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Crítica: Sobibor

Sobibor é um filme bom e comovente, mas não se pode deixar de observar que Khabenskiy tenha confiado muito no impacto inerente da própria história ao tentar intensificá-la tanto.
Sobibor

Filmes sobre o holocausto desempenham um papel simbólico na memória histórica, mas há de se ter cautela na medida em que a barbárie pode estetizá-los e em alguns momentos elevar a narrativa a um conjunto estereotipado de horrores e heroísmo. A seleção oficial da Rússia para concorrer ao Oscar no ano passado, Sobibor, na direção de Konstantin Khabenskiy, não é o primeiro filme a dramatizar os horrores do campo de extermínio nazista no leste da Polônia e a subsequente revolta e fuga em massa de centenas de prisioneiros do local em 1943. Houve um bom filme britânico para TV sobre o assunto nos anos 80 chamado Fuga de Sobibor estrelado por Rutger Hauer, com bastante violência gráfica e um elevado senso de horror.

A estréia na direção de Khabenskiy, ator russo que virou diretor e conhecido com os filmes Guardiões da Noite (2004) e Guardiões do Dia (2006), nos traz um filme sobre a revolta e a fuga em massa do campo de concentração de Sobibor, onde cerca de 250 mil judeus foram mortos. Convencional em sua narração, mas ainda assim apresentando um relato visceral e emocionante o filme, tem valores de produção muito altos e é bem interessante porque vem de uma perspectiva russa dos fatos.

Em outubro de 1943, seis meses após a Revolta do Gueto de Varsóvia, cerca de 600 prisioneiros de trabalho escravo do campo de extermínio de Sobibor descobrem que o exército russo está começando a entrar pelo oeste contra a Alemanha. Localizado no sudeste de Varsóvia, a população predominantemente masculina do campo de extermínio planeja uma revolta quando percebe a probabilidade de que o campo seja liquidado em breve e que todos sejam assassinados. Liderados por Sasha (Konstantin Khabensky), judeu fiel a Stalin e oficial do Exército Vermelho Soviético antes de ser capturado, eles planejam matar o maior número possível de oficiais da SS e fugir pelo portão principal.

O acampamento é supervisionado pelo sádico Karl Frenzel (Christopher Lambert), que mantém um comportamento aparentemente entediado com as operações brutais no acampamento enquanto os outros oficiais vão do casualmente cruel ao claramente psicótico. Um dos traços que Frenzel apresenta é uma patologia sexual em relação as belas mulheres judias, o que parece ser a única razão pela qual os roteiristas incluíram o papel da marcante ruiva Selma (Mariya Kozhevnikova), que cria uma expectativa de arco dentro da história que não acontece.

Dividido em 13 dias, a narrativa de Sobibor gradualmente acumula força no transcorrer dos atos atingindo maior intensidade no seu final, mas o filme parece sofrer de certa pressão por uma teatralidade que às vezes ultrapassada a linha dramática estabelecida e cai em armadilhas do exagero. É o que acontece em escolhas como o agravamento da escalada de desumanização que culmina em uma orgia noturna na qual os nazistas fazem os judeus puxá-los em carroças, chicoteando-os enquanto atiram em outros como se estivéssemos apreciando um carnaval no inferno. Mas, apesar dos exageros, Khabenskiy não foge de exibições gráficas de miséria humana e dor e não minimiza o impacto visceral da violência, nem o efeito que tem sobre quem a pratica. Apesar de sermos apresentados a uma variedade de prisioneiros, durante grande parte do tempo o diretor esforça-se para individualizá-los fugindo de arquétipos e dando ao personagem central a sua própria figura de herói salvador.

Khabenskiy e o fotógrafo Ramunas Greicius procuram dar muita atenção estética aos visuais. A atmosfera do campo de extermínio, sempre envolto em névoa e fumaça contrasta artisticamente nas luzes dos holofotes de busca e dão ao filme o ar visual de um quase horror gótico. Ele aproveita ao máximo as tomadas noturnas e organiza bem as cenas, dando ao campo de extermínio uma beleza assombrosa. Seu maior erro, porém, ocorre no clímax, durante a fuga, quando ele intercala constantemente o caos com tiros e as execuções de vários personagens mostradas em excessivas câmeras lentas, o que enfraquece a intensidade da ação frenética que ele orquestra durante os atos anteriores com tanto sucesso. O desejo de destacar personagens na confusão formada é compreensível, mas nos tira do momento e nos rompe de limites definidos em face da realidade. O filme depende muito da música coral melancólica para ressaltar a natureza épica da desumanidade em exibição, o que às vezes funciona e em outros momentos simplesmente parece demais.

À medida que a revolta se aproxima e avança, Sobibor se torna um exame de violência, especialmente no que separa os atos horríveis dos prisioneiros dos assassinatos de seus captores. Entre as muitas representações bem sucedidas do filme estão a união dos prisioneiros e a destruição de seus opositores pela violência emocional de suas próprias posições de poder. Talvez o mais fascinante no filme seja a representação dos oficiais da SS que são retratados como monstros, mas também como homens que ficam entorpecidos com a rotina de assassinato em massa. Embora fisicamente surrados os oprimidos estão em melhor forma mental do que os nazistas, que, acabam loucos com o que são forçados a fazer.

Sobibor é um filme bom e comovente, mas não se pode deixar de observar que Khabenskiy tenha confiado muito no impacto inerente da própria história ao tentar intensificá-la tanto. Carece de alguma profundidade e complexidade, mas há uma potência angustiante e dispara a adrenalina. É cheio de suspense e ressonância, sem se deter em seu ambiente claustrofóbico onde o cineasta acrescenta paixão e verossimilhança suficientes para nos manter comprometidos.



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