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Crítica: Tolkien

O maior mérito de Tolkien é nos mostrar o homem por trás da lenda, e trazer com isso um discurso muito interessante sobre amizade masculina.
Tolkien

“Num buraco no chão, vivia um Hobbit”, assim começa o famoso livro “O Hobbit”, do escritor inglês J.R.R. Tolkien, e é a partir desta frase que se inicia todo o mundo da saga de “O Senhor dos Anéis” que viria a ser uma das obras mais lidas de todos os tempos até os dias de hoje. Tamanha é a fama de toda saga, que há entre muitos dos admiradores dos livros um interesse particular pela vida de seu criador. É, pois, no anseio de atender a este interesse que o diretor finlandês Dome Karukoski nos dá Tolkien (2019), produzido pelo selo de “filmes de arte” da produtora Twentieth Century Fox (a Fox Searchlight) e faz da vida do conhecido autor e acadêmico um filme sensível e bonito sobre amizade, companheirismo e arte.

Tolkien baseia toda sua trama em dois relacionamentos fortes e fundamentais da vida do escritor. São eles a relação com a esposa - e amor de sua vida – Edith Bratt (a quem a atriz Lily Collins empresta delicadeza e simplicidade genuinamente apaixonantes) e com seus três melhores amigos Gilson (Patrick Gibson), Geoffrey (Anthony Boyle) e Christopher (Tom Glynn-Carney), com quem Ronald (como o protagonista era conhecido pelos íntimos) formava um clube conhecido como “T.C.B.S.” (a sigla em inglês para Clube do Chá e Sociedade Barrowiana). Há outros personagens que percebemos serem figuras marcantes como a mãe que morre prematuramente, o padre que foi seu tutor até a maioridade, ou um professor de Oxford que foi determinante no seu interesse por línguas antigas – o que viria a ser o cerne dos livros de O Senhor dos Anéis anos mais tarde. Mesmo assim, o foco principal fica com a futura – por quase todo o filme – esposa e com os melhores amigos. Até a Primeira Guerra Mundial e a notória participação de Tolkien no conflito serve mais como elemento narrativo para reforçar esses laços – como a saudade da amada e a preocupação com os companheiros que também lutavam no período.

O filme é baseado na biografia autorizada (“J. R. R. Tolkien – Uma Biografia”, lançada no Brasil em 2018 pela Editora HarperCollins) do biógrafo Humphrey Carpenter, que teve acesso à inúmeras correspondências pessoais do escritor, assim como pôde conversar com amigos e familiares. Através destas fontes riquíssimas, Carpenter chegou à história do forte laço de amizade de um jovem de origem humilde interessado em línguas estranhas com outros rapazes com aspirações artísticas e do vínculo intelectual e fraterno que dali emergiu e inspirou muito do que seria a obra de Tolkien durante toda sua vida – O Senhor dos Anéis é cheio de amizades significativas como as de Frodo e Sam, Legolas e Gimli ou da própria “Sociedade do Anel” do primeiro livro, e agora entendemos o porquê.

A participação na Guerra, a infância na África do Sul - onde nasceu -, sua relação fortíssima com a sua fé católica ou mesmo outras amizades notáveis na vida do autor – como com o criador de As Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis – perdem espaço no longa – diferentemente do livro - para que Tolkien seja um filme sobre, de um jeito quase brega, amor. Não espere que muito seja dito sobre a “saga do anel” tão lembrada. Vemos poucas referências à obra que o tornaria famoso – só em breves momentos muito bem colocados – e nem que o protagonista seja mostrado como um gênio absoluto muito diferente de todos ao seu redor desde o nascimento – como é comum em biografias do gênero. O John Ronald Reuel (J.R.R.) interpretado com muita competência por Nicholas Hoult (o “Fera” dos filmes mais recentes dos X-men) é uma pessoa altamente identificável. Mesmo muitíssimo talentoso, Tolkien não é excessivamente estranho ou brilhante. É um rapaz com aspirações grandes – como seus amigos – e alterna momentos em que mostra uma certa arrogância com falhas, desleixos, bom humor, tropeços e fracassos.

O maior mérito de Tolkien é nos mostrar o homem por trás da lenda, e trazer com isso um discurso muito interessante sobre amizade masculina. Tolkien e seus amigos se amam, fraternalmente, e demonstram isso. Naquele círculo de intelectualidade e arte, os homens podem ser frágeis sem deixar de ser fortes – todos lutaram bravamente na Primeira Guerra, por exemplo, mesmo os mais abastados entre eles – e há a lição da importância que uma amizade sincera pode ter para sempre na vida de alguém. Talvez falte um pouco de emoção no roteiro para capturar as pessoas que nada sabem ou pouco se interessam pela história do autor britânico – justamente por sua preocupação em nos mostrar Tolkien como uma pessoa comum de seu tempo, alguém comum que faria grandes coisas, mas ainda não fez. Mas a opção por seguir uma abordagem menos fantasiosa é acertada e sublime, e é capaz de emocionar ao se fazer uma obra sobre ternura e inteligência contra um mundo de truculência e ignorância.


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