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Estreou há 10 Anos: O Labirinto do Fauno

Amante da sétima arte desde a infância, Del Toro sempre apresentou uma filmografia singular ao se revezar entre filmes de grandes estúdios de Hollywood e outras produções de seu país de origem; de Mutação para A Espinha do Diabo; de Hellboy para O Labirinto do Fauno
Estreou há 10 Anos: O Labirinto do Fauno

Já considerado clássico, O Labirinto do Fauno completa 10 anos de existência em 2016. Seja pela estética apurada com que Guilermo Del Toro sempre apresenta seus filmes, ou seja pela narrativa delicada que mistura fantasia e dramas humanos. A verdade é que o filme se torna realmente memorável pela paixão com que Del Toro filma sua fábula. Paixão essa, perceptível a cada novo, e belíssimo, frame.

Amante da sétima arte desde a infância, Del Toro sempre apresentou uma filmografia singular ao se revezar entre filmes de grandes estúdios de Hollywood e outras produções de seu país de origem; de Mutação para A Espinha do Diabo; de Hellboy para O Labirinto do Fauno. Independente da origem da produção, Del Toro sempre trabalha com a fantasia em suas obras, tendo o singular talento de tornar seu mundo fantástico tão palpável quanto o real por criar camadas de sentimentos complexos.

No caso de O Labirinto do Fauno, o contraste angustiante entre a fantasia e a realidade nos faz refletir profundamente sobre o que nos torna resilientes em momentos de perturbações emocionais traumatizantes. Perturbações essas canalizadas na adorável personagem Ofelia (Ivana Baquero), que precisa encarar a realidade perturbadora de ter uma mãe enferma (Ariadna Gil) e grávida; fruto de um relacionamento com um militar sádico (Sergi López) em plena Espanha Falangista em 1944. Ao mesmo tempo, Ofelia descobre um submundo de aventuras em sua nova moradia, até que encontra um Fauno (Doug Jones), que é a reencarnação de uma princesa, há muito desaparecida, de um reino mágico.

Talvez o filme possa ser descrito, guardadas as devidas proporções, como uma mistura de A Lista de Schindler com Labirinto – A Magia do Tempo, sob a ótica macabra de Guillermo Del Toro.

Dotado de um apuro estético irrepreensível, Del Toro cria em seu filme, com ajuda do designer de produção Eugenio Caballero, um mundo de fantasia que dosa o “expressionismo alemão” e o barroco, sempre trabalhando as expectativas e realidades de modo interessante. Enquanto o portal guardado pelo Fauno é inicialmente assustador pela construção em rochas anguladas e pela crepitação gerada pelos efeitos do tempo, sempre obscuro e misterioso, ele possui uma certa aura de acolhimento pela esperança de um novo mundo mais feliz.

Já a sala de banquete do Homem Pálido apela pelo lado oposto, demonstrando inicialmente um conforto pelas cores quentes (amarelo e laranja) que preenchem o local cheio de quadros e ostentosos pilares, se tornando mórbido à medida que as fotografias são apresentadas e as cores vermelhas fortes inundam a mesa, demonstrando um teor de violência e ameaça pulsantes. Mas talvez o maior simbolismo da fantasia do filme seja representado pela árvore morta (que rivaliza com aquela que vimos em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça; com uma figura acinzentada, seca e inóspita, os galhos retorcidos surpreendentemente exibem um formato que poderia ser de um coração.



Não somente no mundo fantasioso, mas também no mundo real, a produção trabalha os ambientes com um pé no surrealismo. Se nos locais onde Ofelia se vê com criaturas fantásticas os ambientes são menores e mais aconchegados à personagem, embora sufocantes, há um contraste muito interessante com os ambientes mais abertos e opulentos que se vê na casa do rancho onde a personagem mora, nos dando a sensação de estar perdido e solitário naqueles cômodos. Em conseguinte, a fluidez dos movimentos de câmera de Del Toro nos momentos fantasiosos denuncia a paixão de Ofelia pelo seu universo particular.

Em sintonia exemplar com o design de produção, a fotografia de Guillermo Navarro (parceiro habitual de Del Toro) trabalha os tons saturados tão caros ao diretor. Sabiamente, não há uma definição clara de quais cores serão empregadas em cada universo, já que isso torna ainda mais instigante a saga pela qual passa Ofelia entre seus mundos (seria tudo imaginário? Ou não).Desta forma, vemos as cores azuladas fortes e sombrias inundarem tanto o labirinto do título, quanto ao quarto isolado no qual Ofelia se vê presa em determinado momento – geralmente ligado à noite e mistério.

Já o amarelo e vermelho pulsantes podem ser percebidos tanto nos momentos de embate de Ofelia com os seres mágicos de seus desafios, quanto no seu banheiro-refúgio – relacionados a ambientes mais fechados, calorosos e suspeitos. Além disso, a luz dos luares é belissimamente trabalhada por Navarro durante todo o filme, tendo seu ápice em uma traumatizante cena envolvendo Capitão Vidal, uma garrafa e um prisioneiro.

Cruel tanto como filme de guerra, quanto coming of age, O Labirinto do Fauno é um filme que nos traz tantas emoções conflitantes quanto a própria vida. Tendo a sabedoria de não nos privar dos atos desumanos cometidos na guerra (o nível de violência seca do filme é comparável ao do clássico de Spielberg de 1993), Del Toro nos joga em um mundo em que a desesperança e o desespero são patentes (reparem na crueza com que o diretor trabalha o terror psicológico nas cenas de interrogatório).

Se isso já não fosse suficiente, a ideia da enfermidade de Carmen fazê-la sucumbir, e deixar Ofelia à mercê do Capitão Vidal, nos deixa permanentemente apreensivos. Aliás, Del Toro cria uma atmosfera angustiante durante TODO o filme, já que os momentos em que Ofelia se vê mais “tranquila”, no mundo de fantasia, também são momentos cheios de sordidez e perigo.

Ivana Baquero (Possuída) cria em Ofelia uma criança de imagem incrivelmente doce, amorosa e delicada, o que rivaliza diretamente com suas ações cheias de coragem e bravura – sua cena final no labirinto é crível justamente pela sinceridade de seus olhares. Já Maribel Verdú (E Sua Mãe Também) encanta a todos pela sua postura de empatia por Ofelia e sua mãe, sempre demonstrando ares de carinho especial pela primeira, nos passando a ideia de que possa ver muito de si na criança.



E enquanto Ariadna Gil (Apalloosa – Uma Cidade Sem Lei) retrata com talento a fraqueza de Carmen com um tom de melancolia sincero, Sergi López (Coisas Belas e Sujas) rouba o filme para si ao criar um algoz que poderia muito bem ser parceiro do Amon Goeth de Ralph Fiennes.

Aliás, a ameaça e terror instaurados pelo filme não seria tão eficiente se não fosse a interpretação inspirada de López. Sempre com uma expressão de impassibilidade, López se nega a criar momentos histriônicos e caricaturais, demonstrando grande inteligência ao dar pequenos toques de vulnerabilidade emocional ao personagem (como ao ser confrontado por uma história de seu pai), o que torna Vidal bem real aos nossos olhos.

Capaz de atos de absurda violência (e praticamente sendo imune a ela, como na agonizante cena da sutura), o que mais assusta em Vidal é a falta de percepção da gravidade de seus atos (reparem como ele faz questão de manter a arma no rosto de um combatente durante longos segundos antes que o tiro seja disparado). Ao invés de apostar na imprevisibilidade do personagem, López nos dá garantia de que tudo que Vidal faz é pensado e justificado em sua doentia mentalidade, o que o torna ainda mais ameaçador frente aos outros personagens. Também engrandece o militar os detalhes que Del Toro impõe ao seu cotidiano sistemático, como ao fazer a barba ou limpar o seu relógio de bolso.

Del Toro traz referências orgânicas ao seu filme, como o vestido que Ofelia veste em determinado momento (igual ao de Alice em Alice no País das Maravilhas, porém, trocando o esperançoso azul por um mórbido verde) ou a perseguição no labirinto que remete a um dos filmes preferidos do diretor, O Iluminado. Porém, o design das criaturas, com FANTÁSTICOS efeitos especiais e de maquiagem de David Martí e Montse Ribé, é de uma criatividade e inspiração única.

As características do corpo do Fauno, por exemplo, são de uma riqueza de detalhes magnífica, tornando a criatura um perfeito híbrido de ser humano, animal e vegetal. Já o Homem Pálido apela para o choque ao criar uma criatura esquálida, desnuda e flácida que rivaliza com seus hábitos macabros, mas que combina com seu espírito demoníaco – e o detalhe dos olhos cria uma sensação de estranheza inquietante. Aliás, as interpretações das criaturas de Doug Jones nesse filme rivalizam com as criações do gênio Andy Serkis.

Merecendo calorosas palmas por apostar mais em efeitos práticos e de maquiagem, ao invés de computação gráfica, o filme ainda traz uma excelente trilha sonora de Javier Navarrete (A Espinha do Diabo) que nos mergulha no universo do filme pontuando as passagens com um tom de doçura melancólica sempre presente; rimando perfeitamente com a personagem principal.

O filme concorreu a prêmios em mais de 70 premiações e festivais ao redor do mundo, incluindo o Academy Awards USA, Globo de Ouro, BAFTA e o Festival de Cannes. Venceu mais de 90 prêmios, incluindo três Óscares (Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem). Sucesso de público e crítica em todo o mundo (possui 95% de aprovação no Rotten Tomatoes), o filme arrecadou mais de US$ 87 milhões para um orçamento de € 13,5 milhões.

O Labirinto do Fauno, enfim, é uma obra que permanece efetiva e emocionante graças à delicadeza de Del Toro na criação de seu universo e no carinho concedido aos seus personagens. Não é um filme que apenas nos deslumbra com estética ímpar, mas também com uma complexa densidade emocional.


10
Divulgaí

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