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Crítica: Venom

Sobra pouco a se elogiar em Venom e nem as cenas pós-créditos conseguem criar muito expectativa em relação a continuações (com exceção de uma, mas fica pra quando conferirem o filme...)
Venom

É preciso reconhecer que a história do personagem que dá nome ao título do filme é interessante: em 1982, a Marvel Comics adquiriu a ideia sobre um novo uniforme para o Homem-Aranha, a partir de uma carta de um leitor, por apenas 220 dólares. O que era inicialmente uma questão estética acabou sendo inserida no conceito do Simbionte, um ser alienígena que se funde aos hospedeiros e, no caso da origem nos quadrinhos, o novo uniforme que fazia o herói de Peter Parker ficar mais forte e agressivo. A versão cinematográfica que todos se lembram é do pra lá de problemático Homem-Aranha 3 (Sam Raimi, 2007), que teve como intérprete Topher Grace em um personagem que desagradou tanto fãs das HQ´s quanto o público em geral. Agora chega aos cinemas uma nova adaptação da Sony de outra de suas famosas vítimas: o jornalista Eddie Brock. Onze anos depois, todos esperavam a nova chance para a redenção com os fãs. Infelizmente, Venom (2018) se encaixa como mais uma decepção de um dos personagens mais celebrados do universo dos quadrinhos.  

Brock (Tom Hardy) tem como maior motivação um jornalismo de guerrilha que o faz investigar nas ruas todos os tipos de escândalos envolvendo problemas políticos e sociais. Quando um acidente ocorrido com um foguete tripulado da Life Foundation, instituto de pesquisas científicas liderado pelo Dr. Carlton Drake (Riz Ahmed), revela um mistério envolvendo experiências com cobaias humanas, ele parte para descobrir a verdade. Só que no caminho, acaba sendo infectado por um organismo extraterrestre que o transforma num assassino capaz de controlar seu corpo e invadir sua mente.  

Certamente há um material interessante aí mesmo para aqueles que não são familiarizados com os quadrinhos (o caso do que vos escreve). Considerando ainda os trailers, a ideia de construir o protagonista e o antagonista (um deles) em um só corpo tinha o potencial de trazer um desenvolvimento de conflitos interessante. Ao mesmo tempo que a obra cumpre seu papel como um exemplar de gênero, haveria um espaço para trabalhar o embate interior Venom/Brock com um aditivo muito bem-vindo que só enriqueceria mais um entre dezenas de filmes de super-heróis para uma plateia já calejada.

Mas a coisa fica só na promessa e esse, que deveria ser o aspecto mais intrigante, acaba ficando pela superfície. De um lado, o homem que perdeu o emprego e a noiva, do outro o parasita que traz o pior dele à tona. A dualidade que tanto prometia uma profundidade psicológica não tarda a recorrer a uma dinâmica óbvia e repetitiva. O papel de “voz da consciência” que Venom exerce sobre Brock se resume a um lembrete constante da natureza de seu poder através de diálogos expositivos que não deixam que o público descubra sozinho o efeito: “Eu sei os seus pensamentos” e “nós dois estamos juntos” são o tipo de discurso que acaba tomando conta da interação entre os personagens. E se há uma construção cuidadosa entre essa relação nos materiais de origem (só bastou uma rápida pesquisa), aqui o roteiro, escrito por Scott Rosenberg, Jeff Pinkner, Kelly Marcel e Will Beall, muda a lógica sem muito desenvolvimento, alterando a chave inimigo/parceiro depois de um acontecimento que não convence muito.

Como se não bastasse a trama, a caracterização de Tom Hardy parece ter ficado à mercê de uma confusão de tons narrativos. Exageradamente afetado, o ator não soube encontrar uma linha que demostrasse uma transformação palpável do personagem. A tendência em ser explosivo e hiperativo já faz parte de sua personalidade mesmo antes da infecção, assim como as caras e bocas necessárias para atender à cota de humor sempre presente no gênero – este não funciona durante toda a projeção, com exceção a uma ou duas tiradas que só surtem efeito porque são as únicas que parecem orgânicas. Com isso, Eddie Brock ora parece estar em uma comédia meio satírica, ora em uma mistura estranha de super-herói e filme B, sendo que nem sempre as duas coisas estão no lugar certo. Nem a presença de um componente pessoal na trama surte efeito, principalmente no papel de Anne (Michelle Williams), que até tem uma química com o noivo ali no comecinho, mas a simpatia pela relação fica no papel e pouco importa o destino do romance.

Pode-se argumentar que o longa tem uma certa ideia de que brincará com alguns clichês e caricaturas, mas no fim das contas o que chega ao espectador é mesmo um desleixo ao invés de algo proposital. Não só em relação ao desenvolvimento de personagens, mas a própria trama não consegue despertar muito interesse, soando genérica demais (concordando com algumas das impressões iniciais nos EUA sobre já nascer datado) em seu maniqueísmo de dominação vs salvação do planeta. O verdadeiro vilão até parece um personagem interessante ao referenciar a imagem do visionário da tecnologia que usa o discurso da ciência para justificar escolhas antiéticas, mas posteriormente cai na unidimensionalidade – aliás, também cai na incompetência ao contrariar sua suposta genialidade com uma das empresas mais mal geridas do universo cinematográfico, onde se usam drones ultra desenvolvidos para perseguir alguém, mas não há sequer uma câmera de vigilância que consiga descobrir quem invadiu e infiltrou um desafeto do dono num dos (supostamente) laboratórios mais importantes do mundo.

Mas tirando um pouco de lado o papo sobre trama e personagens, há o que sempre se espera de um filme desse porte: ótimas cenas de ação. A boa notícia é que elas estão lá e até aparecem nos trailers, a má é que você será incapaz de enxergar a maioria delas. Com exceção de uma boa sequência de perseguição de carros e motos (que também sofre um pouco do problema, mas ainda diverte), o restante é prejudicado pela direção completamente caótica de Ruben Fleischer (Zumbilândia, Caça aos Gângsteres). Se há pouco tempo celebrei a excelência de Missão: Impossível – Efeito Fallout no quesito, aqui se faz exatamente o contrário, principalmente nas cenas de confronto. É uma confusão generalizada de planos fechados, movimentos rápidos e uma montagem desordenada capaz de causar um mal-estar, o que é uma mais uma grande decepção na parte que mais era esperada por um público que já viu muito, muito mais.

Não só na questão da ação, a bagunça na direção obrigou o design de produção e os efeitos especiais a acompanharem o exagero do movimento. Apesar de esteticamente razoável nas primeiras vezes, a criatura perde bastante credibilidade quando surge saltitando como uma pulga sem qualquer efeito que traduza uma sensação de massa (um problema que seria comum em um CGI de 15 anos atrás), além de tornar suas aparições bem repetitivas e sem muita inventividade. Nesse aspecto (mais um), novamente o longa parece envelhecido e incapaz de sequer impressionar alguém que tenha assistido a meia dúzia de blockbusters dos anos 2000 para cá.

Sobra pouco a se elogiar em Venom e nem as cenas pós-créditos conseguem criar muito expectativa em relação a continuações (com exceção de uma, mas fica pra quando conferirem o filme...). A dificuldade de manter o melhor momento das adaptações de quadrinhos no topo está cada vez maior e talvez esse seja um aviso cada vez mais frequente para a exigência do espectador em esperar o maior e o melhor a cada entrada na sala de um cinema.

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