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Crítica: It - Capítulo 2

A metáfora maior da obra sobre o horror de Pennywise relacionado ao amadurecimento, infância, amizade e traumas ainda segura bem o afeto que ganhamos pelos personagens acima de qualquer coisa.
It - Capítulo 2

Quando a primeira parte de It: A Coisa foi lançada há 2 anos, havia um misto de expectativas. Por um lado, é desanimador perceber como uma obra tão diversificada como a de Stephen King ganhou tantas versões ruins no cinema – claro que as boas ficaram marcadas, como é o caso de Carrie, a Estranha (1976), O Iluminado (1980), Louca Obsessão (1990) e Um Sonho de Liberdade (1994), etc; mas grande parte sofreu nos fracassos de crítica e público. Por outro lado, a promessa de resgatar nas telas um dos livros mais icônicos do escritor prometia muito, tanto pelo potencial inerente quanto pela necessidade de dar ares novos a quem conheceu apenas a fraca versão de 1990.

Deu tudo certo e a nova empreitada conquistou as duas frentes apostando em um novo e diferente intérprete para o vilão e surfando na onda da nostalgia oitentista que tomou conta dos filmes e séries nos últimos anos. Basicamente usando as duas grandes linhas temporais originais da história (com a diferença de que os anos 80 são os da infância, ao contrário do livro, que se passa na década de 1950), os longas se separam entre 27 anos e a continuação, It – Capítulo 2, traz de volta o Clube dos Perdedores para a pequena fictícia cidade de Derry. Depois de Mike (Isaiah Mustafa) entrar em contato com Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain), Ben (Jay Ryan), Richie (Bill Hader), Eddie (James Ransone) e Stan (Andy Bean) para lembra-los da promessa que fizeram quando crianças, eles tem de retornar para enfrentar os traumas do passado e tentar acabar com Pennywise (Bill Skarsgard) de uma vez por todas.

A sequência inicial do filme anterior ficou tão marcante (tanto no livro quanto nas adaptações) que é possível notar o esforço dos realizadores para manter o impacto inicial como uma forma de reapresentar o horror de Pennywise logo de cara. A boa notícia é que funciona e as cenas que reintroduzem o público para o universo de Derry são tão efetivas quanto antes. Após um significativo movimento de câmera que imerge o espectador na escuridão dos esgotos da cidade, um plano geral de um parque de diversões se abre para mostrar os tempos atuais, quando as mortes violentas e assassinatos voltam a acontecer (há uma surpreendente participação do jovem e já consagrado diretor Xavier Dolan como o intérprete de um personagem que sofre homofobia).

Assim como em seu antecessor, o grande acerto da obra se deve novamente à caracterização de Bill Skarsgard como o antagonista. Mesmo mantendo um pouco da ironia daquela famosa versão de Tim Curry, o jovem ator traz um toque extra de loucura e bestialidade que se juntam de maneira perfeita ao comportamento de terror psicológico do palhaço que usa a inocência infantil como uma arma para se alimentar e tomar forma de acordo com os temores de cada um. Apresentando um total domínio de suas escolhas, suas aparições são sempre assustadoras (ao menos quando não são completamente substituídas pelo CGI, como falarei mais à frente) e nunca parecem se repetir, não só pelas inúmeras situações cuja lógica é beneficiada pela forma de agira da própria criatura, mas pela gama de entonações de voz e expressões doentias criadas por Skargard.

Claro que o excelente trabalho de maquiagem também auxilia o ator na hora de conferir um aspecto animalesco e aterrorizante ao subverter a imagem de um palhaço (o que, convenhamos, não era tão difícil assim). A união da interpretação com a concepção visual torna essa nova versão de Pennywise tão marcante quanto a do longa de 1990, mas de uma forma única. Nesse sentido, basta que ele mude sutilmente sua voz quando fala de forma amigável com uma criança e comece a babar como um predador prestes a atacar para que sua imagem se consolide como um dos melhores vilões de terror dos últimos anos.

Falando no terror, é curioso notar como o gênero é atribuído tão fortemente a It, mas ganha uma abordagem que costumamos apontar como problemática em outros exemplares. Se a sugestão é bem mais efetiva para criar tensão e aumentar o peso dos sustos, o diretor Andy Muschietti repete o que fez antes ao investir numa abordagem contrária.  Talentoso em criar uma estética de formas bizarras e aparência grotesca (como fez em Mama, de 2013), ele não esconde nada e prefere chocar o espectador ao colocá-lo para vivenciar o horror explicito vivido na personificação dos traumas dos personagens. Apesar de contar muito com criações digitais, há ótimas sequências que se aproximam de uma sensação de efeitos práticos que mostram o talento do cineasta no quesito – como aquele que remete a Enigma do Outro Mundo (1982) e o que se passa no antigo apartamento de Beverly (mostrado praticamente inteiro nos trailers, portanto, não os veja, se possível).

Bem mais grandiloquente que o primeiro (este tem 2h40), o filme opta por aumentar tudo que funcionou anteriormente. Infelizmente, essa escolha prejudica alguns elementos e acaba tornando a narrativa inchada demais. Se antes a nostalgia e inegável carisma do elenco infantil funcionava justamente por transformar o Clube dos Perdedores em um grupo do qual não queríamos nos despedir, é uma pena que agora eles se reveem adultos não tão interessantes quanto. Era mais fácil se identificar com os conflitos quando estes faziam parte de uma época onde a inocência era quebrada por eventos traumáticos e suas jornadas remetiam aos filmes de aventura da década de 1980 (sempre ela).

Já de seus 30 para 40 anos, acabam caindo em uma simplificação que o roteiro de Gary Dauberman não consegue contornar. Embora interpretados por ótimos atores, seus personagens adultos são versões de uma característica marcante da infância escolhida para representá-los de forma unidimensional (nesse início, há uma participação de Peter Bogdanovich como ele mesmo). Ao invés de enriquecer seus potenciais novos conflitos, a narrativa passa a depender demais das ligações com o passado. Não que isso não funcione, pois a obra é efetiva em tratar das lembranças de amizade e companheirismo de forma doce, mas também faz com que recorra a diversos flashbacks que só repetem várias situações vistas apenas há dois anos. O resultado é que a longa duração não se justifica muito, mesmo que as transições trabalhadas pela montagem de Jason Ballantine sejam plasticamente elegantes, unindo cada personagem ao seu passado através de raccords bem inventivos. Por esse motivo, há uma clara impressão de que talentos como James McAvoy e Jessica Chastain são desperdiçados – a exceção talvez fique com Bill Hader, a quem o roteiro dá surpreendentemente o melhor material para trabalhar as transformações de Richie.

Até mesmo em suas sequencias de terror, It – Capítulo 2 se mostra um pouco irregular. Basta notar como a tensão causada por Pennywise é bem mais eficiente quando permite que Skarsgard brilhe junto. Maior também em termos de escala, essas sequências exigem bem mais a utilização de CGI como se numa tentativa perpassar o que deu certo anteriormente. Desse modo, algumas delas acabam perdendo o efeito de assustar pelo horror da própria criatura no lugar de um exibicionismo mais técnico – o que é ainda mais prejudicado pela intromissão de um humor que interrompe o suspense em horas que não deveria, estragando completamente alguns momentos que poderiam ser memoráveis.

Mesmo a mitologia desse universo sendo forte o suficiente da forma como foi trabalhada no primeiro longa, fica evidente também como algo que funciona na linguagem literária não é nenhuma garantia de irá também uma adaptação cinematográfica. Se alguns fãs do livro ficarão satisfeitos e outros decepcionados, o fato é que a inserção das origens do antagonista atrapalha mais do que ajuda, ainda mais quando usados de forma não muito orgânicas pela trama. Sendo assim, todo a necessidade de explicar cronologias, artefatos e rituais soa desinteressante e ainda tira a graça da ameaça que surgia justamente do mistério sobrenatural envolvendo uma criatura tão poderosa e assustadora.

Porém, mesmo esse término da jornada dos amigos de Derry sendo bem menos “redondinho” que seu antecessor, há força o suficiente para encerrar de forma satisfatória a história do Clube dos Perdedores. A metáfora maior da obra sobre o horror de Pennywise relacionado ao amadurecimento, infância, amizade e traumas ainda segura bem o afeto que ganhamos pelos personagens acima de qualquer coisa. Mesmo insistindo em alongar o final com uma conclusão desnecessariamente piegas, a saga dos amigos permanece em um belo plano que os mostra refletidos como uma lembrança distante de seus anos dourados da infância, mostrando que o espírito da história original de Stephen King ganhou a representação que finalmente merecia.




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