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Crítica: Caça-Fantasmas

No primeiro ato, apresentando as personagens, o filme arranca umas risadas bem sinceras do público, porque há muita ansiedade em conhecê-las e saber como elas vão...
Crítica: Caça-Fantasmas

Falar de Caça-Fantasmas hoje em dia é adentrar num mar de polêmicas, que vão desde a questão da representatividade do sexo feminino no cinema, passando pelo "ódio" dos fãs do filme original que não queriam um reboot, até o machismo de quem está "negativando" o filme no site do IMDB sem sequer ter assistido para ver o resultado.

Apesar de achar extremamente importante as mulheres conquistarem mais espaço no protagonismo dos filmes, desde que isso ocorra de forma natural, como tem acontecido nos últimos anos (Mad Max, Star Wars, Cloverfield e etc. são exemplos disso), que tal só para variar falarmos (do que pelo menos deveria ser) o foco principal da produção: "Caça-Fantasmas" é um bom filme ou não?

Essa nova produção, dirigida pelo ótimo Paul Feig, de filmes muito engraçados como "Missão Madrinha de Casamento (2011)" e "A Espiã que Sabia de Menos (2015)", não continua a história vivida pelos personagens no filme clássico de 1984, mas reformula completamente a trama e cria uma nova origem praticamente do "zero".  Na nova história, um fantasma assombra uma mansão em Manhattan, e conforme essa ameaça vai colocando em risco a cidade, as cientistas Erin (Kristen Wiig) e Abby (Melissa McCarthy), a engenheira Holtzmann (Kate McKinnon) e a funcionária do metrô Patty (Leslie Jones) se unem formando um grupo para combater esse mal, antes que ele acabe com tudo.

"Caça-Fantasmas" tem uma estrutura muito semelhante a um filme de origem de super-heróis, o que não é nenhum problema, haja vista que essa "fórmula" tem dado certo e há vários exemplos que provam isso. Ou seja, no início as heroínas são "fracassadas" nas suas vidas até "coincidências" da vida uni-las (ou reuni-las) por algum motivo, e a partir daí o grupo é formado e sai para combater a ameaça ou vilão.

Simples e eficiente, até porque, reinventar a roda nunca foi o objetivo da produção. No início, há uma pequena apresentação da ameaça, que naturalmente já dita o tom que vai ter o filme. É construído um clima de suspense, mas que logo é quebrado pelos fantasmas caricatos e piadas a cada dois minutos. Nesse sentido, o filme se aproxima muito mais de "Scooby-Doo" do que dos próprios "Caça-Fantasmas" originais, portanto, um espectador mais atento logo vai perceber que é esse tipo de humor básico que ele vai ter de encarar durante quase duas horas.

Então a qualidade do humor oferecido (leia-se piadas e situações engraçadas) é que vai determinar se o filme é bom ou não. A escolha do elenco poderia ter ajudado muito nesse sentido. As quatro protagonistas ou são comediantes da TV norte-americana ou fizeram shows de stand-up por muito tempo e sabem ser engraçadas, mas além disso, precisavam de um roteiro com uma história boa (acho que todos vão concordar que começo, meio, fim e motivações claras tanto do vilão quanto do protagonista  é o mínimo que todo bom filme deveria ter, certo?) e que fizesse sentido dentro do universo diegético que o filme constrói.

E é aí que está o grande problema de "Caça-Fantasmas". No primeiro ato, apresentando as personagens, o filme arranca umas risadas bem sinceras do público, porque há muita ansiedade em conhecê-las e saber como elas vão criar o logotipo e o nome do grupo, ou saber quem é o vilão que está por trás de tudo e etc. Qualquer pessoa que vá assistir a um filme com a intenção de se divertir vai ficar ansiosa por essas coisas.

Mas o roteiro infelizmente não ajuda. Na hora em que o grupo começa a se formar para desenrolar a história, as soluções que o filme encontra são ridículas. Propositalmente citei o logotipo, o nome do grupo e o vilão, porque a forma como esses elementos vitais para a história acontecem no filme são tão relapsas e esdrúxulas, que desanimam completamente. A partir daí, vira um show de gags visuais, onde as piadas se repetem à exaustão (a cada cinco minutos até o final do filme), aparecem várias participações do elenco original em cenas totalmente gratuitas e sem carisma nenhum (temos Bill Murray, Dan Aykroid, Ernie Hudson, Sigourney Weaver e até... Ozzy Osbourne?) e Chris Hemsworth como o estereótipo do secretário bonito e burro, que naturalmente é super engraçado nas primeiras três ou quatro vezes em que aparece, mas logo também perde a graça.



Não há cenas que expliquem as motivações dos personagens, entre uma piada ou outra o espectador não acredita de verdade no que as garotas querem - por exemplo, Patty entra para o grupo apenas por conhecer a cidade, mas na outra cena já está reclamando por que tomou essa decisão. Tudo bem, ela pode ser a impulsiva do grupo. Mas então, por que em outra cena outra personagem liberta um fantasma sem motivo algum? Era impulsiva também? Ou seja, mesmo que tentemos, de bom coração, elogiar o filme, nada justifica as ações das personagens, portanto, não há suspensão da descrença.

Syd Field já dizia que o bom escritor, seja em um filme ou em um livro, cria "gente verdadeira em situações reais". Faça o teste, pense se você, na situação em que a personagem se encontra, faria a mesma coisa. Portanto, essa falta de coerência do roteiro acaba prejudicando o próprio elenco e o roteiro, nada mais é, do que a "alma" do filme não é mesmo (quantas vezes você gostou de um filme que o roteiro era péssimo? Mesmo que se lembre de algum, provavelmente vai colocá-lo na categoria "guilty pleasure").

A fotografia e os efeitos visuais têm seus altos e baixos. Por mais que os efeitos combinem bastante com o tom sci-fi do filme e as várias armas diferentes que produzem efeitos bem interessantes, há um excesso de CGI, especialmente no último ato do filme. Os fantasmas são bem caricatos, como disse anteriormente, lembram bastante os filmes do Scooby-Doo, portanto nem no aspecto criativo merecem elogios.

A sequencia final, além de quase estourar os tímpanos da platéia, tem novamente a mesma manjada questão do portal que traz o perigo para o nosso mundo (estamos falando de um filme de fantasmas, por que usar a desculpa do portal de novo, por quê?) e a mesma destruição em massa que vemos todos os anos em Transformers, Tartarugas Ninja e cia. Já o novo tema da banda Fall out Boy é bem legal e contagiante, mas aparece pouquíssimo...

Sendo assim, quando afirmo que "Caça-Fantasmas" não é um bom filme, jamais seria pelo fato de ter mulheres como protagonistas, isso é ridículo e inaceitável. Mas digo isso por conta de um péssimo roteiro, que falhou em criar um vilão decente, com uma motivação decente, com personagens de personalidade e que pareçam estar dentro de uma história, com começo, meio e fim e não fiquem fazendo piadas a cada minuto, como se estivessem tentando se mostrar para o espectador do outro lado da tela.

Em um filme onde, as atitudes das personagens mudam constantemente, há tanta "baboseira pseudo-científica" quanto à criação do equipamento ou da captura dos fantasmas, que só poluíram o roteiro (era melhor mostrar como é feito do que ficar falando sobre, até porque fica na cara que elas estão explicando para o espectador e não conversando entre si), não dá para imergir na história e "comprar" aquele universo.

Infelizmente, era um projeto que tinha tudo para dar certo, diretor e elenco de personalidade e com bom timing cômico, mas o resultado ficou bem aquém de um filme que poderíamos citar como "o reboot que deu certo". Vai divertir parte do público porque é blockbuster cheio de efeitos e gags visuais, que apelam para o instinto mais básico do espectador, que é rir de trapalhadas. Mas, uma reflexão que deixo ao final do filme, para quem gostou, é que pense em tudo aquilo que viu durante duas horas e me diga o que achou da história, até porque a essência do cinema é essa, contar histórias. Tenho certeza que o espectador é inteligente e merece humor de muito mais qualidade.
Divulgaí

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