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Crítica: Quarteto Fantástico

Crítica: Quarteto Fantástico

Não será novidade para ninguém se eu afirmar que “Quarteto Fantástico” (2005), de Tim Story foi um fracasso de crítica e público, e olha que a sua missão na época nem era tão complicada, pois a única adaptação desta historia existente até então era um filme feito “às pressas” para não perder os direitos de filmagem, em 1994. Bom, imagino que uma das grandes dúvidas que surgem na cabeça de um roteirista quando ele vai fazer uma releitura ou seqüência de uma história, seja prever com precisão quanto o público guardou da obra antiga como pontos positivos e o quanto precisava ser melhorado ou, em alguns casos (como O Espetacular Homem Aranha, de 2012), modificar totalmente seu antecessor com o objetivo de dar uma nova “cara” aos personagens e atingir um público diferente, quase sempre com o objetivo comercial. Como escreveu Tom Stempel, um problema de se trabalhar em cima da mesma história é a necessidade de ir além dos filmes anteriores, tanto para o roteiro como para os efeitos visuais/especiais.

Já que eu citei nosso amigo aracnídeo vamos ao seu exemplo, que funcionou bem, na medida do possível. Homem-Aranha (2002) de Sam Raimi, interpretado por Tobey Maguire era um nerd muito tímido (quase que depressivo) e brilhante na escola; apaixonado pela ruiva Mary Jane (Kirsten Dunst); foi picado por uma aranha radioativa em uma excursão do colégio; adquiriu o poder de teia “orgânico” (saindo das suas veias) e seu primeiro adversário foi o Duende Verde.

10 anos depois do primeiro filme e 5 anos após o último daquela franquia, a versão “Espetacular” (2012) de Marc Webb nos mostrou um Peter mais descolado e “de bem com a vida”; sua namorada era a loiríssima Gwen Stacy (Emma Stone); foi picado ao andar xeretando numa área restrita de uma empresa; desenvolveu o lançador de teia e teve como primeiro algoz o Homem Lagarto. Isso sem mencionar que o segundo filme mostra Peter ainda criança, algo que não tínhamos visto até então. Gostos à parte, a verdade é que foram apresentadas duas versões totalmente diferentes da mesma história, mas que funcionaram, inclusive levantando uma discussão ferrenha sobre quem seria o melhor Peter Parker.

Mas há casos em que as coisas simplesmente não dão certo. Mesmo com uma nova oportunidade de corrigir os erros cometidos anteriormente e produzir uma versão decente do filme, o novo “Quarteto Fantástico” - produzido nos estúdios Fox (e não na Marvel) - não é um desperdício total, mas comete erros que de tão simples decepcionaram ainda mais. Dirigido pelo então promissor de apenas 31 anos Josh Trank (Poder Sem Limites, 2012), logo a primeira cena do filme demonstra que a releitura seria completa: vemos um sonhador Reed Richards ainda no colégio, sendo zoado pelos colegas e reprimido pelo professor. Apenas um garoto, Ben Grimm, fica impressionado pelo discurso do jovem gênio, e sabemos que a partir dali começaria uma grande amizade entre os dois.

Trank escreveu o roteiro juntamente com Simon Kinberg (X-Men, Dias de um Futuro Esquecido) e Jeremy Slater (futuro roteirista de Death Note), o que aumentou as expectativas. Mas para não ficar focado apenas em apontar os vários defeitos do filme – até porque é possível que ele vá bem nas bilheterias – vou focar esta análise na falta de estrutura do roteiro, que para mim foi crucial no fracasso do resultado final. Como eu havia mencionado, o filme faz uma releitura por completo da história: somos apresentados lentamente a Reed (Miles Teller) e Ben (Jamie Bell), vemos como um é incompreendido por suas idéias inovadoras e o outro de certa forma também, sofrendo nas mãos do irmão mais velho.

Confesso que uma das minhas maiores dúvidas com relação ao filme era entre os irmãos Sue (Kate Mara) e Johnny Storm (Michael B. Jordan), especialmente esse último, mas o ator – que já havia tido uma grande atuação em “Fruitvale Station” – mostrou seu talento e versatilidade segurando bem um personagem limitado pelo próprio roteiro, que o tratou (não só ele na verdade) de forma unidimensional. O engraçado é que neste filme, o quarteto principal juntamente com o ator Reg E. Cathey (que interpreta o Dr. Franklin Storm e é mais conhecido por suas apetitosas costelas em House of Cards) estão muito bem (muito melhores do que Jéssica Alba e Cia.), apesar de serem obrigados a fazer leitura de falas constrangedoras do roteiro, e são a única coisa que consegue fazer o espectador ficar sentado até o final do filme. A decepção fica por conta do ótimo ator Toby Kebbell (Von Doom/Dr. Destino) que não conseguiu se encontrar no papel de vilão desta vez, apesar de recentemente ter interpretado o vilão Koba de "Planeta dos Macacos: O Confronto" de forma magistral.

A falta de estrutura do roteiro fica bem visível já na apresentação dos personagens. Considerando que o filme é curto (1 hora e 40 minutos) normalmente uma introdução, mesmo detalhada, leva até 30 minutos de filme para se preparar e partir para o segundo ato, onde eventos movem a ação adiante. Eu não conseguia parar de olhar para o relógio tentando entender o que estava acontecendo, pois já estávamos com 1 hora de filme e "a coisa" (sem trocadilho juro, até porque o filme já tem alguns muito bregas!) ainda não havia acontecido. Não que isto seja uma regra obrigatoriamente a ser obedecida, mas é preciso objetivo e na maioria das vezes, seguir o formato clássico é bem mais seguro. E ficou bem claro que Quarteto Fantástico não tinha um objetivo, então seguraram o máximo possível para que o evento trágico - que é o acidente e a transformação dos heróis - ficasse o mais próximo possível do clímax do filme (que leva ao seu ato final, a resolução do roteiro). Diga - se de passagem, é a melhor (e talvez única boa) cena de ação de todo o filme.

Então sobrou aproximadamente meia hora para que uma ameaça surgisse e nossos heróis pudessem colocar em prática todo o seu potencial. Os fãs aguardavam ansiosamente o antagonista, o Dr. Destino, o vilão que queria... espera, o que ele queria mesmo? Seja lá o que ele quisesse, qualquer motivação para destruir a Terra, repito, qualquer uma, aquela altura do filme soaria forçada e inútil, pois não houve uma preparação anterior, sequer uma cena na qual pudéssemos vê-lo se tornar o vilão e expressar todo seu ódio.  Sem falar na caracterização, que deixou bastante a desejar, assim como macaquinho lançado pela galáxia anteriormente, visivelmente artificial e uma cena do Tocha abatendo um avião que ficou bem tosca...

Dito tudo isso, não dá para defender os responsáveis por este novo "Quarteto" de ser um filme tão fraco, especialmente pelo fato de que eles tinham totais condições de terem feito algo melhor. Sequer parece um filme da Marvel, pois não temos Stan Lee, nem uma ceninha pós-créditos, até o humor não está muito inspirado, culminando em um grande desperdício de talento. De dinheiro eu não diria, porque de alguma forma, acredito que as pessoas pagarão para ver Quarteto Fantástico e muitos ainda gostarão do filme.

Quando se vai ao cinema com o objetivo de passar o tempo e se distrair com amigos, namorados(as) e etc., estamos sujeitos a ceder ao marketing agressivo e a programação dos cinemas, isso já aconteceu com todos nós pelo menos uma vez. E pensando bem, se olharmos pelo lado positivo, este filme pode ter sido uma preparação de luxo para que uma possível continuação tente colocar o trilho nos eixos novamente, mas com certeza é justo se perguntar se vale ou não a pena dar mais uma chance para mesma velha história.

Divulgaí

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