeza e solidão de Murphy no presente, que parece não sentir mais nada exceto essas (nada agradáveis) emoções. Anestesiado com um ópio antigo de Electra em um pequeno apartamento parisiense, o protagonista sofre com as lembranças e os efeitos colaterais de um amor perdido. Retratadas de modo simples por Noé, seu isolamento e breves divagações nos envolvem de forma arrebatadora, fazendo-nos mergulhar na melancolia de Murphy, capazes de sentir a dor de ter perdido alguém. De se sentir impotente por não poder fazer nada para mudar. "O amor é esquisito. Sinto-me como um viciado. Como pode algo tão maravilhoso doer tanto? Talvez seja melhor não amar nunca” diz Murphy, preso em seus pensamentos passados enquanto permanece deitado, sozinho, em seu apartamento.

Love não é um filme para qualquer um. É para aqueles que estão dispostos a assistir uma história de amor sem cortes. E para aqueles que se deixarem levar pela audácia de Noé, um diretor cuja principal característica é chegar ao extremo – para nos forçar a sentir alguma coisa. Termino essa breve reflexão usando palavras do próprio diretor.
"[...] o filme é honesto. Eu não me censuro em mostrar coisas que realmente existem. [...] eu queria retratar a paixão sexual tanto quanto fosse possível, porque na vida real é algo muito comum, mas você não o vê sendo adequadamente retratado nas telas. O último filme em que eu pensei que o amor foi verdadeiramente retratado foi Azul é a Cor Mais Quente, porque para elas (protagonistas do filme francês) o amor é um campo de batalha cheio de alegrias e dor. Tudo isso que faz o processo de se apaixonar se tornar um vício devido a algo químico que nosso cérebro libera. E você acaba se tornando um viciado em serotonina, dopamina e endorfina."
Divulgaí

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