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Crítica: Nasce Uma Estrela

Embora o dueto de “Shallow” acenda em nós os românticos adormecidos que sempre vibram com o florescer de um amor hollywoodiano, as interpretações musicais só evoluem com o passar do filme, resultando numa grandiosa performance de Gaga ao final do longa...
Nasce Uma Estrela

Cada vez mais o cinema comprova que estamos na década dos remakes e reboots. Após tantas histórias clássicas (ou nem tanto) dos mais diversos momentos da história terem ganhado adaptações contemporâneas nos último anos, chegou a vez de Nasce Uma Estrela ser adaptado pela quarta vez. Sim. Pela quarta vez.

Embora muitos não saibam, o filme original foi lançado em 1937, estrelado por Janet Gaynor, vindo da tentativa de contar uma história inspirada na relação entre Barbara Stanwyck e Frank Fay. Foi um dos primeiros filmes a abordar os trágicos bastidores da fama em Hollywood. As demais adaptações ocorreram em 1954, estrelando Judy Garland e James Mason, e em 1977, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson. Embora detalhes da história fossem sempre alterados, como o ramo artístico no qual os personagens trabalhavam (que variou entre cinema, teatro e música), a essência de mostrar as consequências da fama num relacionamento permaneceu a mesma. E isso não é diferente na versão de 2018.

O casal protagonista ganha bela forma nas atuações de Lady Gaga e Bradley Cooper (este último assume não só o papel de protagonista, mas também de diretor do longa), e o filme constrói sua história, assim como na versão de 77, sobre os palcos musicais dos Estados Unidos. Gaga interpreta a jovem cantora Ally, que faz pequenos show ocasionalmente num bar gay junto a Drag Queens, até que é descoberta pelo renomado artista Jackson Maine. A paixão entre os dois floresce em pouco tempo e Jackson acaba trazendo Ally para o estrelato, quando coloca-a junto no palco com ele e apresenta sua voz para o grande público. O enredo acompanha então uma história forte sobre um relacionamento que tenta sobreviver aos vícios e alcoolismo do personagem de Cooper, enquanto as carreiras de Ally e Jackson seguem direções distintas.

A história do filme não segue um caminho complexo, nem mesmo original. Ainda que o filme apenas remonte o plot já trabalhado três vezes nas versões anteriores, é fato que em muitos momentos ao longo dos 135 minutos de trama somos levados a indagar se o roteiro fará escolhas ousadas e se distanciará do resultado final de seus antecessores. É interessante como os caminhos escolhidos pelo enredo, por várias vezes, nos levam a crer que, em algum momento do longa, o personagem de Cooper ganhará uma conotação negativa, ou que o relacionamento entre eles se tornará abusivo. O filme agrada, entretanto, ao fazer exatamente o contrário, quebrando muitas vezes as expectativas do público, e buscando tratar o vício e os problemas dos protagonistas sob um foco realista.

Sendo possível dividir o longa entre três atos - sendo estes o início do relacionamento, o desenvolvimento da carreira de ambos, e a conclusão dos fatos – é possível dizer que o início e o final são os momentos mais contagiantes e impactantes do longa. Talvez porque a segunda etapa da jornada da personagem Ally seja “muito fácil”, visto que todos os obstáculos que surgem para a personagem ao longo da trama são vencidos com muita facilidade. Isso faz com que o segundo ato do filme seja, em alguns momentos, arrastado. O longa se perde ali no meio, nos fazendo questionar por diversas vezes qual foco é central dentre os plots - que vão desde a reprovação de Jackson pelas tendências Pop na carreira de Ally, até a relação entre o astro e seu irmão mais velho – que pouco se desenvolvem e não se concluem.

Mas é aí que está a escolha da ótica “realista” na história. É como se o próprio desenvolvimento do filme fosse, por diversas vezes, barrado pelo alcoolismo de Jackson. O que, de certa forma, é essencial para montar o cenário que leva às decisões finais do enredo.

É fato que isso só é possível graças à atuação brilhante de Bradley Cooper. O ator, comumente conhecido por dar vida a galãs irresistíveis, surpreende ao montar um personagem tão sugado pelos seus vícios que, muitas vezes, apenas olhar para os movimentos e expressões de Jackson Maine é angustiante e exaustivo (num bom sentido, já que a intenção do personagem é de fato retratar o vício alcoólico com realidade). Percebe-se com nitidez se o personagem bebeu ou não nas últimas horas pela atuação de Cooper, que distingue muito bem as faces e trejeitos do Jackson sóbrio das do astro entorpecido.

É somente em algumas cenas de maior carga emocional que o ator decepciona, principalmente quando tenta nos convencer de um choro que não funciona e parece pouco profissional.

A atuação de Lady Gaga caminha bem ao lado de seu parceiro de cena. É fato inquestionável que não apenas Gaga é a estrela do filme, como também Ally é a protagonista da trama. É notável que tanto a atriz quando a direção do filme optaram por descartar a ideia da frágil mocinha que sonha com o estrelato, incorporando um girl power latente que permite a Ally já dar início ao filme socando o rosto de um dos fãs inconvenientes de Jackson.

Após ter ganhado um Globo de Ouro em 2016 pela sua atuação em American Horror Story, as probabilidades da atriz conquistar seu primeiros Oscar são grandes. A atuação de Gaga garante força, veracidade e um talento musical estupendo à personagem. É interessante como o roteiro e a direção também escolheram adaptar nuances da história para realidades de convívio da cantora pop, como as várias menções às críticas pelo formato de seu nariz, e seu surgimento de um grupo de Drag Queens e LGBTs.

É nesse ponto que comentamos sobre como a direção de Bradley Cooper trabalha durante todo o longa tentando encontrar o equilíbrio entre um filme indie e um blockbuster pop. A escolha de ângulos de um estilo naturalista remonta ao ritmo do início dos anos 70, o que nos faz sentir como espectadores dentro da cena, compartilhando das emoções dos personagens. É claro que, em alguns pontos, o trabalho de estreia do diretor comete alguns deslizes – como, por exemplo, na escolha de usar os flares na fotografia de forma exagerada – mas, no geral, seu trabalho como um todo é satisfatório.

Assim, mesmo com falhas no roteiro e no desenvolvimento de profundidade dos personagens, o filme funciona bem.

Caso após todos os últimos pontos o espectador ainda não tenha sido, ao menos, impactado pelo longa, é impossível sair da sala de cinema sem se sentir tocado pela trilha sonora. As canções são memoráveis, e Cooper e Gaga entregam o melhor de seus lados musicais.

Embora o dueto de “Shallow” acenda em nós os românticos adormecidos que sempre vibram com o florescer de um amor hollywoodiano, as interpretações musicais só evoluem com o passar do filme, resultando numa grandiosa performance de Gaga ao final do longa, com “I'll Never Love Again”, que sofre uma sábia interrupção na escolha do diretor, sendo cortada para outro ambiente – o que fecha a última cena de Nasce Uma Estrela com um verdadeiro soco no estômago.

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