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Lista Interativa #5 – Horror Alienígena: Top 10 Filmes de Terror Espacial

O auge dos filmes de terror sci-fi foi justamente nas décadas de 1950 e 1960. E o fato não é à toa, já que o interesse da indústria a respeito desses temas foi oriundo do temor que a população mundial tinha em relação ao espaço sideral.
Lista Interativa #5 – Horror Alienígena: Top 10 Filmes de Terror Espacial

É isso aí meus caros Loucos por Filmes. Chegou a hora de publicarmos o resultado de mais uma “Lista Interativa”. No mês de maio, a enquete foi referente aos melhores filmes de horror alienígena já lançados. O tema foi escolhido em comemoração à duas grandes estreias de filmes pertencentes a esse gênero: o singelo e eficiente Vida, e o mais novo capítulo da franquia Alien, Alien: Covenant.

Para falar desse subgênero é importante fazermos uma contextualização histórica. O auge dos filmes de terror sci-fi foi justamente nas décadas de 1950 e 1960. E o fato não é à toa, já que o interesse da indústria a respeito desses temas foi oriundo do temor que a população mundial tinha em relação ao espaço sideral. O mundo estava em plena Guerra Fria, e a “Corrida Espacial” entre as duas potências mundiais da época (EUA e União Soviética) crescia exponencialmente. Como o homem estava a um passo de descobrir um ambiente, até então, desconhecido, havia várias fantasias sobre os horrores que poderiam estar nos esperando.

Sem contar que essa, também, foi a era dos filmes de terror envolvendo a ciência e os terrores da radiação, já que o mundo havia acabado de presenciar a tragédia das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Consequentemente, obras com pessoas sofrendo ação de experimentos científicos, e monstros oriundos de exposição à radiação ganharam espaço nos cinemas. Longas como O Mundo em Perigo, Tarantula, O Estranho de um Mundo Perdido, O Homem com os Olhos de Raio-X, O Incrível Homem que Encolheu e O Cérebro que Não Queria Morrer fizeram fama nas diversas sessões “matinée” dessa geração.

Além disso, não podemos nos esquecer dos DIVERSOS casos de OVNIs registrados amadoramente por câmeras e filmadoras por diversas pessoas ao redor do mundo; sem contar as famosas “marcas” encontradas em plantações que poderiam ser dialetos alienígenas, algo inclusive trabalhado no famoso Sinais, de M. Night Shyamalan. E quem não lembra da misteriosa “Área 51”, parte da Força Aérea estadunidense no deserto de Nevada, que estaria mantendo segredos a respeitos de alienígenas e OVNIs? Ou até mesmo do “Caso Roswell”?

Enfim, histórias, lendas e teorias da conspiração não faltam para nos trazer um arrepio na espinha a respeito das ameaças, ou não, que estão presentes no espaço sideral. E o cinema se aproveitou de MUITAS delas para nos trazer filmes verdadeiramente aterrorizantes.

Para selecionar os filmes da lista, foram determinadas algumas regras:

  1. Os filmes, não necessariamente, precisariam ser categorizados somente como terror. Porém, o terror teria que ser um dos principais componentes daquela história; seja por homenagens ao gênero, ou por contar com alienígenas realmente aterradores. Desta forma, filmes como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, O Dia em que a Terra Parou, os diversos capítulos de Star Trek, Tropas Estelares e No Limite do Amanhã, por exemplo, foram desconsiderados.
  2. Filmes de terror que tenham apenas elementos rasteiros de ameaça alienígena, como é o caso da queda de uma possível sonda espacial em A Noite dos Mortos Vivos (1968), também não foram considerados.
  3. Sequências também não entraram na lista, portanto, por melhor que seja Aliens, o Resgate, ele não se enquadrava dentro das regras.
  4. Além de serem originais, os filmes precisariam se enquadrar como clássicos ou cults; demonstrando criatividade inovação. Além de terem, reconhecidamente, marcado gerações de alguma forma.

A escolha dos filmes foi divido da seguinte forma: dois filmes com os alienígenas mais famosos do cinema (Alien e Predador); dois filmes clássicos do gênero não tão conhecidos quanto os anteriores (O Enigma de Outro Mundo e Invasores de Corpos); dois filmes clássicos do auge do subgênero nas décadas de 50/60 (Vampiros de Almas e Guerra dos Mundos); dois filmes cult reverenciados pelos fãs do gênero (Fogo no Céu e Eles Vivem); e dois filmes mais descompromissados, com viés de humor, que também marcaram sua época (A Bolha Assassina e Palhaços Assassinos do Espaço Sideral).

Vários ouros filmes também poderiam ter entrado na lista. Mas não se preocupem; abaixo de cada resenha, como já é tradição da lista, sempre haverá a dica de algum outro filme semelhante. Além disso, no fim da matéria, haverá uma lista com outros filmes que não foram citados anteriormente.

A enquete contou com 3679 votos dos frequentadores do site. Para o desempate de filmes que receberam a mesma quantidade de votos, foi utilizada uma média das notas que os filmes receberam no “Rotten Tomatoes” e no “IMDb”.

Portanto, fiquem atentos ao céu; fujam para o mais longe possível quando avistarem luzes voadoras desconhecidas; garantam seus óculos escuros da grife John Nada; se houver uma contaminação alienígena não confiem em ninguém e se, durante uma viagem interestelar, receber um sinal de socorro em um planeta desconhecido, não vá verificar. Ah sim, é claro, evitem chegar perto de palhaços bizarros e gosmas rosa-choque!

10 – Fogo no Céu (Fire in the Sky, 1993) de Robert Lieberman

0% dos votos

Fogo no Céu não é um clássico do gênero. Na verdade, analisando o conjunto da obra, o filme de 1993 é apenas regular. Porém, o filme marcou sua época (o mesmo ano em que se iniciou a mais famosa série do mundo sobre alienígenas, Arquivo X), ao nos trazer uma “história verídica” sobre abdução. As cenas de terror do filme, envolvendo seres de outros planetas, se destacaram muito pelo modo aterrorizante como aquilo poderia ocorrer e marcaram o imaginário popular nos anos 90. Somado a isso, o filme foi extensamente reprisado no “Cinema em Casa” do SBT, firmando-o como um cult para os fãs do gênero.

A história narrada no filme, relatada em uma obra literária por Travis Walton (o próprio abduzido), sempre foi cheia de controvérsias. Muitas pessoas que acompanharam o caso alegam ser tudo invenção do próprio Walton. Alguns psicólogos que estudaram o caso, inclusive, afirmaram que a versão que Walton conta sobre os fatos pode ter sido fruto de sugestão durante uma terapia de regressão após ter sido encontrado. O motivo teria sido o fato de Walton ter assistido reportagens sobre casos de abdução alienígena, na TV, dias antes de ter desaparecido. O próprio tema do poder da sugestão em terapias de regressão foi trabalhado no recente Regressão (com Ethan Hawke e Emma Watson), um filme mediano, mas com ideias interessantes. Em contrapartida, todas as outras pessoas que testemunharam a abdução de Walton passaram com credibilidade por detectores de mentira.

Invenção ou não, devemos analisar o filme como obra cinematográfica, estritamente. O roteirista do filme, Tracy Tormé, já era experiente em trabalhos de ficção científica, tendo trabalhado em episódios de Star Trek – A Nova Geração e até o filme para TV também sobre alienígenas, chamado Intruders. E verdade seja dita, Fogo no Céu possui um início instigante, para dizer o mínimo.

Dando uma ideia de que adotará uma narrativa quase Rashômon de Akira Kurosawa, o roteirista trabalha o primeiro ato com um tom de suspeita e desespero que nos deixa completamente à mercê dos relatos (que podem ser verdadeiros ou não) sobre o que poderia ter acontecido com Travis Walton (D.B. Sweeney, de Contos da Cripta). A própria marcação de cena do diretor Robert Lieberman ajuda na atmosfera de suspense da sequência, já que “dança” com sua câmera por todo aquele ambiente, entre os personagens, de forma a criar uma naturalidade e fluidez da tensão ali presente.

Infelizmente, a sagacidade demonstrada por Tormé ali no início não mantém o mesmo tom pelo resto do filme. O roteiro se alonga demais em situações que poderiam ter sido bem mais econômicas e efetivas. Os embates entre o grupo de trabalhadores que testemunham a abdução, e entre os cidadãos que não acreditam neles, por exemplo, se arrastam até a exaustão desnecessariamente. Sendo que, nesse meio tempo, toda a urgência do início do filme vai perdendo o fôlego até a volta de Travis. Além disso, o roteirista não consegue esconder sua origem televisiva ao apostar em diálogos muito expositivos e não conseguir ser mais sutil para desenvolver os personagens, como ao romantizar excessivamente a relação de Travis e sua namorada, ou ao demonstrar a rivalidade (infantil) entre o personagem e Dallis (Craig Sheffer, do clássico da “Sessão da Tarde” Alguém Muito Especial).

Os exageros nada elegantes do roteiro de Tormé só se redimem um pouco pelo bom desempenho dos atores principais. Robert Patrick, que interpreta o melhor amigo de Travis, Mike, carrega o fim com uma carga de culpa e revolta humanas, desesperadamente comedidas, e diametralmente opostas ao seu frio e aterrador T-1000 do clássico O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final. Já D.B. Sweeney consegue nos convencer tanto de sua personalidade romântica, quanto de seu trauma e fragilidade após voltar à sua cidade. Sweeney aposta bem em um tom exausto, quase dolorido, ao tentar conversar com outras pessoas. E se os dois atores conseguem transmitir empatia, é interessante notar a participação de Henry Thomas (o Elliot de E.T. – O Extraterrestre) como um coadjuvante em um filme onde as criaturas espaciais não são tão amigáveis. Em contrapartida, a canastrice de Craig Sheffer, consegue atrapalhar muito da tensão que seu personagem poderia trazer.

Visualmente, o filme já se revela mais satisfatório. Cheia de cores fortes, a fotografia de Bill Pope (da Trilogia Matrix e dos Homem-Aranha de Sam Raimi) trabalha com sugestões diferentes cada um dos locais. Enquanto a cidadezinha do filme é fotografada com um tom árido, mas idealmente calaroso para denotar o interior, as cenas noturnas são filmadas com um filtro azul meio mórbido que rimam com as várias fontes de luz vistas no bar de beira de estrada no início do filme, quase como luzes alienígenas espreitando de fora da edificação. Já os interiores dessa mesma sequência são marcados por um tom laranja muito vibrante e sufocante, ideais para o momento. Já o design de produção de Laurence Bennet (O Artista) trabalha bem os sentimentos daqueles personagens, com destaque para as paredes verdes do quarto de Mike, denotando a depressão daquela figura, ou até o vermelho forte e claustrofóbico do container onde Travis é entrevistado após retornar.

Porém, um dos maiores destaques do filme vai para o interior da edificação alienígena mostrada no filme. Diferente do caráter tecnológico que estamos acostumados a ver em filmes do gênero desde os anos 50, aqueles interiores se apresentam mais como cavernas e masmorras de tortura, como nos clássicos filmes de terror góticos da Hammer. Com aspecto de alvenaria em tom pastel, completamente sujo e asqueroso, aquele ambiente serve para nos transmitir quão ameaçadoras são as intenções daquelas criaturas. Aliás, as diversas “incubadoras” alinhadas poderiam facilmente ter sido uma das fontes para as plantações de seres humanos em Matrix. Já o aspecto antropomorfizado da textura dos alienígenas, além de seu aspecto frio, é eficiente sem nenhum traço de CGI; mérito de Danny Wagner, que também trabalhou nos divertidos Marte Ataca! e Homens de Preto. Sem contar que os instrumentos utilizados pelos alienígenas são tão bizarros que parecem ter saído direto da mente de David Cronenberg, como os de Gêmeos: Mórbido Semelhança.

Sempre embalados por uma trilha sonora atmosférica de Mark Isham (Guerreiro), as cenas da abdução alienígena são realmente o destaque do filme, apesar de não terem o caráter enigmático como no clássico Contatos Imediatos de Terceiro Grau. A direção de Robert Lieberman nesses momentos é extremamente precisa. Para começar, o diretor aposta em focos de luzes vermelhos e laranjas através da mata que parecem referenciar Steven Spielberg. E se a ambientação soturna da noite em uma floresta já é eficiente em criar apreensão, o diretor ainda aumenta a tensão absurdamente ao alongar, durante vários minutos, os planos com foco nos personagens observado ansiosamente o OVNI sem nos revelar o mesmo. E quando o diretor o faz, é através de um corte seco em um plano geral chocante do objeto ameaçador. Tão chocante quanto, a ação do OVNI sobre Travis não poupa os espectadores de violência e dor.

Tão bons quanto a sequência da abdução, são os momentos das experiências alienígenas. Bastante desconfortáveis, essas cenas são montadas com cortes e ângulos estranhos que lembram o bom trabalho de Adrian Lyne no cult Alucinações do Passado.

Apesar de não ter sido um imenso sucesso (sua bilheteria foi apenas OK), a possível história verídica por trás de Fogo no Céu, bem como suas cenas aterradoras, mantiveram o filme na mente dos fãs do gênero. Vale a pena conhecer para saber se merece o culto que tem, ou não.

IMDb: 6,5/10. Rotten Tomatoes: 41%.


Dica de outro terror com abduções alienígenas aterrorizantes: Segmento “Slumber Party Alien Abduction” de VHS 2 (Idem, 2013) de Jason Eisener

9 – Palhaços Assassinos do Espaço Sideral (Killer Klowns From Outer Space, 1988) de Stephen Chiodo

3% dos votos

Muitos podem torcer o nariz para esse filme, ou até para so filmes de terror avacalhados como esse, de uma forma geral. Mas a verdade é que Palhaços Assassinos do Espaço Sideral é uma diversão trash de primeira categoria. A ideia da história é tão despudorada, e sua execução tão hilária e imaginativa, que o filme marcou seu nome naquele grupo de filmes “terrir” que todo fã do gênero adora, ao lado de outros como Fome Animal, A Volta dos Mortos Vivos, A Noite dos Arrepios, Uma Noite Alucinante 2 e tantos outros.

Como o título, e até empolgante música tema do The Dickies, já deixa claro, o filme será uma colcha de retalhos de clichês e convenções dos filmes sci-fi de terror dos anos 50/60. O plot inicial, de uma ameaça alienígena atacando uma cidade interiorana dos EUA já é conhecida de filmes como A Bolha. E como a obra é um produto dos exagerados anos 80, é claro que os vilões do filmem trariam uma carga de humor satírico e inventivo no melhor estilo Gremlins.

O filme foi totalmente imaginado e criado pelo Irmãos Chiodo (direção, roteiro, produção e aspectos técnicos), que sempre trabalharam em equipes técnicas de filmes (como no curta Vincent, de Tim Burton) e também com efeitos especiais e manipulação de marionetes (como no hilário Team America – Detonando o Mundo). Mas talvez o trabalho mais memorável, para os fãs do gênero, dos cineastas seja o trabalho no design dos alienígenas do cult A Hora das Criaturas (ou Criaturas), outra pérola divertida dos anos 80. Os alienígenas do filme, aliás, eram uma versão B dos Gremlins; praticamente uns “ouriços espaciais carnívoros” (!!!).

Acostumados a sempre trabalhar com baixo orçamento, os Irmãos Chiodo fizeram quase o impossível em Palhaços Assassinos do Espaço Sideral, já que possuíam míseros $2 milhões de dólares para fazer o filme. Por mais que tenham um aspecto B, os efeitos especiais práticos elaborados para o filme aparentam terem sido realizados com um orçamento bem maior. O filme é uma grande prova de que, no cinema, a criatividade e o talento são muito mais importantes que um grande orçamento.

O roteiro do filme possui uma trama muito simples, e sem grandes acontecimentos. A questão do meteoro caindo na Terra, e na verdade não ser um verdadeiro meteoro, é reciclada de filme como A Ameaça que Veio do Espaço. Até a questão de o primeiro sujeito a encontrar os alienígenas ser um caipira já é conhecida tanto de A Bolha (1958) e até do segmento que Stephen King protagoniza em Creepshow – Arrepio do Medo. Mas a falta de novidades em relação a trama é compensada pelas ideias geniais das diversas formas como os palhaços atacam os cidadãos do local; cada vez mais surpreendentes em seu absurdo imaginativo.

A própria nave espacial dos alienígenas já escancara a enorme imaginação dos irmãos, por ser no formato de um circo todo brilhante; com a diferença de seus cabos de sustentação serem eletrificados (!). Já o interior da “nave” traz um design futurista claramente adaptado das sci-fi B dos anos 50 (com várias luzes, botões e sons de efeito) como A Ilha da Terra, mas com uma explosão de cores em formato de arco-íris em seus corredores que já denota o tom cartunesco do filme, com direito até um globo de energia com soltando raios púrpura, uma “criação” de pipocas e até uma sala gigantesca onde os palhaços guardam seus “casulos” de algodão-doce para se alimentarem (!!). A própria fotografia do filme já favorece a diferença dos dois “universos”, já que tudo relacionado aos palhaços é sempre retratado com cores saturadas em contraste com as cores “normais” do universo humano.

E se todo o visual relacionado aos palhaços alienígenas do filme já enche nossos olhos, as formas de ataque aos seres humanos também não ficam para trás. A cada nova aparição dos bizarríssimos palhaços, os espectadores caem na gargalhada pelo modo exagerado com que agem para capturar suas vítimas. Os vilões possuem bazucas que lançam pipocas carnívoras, que inclusive se tornam serpentes elásticas espaciais mutantes (!!!) quando se alimentam. Além disso, também há armas de raio-laser que matam os seres humanos e os envolvem em um casulo de algodão doce (no melhor estilo “vagens espaciais” de Vampiros de Almas) ou em um balão colorido. Até mesmo as brincadeiras que palhaços comumente fazem para entreter suas audiências ganham uma versão macabra aqui, vide a engraçada cena onde algumas pessoas são capturadas por um jogo de sombras, cães farejadores feitos de bexiga, uma língua-de-sogra estranguladora e torta na cara... com ácido.

Já os palhaços alienígenas são outro ponto de destaque inventivo. Extremamente bizarros, as criaturas exibem texturas grotescas sob uma maquiagem exageradamente medonha. Enquanto suas roupas são adequadamente coloridas e espalhafatosas, seus cabelos exibem tons vibrantes. Mas o aspecto mais assustador fica por conta dos olhos estranhos dos personagens, e suas bocarras enormes com dentes pontiagudos e gengivas podres; nada a dever com o alienígena de Predador. Os palhaços vão desde pequeninos (como aquele que arranca a cabeça de um motociclista no melhor estilo Jason em Sexta-Feira 13 – Parte VIII – Jason Ataca Nova York), até uma criatura gigantesca inspirada em Godzilla, apelidada pelos Irmãos Chiodo de Klownzilla. Tudo fica ainda mais divertido pelos palhaços demonstrarem um tom de deboche diabólico em suas ações bisonhas; além de se transformarem em uma nuvem de purpurina quando são mortos (!!!). E se os mortos vivos de George A. Romero morrem após alguma agressão ao cérebro, preparem-se para descobrir a forma inspirada como os palhaços alienígenas morrem! É impagável!

Mas o filme não traz apenas momentos humorados pelo absurdo, como também aproveita a natureza sinistra dos personagens para criar verdadeiros frios na espinha dos espectadores. Há uma determinada cena à la Freddy Krueger em que um palhaço tenta atrair uma criança para fora de uma lanchonete (com um imenso martelo escondido nas costas), e outro em que um dos vilões cria um boneco de ventríloquo humano aterrador com o cadáver de um personagem. Os Irmão Chiodo também sabem criar uma ambientação soturno para um filme de terror, como no plano geral da floresta que foca o circo dos palhaços, e até aquele em que os vilões seguem em uma estrada tomada por neblina noturna, em direção à cidade.

E se o clímax do filme também não deixa a desejar no quesito criatividade, o único ponto negativo fica por conta da limitação de recursos da produção, claramente vista em alguns cenários mais modestos. A ideia de colocar os protagonistas tentando fugir da nave é interessante ao fundir um “Trem Fantasma” com o universo psicodélico de Alice no País das Maravilhas. Já o monstrengo gigantesco do final poderia ser um rival à altura do zumbi mutante gigante da conclusão de Fome Animal.

Todos os atores do filme estão adequadamente exagerados, em combinação com o tom da história. Grant Cramer (o protagonista Mike) é carismático. Suzanne Snyder, que interpreta a mocinha Debbie, trouxe seus gritos com vontade a outro filme de “terrir”, já que também já havia participado dos divertidos A Noite dos Arrepios e A Volta dos Mortos Vivos 2 (além de Mulher Nota 1000, de John Hughes). Já John Vernon utiliza sua persona autoritária e ranzinza já vista no cult Clube dos Cafajestes para criar um personagem igualmente detestável aqui.

Pérola das antigas sessões de filmes de terror da Band, Palhaços Assassinos do Espaço Sideral se tornou um pouco mais popular para as massas aqui no Brasil após ter sido incluído no catálogo da Netflix. Curiosamente, o filme pode ser considerado um sucesso de bilheteria, já que arrecadou mais de $43 milhões nos cinemas do mundo todo.

Perfeito como um filme descompromissada para uma sessão de cinema em casa com os amigos, Palhaços Assassinos do Espaço Sideral talvez seja um dos filmes mais engraçados e criativos que vocês assistirão. Veja sem preconceitos.

IMDb: 6,1/10. Rotten Tomatoes: 71%.


Dica de outro “terror” 80’s com alienígenas anárquicos: A Hora das Criaturas (Critters, 1986) de Stephen Herek

8 – A Bolha Assassina (The Blob, 1988) de Chuck Russel

5% dos votos

Muitos se lembram de A Bolha Assassina não só como um “clássico” do cinema de terror dos anos 80, como também por ter sido reprisado várias vezes no antigo “Cinema em Casa” do SBT. O longa foi mais uma das diversas refilmagens de filmes sci-fi B dos anos 50 (no caso, A Bolha de 1958) que foram feitas por diretores fãs dos filmes originais, nos anos 80. Nesta lista, ainda se incluem filmes como A Mosca, O Enigma de Outro Mundo e Invasores de Marte. E assim como Viagem Maldita, por exemplo, A Bolha Assassina é um daqueles raros exemplos de refilmagens que ficam muito melhor que o filme original.

As mentes criativas por trás do filme já haviam se destacado no gênero do terror no ano anterior. O diretor Chuck Russel (que mais tarde faria O Máskara) e o roteirista Frank Darabont (o mesmo de Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre e O Nevoeiro, além da série The Walking Dead) já haviam impressionado os fãs e críticos em 1987 por A Hora do Pesadelo 3 – Os Guerreiros dos Sonhos. O filme foi um grande sucesso depois do malfadado (injustamente) segundo filme de Freddy Krueger. Os dois cineastas firmaram o vilão como uma das maiores figuras da cultura pop da época, por apostarem mais em um tom de humor negro e aventura, que no horror do genial longa original de Wes Craven.

A verdade é que A Bolha Assassina é fruto de uma época em que o cinema comercial de terror apostava mais em histórias humoradas, devido ao enorme sucesso de A Volta dos Mortos Vivos e, principalmente, A Hora do Espanto em 1985. Ou seja, os inúmeros slashers do início da década de 80 deram lugar a filmes de horror que não se levavam tão à sério, como A Noite dos Arrepios, A Casa do Espanto, A Hora das Criaturas, Uma Noite Alucinante 2, Vamp – A Noite dos Vampiros e tantos outros.

Do filme original (estrelado por um jovem Steve McQueen) o roteiro do filme traz o mote inicial. Como já aconteceram diversas vezes no cinema sci-fi, um misterioso meteorito cai em uma cidade interiorana dos EUA trazendo uma (criativa) criatura alienígena que causara pânico nas pessoas da região. Até mesmo o evento da descoberta da criatura é idêntico ao longa original, com a presença de um senhorzinho e seu cachorro.

A grande questão de A Bolha Assassina, e que é responsável por grande parte do divertimento do filme, é o próprio personagem título. O fato de o monstro do filme ser uma enorme “geleca” rosa já é absurdamente hilária por si só. Esse conceito também foi utilizado em outro “terrir” dos anos 80, A Coisa, mas no caso do último, a criatura era um marshmallow “inteligente” que comia as pessoas por dentro quando ingerido, transformando-as em zumbis ocos (!!!).

A bolha do título é realizada com excelentes efeitos especiais práticos, desde stop-motion até sobreposição de imagens. O design da criatura foge do aspecto apenas gelatinoso do filme original e ganha nodulações, fibras, vasos sanguíneos e inervações que a tornam ainda mais asquerosa e orgânica. E, surpreendentemente, as movimentações erráticas da criatura conseguem ser bastante ameaçadoras, seja envolvendo violentamente suas vítimas, ou até se expandindo em animalescos tentáculos para tentar captura alguém. O próprio diretor Russel aproveita os efeitos que tem à disposição para tornar seu vilão cada vez mais predatória, como ao encurralar uma vítima em uma cabine telefônica totalmente coberta pela bolha (inclusive com um cadáver parcialmente digerido exposto em suas “entranhas); e até ao registrar “carapaça” de suas vítimas se deformando após os órgãos internos terem sido digeridos.

Sem nos privar de ver o gore exagerado característico desse tipo de filme, Russel, e sua equipe de maquiagem, mostram pessoas derretendo vivas por dentro da bolha (naquela que é a cena mais icônica do filme) e membros arrancados; sem deixar de criar cenas que apelam pelo charme do cartunesco, como ao mostrar uma vítima sendo arrastada viva por um ralo de cozinha. (!).

Além de explorar ao máximo a inventividade de suas cenas de morte, Russel ainda é elegante ao criar planos angulados para dramatizar a grandiosidade do vilão (como naquela em que o casal de heróis foge dentro de uma lanchonete), e também nos planos plongèe que funcionam para denunciar a dimensão absurda daquela criatura frente às pessoas (como no intenso momento que a bolha sai do ralo). Além de trazer um bem-vindo humor negro (como ao fazer uma transição entre uma cena de morte e uma gelatina sendo devorada por uma criança), o diretor também trabalha com estilo os chavões dos filmes de terror adolescentes da época. Desta forma, a fotografia evocativa de Mark Irwin (o mesmo de Pânico) torna momentos como dois jovens estacionados em um mirante como algo incrivelmente nostálgico.

O diretor também consegue brincar bastante com a metalinguagem, explorando com mais criatividade a cena da bolha no cinema do longa original. Além de fazer uma brincadeira com filmes slasher de vilões mascarados (como Sexta-Feira 13, Dia dos Namorados Macabro e Chamas da Morte), o diretor ainda cria um plano genial em que a projeta a próprio bolha na telona do cinema através de uma luz estroboscópica. Sem contar que o filme tem um excelente ritmo e intercalação de ação, explorando o exagero das situações sempre com uma piscadela para a plateia, como ao criar zoons in dramáticos de personagens combatendo a bolha com armas de fogo e explosões (!!).

O roteiro de Frank Darabont já denuncia seu fascínio pela literatura de Stephen King. Reparem como a cidadezinha do filme se assemelha a “Castle Rock”, tradicional cidade das histórias de King. Além disso, o filme possui uma reviravolta GENIAL em relação à natureza da bolha, envolvendo militares e cientistas de órgãos secretos dos EUA, em uma trama de possível contágio que se assemelha à “super gripe” de A Dança da Morte. Até mesmo o sobrenome do protagonista masculino do filme (Brian Flagg) faz referência ao vilão desta história de King (Randall Flagg).

Por falar nele, o personagem vivido por Kevin Dillon (irmão de Matt) é um ponto negativo do filme, já que o ator não consegue trazer carisma para um jovem rebelde no estilo James Dean em Rebeldia Indomável, ou até seu irmão Matt Dillon em O Selvagem da Motocicleta. Em contrapartida, a heroína vivida por Shawnee Smith, que ironicamente esteve na adaptação televisiva de A Dança da Morte, faz um trabalho muito mais empático e intenso com a destemida Meg; que diferente da maioria das screm queens da época, não espera ser salva pelo “mocinho”, sendo capaz de ser proativa e salvar sozinha alguns personagens. Muitos vão se lembrar de Smith por sua icônica personagem Amanda, em Jogos Mortais.

Infelizmente o filme foi um fracasso de bilheteria em sua época. Por um custo (alto) de $19 milhões, o filme rendeu pouco mais de $8 milhões só nos EUA, um grande prejuízo. No entanto, o filme permaneceu como cult entre os fãs do gênero. O filme concorreu a seis prêmios internacionais, incluindo Melhor Filme de Ficção Científica no Saturn Awards e Melhor Filme no Fantasporto.

Trazendo o Hard Rock 80’s nostálgico com a música tema Brave New Love, da banda Alien, A Bolha Assassina é daquele tipo de filme de terror propositalmente cômico e exagerado dos anos 80 que diverte tanto pela criatividade e por não se levar tão a sério.

IMDb: 6,4/10. Rotten Tomatoes: 61%.


Dica de outra sci-fi de terror com um monstro amorfo: Terror que Mata (The Quatermass Sperience, 1955) de Val Guest

7 - O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982) de John Carpenter

5% dos votos

O Enigma de Outro Mundo representa, simultaneamente, grande felicidade e tristeza para o GRANDE John Carpenter. Felicidade por estar refilmando um de seus filmes preferidos e que foi essencial para sua formação como cineasta, O Monstro do Ártico. Já tristeza, pelo filme ter sido um fracasso de público e de crítica especializada na época de seu lançamento. Essa foi a primeira vez que Carpenter havia trabalhado com um grande estúdio; e além de o diretor ter liberdade total sobre o filme, ele mesmo fez um excelente trabalho de divulgação, inclusive participando de talk shows como o David Letterman. Foi o primeiro grande trauma com Hollywood.

Vindo de quatro sucessos consecutivos (Assalto à 13ª DP, Halloween – A Noite do Terror, Fuga de Nova York e A Bruma Assassina), John Carpenter lançou esse longa nos cinemas na mesma data que Blade Runner – O Caçador de Androides. Ironicamente, O Enigma de Outro Mundo compartilha com ele o mesmo destino: apesar do fracasso inicial, ambos foram envolvidos em um status cult, o que forçou especialistas e público a revisitarem o filme e revalidarem seu (GRANDE) valor. Hoje, o longa de 1982 é considerado como o melhor filme de Carpenter, e um dos mais importantes do gênero de ficção científica.

Assim como o longa original de 1952, O Enigma de Outro Mundo se baseia no conto Who Goes There? de John W. Campbell Jr. Situando-se em uma base de pesquisas estadunidense na Antártica, durante o início do inverno, os vários personagens se veem às voltas com um ser alienígena desconhecido que começa a realizar uma invasão insidiosa através da “contaminação” dos corpos. À medida que o tempo passa, cada vez mais os conflitos internos se acentuam, já que nenhum deles sabe em quem confiar.

A ambientação desoladora do filme é um dos principais fatores que o tornam tão efetivo. A imensidão branca e desértica da Antártica, lindamente explorada pelos planos gerais do diretor, já são suficientes para dar ao expectador a sensação de vazio e solidão necessárias para rimar com os sentimentos dos personagens. Em contraste, a completa falta de luz natural durante a noite é registrada por Carpenter como um ambiente sufocante e repressor. Essa ambientação foi tão bem filmada por Carpenter que renderia várias outras obras com o mesmo clima de isolamento, como a HQ, e posterior adaptação cinematográfica, de 30 Dias de Noite.

Com uma direção de arte inteligente de Henry Larrecq (Os Irmãos Cara-de-Pau), os ambientes internos da estação dão um ar de esterilidade e “frieza” (explorando cores claras: branco, cinza e azul) que entra em confluência com o clima da região. E quando alguma cor mais forte (laranja e vermelho), toma conta do ambiente, a sensação não é de humanidade, e sim, de violência e horror iminente. Os ambientes que “oprimem” os personagens a medida que o sufoco aumenta ganha uma inquietação assim como em O Iluminado. Também é interessante o contraste entre a estação estadunidense e a estação norueguesa explorada em determinado ponto, já que essa segunda possui uma arquitetura semelhante à outra, porém, está tomada por cores enegrecidas, queimaduras e caos; que funcionam como um prelúdio do que poderá acontecer no outro local.

A trilha sonora composta pelo mestre Ennio Morricone nos envolve na sensação de espiral de horror da mesma forma que os personagens passam através do longa. Baseada nos sintetizadores utilizados por John Carpenter para compor suas próprias trilhas, Morricone é sábio ao criar um tema discreto, que combina com a natureza ardilosa do vilão; evoluindo de uma batida ameaçadora sutil até um crescendo desesperador.

Com um elenco formado apenas por homens, a índole geralmente impulsiva e bruta dos representantes desse sexo é explorada em favor da tensão crescente daquela situação extrema. Homogeneamente competentes, os atores conseguem expor a angústia de estarem isolados naquele local há tanto tempo, de estarem frente a uma criatura completamente desconhecida, de não saberem em quem confiar, e de reconhecerem que a chance de resgate e comunicação é ínfima. Destaque, claro, para a forte presença de Kurt Russel (em papel anteriormente oferecido a Nick Nolte e Jeff Bridges), que consegue demonstrar um senso de caráter e inteligência tão intenso que nos faz compreender facilmente o respeito que todos os seus colegas demonstram por ele.

O roteiro do filme é desenvolvido sempre de uma forma lógica, implementando um tempo necessário às pesquisas e descobertas acerca da natureza da criatura para tornar conivente as ações dos personagens, muito semelhante ao realizado em Alien, o Oitavo Passageiro. Da mesma forma, a paranoia que cerca o filme é resultante de suspeitas baseadas em fatos discutidos com propriedade por todos; nunca se tornando falsa, ou acrescentada ao filme apenas por ser necessária. Como curiosidade: o fato de haver 12 personagens naquela estação está relacionado aos 12 apóstolos de Cristo?

Trazendo ao filme um tom de violência considerável para sua carreira até então, John Carpenter explora todo o potencial de body horror que a premissa do filme possibilita, equiparando-se aos melhores trabalhos de seu colega David Cronenberg. Os efeitos especiais e de maquiagem criados Rob Bottin (do clássico da licantropia Grito de Horror) são memoráveis até os dias de hoje; é só comparar as cenas de gore palpáveis desse filme com as cenas semelhantes, em falso CGI, da prequel de 2011.

Claramente influenciado pelas criações de H.P. Lovecraft (ídolo de Carpenter), Bottin leva as possibilidades de um alienígena amorfo que mimetiza o organismo de outras criaturas ao limite, elevando os efeitos mais grotescos de Vampiros de Almas e Invasores de Corpos (1978) ao cubo. As formas “disformes” inventivas do alienígena (com vários apêndices frenéticos, aberturas nojentas com bocarras ocultas e apêndices bizarros), além do show de gore que o diretor não hesita em nos escancarar é um marco do cinema de terror. A figura do alienígena, aliás, é uma bem-vinda mudança a esta refilmagem, já que o clássico O Monstro do Ártico não possuía essa carga de mistério e paranoia que fica tão presente no filme de Carpenter.

Incompreensivelmente, o “exagero” dos efeitos foi muito criticado na época do lançamento, ganhando reconhecimento somente após vários anos. O trabalho do maquiador Rob Bottin foi tão bem realizado quanto o de Rick Baker em Um Lobisomem Americano em Londres, no ano anterior; e assim como tal, indiscutivelmente, merecia um prêmio da Academia.

Como diretor inteligente que é, Carpenter utiliza bem os preceitos criados por Hitchcock de que o verdadeiro suspense é criado a partir da expectativa. Dessa forma, Carpenter se empenha mais em criar uma ambientação claustrofóbica tensa para, só em momentos pontuais, nos presentear com o CHOQUE e o terror. Tais sensações são sentidas pela escolha de Carpenter em criar planos que deixam os ambientes um pouco mais fechados enquadrando vários personagens ao mesmo tempo. E quando vemos algum plano mais aberto, é a imensidão desértica da Antártica. Em conseguinte, Carpenter e o diretor de fotografia parceiro Dean Cundey, conseguem passar a sensação de suspeita que ronda todos os personagens por uma fotografia de tom mais frio e impessoal.

O som do longa também merece muito destaque, já que explora muito bem o silêncio, ao ajudar a criar a expectativa e suspense, e efeitos sonoros criados para demonstrar a natureza grotesca e ameaçadora do vilão. O trabalho de efeitos sonoros sibilantes na CHOCANTE cena do canil é exemplar, e ajudou a tornar aquele momento como um dos mais genuinamente assustadores do cinema. Bem como, os “rugidos” ensurdecedores, e perturbadores, das criaturas alienígenas também são muito bem realizados.

Em soma ao terror que o som já evoca, a montagem de Carpenter e Todd C. Ramsay (do cult Fuga de Nova York) sabe quando cortar uma cena para intensificar o susto (como na impactante e grotesca cena do desfibrilador) e quando estendê-la para criar inquietação (como na a exploração da base norueguesa). O ápice da confluência efetiva de todos os aspectos técnicos se dá na cena do “teste sanguíneo”; momento TENSO e emblemático do cinema; que já foi referenciado várias vezes (ver Arquivo X, Prova Final e Os Oito Odiados, por exemplo).

O Enigma de Outro Mundo é o primeiro exemplar da “Trilogia do Apocalipse” de John Carpenter (também composta pelos excelentes Príncipe das Trevas e À Beira da Loucura), além de ser o favorito do diretor. Da mesma forma, também faz parte do hall de filmes que melhor misturou ficção-científica e terror, ao lado de Alien – O Oitavo Passageiro, Invasores de Corpos (1978) e A Mosca, só para citar alguns. Aliás, o filme também é uma das refilmagens a se sobressair em relação ao original, assim como o já citado A Mosca e Viagem Maldita, por exemplo. Um filme que potencializou o que havia de melhor no filme original e corrigiu alguns de seus erros e limitações, sem se tornar desrespeitoso.

Como já dito, o filme foi um fracasso completo nas bilheterias. Rendeu apenas $19 milhões de dólares nos EUA, para um investimento de $15 milhões. O próprio diretor alega que o fracasso do filme se deu por conta da fama de E.T. – O Extraterrestre na mesma época, o que teria dificultado a aceitação do público por um filme sombrio de alienígenas. Carpenter, mais tarde, lançaria o doce Starman – O Homem das Estrelas, como forma de se “redimir” pela atmosfera pesada e violenta de O Enigma de Outro Mundo.

O filme indicado aos prêmios de Melhor Filme de Horror e Melhores Efeitos Especiais no Saturn Awards. E, acreditem ou não, Ennio Morricone foi indicado ao “prêmio” de Pior Trilha Sonora no Framboesa de Ouro; uma piada de mal gosto que ninguém deve levar a sério.

O filme possui uma prequel lançada em 2011, incialmente intitulada A Coisa (tradução literal do título original), e posteriormente lançada como O Enigma de Outro Mundo também. O longa possui como protagonistas o excelente Joel Edgerton (de Guerreiro e Loving – Uma História de Amor) e a nossa querida “Ramona Flowers”, Mary Elizabeth Winstead. Mesmo tendo alguns bons momentos de tensão e suspense, essa prequela é um filme ruim, principalmente quando comparamos com a intensidade e organicidade dos efeitos especiais do original. Se for para assistir um filme terror alienígena TENSO com Mary Elizabeth Winstead, assistam Rua Cloverfield, 10.

Coeso em tom e atmosfera do início ao fim, inclusive em sua excelente conclusão, O Enigma de Outro Mundo é o tipo de filme que permanecerá ganhando fãs ao longo de vários anos ainda. Fortalecendo-se cada vez mais como um significativo representante do gênero.

IMDb: 8,2/10. Rotten Tomatoes: 81%.


Dica de outra refilmagem de uma sci-fi dos anos 50 por outro grande diretor: A Mosca (The Fly, 1986) de David Cronenberg.

6 – Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers, 1978) de Philip Kaufman

5% dos votos

Do fim da década de 60, até o início dos anos 80, o cinema estadunidense entrou em um período chamado “Nova Hollywood”, influenciado pela novelle vague francesa e por novos cineastas que, antes de tudo, eram cinéfilos, como Martin Scorsese, Brian De Palma, Paul Schrader, William Friedkin e vários outros. Essa nova onda do cinema estava de acordo com o contexto sociopolítico do momento. O “Verão do Amor” dos hippies mostrou ao mundo todo que conflitos e guerras (como o do Vietnã) destruíam o que o ser humano tinha de melhor. Ao mesmo tempo, vários movimentos sociais acerca de direitos humanos, sexualidade e igualdades de minorias nasceram nesse período. Sem contar a revolta com o meio político, que passava por escândalos sem precedentes como o de “Watergate”. O brasil, por exemplo, vivia os terrores da Ditadura Militar.

E foi como resultado desse período turbulento que nasceu Invasores de Corpos, 20 anos após o filme original. Onde os invasores alienígenas, com sua carência de sentimentos e individualidade, representavam as instituições e pessoas conservadoras que impediam o progresso pelo qual a sociedade humana passava.

Invasores de Corpos integra um restrito grupo de refilmagens que conseguiram não só fazer justiça ao longa original, como também se mostrarem melhores em vários aspectos: filmes como A Mosca, O Enigma de Outro Mundo, Cabo do Medo, Scarface, Bravura Indômita. Não à toa, todos esses filmes foram comandados por grandes diretores. No caso de Invasores de Corpos é notável que a evolução dos efeitos especiais e visuais serviram a favor da narrativa; além de que a caracterização dos invasores foi mais bem definida, o senso de urgência é maior e a visão pessimista daquela invasão ganha contornos mais assustadores.

A cena inicial do longa é daqueles momentos difíceis de tirar da cabeça. Fotografada com um uso de cores fortes que remetem a Guerra dos Mundos (1953) e com efeitos especiais que ficam no limite entre a verossimilhança biológica e a fantasia grotesca, a sequência mostra microrganismos deslumbrante que se organizam em um ballet espacial que fundamenta um paralelismo com os satélites e estações espaciais de Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço. Após chegarem à Terra, o diretor Philip Kaufman (um dos criadores de Indiana Jones) filma sua implantação insidiosa em nossa sociedade de fora meticulosa e quase documental em sua fisiologia. Beneficiando-se de excelentes efeitos especiais, o diretor já denuncia a ameaça das criaturas pela forma como as raízes de se desenvolvem e parasitam as plantas ao redor, além de um simbolismo bizarro do crescimento das flores de dentro daquelas pequenas vagens.

O fato de o filme se passar em São Francisco também revela uma inteligência ímpar por parte de W.D. Richter. O roteirista, que também trabalhou no “clássico” de John Carpenter Os Aventureiros do Bairro Proibido, e na versão 70’s de Drácula, se beneficia do nosso conhecimento sobre o espírito cosmopolita e progressista da metrópole, conhecida por ser o berço de várias revoluções sociais. Desta forma, São Francisco funciona não só como uma representante inclusiva, como também da “liberdade” sempre oprimida por forças desumanas.

Também interessante, é o fato de o roteiro também trazer os protagonistas como profissionais da saúde, inclusive atuantes em vigilância sanitária (rendendo uma cena de apresentação divertida à la Sherlock Holmes), também traz uma credibilidade maior para a história. As possibilidades de questionamentos e teorias a respeito do que poderia estar acontecendo com as pessoas, além das discussões psicológicas a partir do personagem de Leonard Nimoy são interessantes, não só para darem pistas falsas para os heróis, mas também para deixar os espectadores nervosos pela dificuldade de se descobrir a verdade.

Aliás, a empatia que sentimos pelos personagens vem bastante dos atores em questão. Donald Sutherland (que já esteve em um terror de paranoia em Inverno de Sangue em Veneza) traz a sua presença magnética natural, nos fazendo respeitar seu personagem ao mesmo tempo que o encaramos como uma figura crível ao tentar manter o máximo de controle possível mesmo sabendo do horror ao redor. Já Brooke Adams (do clássico Cinzas no Paraíso) tem carisma o suficiente para criar uma química bacana com Sutherland, além de ser a principal via de entrada no espectador na história ao testemunharmos a mudança de seu marido. Por falar nele, Art Hindle (do cult The Brood – Filhos do Medo), aposta muito bem na inexpressividade fria que marcará o tom de todos os “pod people” no cinema a partir dali.

Além disso, o filme também conta com a presença de Leonard Nimoy, antes de começar a saga de Star Trek na sétima arte, e trazendo um ar de dignidade e erudição tão grande que só são rivalizados pela dubiedade inevitável de seu papel. Já Jeff Goldblum (antes de fugir de um T-Rex em Jurassic Park) começa como uma figura antipática e infantil, mas que ganha um charme natural porque... bem, tem a estranheza de Jeff Goldblum. Quanto à personagem de Veronica Cartwright nós temos uma surpresa, já que ela ganha nossa simpatia não só pela fragilidade de sua figura, como também pela resiliência natural surpreendente ao descobrir as melhores formas de sobrevivência naquele ambiente. A atriz é experiente em situações de desespero desde criança quando estreou o clássico Os Pássaros, e até no ano seguinte quando enfrentou Alien, o Oitavo Passageiro. Aliás, assim como em Alien, Cartwright protagoniza outra cena icônica do cinema de terror aqui em Invasores de Corpos (a cena final); e em ambas, ela não sabia o que realmente iria acontecer. Portanto, sua expressão de surpresa é genuína.

O filme ainda conta com uma participação especial de Robert Duvall (O Poderoso Chefão, Apocalipse Now), além do diretor (Don Siegel) e protagonista (Kevin McCarthy) do filme original. O primeiro interpreta um suspeito taxista, enquanto o segundo retorna à histeria do fim do filme original em uma cena especial.

Outro ponto positivo do filme, e que torna toda a experiência ainda mais assustadora, é a caracterização dos “pod people”. Além de terem uma postura fria e sem emoções, seus gritos esganiçados de alerta são, nada menos, que perturbadores. E assim como no filme original, a cena da criação dos clones é antológica. Com efeitos práticos palpáveis e orgânicos que parecem saídos do cinema de David Cronenberg, e do clássico de Roger Corman A Pequena Loja de Horrores, Kaufman brinca com os nervos do espectador ao gastar longos plano apara mostrar cada detalhe bizarro e pegajoso daquelas criações (notem os pequenos cílios vivos que “sugam” o DNA da pessoa, e até o ressecamento de pele dos humanos “parasitados”). Os efeitos sonoros atmosféricos criados por Bem Burtt (de Star Wars) remetem a pulsações humanas que ficam mais intensas de acordo com o grotesco da cena. Destaque também para uma criatura formada a partir de um cão que remete a algumas imagens aterradoras do cult Balada para Satã.

Kaufman, sabiamente, trabalha seus planos de forma a trazer a aura de terror como filmes clássicos da época. O diretor explora bem os ambientes sombrios como William Freidkin em O Exorcista (como um rosto surgindo da escuridão), assim como os enquadramentos elegantes que praticamente fazem um split-screen sem a tela dividida (como no momento em que Geoffrey olha “de rabo de olho” para uma conversa entre Matthew e Elizabeth), bem como Roman Polanski em O Bebê de Rosemary. O uso de sombras e silhuetas em estilo noir, em contraste com a fotografia tradicionalmente “crua” da época (Michael Chapman, de Taxi Driver) também ajuda no senso de perseguição e perigo do longa. Já o trabalho de som de Ben Burtt, além de enaltecer os sons de passos, corridas e pisadas em degrau, ainda substitui os sons diegéticos naturais do início (vento, galhos, pássaros) para sons mecânicos e automatizados (carros, caminhões de lixo, buzinas) à medida que o filme segue; dando uma noção da desumanização da população.

O diretor também usa bem a câmera na mão e zooms in rápidos em determinados momentos para denotar uma urgência e angustia pela situação desesperadora. Já os planos inclinados são hábeis ao nos causar estranheza, chegando à genialidade pelo modo como o diretor utiliza os próprios morros de São Francisco para causar essa angulação em contraste com a posição reta dos personagens. A claustrofobia também é presente, não só pela grande quantidade de extras em cena (como na sufocante cena da livraria), como também pelo design de produção inteligente de Charles Rosen (Primavera para Hitler). Reparem no contraste de ambiente opressor, escuro e em tons marrons fortes da casa de Elizabeth, com os cômodos mais claros e arejados da casa de Matthew.

Kaufman é tão inteligente que chega a utilizar até mesmo elementos triviais do cenário como fontes de simbolismo. O para-brisa trincado do carro de Matthew, por exemplo, pode funcionar para ilustrar as pessoas deformadas do mundo externo; enquanto Geoffrey, por diversas vezes, é retratado através de espelhos, revelando que não é verdadeiramente ele mesmo.

O filme foi um sucesso de público e crítica. Com um custo de somente 3,5 milhões, o filme arrecadou mais de $35 milhões somente nos EUA. Concorreu a 13 premiações internacionais, inclusive Melhor Roteiro Adaptado no Sindicato de Roteiristas e ganhando o de Melhor Diretor e Melhor Som no Saturn Award.

Com um plano final de gelar a espinha, e encerrando a narrativa como um soco no estômago de Os Pássaros, Invasores de Corpos é mais um clássico do cinema sci-fi, e a melhor adaptação cinematográfica da história imortal de Jack Finney.

IMDb: 7,4/10. Rotten Tomatoes: 94%.


Dica de outra sci-fi com alienígenas que mimetizam pessoas: Prova Final (The Faculty, 1998) de Robert Rodriguez

5 – Eles Vivem (They Live, 1988) de John Carpenter

8% dos votos

Após um primeiro trauma com o grande sistema de Hollywood, devido ao fracasso de público e crítica de O Enigma de Outro Mundo), além de outra grande decepção com o fracasso semelhante de Os Aventureiros do Bairro Proibido, Carpenter resolveu voltar seus projetos para a esfera independente como já fazia desde seu estouro com Halloween – A Noite do Terror. Depois de lançar o apavorante (e subestimado) Príncipe das Sombras, Carpenter realizou mais um projeto com a “Alive Films”. O resultado foi um de seus filmes mais cultuados desde então: Eles Vivem.

Baseado em um conto de Ray Nelson chamado “Eight O’Clock in the Morning”, John Carpenter assinou o roteiro do filme sob o pseudônimo de Frank Armitage. Como já é tradicional de seu cinema, Carpenter criou uma das histórias mais GENIAIS do cinema fantástico. Metaforizando a “Era Reagan” e o crescente capitalismo desenfreado gerado pela cultura yuppie, Carpenter nos apresenta a um mundo onde os alienígenas já estão vivendo insidiosamente entre os seres humanos. E não apenas vivendo, mas também ocupando os cargos mais importantes do nosso planeta e escravizando os humanos através de mensagens subliminares espalhadas pela mídia. E o espectador descobre essa chocante conspiração quando o protagonista descobre alguns óculos escuros que, quando utilizados, expõem as mensagens subliminares e a verdadeira face dos alienígenas entre a gente.

A primeira grande sacada da ora de Carpenter é o conceito do herói presente. Sem nunca descobrirmos o verdadeiro nome do personagem (apenas creditado sugestivamente como “John Nada”, remetendo ao significado das línguas oriundas do latim mesmo), aquela figura interpretada por Roddy Piper é um homem comum, um trabalhador comum, como qualquer um de nós. Afetado pelos problemas sociais vigentes, que Carpenter ilustra adequadamente pela ambientação desoladora de um acampamento de pessoas em situação de rua, o protagonista enfrenta desemprego, fome e falta de moradia como uma pessoa à margem da sociedade. Carpenter, inteligente como sempre, cria planos poéticos que simbolizam a marginalização daquela figura (como ao colocar o personagem em um canto do plano, andando na beirada de uma rodovia) e até o modo como ele, inevitavelmente, será uma vítima daquela sociedade voraz (em um enquadramento que coloca os gigantes prédios comerciais da metrópole oprimindo o personagem, que “afunda” naquele ambiente). E apenas uma pessoa que sofra as consequências do “capitalismo selvagem” poderia ter a clareza de mente ideal para “enxergar” a real situação.

O herói havia sido escrito, originalmente, para Kurt Russel. Porém Carpenter preferiu não correr o risco de se tornar repetitivo (afinal já havia trabalhado quatro vezes com o ator) e decidiu dar a oportunidade para outra pessoa. A ideia era que John Nada transparece um ar “calejado”, de pessoa trabalhadora que sofreu muito, e Roddy Piper caiu como uma luva. Oriundo de programas de luta livre, o ator tem a fisicalidade “bruta” necessária para o papel, além de um carisma natural que poderia tê-lo tornado o The Rock dos anos 80. Já o papel do amigo Frank foi escrito especialmente para Keith David (que havia trabalhado com Carpenter em O Enigma de Outro Mundo). David também tem presença e carisma suficientes para ser um sidekick que se mantém por si só. Sendo que, quando os dois atores estão juntos em cena, a química é tão agradável e natural quanto de duplas como Riggs e Murtaugh, de Máquina Mortífera.

Falando nos dois atores, não há como citar a cena de luta “mano a mano” que marcou a história do cinema fantástico. Inicialmente planejada para ser apenas 20 segundos, a cena foi coreografada especialmente pelos atores (durante três semanas) e durou cerca de cinco minutos. Seca, extenuante e brutal, a cena agradou tanto ao diretor, que o mesmo fez questão de mantê-la em sua versão integral no corte final. Muito referenciada no meio cinéfilo, a cena em questão teve até uma versão satírica no hilário South Park.

Além de aproveitar muito bem as imagens mais pobres e desoladas de uma metrópole (algo também feito no anterior Príncipe das Sombras), Carpenter também não deixa de utilizar as imagens urbanas para passar sua mensagem. Já quanto ao universo alienígena do filme, Carpenter faz uma bela homenagem às sci-fi dos anos 50. Não somente por aproveitar uma fotografia em preto e branco no momento em que a verdadeira sociedade transparece, mas também por explorar efeitos especiais práticos e de stop-motion (a sonda alienígena é sensacional) como forma de remeter aos designs futurísticos de décadas passadas, principalmente o trabalho de Ray Harryhausen em A Invasão dos Discos Voadores. Já as criaturas são por si só bisonhas, tanto pela criativa maquiagem que os retrata como cadáveres pútridos e desumanos na inexpressividade, com imensos (e ASSUSTADORES) olhos metálicos; como também por funcionarem como um símbolo da personalidade dos profissionais que se aproveitam do sistema capitalista para lucrar com a queda de outras pessoas.

Inventivas também foram as diversas maneiras com que Carpenter ilustrou as mensagens subliminares. Não só pelos textos impessoais, objetivos e diretos (“Obedeça”, “Consuma”), mas também onde as mensagens são introduzidas. Em uma propaganda de viagens, com uma foto de uma moça de biquíni na praia, a mensagem diz “Case e reproduza”; já em uma placa de loja de franquia, a mensagem transmitida é “Sem livre pensamento”. Mas a mensagem mais irônica que Carpenter cria são as vistas em cédulas de dinheiro: “Esse e o seu Deus”.

Além de criar um conceito absurdamente interessante, Carpenter também expande suas ideias sempre com muita criatividade. Além de a transmissão central de “imagem ilusória” na mente dos seres humanos ser em uma emissora de TV (afinal, quem não tem TV em casa?), o diretor demonstra que tem uma visão geral sobre a evolução do seu universo (como ao trocar os óculos por lentes de contato). Já a crítica ao capitalismo desenfreado ganha contornos ainda mais interessantes, quando se desenvolve a questão de humanos se aliando aos alienígenas para controlarem outros humanos.

O diretor também não deixa de passar a oportunidade de dar um “tapa de pelica” nos críticos e hipócritas que reclamavam da violência em seus filmes (citando também seu colega George A. Romero), além de fazer uma brincadeira sarcástica com a indústria da propaganda, assim como Paul Verhoeven fez em Robocop- O Policial do Futuro. E além de frases de efeito que marcaram o cinema “Eu vim aqui para mascar chicletes e chutar bundas. E eu já acabei com todos os meus chicletes”), o filme ainda traz citações mais reflexivas e ácidas (“Todos nós nos vendemos todos os dias. É melhor estar do lado dos vencedores!”).

Eles Vivem ainda conta com várias sequências de ação de tiroteios, explosões e brigadas urbanas que Carpenter não fazia desde Assalto à 13ª DP (com exceção das fantasias de Fuga de Nova York e Os Aventureiros do Bairro Proibido).

Curiosamente, alguns grupos neonazistas e antissemitas criaram uma teoria de que Eles Vivem, na verdade, fosse uma alegoria sobre o modo como os judeus estavam dominando o mundo (!). Muito descontente com essa mentira cheia de discurso de ódio, o próprio diretor John Carpenter veio a público e desmentiu todas essas argumentações.

O filme estreou em 1º lugar nas bilheterias dos EUA quando lançado. Para um orçamento de $4 milhões o filme arrecadou $13 milhões, o que não pode ser considerado um fracasso. O longa ainda foi indicado a Melhor Filme de Ficção Científica e Melhor Trilha Sonora no Saturn Awards, além de Melhor Filme no Fantasporto.

Com uma trilha sonora atmosférica habitual de John Carpenter e Allan Howarth, Eles Vivem é uma ficção científica B como só Carpenter poderia fazer. Uma das obras mais subestimadas dos anos 80 e, novamente, uma das ideias mais GENIAIS do cinema fantástico.

IMDb: 7,3/10. Rotten Tomatoes: 84%.


Dica de outro filme 80’s do gênero, que também faz homenagens a obras clássicas: A Noite dos Arrepios (Night of the Creeps, 1986) de Fred Dekker

4 – Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956) de Don Siegel

8% dos votos

Assim como o clássico O Dia em que a Terra Parou (1951), Vampiros de Almas foi uma sci-fi que marcou gerações, tanto pelo talento das mentes criativas evolvidas, como também pelos subtextos sociopolíticos por trás da superfície de filme de terror alienígena.

A verdade é que a série de contos de Jack Finney de 1955, intitulada The Body Snatchers, possui uma trama que pode ser metaforizada de acordo com a época em que ela é retratada, fascinando cineastas em diversas décadas diferentes. Enquanto a (melhor) versão da história, dirigida por Philip Kaufman no fim dos anos 70 trazia um ar de paranoia e conspiração inspirados pelos escândalos políticos dos EUA na determinada década (como o caso de “Watergate”); a versão dos anos 90 dirigida por Abel Ferrara baseava-se no medo de enfermidades contagiosas possivelmente epidêmicas, como foi o caso da HIV/AIDS no fim dos anos 80. Já a (fraca) versão mais recente, Invasores (com Nicole Kidman e Daniel Craig), claramente retratava o medo de infiltração e ataques terroristas na sociedade pós 11 de setembro.

A primeira versão da história, no entanto, transformou o filme em um clássico do cinema justamente por servir tanto como uma crítica ao macarthismo e o “caça às bruxas” comunista nos EUA durante a Guerra Fria; quanto também um temor sobre a invasão comunista no ocidente capitalista; isso tudo dependendo da personalidade e interpretação de cada espectador. O protagonista Kevin McCarthy e o autor Jack Finney negam o propósito desses subtextos, porém o próprio diretor Don Siegel afirma que é impossível não tirar essas interpretações a respeito da história do filme. Algo semelhante ocorreu com a peça teatral As Bruxas de Salem, de Arthur Miller, que gerou um filme inesquecível de 1996.

Considerando o contexto político dos EUA da época, com o FBI e o senador Joseph McCarthy reprimindo violentamente qualquer indício de expressão política que questionasse o sistema estadunidense, além de criar a “Lista Negra de Hollywood”, fica fácil adaptarmos a história de pessoas que tentam manter sua humanidade frente a várias outras que desejam reprimir suas individualidades. E se os vilões da história são cópias idênticas de humanos feitas por alienígenas insidiosos que disseminam “vagens espaciais” na cidadezinha (!), o entretenimento fica ainda melhor.

O roteiro do filme, escrito por Daniel Mainwaring (do noir Fuga ao Passado), é hábil ao captar a atenção do espectador desde o início, nos apresentando ao protagonista Dr. Miles (Kevin McCarthy, eternizado pelo papel) claramente transtornado e horrorizado com alguma situação passada; sendo que esse personagem nos servirá de narrador da história. Já para manter o clima de desespero visto no início do filme, o roteiro de Mainwaring nos faz acompanhar eventos que ocorrem quase em tempo real, durante dia e noite, trazendo uma sensação de urgência na história, além de tornar mais fidedigno a extenuante luta dos personagens contra aqueles vilões. O cansaço latente dos heróis ainda é mais acentuado pelo fato de não poderem dormir, por motivos explicados durante a descoberta da invasão alienígena. Esse desconforto da privação de sono é tão angustiante quanto no posterior clássico de Wes Craven A Hora do Pesadelo.

O texto de Jack Finney merece aplausos não só pelo modo “sutil” BRILHANTE de invasão alienígena, em uma época que o medo vinha de grandes catástrofes (como as vistas em Guerra dos Mundos), como também pela caracterização dos vilões. Fisicamente idênticos às suas vítimas, os “pod people” (que acabou se tornando gíria para pessoas emocionalmente e criativamente inócuas) se distinguem pela falta de humanidade e sensibilidade; tanto a fraqueza, quanto a maior virtude dos seres humanos. Servindo para criar excelentes falas (“Um mundo onde todos serão iguais!? Nenhum sentimento? Só instinto de sobrevivência!?”), a história também serve como catalizador de reflexões sociais contundentes, assim como nos posteriores filmes de mortos-vivos de George A. Romero. Afinal de contas, o que o FBI fazia na época do macarthismo era justamente minar a individualidade e a liberdade de expressão dos politicamente engajados que fossem contrários ao governo estadunidense; todos deveriam ser e pensar “iguais”.

Já a direção de Don Siegel (de cults como Perseguidor Implacável e O Estranho que Nós Amamos) consegue trazer todo o clima de conspiração e paranoia para deixar os espectadores cada vez mais desconfortáveis em relação ao futuro dos protagonistas. Explorando bem uma soturna fotografia em preto-e-branco de Ellsworth Fredericks (que trabalhou na série Alfred Hithcocok’s Presents), Siegel aumenta o contraste das cores a medida que o filme segue um curso mais sombrio, sendo hábil ao explorar muito bem as sombras cada vez mais constantes dos personagens; não só para gerar tensão frente à perseguição que os heróis sofrem, como também como uma metáfora dos clones desumanizados que poderão se formar. O uso das sombras ganha seu ápice quando os personagens se escondem em um buraco abaixo do solo, com as sombras dos vilões transeuntes sobrepondo a pouca iluminação de suas faces naquele local.

Além disso, os planos e enquadramentos criados por Siegel são capazes de levar os nervos dos espectadores à flor da pele. Notem a cena em que o Dr. Miles tenta fazer ligações em sua casa após descobrir as “vagens alienígenas” em seu quintal, quando Siegel cria um ângulo que “espreme” os heróis em um ambiente claustrofóbico com vários objetos de cena, ao mesmo tempo que cria um ângulo alto que foca o andar superior da casa intermitentemente, de modo a nos deixar apreensivos sobre alguém escondido nos cômodos de cima. Além disso, com o desenvolvimento da fuga dos heróis, Siegel explora cada vez mais ângulos abertos e panorâmicas que exploram o deserto e ambiente inóspitos, como um símbolo pessimista para o destino mais provável daqueles personagens.

Siegel também consegue trazer um tom de estranheza e incômodo frente àquela história de alienígenas. Na icônica cena da descoberta das “vagens alienígenas”, por exemplo, Siegel monta o momento com cortes secos daquele bizarro “nascimento”, com primeiros planos angulados desconfortáveis no rosto dos heróis. Da mesma forma, Siegel é sugestivo, e elegante, tanto ao criar enquadramentos que diminuem o local de “saída”, e consequente, salvação dos heróis frente a um ambiente opressivo (como na sequência da caverna); quanto também ao criar um plano geral de um encontro dos clones em uma praça, quase como se fosse um comício político, ou até

Apesar de Vampiros de Almas ser um filme B sem todos os momentos de efeitos especiais dos filmes de invasão alienígena de sua década, a cena que envolve a criação dos clones pelas “vagens alienígenas” é perturbadora não só pelos excelentes efeitos orgânicos ali presentes, como também pelos efeitos sonoros enervantes daqueles corpos se expandindo.

O filme recebeu o título original de Invasion of the Body Snatchers para que não houvesse confusão com The Body Snatcher (O Túmulo Vazio), filme de terror de Boris Karloff. Inicialmente o filme traria uma carga maior de alívios cômicos, inclusive tendo sido aprovado em exibições teste para a audiência. Porém, sabiamente, os produtores solicitaram a retirada desses momentos, rendendo ao filme uma carga muito maior de tensão e aspecto sombrio. Curiosamente, o grande cineasta Sam Peckinpah (Sob o Domínio do Medo) participou como um extra do elenco, e alegou, até a sua morte, que havia participado de revisões significativas do roteiro; algo que o roteirista creditado do filme desmentiu várias vezes. Já o ator Kavien McCarthy ficou tão marcado por Vampiros de Almas que voltaria para fazer uma participação especial da refilmagem da década de 1970, além de uma brincadeira satírico em Looney Tunnes – De Volta a Ação, de Joe Dante, um grande fã de Vampiros de Almas.

Além de ser laureado pela crítica internacional, Vampiros de Almas foi eleito para integrar a lista de “10 Maiores Filmes de Ficção Científica” (nº 9) do American Film Institute, além de ter sido selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”. O filme também consta na famosa obra de Steven Schneider “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”.

Apesar de não trazer o final pessimista que o diretor Don Siegel desejava para o filme, o longa tampouco traz o final completamente otimista dos contos originais de Jack Finney. Na verdade, levando em consideração o caráter do FBI na época do macarthismo, Siegel conseguiu criar um comentário irônico em relação ao fim do filme; dando a ideia de que, talvez, a situação estivesse um pouco pior que se imaginava a princípio.

Clássico incontestável, Vampiros de Almas, é uma obra que traz um significado reflexivo sobre sua época histórica embalado por um filme de terror realmente angustiante e perturbador.

IMDb: 7,8/10. Rotten Tomatoes: 98%.


Dica de outra sci-fi clássica com pessoas alienígenas bizarras: A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960) de Wolf Rilla

3 – A Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 1953) de Byron Haskin

16% dos votos

A Guerra dos Mundos talvez seja o filme mais simbólico de invasões de naves espaciais alienígenas que o cinema dos anos 50 ofereceu ao seu público. Clássico de toda uma geração, o longa-metragem de Byron Haskin é baseado na obra literária imortal de H.G. Wells, que também gerou a boa adaptação feita por Steven Spielberg nos anos 2000.

O livro original se passava no fim do século XIX, quando, claramente, a possibilidade de invasores do espaço sideral representava uma ameaça absurdamente maior considerando-se a limitação tecnológica dos seres humanos da época. Em uma tacada inteligente, o roteirista Barré Lyndon (do superestimado O Maior Espetáculo da Terra) e o produtor George Pal (de A Máquina do Tempo) adaptaram a história para o “tempo presente” e criaram um paralelo interessante com as duas Guerras Mundiais que já haviam apavorado o mundo, como se uma guerra interplanetária fosse uma evolução natural da natureza violenta e belicista do ser humano.

Filmado em fantástico Technicolor por George Barnes (parceiro de Hitchcock em vários filmes, como Rebecca, a Mulher Inesquecível e Quando Fala o Coração), a primeira coisa que salta aos nossos olhos são as cores saturadas e vibrantes daquele universo. Com um prólogo que nos apresenta vários planos memoráveis dos planetas vizinhos (ilustrações de Cheslley Bonestell), A Guerra dos Mundos já nos prepara para eventos que trarão cores básicas como metáforas de sua narrativa. Enquanto o céu visto nos belos planos gerais criados por Byron Haskin nos traz um azul “impossível” que simboliza as possibilidades do espaço sideral, as luzes verdes e vermelhas vibrantes das naves espaciais representam não só a origem marciana dos alienígenas, como também um caráter ameaçador de violência e desumanidade.

Os aparatos alienígenas, e as próprias criaturas, aliás, se destacam de qualquer tipo de formas imaginadas em outros filmes. Originalmente, o livro de Wells trazia “tripods” atacando a humanidade, mas como a tecnologia armamentista já havia avançado no século XX, o produtor achou melhor substituir os aparatos terrestres por máquinas voadoras. Inspiradas em serpentes e cisnes, as naves espaciais vistas em Guerra dos Mundos se apresentam como uma arma de repreensão e extermínio mortal, diferentes dos enigmáticos discos voadores tradicionais popularizados por Ray Harryhausen em A Invasão dos Discos Voadores. Os alienígenas também se diferenciam dos seres verdes ou cinzentos do imaginário popular, possuindo uma superfície grotesca de “carne viva”, além de movimentos animalescos, que acentuam ainda mais as intenções violentas das figuras. Já o detalhe da fusão de elementos inorgânicos (o olho tricolor) no corpo daquelas criaturas é um detalhe instigante.

De forma inteligente, o roteiro traz personagens estudiosos e cientistas que buscam pesquisar os elementos daquele ataque alienígena e utilizar, coerentemente, os elementos conhecidos para realizar um contra-ataque; algo muito bem realizado nos posteriores Alien, o Oitavo Passageiro e O Enigma de Outro Mundo. Infelizmente, o roteiro de Lyndon não cria nenhum personagem bem desenvolvido que gere nossa empatia; tendo ainda esse aspecto piorado pelas más atuações dos protagonistas. Enquanto o “galã” Gene Barry é completamente apático, a “mocinha” Ann Robinson apela para a histeria estúpida. Até mesmo a forma como o filme retrata as mulheres é ofensivo, já que elas servem apenas para servir café e comida para os homens e militares do local.

Mas além de personagens rasos, o roteiro do filme também não consegue criar formas mais sutis e envolventes de demonstrar as ações militares e científicas dos seres humanos, apelando para MUITOS diálogos expositivos. Em contrapartida, o roteiro exibe momentos de brilhantismo quando cria um paralelo de “seres vindos do céu” com seres celestial comentadas por um padre, e também quando aproveita o ambiente violento de sua narrativa para ironizar a lógica militar (“Atirar primeiro não seria uma boa ideia. Deveria tentar se comunicar antes. – Atirar primeiro sempre foi um bom dissuasor”).

Com um visual cheio de cores deslumbrantes, como já dito, A Guerra dos Mundos ainda traz cenas de batalhas com naves espaciais sem precedentes para sua época. Com um excelente trabalho de efeitos sonoros (indicado ao Oscar), o filme exibe sons vibrantes e cósmicos de fluxos magnéticos de naves espaciais, além dos raios laser pulverizados, de uma forma tão marcante tecnologicamente que serviria de referência para várias outras sci-fi, inclusive a série Star Trek.

Os efeitos práticos dos movimentos das naves alienígenas e raios laser, além dos efeitos visuais de fazendas e cidades sendo destruídas pelos alienígenas (vencedores do Oscar) são fotografadas com planos gerais que dão conta da dimensão assustadora daqueles atos. Já a montagem de Everett Douglas (que também concorreu ao Oscar), é hábil ao globalizar de forma “jornalística” as ações dos alienígenas. A montagem inclusive, faz até uma brincadeira com o programa de rádio que Orson Welles fez de A Guerra dos Mundos anos antes, e que causou pânico nas pessoas da época, que acreditavam que o mundo realmente estava sendo atacado.

O diretor Haskin consegue criar alguns momentos elegantes de suspense e terror que funcionam até para os espectadores de hoje. Além de conseguir criar uma enorme expectativa frente às ações que aquelas máquinas interplanetárias conseguem fazer, culminando na montagem paralela do padre chegando próximo a uma nave e os efeitos sonoros da mesma se tornando cada vez mais intenso. Já na cena de revelação dos alienígenas, Haskin utiliza bem seu ambiente com possibilidade de sombras e esconderijos para “brincar” com o espectador sobre a antecipação de onde ele vai surgir.

Outro ponto alto do texto de H.G. Wells e do roteiro de Barré Lyndon é a questão da falta de traquejo e habilidade social da espécie humana frente a situações de calamidade e desespero. O terceiro ato de A Guerra dos Mundos demonstra uma sociedade destruída não só pelos ataques alienígenas, como também pelo egoísmo e falta de empatia dos seres humanos em momentos que necessitam da colaboração de todos. Apesar disso, o filme termina com uma forte carga religiosa contrária ao pessimismo que vinha mostrando até então, talvez por pressão do horrendo “Código Hays” proposto pela ridícula Motion Picture Association of America (MPAA).

Apesar da mensagem religiosa da conclusão, a forma como a guerra se encerra é tacada de gênio, principalmente se considerarmos a época em que H.G. Wells escreveu seu livro. De certa forma, M. Night Shyamalan tentou fazer algo parecido em seu atmosférico Sinais, mas teve um efeito completamente reverso de sagacidade quando levamos em consideração a “dimensão” do elemento ameaçador aos alienígenas em nosso planeta.

Os parentes de H.G. Wells que detinham os direitos do livro ficaram tão satisfeitos com o filme que deram ao produtor George Pal o direito de escolher qualquer outra obra do escritor para ser adaptada. O produtor acabaria escolhendo A Máquina do Tempo, que se tornaria outro clássico da ficção-científica. Inclusive, George Pal produziu o filme em parceira com o GRANDE Cecil B. Demille, que tinha planos de dirigir o filme nos anos 20, além de ter oferecido a direção para ninguém menos que Alfred Hitchcock nos anos 30, que declinou.

A versão de 2005 de Steven Spielberg teve a tecnologia à sua disposição para criar cenas de batalha e destruição com uma escala GIGANTESCA, inclusive trazendo os “tripods” à vida. Além de trazer bons atores (Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins), o filme ainda contou com uma carga de violência até considerável. No entanto, o filme de Spielberg perde ao cair em um sentimentalismo exagerado na relação familiar, e em sua conclusão açucarada.

Além de concorrer a três Oscar (Melhor Montagem, Melhor Som e Melhores Efeitos Especiais, venceu o último) A Guerra dos Mundos original foi laureado pela crítica internacional. O filme foi selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”.

Necessário para qualquer cinéfilo, A Guerra dos Mundos é um marco de competência técnica do cinema, e um “game changer” para o gênero; que só seria revigorado novamente no fim da década de 60 com 2001: Uma Odisseia no Espaço.

IMDb: 7,1/10. Rotten Tomatoes: 85%.


Dica de outra sci-fi dos anos 50 com invasão de discos voadores: A Invasão dos Discos Voadores (Earth Vs. The Flying Saucers, 1956) de Fred F. Sears

2 – O Predador (Predator, 1987) de John McTiernan

22% dos votos

Não se enganem. O Predador não foi realizado como um filme de sci-fi nos moldes de Alien, o Oitavo Passageiro (apesar de ser do mesmo estúdio), mas sim nos moldes de um filme de ação brucutu com a “marca” Arnold Schwarzenegger. O filme está muito mais próximo de Comando para Matar e O Sobrevivente, que das histórias assustadoras do xenomorfo que sangra ácido. E isso não significa que o filme seja ruim? Não, pelo contrário. É uma das pérolas de ação dos anos 80 mais divertidas.

Inicialmente com o título de Hunter, O Predador nasceu de uma ideia que os roteiristas Jim e John Thomas (do subestimado Missão: Marte) tiveram após uma tradicional discussão entre nerds, que dizia que a única pessoa que Rocky Balboa ainda não havia lutado contra, era o E.T. do clássico familiar de Steven Spielberg (lembrando que, nessa época, o boxeador interpretado por Sylvester Stallone já estava em sua quarta “aventura”). Aliás, os roteiristas alegam que se basearam muito nos momentos de ação de Aliens, o Resgate para escreverem o filme, trazendo as criaturas alienígenas para a ambientação selvagem de Rambo II – A Missão.

A forte de carga de ação “macho” pode ser percebida até mesmo pelo nada sutil elenco e demais constituintes da produção. O diretor John McTiernan ficaria marcado como famoso diretor de ação, inclusive tendo dirigido o clássico Duro de Matar (além de Duro de Matar 3: A Vingança) e o subestimado O Último Grande Herói. O elenco tem a presença de Jesse Ventura, famoso wrestler profissional que também esteve com Schwarzenegger em O Sobrevivente; Bill Duke, que também esteve com o astro em Comando para Matar; e até Carl “Apollo Creed” Weathers, o grande amigo de Rocky Balboa. Sem contar que Shane Black trabalhou nãos só como ator, mas também como revisor do roteiro. Black é famoso por ser roteirista de filmes de ação, como os dois primeiros Máquina Mortífera, O Último Boy Scout e os divertidos filmes de detetive Beijos e Tiros e Dois Caras Legais.

Até mesmo o próprio Predador seria interpretado por um astro da ação, ninguém menos que Jean Claude Van Damme. Porém, o ator estava insatisfeito pelo trabalho, além de não ter a estatura necessária que o personagem precisava. Desta forma, Van Damme foi dispensado e o ator Kevin Peter Hall foi contratado. Hall foi o ator que interpretou o pé-grande no clássico da “Sessão da Tarde” Um Hóspede do Barulho, e também o personagem título no trash O Monstro do Armário. Ironicamente, o ator já havia interpretado um alienígena que vinha à Terra para predar seres humanos em uma floresta, em um filme trash obscuro chamado Sem Aviso, além da temível criatura vilã no ótimo Pumpkinhead – A Vingança do Diabo.

O (sumido) diretor John McTiernan tem um excelente olho para criar imagens características para nos ambientar em um universo de ação. A introdução de Dutch, o protagonista vivido por Schwarzenegger, já denuncia a aura mítica de herói da figura, com uma icônica silhueta do perfil do militar, com óculos aviadores e um imenso charuto (Stallone Cobra ficaria com inveja). Inicialmente o diretor também explora planos gerais e panorâmicas de elementos militares em meio a um ambiente natural de praias e florestas que denota um tom de Apocalipse Now. Inclusive, os próprios montadores Mark Helfrich (Rambo II – A Missão) e John F. Link (Duro de Matar) esclarecem a inspiração no longa clássico de Francis Ford Copolla, principalmente nas cenas que envolvem os helicópteros. Os próprios efeitos sonoros detalhistas de John Pospisil (Robocop – O Policial do Futuro) ajudam na atmosfera “febril” militar quase ensurdecedora.

McTiernan também é inteligente ao não cair na armadilhar de levar aqueles seus personagens absurdos à sério demais, e cria uma ironia divertida com o tom “macho man” daquela equipe. A apresentação das figuras dentro de um helicóptero é tão divertidamente sarcástica, que é impossível não pensar em uma brincadeira homoerótica do diretor como Tony Scott fez em Top Gun – Ases Indomáveis. O uso do filtro vermelho em um ambiente limitado e quente, cheio de homens suados realizando atos caraterísticos de machões (fazer a barba, contar piadas machistas, mascar tabaco, cuspir) funciona tanto como uma piada caricatural, quanto como uma forma de engrandecer o vilão. O roteiro de O Predador é claro: o grande destaque do filme é o seu evocativo vilão.

O exagero na retratação dos personagens daquela equipe também começa a ter mais sentido de acordo com o decorrer do filme. A ameça aumenta exponencialmente quando pensamos: não importa de nada o quão másculo e viris aquelas figuras são, todos são presas fáceis para aquele vilão. O mais interessante é que o McTiernan adota um tom tão homogêneo de ação e aventura, que mesmo quando os elementos fantásticos entram não há estranhamento. A intenção não era criar uma mudança brusca, e divertida, de tom como em Um Drink no Inferno. Apesar disso, o tom de violência e gore do filme é impressionante, sendo que as ações do alienígena adotam um mesmo tom de brutalidade e sadismo quanto os “ídolos” dos slashers Jason e Freddy Krueger. E dá-lhe cabeças e tórax explodindo, cadáveres esfolados até a carne, corpos destripados e até crânios e colunas vertebrais arrancadas em um só golpe.

Entrando para a história do cinema, e da cultura pop, o Predador é um vilão especialmente inspirado. Com um design fabuloso do grande Stan Winston (O Exterminador do Futuro e Aliens, o Resgate) o alienígena possui um porte realmente ameaçador e “parrudo” que mescla elementos anfíbios e reptilianos que remete ao personagem título do clássico O Monstro da Lagoa Negra; além de uma mandíbula ATERRORIZANTE, ideia do cineasta James Cameron. Até os detalhes da armadura rústica unida a elementos tecnológicos inventivos (como um dispositivo de invisibilidade e uma arma a laser) traz potenciais ideias de uma cultura particularmente interessante.

Acertando mais uma vez, o diretor McTiernan introduz as habilidades do vilão aos poucos e sempre com ar de novidade, deixando o espectador à mercê da imprevisibilidade. O suspense também nasce de forma natural pelo modo como o diretor explorar a mata densa e vasta, com planos que exploram grande profundidade de campo. Já as cenas de ação do filme são cheias da intensidade tradicional dos filmes de ação “descerebrados” 80’s. Trazendo o melhor do cinema bruto de George P. Cosmatos, McTiernan arquiteta as cenas de ação com uma montagem enérgica. Entre frases de efeito “Payback Time!”, “Stick Around!”) os heróis são fotografados em ângulos que exploram suas armas absurdamente grandes, diversas explosões, tiros e cadáveres empilhados.

Quanto ao nosso querido Schwarzenegger, basta dizer que Arnie segue sendo Arnie como todo seu guilty pleasure desde Conan, o Bárbaro, mas só com algum pouco a mais de sofisticação. O astro demonstra sua fisicalidade de impacto habitual, ganhando credibilidade em uma luta “mano a mano” com o vilão alienígena. Sem contar que Arnie lana um de seus mais famosos bordões aqui (“Get to the Choppa!”).

A direção de McTiernan só perde um pouco de pontos os momentos em que ele tenta criar um drama maniqueísta com os personagens rasos, especialmente nas cenas de Bill Duke, que se revela um péssimo ator.

O filme ainda conta com uma trilha sonora antológica de Alan Silvestri, o compositor de temas clássicos como de De Volta para o Futuro e Forrest Gump – O Contador de Histórias. Além de ditar um tom militar adequado, a trilha sonora explora toques tribais e acordes assustadores grandiosos ao redor das ações do vilão que o ajudam a se tornar cada vez mais icônico.

O filme foi um grande sucesso de público e crítica. O filme concorreu a oito prêmios internacionais em 1988, inclusive ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais. O filme teve um singelo orçamento de $15 milhões de dólares e arrecadou algo próximo a $100 milhões ao redor do mundo.

Consequentemente, o filme rendeu uma franquia cinematográfica. A primeira, Predador 2 – A Caçada Continua, foi dirigida por Stephen Hopkins (do estiloso A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy) e trouxe Danny Glover, Bill Paxton e Gary Busey em uma trama policial colocando o vilão alienígena em um ambiente urbano. Já o terceiro capítulo, Predadores, foi produzido por Robert Rodriguez e teve a interessante ideia de colocar a elite mercenária do planeta Terra no planeta dos Predadores para uma caçada particular, além de ter os excelente Adrien Brody (O Pianista) e a brasileira Alice Braga (Ensaio Sobre a Cegueira) como protagonistas. Ambas as sequências são divertidas. Diferente dos péssimos crossovers com Alien, baseados em uma revista em quadrinhos.

Atualmente há um quarto filme em produção, trazendo Shane Black como diretor e roteirista do projeto, além de Thomas Jane (O Nevoeiro), Boyd Holbrook (Logan), Olivia Munn (X-Men: Apocalipse) no elenco. Se levarmos em consideração a experiência no gênero do diretor, podemos esperar algo bom!

Cinema de ação 80’s, com um fascinante personagem alienígena que roubou a cena de seu astro principal, O Predador é cinema escapista bastante divertido. Um dos melhores exemplares da safra “Schwarzenegger”

IMDb: 7,8/10. Rotten Tomatoes: 78%.


Dica de outra sci-fi com um alienígena que cai na Terra e começa a predar seres humanos: A 20 Milhões de Milhas da Terra (20 Millions Miles to Earth, 1957) de Nathan Juran

1 – Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979) de Ridley Scott

27% dos votos

Não somente um marco dos filmes sci-fi, como também de cinema de horror, Alien, O Oitavo Passageiro estabeleceu novos paradigmas para as obras do cinema fantástico que são reverenciadas e seguidas até nos dias de hoje; como por exemplo, no recente e eficiente Vida.

Dois fatores foram fundamentais para o sucesso do filme: Walter Hill e Ridley Scott. O roteiro original de Dan O’Bannon (que mais tarde criaria o cult clássico A Volta dos Mortos Vivos) se chamaria Star Beast, e foi criado a partir de uma história em conjunto com Ronald Shusett (que mais tarde fariam o roteiro de O Vingador do Futuro em 1990). A história nasceu muito devido a insatisfação de O’Bannon com o “pobre” resultado de Dark Star, filme anterior do roteirista que marcou a estreia do grande John Carpenter no cinema. O filme foi feito em caráter independente, sendo que Carpenter, sabiamente, transformou o tom do filme em algo mais satírico para tentar sublimar a pobreza de recursos (o monstro alienígena do filme é uma bola de praia!). Star Beast foi considerado muito violento por vários estúdios, sendo que a própria Fox não quis financiar o projeto de início.

O filme estava preste a ser produzido por Roger Corman, lendário cineasta por trás de pérolas IMPAGÁVEIS do sci-fi dos anos 50 como It Conquered the World, A Mulher Vespa e Criaturas do Fundo do Mar. O fato seria irônico, já que o roteiro de Dan O’Bannon havia pegado bastante referências de A Ameaça do Outro Mundo, outro sci-fi da mesma era dos trashes de Roger Corman. Além deste, o roteiro também “roubava” importantes aspectos dos clássicos O Monstro do Ártico (que seria refilmado por John Carpenter em O Enigma de Outro Mundo) e Planeta Proibido.

No entanto, tudo mudou quando Walter Hill se interessou pelo roteiro. Juntamente com David Giler e Gordon Carroll, Hill produziu o filme pela Fox, que só aceitou o feito se a carga de “sangue” do filme fosse reduzida.

Walter Hill é o cineasta responsável por filmes de ação icônicos como Wariors – Os Selvagens da Noite e Ruas de Fogo, e seria o diretor de Alien inicialmente. Outros considerados foram Robert Aldrich (O que Terá Acontecido a Baby Jane?), Peter Yates (Bullit), Jack Clayton (Vampiros do Almas) e o próprio Dan O’Bannon. Porém, quando Hill desistiu do cargo, o passou para Ridley Scott, após ficar impressionado por seu trabalho no pouco conhecido Os Duelistas. Na verdade, Scott obteve o aval da Fox após ele apresentar vários storyboards para os executivos, que ficaram impressionados com a visão imponente e elegante do diretor, inclusive, dobrando o orçamento do filme.

A contragosto Dan O’Bannon, os produtores Walter Hill e David Giler fizeram várias alterações no roteiro. Conceitos interessantes foram mantidos (como a conotação de estupro da forma como o facehugger ataca), mas o gênero do protagonista foi modificado (O’Bannon não havia pensado em Ripley como uma mulher), bem como VÁRIOS diálogos. O roteirista foi inclusive expulso dos sets após ofender o diretor Scott, pelas mudanças feitas, na frente de toda a equipe.

Mesmo com muitos conflitos, o resultado final de Alien, o Oitavo Passageiro foi nada menos que um novo clássico da sétima arte, considerado como um “Tubarão no Espaço” na época de seu lançamento.

Desde a cena inicial, o diretor Scott já nos deixa claro que o terror daquele filme será extraído de uma calmaria enervante. Através de um travelling espacial a frente de um sombrio planeta, o diretor explora a bucólica imagem do espaço sideral de forma a causar estranheza e apreensão pela tranquilidade e silêncio “ensurdecedor” daquele ambiente. Auxiliado pela trilha sonora atmosférica de Jerry Goldsmith, que extrai tensão da simplicidade, os letreiros criados pela lendário Saul Bass (parceiro de Hitchcock em clássicos como Um Corpo que Cai e Psicose), vão se apresentando gradativamente em fontes diminutas, simbolizando, não só a solidão angustiante da imagem, como também a tagline genial do filme: “No Espaço, ninguém pode ouvir você gritar”. Scott ainda é inteligente ao criar um paralelo do Espaço com o interior “desabitado” da nave através de longos travellings suaves, transpondo o senso de ameaça externa para aquele ambiente.

A câmera de Scott, aliás, se movimenta de forma tão elegante pelos ambientes quanto a câmera de Stanley Kubrick em determinados momentos das cenas espaciais de 2001: Uma Odisseia no Espaço, uma referência que o próprio diretor denunciou. Além disso, os planos externos que focam no movimento da nave Nostromo (referência ao escritor Joseph Conrad, de O Coração das Trevas) pelo espaço é tão bem realizada em sua aproximação enaltecedora da extensão e imponência do veículo, quanto George Lucas havia feito em Guerra nas Estrelas, outra referência do diretor.

Tão elegante quanto seus movimentos de câmera e enquadramentos (a simetria da abertura dos tubos de hibernação é LINDA), são também seus conceitos artísticos de storyboards. O obscuro planeta desconhecido é envolto por uma tempestade nebulosa, com fortes ventos e rajadas que já seriam ameaçadores por si só. Scott explora bem a atmosfera opressora daquele planeta para criar planos memoráveis da silhueta assustadora da nave alienígena. Já o interior da nave, filmado com enquadramentos enormes ideais, apresenta uma arquitetura steampunk bizarra graças ao trabalho icônico de H.R. Giger. O artista havia trabalhado com O’Bannon na adaptação nunca realizada de Duna, de Jodorowski, e chamou o colega para trabalhar em Alien. O Space Jockey é uma verdadeira obra-prima; fundindo elementos orgânicos que remetem a costelas e vértebras, a equipamentos tecnológicos com formatos agressivos, mas milimetricamente simétricos. O design é extremamente eficiente em dar o ar perturbador para aquela situação em que se encontram os personagens.

Além de perturbador, toda a sequência em torno da busca pelo sinal de “socorro” alienígena é desconfortável. Scott é hábil ao utilizar os sonos diegéticos das tempestades do local, além da respiração abafada dos personagens dentro da roupa espacial para denotar claustrofobia; bem como a montagem desconfortável com imagens granuladas de monitores. A contemplação desconfortável daquela nave seria o preparo habilidoso para uma das cenas de maior SUSTO da história do cinema, que transcende o jump scare iniciado por John Carpenter em Halloween de forma ao alongar a antecipação e utilizar sons do ambiente.

Na verdade, a tensão criada por Scott não vem apenas da ambientação e da situação desconhecida, mas também da relação entre os personagens. Basicamente fazendo uma antítese inesperada do que Hitchcock fez em Psicose, Scott só nos deixa claro o real protagonista do filme próximo ao terceiro ato. Apoiado em um excelente elenco, o diretor trabalha uma dinâmica de nervos e antipatia entre as figuras, principalmente contra Ripley. Aparentemente odiada por todos, Ripley é frequentemente colocada fora de plano, ou ocultada pela figura de outros personagens. De mesmo modo, Scott faz questão de mostrar as reações impacientes dos demais aos questionamentos da personagem: como o suspiro de Ash (Ian Holm, ASSUSTADOR) ao ter que explicar como um sensor funciona, ou até mesmo como o personagem fica de costas para Ripley durante um momento emocional. Não há como não pensar que a reação contrária à autoridade de Ripley seja por ela ser mulher em um “clube do bolinha”.

Fincando seu nome eternamente na história do cinema, Sigourney Weaver trabalha Ripley, inicialmente, como uma figura completamente formal e lúcida, como ao forçar uma calma ao impedir a entrada de alguns parceiros na nave. No entanto, com o seguir da história, Weaver começa cada vez mais a se posicionar como líder ao impor seu tom de voz, sem perder um senso de temor ao se ver em uma situação desesperadora (reparem em seu choro nervoso ao não obter resposta da “Mãe”). O papel quase ficou com Meryl Streep e Helen Mirren.

O trabalho de direção para empoderar Ripley é tão meticulosos que pode ser percebido até pelos enquadramentos de Scott. Há uma cena em especial, em que Ripley exige respostas de Ash em um laboratório; enquanto ela faz perguntas evasivas, o único mostrado no plano é Ash (em um ângulo que o coloca superior à outra), quando Ripley finalmente o desafia, Scott cria um contra-plano com a personagem ao centro, e a mantém desde então.

Para construir o terror do filme, Scott se baseou muito no trabalho de Tobe Hooper no clássico O Massacre da Serra Elétrica, que por sua vez utilizava vários recursos importantes do cinema de terror iniciados por Hitchcock em Psicose. Tomemos a famosa cena do jantar como exemplo. Scott começa com um plano circular tão fluido quanto já havia feito no início do filme, explorando a dinâmica relaxante de cada um dos tripulantes. Quando Scott corta para uma expressão de curiosidade sutil de Ash, é quando a audiência sabe que não há algo correto ali. À medida que Kane (John Hurt) convulsiona, Parker (Yaphet Kotto) e Dallas (Tom Skerritt) tomam a frente para contê-lo, enquanto Lambert (Veroica Cartwright) assume uma pose histérica que a caracterizará o resto do filme. Ripley fica de fora do plano (sua revelação ainda está por vir). Quando o primeiro esguicho de sangue sai, Scott faz questão de gastar alguns segundos para que todos se paralisem com o susto, reação natural de qualquer pessoa para tentar processar a situação. Com ótimo uso de efeitos sonoros, o diretor conclui o ato grotesco com o gore necessário, enquanto todos observam incrédulos.

Scott utiliza bem o efeito da “marretada de Leatherface” para impactar os espectadores com um choque inesperado. E notem também como o diretor utiliza um som, por vezes quase imperceptível, de batimentos cardíacos que se intensificam com a aproximação do perigo; um efeito atmosférico que serviria para substituir a câmera subjetiva do olhar do vilão tão utilizada em filmes slashers.

Não somente nessa cena de horror, como também em todas as outras, Scott lança mão de artimanhas que Polanski e Spielberg também utilizaram em O Bebê de Rosemary e Tubarão, respectivamente, e evita de mostrar o monstro completamente. Permitindo que a imaginação do espectador trabalhe a ameaça, os ambientes sombrios enaltecem a natureza da criatura, assim como os elementos de cena (um bipe localizador, correntes dependuradas e fontes de luzes) funcionam como fator gerador de tensão para suas ações. Além de ser outro trabalho excepcional de design de H.R. Giger (a criatura é realmente ATERRADORA), o trabalho de efeitos mecatrônicos e maquiagem liderados por Carlo Rambaldi (de E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau) são um primor de efetividade (o detalhe da sialorreia da criatura é sensacional).

Também há de se enaltecer os conceitos científicos riquíssimos que o filme entrega. Além de servirem para levar a trama adiante ao apresentar o vilão, a parte científica do filme funciona como uma evolução coerente dos atos dos personagens, que precisam conhecer o inimigo para saber vencê-lo. Além da interessante conotação sexual do facehugger (outro design BRILHANTE) para simbolizar o método de reprodução dos alienígenas, o método de crescimento e até defesa das criaturas (o detalhe do sangue ácido é genial), são explorados com uma autenticidade genuína; da mesma forma que um CHOCANTE plot twist no fim do segundo ato, acerca da natureza de um dos tripulantes, que engrandece ainda mais os conceitos daquele universo futurístico. Destaque para os excelentes efeitos especiais práticos criados por Brian Johnson, que também estava trabalhando em O Império Contra-Ataca na mesma época.

E não há como deixar de citar a mise-en-scène de todo o terceiro ato, em que Scott destila seu talento para instigar tensão e urgência nos espectadores através de planos mais fechados sufocantes, câmera na mão com movimentação frenética em ambientes cada vez mais limitados, cheios de luzes estereoscópicas, alarmes e jatos de extintores. A agonia dos personagens é palpável, enquanto o diretor alonga o sofrimento dos mesmos em situações cada vez mais claustrofóbicas assim como no fim de Halloween – A Noite do Terror.

Além do revelador desempenho de Sigourney Weaver, o filme também contou com uma excelente participação de Ian Holm (o Bilbo Bolseiro, de O Senhor dos Anéis) que sempre nos deixa com a pulga atrás da orelha, e que inclusive não estava no roteiro original de Dan O’Bannon. Destaque também para a lucidez de Tom Skerritt (da fascinante Contato) como Dallas, um papel originalmente oferecido para Harrison Ford. Já Harry Dean Stanton (o pai da Garota de Rosa Schoking) e Yaphet Kotto (o Kananga de Com 007 Viva e Deixe Morrer) exploram a boa dinâmica que tem em conjunto, assim como John Hurt (R.I.P.) é inteligente ao não chamar atenção para si mesmo. Já Veronica Cartrwight transparece com talento a insegurança e desconforto da personagem, tendo o prazer de também ter participado de outra sci-fi de terror clássica no ano anterior em Invasores de Corpos.

Alien, o Oitavo Passageiro foi laureado pela crítica internacional. O filme possui foi selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”.

Sucesso estrondoso de bilheteria (arrecadou $185 milhões para um orçamento de $11 milhões), o filme venceu um total de 17 prêmios internacionais, tendo concorrido a mais 19. Venceu o Oscar de Melhores Efeitos Especiais e ainda concorreu ao de Melhor Direção de Arte. Também venceu Melhor Filme e Melhor Diretor no Saturn Award da Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Filmes, USA.
E como não poderia deixar de ser, Alien gerou uma onda de filmes de terror espaciais e com monstros alienígenas, assim como Mad Max criou uma “marca” de filmes pós-apocalípticos. Muitos deles foram filmes de terror B de baixo orçamento como XB: Galáxia Proibida e Galáxia do Terror, esse último inclusive produzido por Roger Corman. Inclusive um dos títulos provisório do filme era They Bite (“Eles Mordem”), que acabou se tornando o subtítulo e tag line de um divertido cult dos 80’s chamado Criaturas, um “sub-Gremlins” que parodia E.T. e Alien.

Como todos sabem, o filme gerou uma franquia viva no cinema até hoje. Embora apenas o clássico Aliens, o Resgate (de James Cameron) consiga se equiparar ao original, as sequências comandadas novamente por Ridley Scott (Alien: Covenant e Prometheus) conseguem trazer algumas ideias e momentos interessantes; embora não deixe de ser decepcionante que o diretor nunca conseguiu retornar ao brilhantismo do primeiro filme. Já Alien3 (de David Fincher) e Alien: A Ressureição (de Jean Pierre-Jeneut) são muito ruins. Quanto aos dois (abomináveis) crossovers com Predador, é melhor ignorar que eles tenham existido. Clique aqui e confira o especial que nós fizemos sobre a franquia Alien.

Enfim, não há como deixar de encontrar cada vez mais elogios para Alien, que não só ajudou a elevar o terror ao mainstream, como também criou a primeira heroína verdadeiramente independente do cinema e ainda é uma verdadeira aula de direção. Obrigatório para qualquer cinéfilo.

IMDb: 8,5/10. Rotten Tomatoes: 97%.


Dica de outra sci-fi de terror onde o ameaça vem de um sinal de “socorro” em um planeta alienígena: Planeta Proibido (Forbidden Planet, 1956) de Fred M. Wilcox.

Dicas de filmes interessantes com alienígenas aterrorizantes que não foram citados, ou não puderam entrar na lista (organizados em ordem cronológica de lançamento):


  • O Monstro do Ártico (The Thing From Another World, 1951) de Christian Nyby
  • A Ameaça que Veio do Espaço (It Came from Outer Space, 1953) de Jack Arnold
  • Invasores de Marte (Invaders from Mars, 1953) de William Cameron Menzies
  • A Ilha da Terra (This Island, Earth, 1955) de Joseph M. Newman e Jack Arnold
  • A Ameaça do Outro Mundo (It! The Terror from Beyond Space, 1958) de Edward L. Cahn
  • A Bolha Assassina (The Blob, 1958) de Irvin Yeaworth, Russel S. Doughton Jr.
  • Planeta dos Vampiros (Planet of the Vampires, 1965) de Mario Bava
  • Dark Star (Idem, 1974) de John Carpenter
  • Força Sinistra (Lifeforce, 1985) de Tobe Hooper
  • Aliens, o Resgate (Aliens, 1986) de James Cameron
  • Criaturas 2 (Critters II – The Main Course, 1988) de Mick Garris
  • Predador 2 – A Caçada Continua (Predator 2, 1990) de Stephen Hopkins
  • Invasores de Corpos – A Invasão Continua (Body Snatchers, 1993) de Abel Ferrara
  • A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1995) de John Carpenter
  • A Experiência (Species, 1995) de Roger Donaldson
  • Arquivo X: O Filme (The X-Files, 1996) de Rob Bowman
  • Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997) de Paul Verhoeven
  • A Invasão (The Arrival, 1996) de David Twohy
  • Marte Ataca (Mars Attack, 1996) de Tim Burton
  • Eclipse Mortal (Pitch Black, 2000) de David Twohy
  • Fantasmas de Marte (Ghosts of Mars, 2001) de Jon Carpenter
  • Sinais (Signs, 2002) de M.Night Shyamalan
  • Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) de Steven Spielberg
  • Seres Rastejantes (Slither, 2006) de James Gunn
  • Cloverfield: Monstro (Cloverfield, 2008) de Matt Reeves
  • Contatos de 4º Grau (The Fourth Kind, 2009) de Olatunde Osunsanmi
  • Predadores (Predators, 2010) de Nimród Antal
  • Ataque ao Prédio (Attack the Block, 2011) de Joe Cornish
  • Cowboys & Aliens (Idem, 2011) de Jon Favreau
  • Super 8 (Idem, 2011) de J.J. Abrams
  • Heróis de Ressaca (The World’s End, 2013) de Edgar Wright
  • Os Escolhidos (Dark Skies, 2013) de Scott Stewart
  • Sob a Pele (Under the Skin, 2013) de Jonathan Glazer
  • No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, 2014) de Doug Liman
  • Rua Cloverfield, 10 (10, Cloverfield Lane, 2016) de Dan Trachtenberg
  • Vida (Life, 2017) de Daniel Espinosa

E aí pessoal? Qual a opinião de vocês sobre esses filmes e subgênero? Esquecemos de citar algum filme que vocês gostam: Deixem suas opiniões no espaço de comentários. Até a próxima “Lista Interativa”.

Divulgaí

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