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Crítica #2: Procurando Dory

Dory é uma das personagens mais queridas do estúdio, os artistas envolvidos no projeto são excelentes profissionais, por exemplo, a trilha de Thomas Newman
Crítica #2: Procurando Dory

A espera enfim acabou! Foram longos 13 anos desde que o peixe palhaço Marlin atravessou o oceano atrás do seu filho Nemo, e surgiram muitas piadas na internet em cima disso, como se as salas fossem ter mais adultos do que crianças na estreia desta continuação da Pixar, que desta vez conta as aventuras da simpática peixinha Dory.

Antes disso, é exibido um curta-metragem muito fofo chamado "Piper", onde um filhotinho de pássaro precisa sair debaixo da asa de sua mãe para encontrar comida em alguns moluscos na beira da praia. Além de ser uma história sobre aprendizado, independência e como vencer seus medos, o curta capricha nos detalhes visuais e tem tudo a ver com a história de Dory, que vai se passar no oceano posteriormente (espectadores mais atentos juram ter visto uma foto do passarinho em "Procurando Dory").

Neste, que é o décimo sétimo filme da Pixar, um ano após as confusões da turma em "Procurando Nemo", Dory tem uma breve lembrança de quando se separou dos seus pais e decide ir atrás deles com aquele seu jeito empolgante, mas às vezes sem pensar muito antes de agir. Devido a condição delicada de Dory, graças a seu problema de memória, seus amigos Marlin e Nemo saem atrás dela para ajudá-la na busca e evitar que algo de mais grave aconteça. A direção volta a ser de Andrew Stanton (que também dirigiu "Vida de Inseto" e "Wall-E", além do fracasso comercial "John Carter"), só que desta vez com a ajuda de Angus MacLane, habituado a dirigir pequenos spin-offs para o estúdio.

Algo que a direção consegue fazer muito bem é despertar no espectador a emoção, através de uma mensagem sobre família e amizade. E o filme desperta essa sensação no público pelo clima bastante nostálgico que "Procurando Dory" tem, referenciando tanto com personagens do filme anterior, como pela estrutura do filme, muito semelhantes entre si - a relação carinhosa de Dory com seus pais na infância é bem parecida com a de Nemo e Marlin no primeiro filme, além da dica do endereço que precisa ficar sendo dito em voz alta para não ser esquecido.

Sendo assim, certamente o filme vai se conectar a um nível pessoal com muita gente, mas será que apenas a nostalgia é suficiente para sustentar um aguardado filme como este? E quanto as novas soluções que o filme encontra para o desenrolar da história?

"Procurando Dory" parece ser um misto de vários filmes, como "Quem Quer Ser um Milionário (2008)" (a personagem vai descobrindo que sabe as coisas devido a experiências passadas durante sua vida), "Toy Story" (A busca de Dory e seus amigos em encontrar sua família e voltar para casa) e é claro "Amnésia (2000)" (a questão de Dory ter apenas uns 10 segundos de memória "útil", antes que esqueça tudo de novo, lembra muito o personagem Leonard Shelby).

Alguns novos personagens realmente são bem engraçados (como as focas, apesar de me sentir mal depois, Geraldo me fez rir muito!), outros têm uma personalidade bem autêntica, como o polvo Hank, já que seu mau-humor contrasta de forma bem divertida com a otimista postura de Dory com relação a todas as coisas, formando uma amizade bastante inusitada entre os dois. Mas fica a sensação de que nenhum personagem é original de verdade. Essa originalidade - embora referencie bastante o "Pizza Planet" de Toy Story - fica por conta do ambiente onde a trama vai se desenrolar, saindo do oceano, como foi o primeiro filme e chegando a um parque aquático e Instituto para a vida marinha, narrado pela voz de Marília Gabriela (hein?).

Não é que Marília duble a voz de um personagem, mas ela é de fato uma personagem do filme. Claro que com sua voz icônica e improvável presença em uma animação como esta, o primeiro contato com a narração da apresentadora é hilário. Na verdade, não é de hoje que a Disney tem personalizado suas animações para se comunicar melhor com cada país.

Não vou nem questionar os méritos de Marília ter sido escolhida para o papel (na versão original, a atriz é Sigourney Weaver), mas a verdade que o filme exagera um pouco na repetição desta piada, algo que não agrega em nada para a trama em si (se retirássemos a personagem do filme, não faria diferença alguma). Não me entendam mal, mas após duas ou três repetições da piada, isso soou mais como uma tentativa forçada de parecer engraçado, o que em uma comédia não pode acontecer (o riso é mais gostoso quando faz sentido e contribui para a história).



"Procurando Dory", na verdade está bem dividido entre erros e acertos. O filme conta com um avanço estético impressionante, muito rico em detalhes - como os pelos das focas e as escamas de outros animais - especialmente quando os personagens estão muito próximos da "câmera". As gags cômicas funcionam muito bem e garantem boas risadas, e como eu já mencionei, o polvo coadjuvante foi uma grande contribuição para o filme pelo contraste que sua personalidade proporciona.

Até os flashbacks (que geralmente são considerados recursos muito "pobres" ao se contar uma história) explicam muito bem e de forma didática - pensando nas crianças - a carinhosa relação de Dory com seus pais, e porque é importante que eles se reencontrem e a família fique junta. Mas no último terço, o filme se perde e cai naquele conhecido problema ao se fazer uma continuação: a necessidade de se fazer algo maior do que o anterior.

Entre muitos encontros e desencontros, o que é super normal, o roteiro passa a se tornar extremamente mirabolante e encontra soluções bastante convenientes para os obstáculos a serem enfrentados por Dory e seus amigos (como se já não bastasse um deles ter o poder da camuflagem, que por si só já uma apelação incrível).

Há uma sequência no caminhão que mesmo trabalhando com vontade a suspensão da descrença é muito espalhafatosa (tem até um copo de água certinho em um lugar onde um peixe vai cair, mas se parar para pensar, por quê ele estaria ali?) e para dar uma sensação de grande aventura, essa sequência é extremamente barulhenta e "nonsense", destoando completamente do que o filme vinha construindo nas duas primeiras partes.

Outra coisa é que o problema de Dory é permanente, não é uma doença que tem cura e no final vai ficar tudo bem. Sendo assim, incomoda que o filme ignore isso na sua conclusão, sem imaginar um possível desfecho mais plausível (o filme "Como se Fosse a Primeira Vez (2004)", por exemplo, encontra uma solução bem interessante).

Então, "Procurando Dory" é uma história capaz de emocionar, que vai agradar muito aos fãs da Pixar, até porque sua estrutura é muito semelhante aos principais sucessos do estúdio. Convenhamos também que quem esperou treze anos por essa continuação, é capaz de rir de qualquer história que traga de volta os personagens do filme original, já que a direção sabe muito bem trabalhar a nostalgia neste tipo de filme (tem baleês e até uma cena pós-créditos que nada mais é do que um descarado "fan service", pois como depois de um ano os personagens ainda estão daquele jeito?).

Dory é uma das personagens mais queridas do estúdio, os artistas envolvidos no projeto são excelentes profissionais, como por exemplo, a trilha de Thomas Newman (apesar de não ser uma de suas melhores), que consegue equilibrar muito bem os momentos de aventura com temas mais melancólicos nas horas mais emocionantes do filme.

Mas fica uma sensação meio de alerta, porque se até a Pixar, conhecida por suas belíssimas histórias originais, começa a trabalhar em sequências e spin-offs ("Carros 2" já foi a prova de que ficar chovendo no molhado não dá certo), não dá para se empolgar muito com o futuro de uma indústria que cada vez mais tem se preocupado com bilheteria e menos com histórias de qualidade para seus espectadores. Foi uma bonita homenagem, mas bola para frente, até porque o universo é muito grande para ficarmos dando voltas sempre em cima da mesma história.


Divulgaí

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