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Crítica #2: IT - Capítulo Dois

Se o primeiro It (2017) acaba sendo quase que uma aventura sobre crescimento e companheirismo - sendo o medo dos protagonistas não o palhaço, mas o medo do próprio processo de perda da inocência - este agora é novamente uma aventura
IT - Capítulo Dois

Um filme precisa ter ao menos uma de duas possíveis características para justificar uma duração muito longa sem perder a atenção e o interesse de seu espectador: ou possui muita história para contar, ou possui personagens muito carismáticos que nos fazem querer acompanhá-los por muito tempo. Não caímos no erro ao dizer que It – Capítulo Dois (2019) goza de possuir ambos em seus vastos 170 minutos.

Conclusão da saga que começou a ser contada no monstruoso sucesso de 2017 It: A Coisa (pelo diretor Andy Muschietti que retorna agora para o capítulo final), este segundo filme traz os mesmos protagonistas que conhecemos na cidadezinha de Derry, 27 anos depois dos eventos do primeiro filme, no iniciar de um novo ciclo de alimentação e terror que o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard, horripilante mais uma vez) instaura na localidade. Quando crianças, os amigos integrantes do “Clube dos Otários” (“losers” no original) enfrentaram A Coisa e juraram que se ela retornasse, eles deveriam novamente se unir matá-la de uma vez por todas. Este é o ponto de partida deste longa que conclui a adaptação do imenso – e clássico – livro homônimo do autor Stephen King.

É importante mencionar que a acertada opção de dividir o livro em duas partes no cinema ocorre justamente devido ao tamanho do material original, que não divide a história em dois momentos, mas constrói sua narrativa entre idas e vindas no tempo repletas de lembranças dos personagens – a famosa primeira versão de IT de 1990 condensou tudo num filme só e deixou muita coisa de fora. Só esta escolha já mostra que há sim muito o que ser contado neste filme e ele não parece estar nos enrolando ou “esticando” a trama em momento nenhum. 27 anos se passaram e, sim, nós queremos saber o que houve com aquelas crianças, como foi lidar com um trauma tão grande, de onde vem a tal Coisa e como raios é possível destruí-la.

Mesmo assim, o maior destaque deste filme está nos seus protagonistas. Parecia impossível reunir um elenco tão carismático quanto foram as crianças que estrelaram a primeira parte, mas o impossível aconteceu. Além de assustadoramente parecidos – muito mesmo – com suas contrapartes infantis, Jessica Chastain (como Beverly), Isaiah Mustafa (Mike), James Ransone (Eddie), Andy Bean (Stanley), Jay Ryan (Ben). James McAvoy (Bill) e Bill Hader (impagável como Ritchie) nos entregam o mesmo carisma e sintonia das crianças e o fato de nos importarmos genuinamente com eles é o responsável absoluto pela sequência não se tornar cansativa demais.

As qualidades técnicas da direção de Muschietti (que aparece no fundo de uma das cenas num cameo disfarçado) também retornam, mas desta vez numa escala muito maior, e há muita computação gráfica – o que em alguns momentos é muito bom e em outros nem tanto. A história de It, tanto o livro quanto o filme, embora se vendam como contos de terror, passeiam muito bem entre gêneros distintos. É bem verdade que temos criaturas horríveis e um palhaço demoníaco devorando crianças graficamente em tela, mas de todos os aspectos que It deseja abordar, o terror é o menor deles. O excessivo uso de computação gráfica, ainda que em momentos muito bem construídos que geram bons sustos, acaba tirando de nós um pouco da identificação que o gênero terror precisa ter conosco para ser competente – eu sinto medo porque poderia ser eu, poderia ser na minha casa, poderia ser com meus amigos. Quando nós exageramos no design das ameaças, a inverossimilhança delas nos afasta de um medo genuíno, porque aquilo é estranho demais.

E eu nem estou falando da conclusão completamente fora da caixinha que o filme nos apresenta. Embora não tenha lido, eu conheço o livro e sei que a intenção de Stephen King – que faz uma divertida ponta numa cena em que zomba da crítica que sabe o final da história tem – com a resolução do mistério do palhaço Pennywise é uma coisa muito mais psicológica e subjetiva, que impõe medo pela simples incapacidade humana de compreensão do que se apresenta diante dos olhos – como fez muito bem o escritor H. P. Lovecraft, de onde King bebe muito. Porém, a conclusão escalona de uma forma tão inacreditável que se torna impossível se colocar na pele dos personagens e, por isso, sentir o medo deles. O desfecho funciona, mas muito mais pelo apego que construímos com eles, mas não é mais um filme “de terror” que estamos acompanhando no último terço do longa.

Quando o elemento do medo desaparece, o que nos sobra é um thriller de suspense em que torcemos para nossos heróis vencerem, não um monstro ou uma ameaça do mal, mas um vilão personificado. Tudo funciona muito bem, mas confesso que para uma história que foi tão identificável e próxima de nós em seu primeiro momento, eu esperava uma conclusão diferente que não acabasse caindo numa certa pieguice ao final para passar sua grande mensagem sobre a importância da amizade e do amadurecimento – que o seu tema desde o início.

Se o primeiro It (2017) acaba sendo quase que uma aventura sobre crescimento e companheirismo - sendo o medo dos protagonistas não o palhaço, mas o medo do próprio processo de perda da inocência - este agora é novamente uma aventura, mas sobre aceitação, autoconhecimento e a difícil missão que é enfrentar e fazer as pazes com nosso passado para chegar lá.



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