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Especial Alien: Revisitando a Saga de Horror Espacial mais Famosa do Cinema

Um especial sobre o alienígena Xenomorpho, que há mais de 35 anos tem apavorado as plateias do mundo todo.


O lançamento de Alien: Covenant é um evento MUITO aguardado pelos amantes da sétima arte; seja pelos entusiastas de Prometheus, ou pelos fãs dos filmes clássicos de Ridley Scott e James Cameron. E é claro que nós da redação prepararíamos para vocês, nossos leitores Loucos por Filmes, um especial sobre o alienígena Xenomorpho, que há mais de 35 anos tem apavorado as plateias do mundo todo.

Apesar de claramente irregular, não há como ignorar a importância da franquia Alien para o cinema. Além de Ridley Scott ter seguido a cartilha de O Bebê de Rosemary, Tubarão e O Exorcista (ao quebrar os preconceitos quanto a filmes de terror no mainstream), ele criou a obra que seria parâmetro para todas as outras sci-fi de terror que se seguiriam dali em diante (recentemente tivemos o eficiente Vida). Além disso, a personagem Ellen Ripley, e sua intérprete até então desconhecida Sigourney Weaver, se tornaram um marco do feminismo no cinema fantástico, assim como Sarah Connor, Clarice Starling e até a recente Imperatriz Furiosa. Na verdade, o feminismo já havia dados grandes passos anos antes, com a espirituosa Princesa Leia de Carrie Fisher, em Guerra nas Estrelas.

James Cameron, por sua vez, conseguiu não só empoderar definitivamente o gênero feminino no gênero fantástico de uma forma inesperada em Aliens, O Resgate, como conseguiu expandir o cânone daquele universo de forma inteligente e coerente. Cameron criou um dos MELHORES filmes sci-fi de ação da história do cinema; também servindo de parâmetro para várias obras subsequentes.

Ambos os filmes foram laureados pela crítica, e público, além de terem angariado vários prêmios da indústria. Inclusive, ambos os clássicos aparecem em lista de “melhores” criadas pelo importante American Film Institute (como “Os 10 Maiores Filmes de Ficção Científica”), além de constarem na icônica obra “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” de Steven Schneider.

Infelizmente o mesmo não pode ser dito pelos dois longas subsequentes da franquia, que seguiram a história de Ripley de forma controverso, para dizer o mínimo. Tanto Alien³ quanto Alien: A Ressurreição foram feitos apenas por questões mercadológicas; sem o apreço artístico que as duas primeiras obras tiveram; além de terem tido produções extremamente problemáticas e inúmeros brigas entre produtores, roteiristas e diretores.

No meio tempo até Ridley Scott voltar às origens, a 20th Century Fox investiu no sucesso do divertido e despretensioso Freddy Vs Jason e produziu um duelo cinematográfico há muito tempo solicitado por alguns fãs, Alien Vs Predador. Dirigido pelo péssimo Paul W.S. Anderson (o mesmo da franquia Resident Evil), o filme de 2003 seguiu as HQs homônimas, que desvalorizavam os clássicos filmes originais. Apesar de alegarem inspiração no conto Nas Montanhas da Loucura de H.P. Lovecraft (!!!), o filme foi um fiasco completo (apesar da boa bilheteria), que só foi superado em ruindade pela sequência Alien Vs Predador 2: Réquiem, uma verdadeira abominação cinematográfica.

Depois de tantas decepções, Prometheus foi aguardado com muita expectativa pelos fãs, principalmente pelo retorno de Ridley Scott ao universo que ajudou a criar, e por uma campanha de marketing que se apoiava nos trailers e teasers clássicos de Alien, O Oitavo Passageiro como forma de homenagem e antecipação do clima de terror e claustrofobia que o filme apresentaria. Apesar de não ser um filme ruim (principalmente quando comparado aos últimos exemplares) Prometheus não chegou aos pés da expectativa dos cinéfilos; principalmente por apostar em uma presunção temática que resultou não só mal resolvida, como também cretina em seu desrespeito ao investimento de interesse feito pelo espectador.

O que nos leva ao novo Alien: Covenant, que está prometendo ser a redenção de Ridley Scott pela “promessa não cumprida” de Prometheus, e da 20th Century Fox após ter feito tantas lambanças com uma “marca” tão famosa e lucrativa. A própria produtora interrompeu um projeto de sequência de Aliens, o Resgate que Neil Blomkamp (de Distrito 9) estava realizando, que ignoraria todas as demais sequências, assim como Halloween H20: Vinte Anos Depois fez, por exemplo. Isso para privilegiar o mais novo projeto de Ridley Scott.


Portanto, chegou a hora de recapitularmos os filmes anteriores do universo Alien (com exceção dos Alien Vs Predador, que são de um universo à parte). Principalmente para os que ainda não são familiarizados com os filmes de Ridley Scott e James Cameron, vale a pena conhecer dois dos mais influentes filmes do gênero fantásticos.



1 – Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, 1979) de Ridley Scott

Não somente um marco dos filmes sci-fi, como também de cinema de horror, Alien, O Oitavo Passageiro estabeleceu novos paradigmas para as obras do cinema fantástico que são reverenciadas e seguidas até nos dias de hoje; como por exemplo, no recente e eficiente Vida.

Dois fatores foram fundamentais para o sucesso do filme: Walter Hill e Ridley Scott. O roteiro original de Dan O’Bannon (que mais tarde criaria o cult clássico A Volta dos Mortos Vivos) se chamaria Star Beast, e foi criado a partir de uma história em conjunto com Ronald Shusett (que mais tarde fariam o roteiro de O Vingador do Futuro em 1990). A história nasceu muito devido a insatisfação de O’Bannon com o “pobre” resultado de Dark Star, filme anterior do roteirista que marcou a estreia do grande John Carpenter no cinema. O filme foi feito em caráter independente, sendo que Carpenter, sabiamente, transformou o tom do filme em algo mais satírico para tentar sublimar a pobreza de recursos (o monstro alienígena do filme é uma bola de praia!). Star Beast foi considerado muito violento por vários estúdios, sendo que a própria Fox não quis financiar o projeto de início.

O filme estava preste a ser produzido por Roger Corman, lendário cineasta por trás de pérolas IMPAGÁVEIS do sci-fi dos anos 50 como It Conquered the World, A Mulher Vespa e Criaturas do Fundo do Mar. O fato seria irônico, já que o roteiro de Dan O’Bannon havia pegado bastante referências de A Ameaça do Outro Mundo, outro sci-fi da mesma era dos trashes de Roger Corman. Além deste, o roteiro também “roubava” importantes aspectos dos clássicos O Monstro do Ártico (que seria refilmado por John Carpenter em O Enigma de Outro Mundo) e Planeta Proibido.

No entanto, tudo mudou quando Walter Hill se interessou pelo roteiro. Juntamente com David Giler e Gordon Carroll, Hill produziu o filme pela Fox, que só aceitou o feito se a carga de “sangue” do filme fosse reduzida.

Walter Hill é o cineasta responsável por filmes de ação icônicos como Wariors – Os Selvagens da Noite e Ruas de Fogo, e seria o diretor de Alien inicialmente. Outros considerados foram Robert Aldrich (O que Terá Acontecido a Baby Jane?), Peter Yates (Bullit), Jack Clayton (Vampiros do Almas) e o próprio Dan O’Bannon. Porém, quando Hill desistiu do cargo, o passou para Ridley Scott, após ficar impressionado por seu trabalho no pouco conhecido Os Duelistas. Na verdade, Scott obteve o aval da Fox após ele apresentar vários storyboards para os executivos, que ficaram impressionados com a visão imponente e elegante do diretor, inclusive, dobrando o orçamento do filme.

A contragosto Dan O’Bannon, os produtores Walter Hill e David Giler fizeram várias alterações no roteiro. Conceitos interessantes foram mantidos (como a conotação de estupro da forma como o facehugger ataca), mas o gênero do protagonista foi modificado (O’Bannon não havia pensado em Ripley como uma mulher), bem como VÁRIOS diálogos. O roteirista foi inclusive expulso dos sets após ofender o diretor Scott, pelas mudanças feitas, na frente de toda a equipe.

Mesmo com muitos conflitos, o resultado final de Alien, o Oitavo Passageiro foi nada menos que um novo clássico da sétima arte, considerado como um “Tubarão no Espaço” na época de seu lançamento.

Desde a cena inicial, o diretor Scott já nos deixa claro que o terror daquele filme será extraído de uma calmaria enervante. Através de um travelling espacial a frente de um sombrio planeta, o diretor explora a bucólica imagem do espaço sideral de forma a causar estranheza e apreensão pela tranquilidade e silêncio “ensurdecedor” daquele ambiente. Auxiliado pela trilha sonora atmosférica de Jerry Goldsmith, que extrai tensão da simplicidade, os letreiros criados pela lendário Saul Bass (parceiro de Hitchcock em clássicos como Um Corpo que Cai e Psicose), vão se apresentando gradativamente em fontes diminutas, simbolizando, não só a solidão angustiante da imagem, como também a tagline genial do filme: “No Espaço, ninguém pode ouvir você gritar”. Scott ainda é inteligente ao criar um paralelo do Espaço com o interior “desabitado” da nave através de longos travellings suaves, transpondo o senso de ameaça externa para aquele ambiente.

A câmera de Scott, aliás, se movimenta de forma tão elegante pelos ambientes quanto a câmera de Stanley Kubrick em determinados momentos das cenas espaciais de 2001: Uma Odisseia no Espaço, uma referência que o próprio diretor denunciou. Além disso, os planos externos que focam no movimento da nave Nostromo (referência ao escritor Joseph Conrad, de O Coração das Trevas) pelo espaço é tão bem realizada em sua aproximação enaltecedora da extensão e imponência do veículo, quanto George Lucas havia feito em Guerra nas Estrelas, outra referência do diretor.

Tão elegante quanto seus movimentos de câmera e enquadramentos (a simetria da abertura dos tubos de hibernação é LINDA), são também seus conceitos artísticos de storyboards. O obscuro planeta desconhecido é envolto por uma tempestade nebulosa, com fortes ventos e rajadas que já seriam ameaçadores por si só. Scott explora bem a atmosfera opressora daquele planeta para criar planos memoráveis da silhueta assustadora da nave alienígena. Já o interior da nave, filmado com enquadramentos enormes ideais, apresenta uma arquitetura steampunk bizarra graças ao trabalho icônico de H.R. Giger. O artista havia trabalhado com O’Bannon na adaptação nunca realizada de Duna, de Jodorowski, e chamou o colega para trabalhar em Alien. O Space Jockey é uma verdadeira obra-prima; fundindo elementos orgânicos que remetem a costelas e vértebras, a equipamentos tecnológicos com formatos agressivos, mas milimetricamente simétricos. O design é extremamente eficiente em dar o ar perturbador para aquela situação em que se encontram os personagens.

Além de perturbador, toda a sequência em torno da busca pelo sinal de “socorro” alienígena é desconfortável. Scott é hábil ao utilizar os sonos diegéticos das tempestades do local, além da respiração abafada dos personagens dentro da roupa espacial para denotar claustrofobia; bem como a montagem desconfortável com imagens granuladas de monitores. A contemplação desconfortável daquela nave seria o preparo habilidoso para uma das cenas de maior SUSTO da história do cinema, que transcende o jump scare iniciado por John Carpenter em Halloween de forma ao alongar a antecipação e utilizar sons do ambiente.

Na verdade, a tensão criada por Scott não vem apenas da ambientação e da situação desconhecida, mas também da relação entre os personagens. Basicamente fazendo uma antítese inesperada do que Hitchcock fez em Psicose, Scott só nos deixa claro o real protagonista do filme próximo ao terceiro ato. Apoiado em um excelente elenco, o diretor trabalha uma dinâmica de nervos e antipatia entre as figuras, principalmente contra Ripley. Aparentemente odiada por todos, Ripley é frequentemente colocada fora de plano, ou ocultada pela figura de outros personagens. De mesmo modo, Scott faz questão de mostrar as reações impacientes dos demais aos questionamentos da personagem: como o suspiro de Ash (Ian Holm, ASSUSTADOR) ao ter que explicar como um sensor funciona, ou até mesmo como o personagem fica de costas para Ripley durante um momento emocional. Não há como não pensar que a reação contrária à autoridade de Ripley seja por ela ser mulher em um “clube do bolinha”.

Fincando seu nome eternamente na história do cinema, Sigourney Weaver trabalha Ripley, inicialmente, como uma figura completamente formal e lúcida, como ao forçar uma calma ao impedir a entrada de alguns parceiros na nave. No entanto, com o seguir da história, Weaver começa cada vez mais a se posicionar como líder ao impor seu tom de voz, sem perder um senso de temor ao se ver em uma situação desesperadora (reparem em seu choro nervoso ao não obter resposta da “Mãe”). O papel quase ficou com Meryl Streep e Helen Mirren.

O trabalho de direção para empoderar Ripley é tão meticulosos que pode ser percebido até pelos enquadramentos de Scott. Há uma cena em especial, em que Ripley exige respostas de Ash em um laboratório; enquanto ela faz perguntas evasivas, o único mostrado no plano é Ash (em um ângulo que o coloca superior à outra), quando Ripley finalmente o desafia, Scott cria um contra-plano com a personagem ao centro, e a mantém desde então.

Para construir o terror do filme, Scott se baseou muito no trabalho de Tobe Hooper no clássico O Massacre da Serra Elétrica, que por sua vez utilizava vários recursos importantes do cinema de terror iniciados por Hitchcock em Psicose. Tomemos a famosa cena do jantar como exemplo. Scott começa com um plano circular tão fluido quanto já havia feito no início do filme, explorando a dinâmica relaxante de cada um dos tripulantes. Quando Scott corta para uma expressão de curiosidade sutil de Ash, é quando a audiência sabe que não há algo correto ali. À medida que Kane (John Hurt) convulsiona, Parker (Yaphet Kotto) e Dallas (Tom Skerritt) tomam a frente para contê-lo, enquanto Lambert (Veroica Cartwright) assume uma pose histérica que a caracterizará o resto do filme. Ripley fica de fora do plano (sua revelação ainda está por vir). Quando o primeiro esguicho de sangue sai, Scott faz questão de gastar alguns segundos para que todos se paralisem com o susto, reação natural de qualquer pessoa para tentar processar a situação. Com ótimo uso de efeitos sonoros, o diretor conclui o ato grotesco com o gore necessário, enquanto todos observam incrédulos.

Scott utiliza bem o efeito da “marretada de Leatherface” para impactar os espectadores com um choque inesperado. E notem também como o diretor utiliza um som, por vezes quase imperceptível, de batimentos cardíacos que se intensificam com a aproximação do perigo; um efeito atmosférico que serviria para substituir a câmera subjetiva do olhar do vilão tão utilizada em filmes slashers.

Não somente nessa cena de horror, como também em todas as outras, Scott lança mão de artimanhas que Polanski e Spielberg também utilizaram em O Bebê de Rosemary e Tubarão, respectivamente, e evita de mostrar o monstro completamente. Permitindo que a imaginação do espectador trabalhe a ameaça, os ambientes sombrios enaltecem a natureza da criatura, assim como os elementos de cena (um bipe localizador, correntes dependuradas e fontes de luzes) funcionam como fator gerador de tensão para suas ações. Além de ser outro trabalho excepcional de design de H.R. Giger (a criatura é realmente ATERRADORA), o trabalho de efeitos mecatrônicos e maquiagem liderados por Carlo Rambaldi (de E.T. e Contatos Imediatos de Terceiro Grau) são um primor de efetividade (o detalhe da sialorreia da criatura é sensacional).

Também há de se enaltecer os conceitos científicos riquíssimos que o filme entrega. Além de servirem para levar a trama adiante ao apresentar o vilão, a parte científica do filme funciona como uma evolução coerente dos atos dos personagens, que precisam conhecer o inimigo para saber vencê-lo. Além da interessante conotação sexual do facehugger (outro design BRILHANTE) para simbolizar o método de reprodução dos alienígenas, o método de crescimento e até defesa das criaturas (o detalhe do sangue ácido é genial), são explorados com uma autenticidade genuína; da mesma forma que um CHOCANTE plot twist no fim do segundo ato, acerca da natureza de um dos tripulantes, que engrandece ainda mais os conceitos daquele universo futurístico. Destaque para os excelentes efeitos especiais práticos criados por Brian Johnson, que também estava trabalhando em O Império Contra-Ataca na mesma época.

E não há como deixar de citar a mise-en-scène de todo o terceiro ato, em que Scott destila seu talento para instigar tensão e urgência nos espectadores através de planos mais fechados sufocantes, câmera na mão com movimentação frenética em ambientes cada vez mais limitados, cheios de luzes estereoscópicas, alarmes e jatos de extintores. A agonia dos personagens é palpável, enquanto o diretor alonga o sofrimento dos mesmos em situações cada vez mais claustrofóbicas assim como no fim de Halloween – A Noite do Terror.

Além do revelador desempenho de Sigourney Weaver, o filme também contou com uma excelente participação de Ian Holm (o Bilbo Bolseiro, de O Senhor dos Anéis) que sempre nos deixa com a pulga atrás da orelha, e que inclusive não estava no roteiro original de Dan O’Bannon. Destaque também para a lucidez de Tom Skerritt (da fascinante Contato) como Dallas, um papel originalmente oferecido para Harrison Ford. Já Harry Dean Stanton (o pai da Garota de Rosa Schoking) e Yaphet Kotto (o Kananga de Com 007 Viva e Deixe Morrer) exploram a boa dinâmica que tem em conjunto, assim como John Hurt (R.I.P.) é inteligente ao não chamar atenção para si mesmo. Já Veronica Cartrwright transparece com talento a insegurança e desconforto da personagem, tendo o prazer de também ter participado de outra sci-fi de terror clássica no ano anterior em Invasores de Corpos.

Alien, o Oitavo Passageiro foi laureado pela crítica internacional. O filme possui 97% de aprovação no RottenTomatoes, e foi selecionado para preservação no National Film Registry, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado “culturalmente, historicamente, ou esteticamente relevante”.

Sucesso estrondoso de bilheteria (arrecadou $185 milhões para um orçamento de $11 milhões), o filme venceu um total de 17 prêmios internacionais, tendo concorrido a mais 19. Venceu o Oscar de Melhores Efeitos Especiais e ainda concorreu ao de Melhor Direção de Arte. Também venceu Melhor Filme e Melhor Diretor no Saturn Award da Academy of Science Fiction, Fantasy e Horror Filmes, USA.

E como não poderia deixar de ser, Alien gerou uma onda de filmes de terror espaciais e com monstros alienígenas, assim como Mad Max criou uma “marca” de filmes pós-apocalípticos. Muitos deles foram filmes de terror B de baixo orçamento como XB: Galáxia Proibida e Galáxia do Terror, esse último inclusive produzido por Roger Corman. Inclusive um dos títulos provisório do filme era They Bite (“Eles Mordem”), que acabou se tornando o subtítulo e tag line de um divertido cult dos 80’s chamado Criaturas, um “sub-Gremlins” que parodia E.T. e Alien.

Enfim, não há como deixar de encontrar cada vez mais elogios para Alien, que não só ajudou a elevar o terror ao mainstream, como também criou a primeira heroína verdadeiramente independente do cinema e ainda é uma verdadeira aula de direção. Obrigatório para qualquer cinéfilo.

2 – Aliens, O Resgate (Aliens, 1986) de James Cameron

Aliens foi um projeto MUITO demorado e arriscado. Obviamente, o primeiro filme havia se tornando um clássico moderno quase instantaneamente, e o estúdio viu uma grande chance de capitalizar em cima do sucesso do filme. Os produtores Walter Hill e David Giler não conseguiam encontrar alguma mente criativa o bastante para expandir aquele universo... até que se depararam com o roteiro de O Exterminador do Futuro.

Os produtores ficaram tão impressionados pela criatividade do então novato James Cameron, que o chamaram para uma conversa a respeito da sequência de Alien. Até o momento, o único trabalho de direção de Cameron havia sido o trash Piranha II – Assassinas Voadoras, que na verdade havia sido filmado, em grande parte, pelo produtor Ovidio G. Assonitis, após um conflito na produção. Os produtores Hill e Giler ficaram impressionados pela visão que Cameron poderia dar para o universo de Alien e solicitaram que o cineasta fizesse um tratamento de sua história para apresentar ao estúdio.

A Fox também ficou maravilhada com a visão de Cameron, e queriam tanto que o diretor trabalhasse na sequência que acabaram fazendo algo inimaginável: esperaram que Cameron terminasse seu trabalho de direção em O Exterminador do Futuro (que nem havia começado) para que ele estivesse disponível para Aliens. Diz a lenda, que o estúdio fez isso como uma “prova prática” de Cameron, para que ele comprovasse que poderia comandar uma produção do nível de Aliens. Bom, o fato é que nós sabemos que O Exterminador do Futuro não poderia ter se saído melhor, e Cameron passou no teste com excelência.

Com a entrada de Cameron no projeto ficou fácil trazer Sigourney Weaver de volta no papel da icônica Ellen Ripley. A atriz se negou durante muito tempo a voltar à personagem, alegando que tinha medo de como poderiam estragar a personagem e ferir o legado do filme original. Sua opinião só mudou quando ela leu o roteiro de Cameron e ficou impressionada com a qualidade do texto. Inclusive, a atriz chegou a influenciar Cameron a respeito do desenvolvimento da personagem durante o filme, algo que o diretor acatou com respeito.

Afinal de contas, tudo em relação a Aliens, o Resgate gira em torno do ícone que Ripley se tornou após o primeiro filme, e celebra o que há de mais intenso e único nas mulheres: a maternidade. Da mesma forma como empoderou o significado de “mãe” em O Exterminador do Futuro, Cameron usa as emoções acerca dessa situação para explorar a personalidade de sua protagonista, engrandece-la e levar a trama adiante. Sem esquecer, claro, de expandir aquele universo futurista, implantar novos, e interessantes, conceitos e realizar sequências de ação EMPOLGANTES.

A verdade é que Cameron fez de Aliens, o Resgate um sci-fi de ação como uma “pancada” visceral em quem o assiste, diferente do anterior, que era uma sci-fi de terror plantava a tensão insidiosamente até o limite do suportável. E não apenas um filme de ação qualquer, já que Aliens, O Resgate é considerado um dos melhores do cinema, além de possuir cenas icônicas que serviram de parâmetro para vários outros filmes.

O que se destaca inicialmente no filme é a calma e objetividade com que Cameron explica as consequências do primeiro filme, além de problematizar a psicologia de Ripley. Durante a primeira uma hora de filme, o roteiro demonstra, com IMENSA coerência e respeito pelo espectador, como Ripley foi encontrada; como a companhia lidou de forma cínica com seu relato dos acontecimentos; como o fato repercutiu em sua vida pessoal e familiar (rendendo uma cena tocante e introspectiva); e como aquele ato heroico, ironicamente, significou a ruína de sua vida. Segundo Cameron, Alien sempre foi “sobre” Ripley, e o cineasta monta o cenário fantasticamente para que nos simpatizemos ainda mais por aquela figura.

Com um personagem tão bem escrito, Sigourney Weaver consegue dar outro show de interpretação. Sempre com um semblante “duro” que denuncia um trauma latente pelos acontecimentos passados e suas repercussões, Ripley parece ter entrado em um vácuo emocional que só deixou espaço para a angústia. Weaver é hábil ao demonstrar a autoridade e senso de justiça que guia sua personagem desde o primeiro filme (como a se revoltar impacientemente contra as argumentações dos acionistas da companhia Weyland-Yutani). E é esse senso de justiça que admiramos na personagem que nos faz compreender a empatia que a personagem sente pelos habitantes do planeta em “terraformação”, e sua decisão de seguir até lá. Mesmo que tenha um imenso medo do que poderá encontrar (e o medo que Weaver demonstra é nada menos que natural), a personagem sabe que é única a já enfrentar a criatura, e a única que poderia ser conselheira do batalhão que está indo até lá. As mensagens passadas pela atriz por simples expressões faciais (como ao tentar esconder tensão ao ver os fuzileiros encontrando um ninho de aliens) demonstra como ela tem total conhecimento de sua personagem.

A atuação de Weaver em Aliens, O Resgate foi tão bem realizada, que a atriz angariou não só uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, como também foi a primeira a ter o prestígio a partir de uma personagem de filme ação.

Além de fornecer bastante credibilidade aos sentimentos complexos de Ripley, Cameron também dá espaço para que conhecemos os integrantes daquele batalhão de fuzileiros, bem como sua dinâmica. E por mais que inicialmente personagens como o de Bill Paxton (R.I.P.) sejam o cúmulo da estupidez “macho man”, ou o de Jenette Goldstein (a mão adotiva de John Connor em T2: O Julgamento Final) seja um esteriótipo da mulher masculinizada; posteriormente os atores tem mais espaço para engrandecer o valor de cada um deles, e consequentemente a empatia do público.

Nesse ínterim, o excelente roteiro de Cameron, ainda implementa, com sutileza, várias importantes informações e conceitos que serão peças MUITO importantes na trama. A ideia de outro androide, Bishop (Lance Henriksen, excelente) não só gera fascínio por ser algo futurístico, como também MUITA tensão e estranheza acerca da natureza ameaçadora do androide do filme anterior. As falas da pequena Newt (Carrie Henn) com o irmão sobre brincar nos dutos de ventilação, a dúvida sobre a origem dos ovos dos Aliens, e até um momento de interesse amoroso entre Hicks (Michael Biehn, o eterno pai de John Connor) e Ripley, envolvendo um sinalizador, são pontos importantes para posteriores importantes cenas do filme.

Mas talvez o arco planejado com delicadeza, que simbolize todo o filme, seja a questão do sentimento de Ripley por Newt. Desde a cruel cena em que Ripley recebe uma notícia sobre um familiar, suas feridas ficam expostas aos espectadores. Quando Ripley encontra Newt, há um paralelo temático interessante de compatibilidade das figuras, já que ambas são mulheres que conseguiram sobreviver àquela criatura. Decorrente disso, é apenas natural que Ripley desenvolva um instinto maternal pela garotinha, e que as cenas entre as duas sejam as únicas que podemos ver algum grau de “felicidade” no semblante de Sigourney Weaver. E se esse sentimento ajudará a levar a trama adiante, é no “encontro” do clímax que Cameron arquitetará a cena mais ICÔNICA do filme, onde duas mães protegem suas “crias”; se comunicando apenas com gestos e expressões (o movimento de cabeça derradeiro de Ripley é de arrepiar) para exalar a hostilidade mútua. É o momento que firmou, definitivamente, Ellen Ripley como uma heroína “badass” de sci-fi e comprovou a inteligência de Cameron em criar grandes arcos dramáticos sem perder o ritmo de ação.

Ação explosiva, aliás, é algo que não falta a Aliens. Explorando uma montagem enérgica de Ray Lovejoy (parceiro de Kubrick em obras como 2001 e O Iluminado), as cenas de ação do filme tiram intensidade tanto do senso de expectativa da direção de Cameron (que faz questão de gastar tensos minutos na exploração dos ambientes desérticos com elementos alienígenas) quanto do caos instalado pela enorme quantidade de xenomorfos envolvidos nas sequências.

Lançando mão de elementos de cena que acentuam a urgência (como a luz vermelha e os espaços cada vez menores e claustrofóbicos), Cameron faz cada uma das cenas se tornarem antológicas por si só. A primeira descoberta dos ninhos dos aliens, por exemplo, traz de volta o design criado por H.R. Giger para envolver os fuzileiros em um ambiente completamente hostil e aterrorizante. Já outra cena famosa é com o uso do sensor de aproximação, que deixa todos apreensivos pelo local inusitado onde os xenomorfos se encontram. Sem contar claro, do inesquecível clímax da obra, que se estende angustiantemente com alarmes, jatos resfriadores e luzes frenéticas à medida que uma contagem regressiva chega ao fim. E como não citar a saída inteligente de Ripley para lutar com uma gigantesca criatura, resultando em uma das lutas mais icônicas da história do cinema.

Tão interessantes quanto a atuação de Sigourney Weaver, também são os trabalhos de Lance Henriksen, Michael Biehn e Carrie Henn. Henriksen, que já havia trabalhado com Cameron em O Exterminador do Futuro, cria um Bishop tão enigmático (com sua expressão fria) quanto cativante em seus gestos. Já Michael Biehn consegue trazer o ar heroico de Kyle Resse também para Hicks, sendo inteligente em não trazer atenção demais para si. Já a pequena Henn (que nunca mais atuou) nos convence muito como a traumatizada Newt, que é forçada a demonstrar frieza pelas situações extremas, mas não perde a personalidade infantil ao se defrontar com aqueles “monstros”.

Além dos fascinantes, e orgânicos, efeitos especiais criados pelo mago Stan Winston, que também foi responsável pelas criaturas de O Predador e O Exterminador do Futuro. O filme se beneficia de um design de som extremamente detalhado, que torna a ação muito mais real e próxima que esperaríamos até então (reparem em como os sons dos robôs empilhadeiras trazem uma praticidade enorme àquela máquina). O filme levou Oscar pelos dois trabalhos, tanto Melhores Efeitos Especiais quanto Melhores Efeitos Sonoros.

Tão elegante quanto o trabalho de Scott no filme anterior (notem a bela transição do rosto de Ripley se tornando o planeta Terra), a direção de Cameron aproveita os belos cenários e efeitos para criar imagens deslumbrantes. Além de utilizar ambientes mais escuros (e medonhos) para plantar os aliens, Cameron cria um plano sequência fantástico para explorar toda a dimensão assustadora de sua maior vilã. Os planos no planeta alienígena, dominado por tempestades e solo inóspito, são fotografados com um belo filtro azul por Cameron e Adrian Biddle (do cult A Princesa Prometida), enquanto os planos gerais explorando as edificações tecnológicas se assemelham aos planos ostentosos de Ridley Scott em Blade Runner.

A trilha sonora de James Horner (também indicada ao Oscar) também deve ser destacada, pois marcou época com suas batidas metálicas que se intensificam com o ritmo tenso do filme; além de trazer o senso de grandiosidade para aquela saga.

Assim como o primeiro filme, Aliens, o Resgate é um clássico indiscutível do cinema. O filme possui 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, sendo, por muitos, considerado melhor que o filme original. Foi tão bem de bilheteria quanto o anterior (arrecadou $131 milhões para um investimento de $18,5 milhões) e concorreu a sete Oscars em 1987, um grande feito para um filme sci-fi de ação. O filme concorreu a 42 prêmios internacionais no total, ganhando 20 deles.

Ao lado de sequências como O Poderoso Chefão – Parte II e O Império Contra-Ataca, Aliens, o Resgate é daquelas obras-primas que conseguem deixar os fãs em dúvida sobre qual é o melhor: o original ou a sequência? De qualquer forma, foi outro filme que se imortalizou na história do cinema.


3 – Alien3 (Idem, 1992) de David Fincher

Quem assistiu Aliens, o Resgate sabe que James Cameron havia encerrado a história de Ripley com perfeição, pois, além de resolver definitivamente a questão alienígena, o arco dramático da personagem havia chegado a uma conclusão mais que satisfatória. Mas como o filme havia sido um IMENSO sucesso, é claro que o estúdio gostaria de capitalizar ainda mais em cima dessa “marca”.

Nada de errado nisso, afinal de contas, nós estamos vivendo uma verdadeira “Era de Franquias”, em que a grande maioria dos filmes ao chegar aos cinemas são parte de um universo expandido com ambientes e personagens que os espectadores já conhecem desde início. O próprio segundo filme também foi feito por questões mercadológicas; e deu muito certo por conta de um verdadeiro talento envolvido chamado James Cameron.

Além de narrativamente não fazer nenhum sentido, outro grande problema com Alien³ foi justamente a produção bagunçada do início ao fim, com vários diretores e roteiristas estando ligados ao projeto, e cada um deles tendo ideias extremamente equivocadas. Vincent Ward (Amor Além da Vida) por exemplo, começou a trabalhar no filme com um tratamento inicial que acompanharia Ripley caindo em um planeta somente com monges que viveriam como na Idade Média (!). A ideia era que Ripley estivesse albergando um alien dentro de si e seria exorcizada (!!) pelos monges para que o xenomorfo fosse expulso. Ao final, Ripley seria colocada em um criotubo por “sete anões” no melhor estilo de Branca de Neve (!!!).

Com a demissão de Ward da produção (por motivos óbvios), vários outros cineastas criaram tratamentos diferentes para tentar deslanchar sua versão. David Twonhy chegou a escrever um roteiro recusado que acabou gerando o bom cult Eclipse Mortal (aquele com o Vin Diesel). Até mesmo Renny Harlin esteve ligado a direção, mas preferiu comandar a segunda aventura de John McClane. O produtor Walter Hill iria assumir o posto de diretor, quando David Fincher resolveu aceitar a oferta. Nessa época, Fincher já era famoso por comandar videoclipes e ter trabalhado como operador de câmera em filmes como O Retorno de Jedi e O Segredo do Abismo.

Outro problema foi trazer Sigourney Weaver de volta como Ripley. Além de exigir que somente os produtores Walter Hill e David Giler escrevessem sua personagem, a atriz também entrou como produtora do filme, o que não foi um bom sinal. Durante a produção do segundo filme, Weaver pediu que Cameron acrescentasse no roteiro três coisas: ausência de armas de fogo; a morte de Ripley no final e, PASMEN, que Ripley transasse com um alien... isso mesmo que vocês leram. É claro que Cameron não acatou nenhum dos pedidos da atriz. E quando a mesma se tornou produtora neste terceiro filme, ela viu a oportunidade de ter suas ideias implantadas.

O primeiro GRANDE problema do filme, e total falta de respeito com os fãs da franquia, é a exclusão estúpida de Hicks, Newt e Bishop do filme. Em Aliens, O Resgate Cameron nos fez afeiçoar por cada um desses personagens através de uma montanha-russa emocional que só nos fazia torcer cada vez mais por eles. Enfim, nada disso valeu para os roteiristas, já que nós nem chegamos a presenciar a morte de nenhum deles. O retorno da criatura xenomorfa também é de uma estupidez sem tamanho: Como, cargas d’água, apareceu um ovo alien naquele módulo de fuga? E mesmo se houvesse alguma chance coerente de ele ter aparecido lá, como nenhum dos personagens teria visto ele?

A decisão de retirarem Hicks, Newt e Bishop do filme gerou revolta, inclusive, no romancista Alan Dean Foster, responsável por novelizar todos os roteiros dos filmes Alien até então. Foster discutiu com o estúdio pela volta dos personagens, e acabou se negando a novelizar qualquer outro roteiro da franquia. Na verdade, antes do retorno de Sigourney Weaver estar confirmado, chegaram a ser criados tratamentos de roteiro que acompanhavam apenas esses três personagens queridos, que foram logo excluídos com o retorno da atriz.

Além de tratar os fãs como verdadeiros idiotas, o roteiro de Alien³ ainda faz questão de gastar um tempo ENORME apresentando vários personagens desinteressantes e que nunca ganham nossa empatia. Além de criar várias subtramas que nunca levam o filme adiante e só chateiam o espectador; que fica tentado, em vários momentos, a apertar o fast foward.

Na verdade, o filme tem dois cortes diferentes, graças a uma briga de David Fincher com o estúdio. A versão que é vista nas edições especiais em DVD e Blu-ray do filme é a “Assembly Cut”, que seria o mais próximo da “versão do diretor” que o estúdio conseguiu chegar, já que David Fincher se recusou a voltar para as edições especiais. A versão lançada nos cinemas é consideravelmente menor, e menos ruim, acreditem se quiser. Por interferências criativas do estúdio, que estava insatisfeito pela regravações e estouro de orçamento de Fincher, o diretor abandonou a produção do filme na metade do processo de montagem; e renega o filme até hoje. O estúdio demorou nada menos que um ANO para fazer um corte final da obra.

Voltando ao roteiro, é sintomático a falta de qualquer personagem, além de Ripley, que tenha um mínimo de carisma ou identificação com o público. A começar pelo filme se passar em um planeta-prisão cheio de criminosos degenerados, estupradores, assassinos e pedófilos; e, obviamente, nenhum desses personagens é cativante. Por outro lado, os três personagens que não são criminosos são extremamente aborrecidos e desinteressantes, com destaque negativo para o detestável personagem de Brian Glover (do clássico Um Lobisomem Americano em Londres), que comanda a prisão.

Nem mesmo o novo interesse amoroso de Ripley, vivido por Charles Dance (Tywin Lannister de Game of Thrones) se salva, já que o ator exagero tanto na pompa de galã britânico que fica impossível leva-lo a sério. E para falar a verdade, até acho interessante a ideia progressista de mostrarem Ripley como uma mulher madura e independente que tem seus desejos sexuais, mas a subtrama amorosa não agrega nada a história e só serve para encher o filme com ainda mais cenas chatas. Sem contar o destaque, incompreensível, que eles dão para o mentalmente instável Golic (Paul McGann, do péssimo A Rainha dos Condenados), que é responsável pelas ações mais estúpidas do filme.

Nesse ponto, a versão dos cinemas é mais objetiva. Várias subtramas são resumidas, o que melhora consideravelmente o ritmo do filme. Além disso, alguns acontecimentos são muito mais coerentes, como por exemplo o fato de Ripley suspeitar, logo de cara, que ela está albergando algum embrião de xenomorfo dentro de si após uma criatura evitar matá-la. Na versão estendida, essa suspeita só ocorre próximo ao fim da projeção.

A direção de Fincher, por incrível que pareça, se revela bastante equivocada. O diretor não exibe uma identidade visual tão forte quanto dos dois primeiros, diferente de Seven, seu filme seguinte. Além disso, não dá para imaginar que o mesmo diretor que demonstrou tanta noção de ritmo nos cults Vidas em Jogo e Garota Exemplar comande o filme com tamanha autoindulgência contemplativa aqui. Alien³ é muito chato, não há melhor adjetivo para caracterizar. Não há dinamismo entre as cenas, não há um fio condutor.

Fica claro que o diretor quer demonstrar um estilo mais introspectivo para dramatizar a história de vida de Ripley, mas apesar de fazer com sabedoria e sutileza como em A Rede Social, ele só amontoa várias cenas monótonas e arrastadas em demasia (como aquelas do velório ou da repercussão de um incêndio) que exageram no sentimentalismo barato. O filme é emocionalmente inócuo.

Ao menos há de se destacar uma certa beleza plástica que o diretor implementa em alguns momentos. Os planos gerais e externos do planeta-prisão exibem uma paleta monocromática e granuladas que denuncia o caráter inóspito e depressivo daquele ambiente (as praias são assustadoras). Já as cenas internas apostam em tons pastéis bege e cinza igualmente tristes, só se tornando um pouco mais suaves quando os personagens estão na enfermaria (o aconchego de Ripley). E se o diretor erra na câmera subjetiva nenhum pouco sutil na sequência de ação final, ao menos os enquadramentos da cena de descoberta do corpo de Ripley no início são belíssimos, bem como o do primeiro encontro da personagem com o xenomorfo.

Apesar de ter uma boa quantidade de gore, as cenas de suspense e terror do filme não exibem nada do apuro de tensão de Alien, O Oitavo Passageiro; se assemelhando mais aos ataques de Jason em Crystal Lake nos piores exemplares de Sexta-Feira 13. Já as sequências de ação se sabotam pelo próprio ambiente, já que não há como o espectador se posicionar naquele labirinto de corredores; caindo para zero a apreensão relacionada ao ataque da criatura.

Como um dos poucos pontos positivos do filme, há de se destacar o tradicional bom desempenho de Sigourney Weaver. Com semblantes ainda mais desesperançosos que no filme anterior, Weaver nos convence da dor pela morte de seus antigos companheiros, e uma personalidade quase niilista se aflorar por tudo que ela teve que passar nos filmes passados. A atriz continua capaz de demonstrar uma postura forte e inabalável mesmo a ficar de frente com vários homens ameaçadores, com destaque para o momento em que ela se senta desafiadoramente em uma mesa quando, obviamente, estaria correndo muito risco.

No entanto, a ideia de relação sexual com um xenomorfo que a atriz trouxe para o filme é uma das coisas mais patéticas de toda a franquia. Ao menos, a conclusão, até então, definitiva para a personagem, gera uma carga emocional que faltou a todo o resto do filme. Mas esse fator vem mais do arco dramático de Ripley nos filmes anteriores que da direção de Fincher em si, que chega a “obrigar” um personagem a gritar um “Nooooo!!!” tão desconcertante quanto o de Darth Vader em Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith.

E se a trilha sonora de Elliot Goldenthal (dos péssimos Batman de Joel Schumacher) transita entre o grandioso (com acordes que parecem ter inspirado a trilha sonora de Matrix) e o tolo (como o rock’n’roll em uma cena de estupro, acredite se quiser), o mesmo pode ser dito sobre os efeitos especiais. Apesar de os efeitos de maquiagem e mecatrônicos serem ótimos como de costume, o xenomorfo digital criado em Alien³ é ruim não só pela clara artificialidade, como também pela desproporção em relação aos efeitos práticos.

Estúpido, monótono, ofensivo, emocionalmente inócuo e com uma galeria de personagens desagradáveis, Alien³ só não levou toda a franquia para o buraco porque os dois filmes iniciais são emblemáticos demais para serem eclipsados por um fracasso desses. E se o próprio diretor renega o valor dessa “bomba”... quem sou eu para dizer o contrário.

4 – Alien - A Ressurreição (Alien: Resurrection, 1997) de Jean-Pierre Jeunet


De acordo com a Lei de Murphy: “Não há nada tão ruim, que não possa piorar”. Essa máxima pode ser facilmente adaptada para Alien: A Ressurreição, já que conseguiu ser uma sequência ainda pior que Alien3.

Também encomendada apenas por interesses financeiros (a boa e velha Fox), a terceira sequência da franquia Alien apostou em um jovem Joss Whedon (sim, o mesmo que escreveu e dirigiu Os Vingadores) para criar o roteiro do filme. Como os produtores ainda não tinham a certeza do retorno Sigourney Weaver, Whedon criou um tratamento inicial em que a pequena Newt era clonada e se tornaria uma pequena guerreira com habilidades especiais, lutando contra os xenomorfos do decorrer do filme, claro. É interessante notar que Whedon já havia criado a icônica Buffy Summers, e sua contratação não foi ao acaso.

Quando os produtores levaram um “enorme caminhão de dinheiro para a casa de Sigourney Weaver” (segundo a mesma), a atriz topou voltar àquele caro universo. Devido a isso, ao invés de clonarem Newt no filme, eles clonaram Ripley. E daí já uma das grandes estupidezes desse filme: como conseguiram clonar Ripley se ela se suicidou em câmara de fusão de metais no filme anterior? De onde extraíram o DNA da personagem? Toda a coerência científica inteligente dos dois filmes originais, principalmente do longa de 1979, simplesmente foram jogadas no lixo.

E se clonarem Ripley já não era imbecilidade o bastante, o clone ainda vem com um feto de xenomorfo devidamente instalado no tórax da personagem, o que não faz sentido biológico algum. Mas enfim... se resolveram cuspir na cara dos espectadores e os tratarem como idiotas, pelo menos o fizeram com um talento indiscutível.

Joss Whedon até traz alguns elementos interessantes para o filme. O grupo de piratas espaciais exibe um bom potencial, como o roteirista fez no posterior Serenity – A Luta pelo Amanhã. Em contrapartida, os personagens logo caem no estereótipo de criminoso barra-pesadas e “badass”, seja pelos comportamentos infantis e tolos, seja pelos péssimos diálogos. Até mesmo os próprios conceitos que Whedon cria para suas figuras se perdem incompreensivelmente no meio do caminho, como por exemplo o fato de Ripley ter uma ligação “sensitiva” com os aliens e isso nunca servir organicamente à narrativa.

Aliás, um dos maiores crimes dessa “bomba” é justamente o modo como retratam o clone de Ripley. Primeiramente, o roteiro não demonstra NENHUMA coerência no comportamento da personagem. Tomem como exemplo a cena do jantar, quando a personagem inicia não sabendo dizer a palavra “garfo” completamente, e segundos depois já começa a demonstrar sentenças complexas de argumentações avançadas. E porque Ripley não hesita em matar vários xenomorfos se em outros momentos ela se deixa acalentar, em um prazer quase sexual, por um deles? E se ela ganhou várias habilidades e super força com a fusão de seu DNA com o dos alienígenas, porque ela nunca as usa em seu favor?

Sabotada por uma péssimo roteiro, a coitada da Sigourney Weaver é ainda obrigada a dizer falas vergonhosas: “Com quem eu tenho que trepar para sair dessa nave?”. E quando surge algo minimamente interessante (“Nenhum humano exibe tamanha humanidade”), são só discussões filosóficas requentadas de outras obras superiores, como O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final. Com exceção talvez do simbolismo do apego de Ripley por Call (Winona Ryder), após uma determinada revelação que aproximou as duas de forma inesperada.

Além de nos dar muita pena de ver Weaver forçando alívios cômicos sofríveis até então incabíveis nessa franquia (“Ele estava no meu caminho”), Winona Ryder não se vê em posição muito melhor. A atriz alega ter aceitado participar do filme por ser muito fã de Ellen Ripley e de Alien, em um papel inicialmente oferecido para Angelina Jolie. Ryder parece estar completamente fora de tom, exibindo um ar muito mais sério, e por vezes histérico, que a galhofa do filme. Em contrapartida, Ron Perlman (nosso querido Hellboy) é sempre uma presença carismática, mesmo em um personagem babaca estereotipado como o seu. E para os fãs de terror, o filme ainda conta com Brad Dourif no elenco, nosso eterno Chucky!

A direção do filme foi oferecida para vários diretores diferentes, dentre eles, Peter Jackson, David Cronenberg, Bryan Singer, Danny Boyle e até Paul W. S. Anderson (que acabou fazendo outro horror espacial, O Enigma do Horizonte). No fim, o filme caiu nas mãos de Jean Pierre-Jeunet, o mesmo diretor do cult O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

O diretor teve total liberdade de modificar o roteiro de Whedon, o que faz com que o roteirista se ressinta pelo filme até hoje, inclusive acusando o derradeiro fracasso a este fato. Whedon alega ter criado uma história sarcástica que deveria ter sido comandada com o tom correto, e o diretor decidiu por lançar mão de um tom mais sério. Conflitos a parte, a verdade é que Alien: A Ressurreição é daqueles tipos de blockbusters B que se acham A. Derradeiramente, acabam ganhando um charme trash não proposital hilário, assim como os péssimos Independence Day.

Para começo de conversa, o estilo visual de Pierre-Jeunet é colorido demais para o universo sóbrio de Alien, mas nada que chegue ao nível Joel Schumacher em Batman. A fotografia com tons amarelos e verdes vibrantes acabaram sendo “homenageadas” na visão futurista do impagável Jason X. Além de já demonstrar deselegância na identidade visual, o diretor ainda comanda seus planos com um abuso de zoons, ângulos estranhos e movimentação rápida que deixa os acontecimentos do filme beirando o cartunesco.

Não que o filme não tenha seus momentos divertidos, pois ele tem. Apesar de gerar risadas involuntárias aqui e lá (como na partida de basketball), algumas cenas de ação são muito bem planejadas. Destaque para a sufocante cena de perseguição subaquática; que se concluirá em um tiroteio em uma grande escadaria. O problema das cenas de ação desse filme é que elas sempre se concluem com um alívio cômico bizarro (como uma vítima pegando um pedaço do próprio cérebro) ou com uma carga dramática exagerada (como o suicídio inexplicado de um personagem que poderia facilmente ter se salvado na cena da escadaria).

Mas o cúmulo da vergonha alheia é a cena freakshow, quase surrealista, em que Ripley encara uma criatura nunca vista antes. Com um design que lembra um cruzamento tosco do Sloth de Os Goonies com o demônio de Pumpkinhead, a nova criatura é a cereja do bolo de tudo que há de ruim em Alien: A Ressurreição. Lembram da dinâmica complexa de maternidade ao fim de Aliens, O Resgate? Pois é, adaptem aquela cena para uma animação de Looney Tunnes dirigido por Roger Corman. O resultado visto nas telas é ainda pior.

Originalmente o projeto começou a ser desenvolvido como um encontro do xenomorfo com o Predador. Porém, essa batalha só ganhou as telas em 2004, e uma sequência em 2007; ambas ainda mais sofríveis que este terrível Alien: A Ressurreição.

Se por um lado A Ressurreição tem um ritmo bem melhor, Alien³ ao menos tinha o tom sóbrio e sério dos respeitados primeiros filmes. Esse quarto capítulo da saga de Ripley desrespeita tudo que havia de louvável nos filmes originais. Vergonhoso do início ao fim.

5 – Prometheus (Idem, 2012) de Ridley Scott

Em 2002, James Cameron começou a discutir algumas ideias com Ridley Scott a respeito de um quinto capítulo para a franquia Alien. A ideia era que Cameron produzisse o filme, enquanto Scott dirigisse; além, é claro, de trazer Sigourney Weaver de volta como Ripley. Quando Cameron descobriu que a Fox estaria produzindo Alien Vs Predador, ele pediu que o estúdio paralisasse o projeto, afim de que o filme não desvalidasse a franquia (coisa que Alien – A Ressurreição chegou pertíssimo de fazer).

O estúdio não escutou Cameron e deu sinal verde para Paul W. S. Anderson (que havia sido considerado para dirigir Alien3 na época) seguir em frente com o duelo entre as criaturas alienígenas. Cameron ficou tão revoltado que prometeu nunca mais voltar ao universo Alien. Diferente de Scott, que já havia sido sondado para retornar à franquia no terceiro capítulo, mas voltou, finalmente, somente em Prometheus.

O roteiro original de Prometheus, escrito por Jon Spaiths (que só tem filmes ruins no currículo, incluindo o asqueroso Passageiros) seria uma pré sequência direta de Alien, O Oitavo Passageiro. Porém, Scott solicitou que o irregular Damon Lindelof (Cowboys e Aliens) revisasse a história. Presunçosamente, o diretor e o novo roteirista levaram a história original para rumos mais desafiadores; com a intenção de levantar questionamentos em relação à própria origem da humanidade (“Eram os Deuses Astronautas?”). Inclusive, a própria falta do nome “Alien” no título já denuncia um certo desrespeito da produção; algo que o próprio diretor resolveu voltar atrás no novo Alien: Covenant.

Por motivos temáticos, o título do filme faz alusão tanto ao mito grego de Prometeu, quanto ao clássico de Mary Shelley "Frankenstein ou O Prometeu Moderno".

A verdade é que Ridley Scott é um diretor irregular. Ele é capaz de criar obras-primas máximas, como o primeiro Alien e Blade Runner – O Caçador de Andróides; e até aventuras divertidas como A Lenda e Perdido em Marte. Mas também é capaz de “causar” bombas como Falcão Negro em Perigo, Robin Hood e Um Bom Ano. Prometheus foi a chance que o diretor teve de voltar às suas origens de sci-fi para criar algo “grande”.

Infelizmente, não é o caso aqui. Não que Prometheus seja tão ruim quanto Alien3 e Alien – A Ressurreição, pois não é; mas tampouco chega à genialidade dos dois longas originais. E tudo fica ainda pior quando levamos em consideração os altos voos temáticos que o filme tenta alçar; voos esses que o espectador nunca conseguirá presenciar o esperado destino.

Só pelo primeiro plano do filme, que claramente remete ao primeiro plano de 2001: Uma Odisseia no Espaço, já fica escancarada a presunção de Scott. Mas apesar de inclusive explorar algumas paisagens naturais com cores psicodélicas característica daquele clássico, é até interessante o prólogo que cria uma mistura de criacionismo com evolucionismo. Há de se destacar desde o início também a FABULOSA fotografia de Darius Wolski (do obscuro cult Cidade das Sombras), que marca toda a película com um monocromático “metálico” sofisticado que entra de acordo com o tom sombrio e tecnológico do filme, sem perder nunca a clareza necessária para o 3D.

Aliás, quem teve a oportunidade de assistir Prometheus em 3D no cinema sabe que a experiência foi incrível. Ridley Scott explora planos (internos ou gerais) com uma profundidade de campo ENORME que facilita nossa imersão naquele universo, além de saber utilizar os efeitos visuais de uma forma a coloca-los para fora da tela sem parecer óbvio, como o display luminoso da “caverna” dos Engenheiros na dentro da nave Prometheus). Scott é “especialista” em partículas em suspensão, por conseguinte, os efeitos visuais dos hologramas dos Engenheiros formado por partículas brilhantes é de encher os olhos, bem como a cena memorável de David (Michael Fassbender) em meio a um planetário luminoso e virtual.

A própria identidade visual que Scott fornece ao seu filme é muito elegante, já que a fotografia fria ajuda a tornar tanto os ambientes externos, quanto o interior “asséptico” da nave, como ambientes hostis. E se a “caverna” dos engenheiros traz de volta os conceitos steampunk icônicos de H.R. Giger, é ideal o modo como Scott arquiteta um determinado cenário que contém um rosto enigmático gigantesco, como um verdadeiro “templo da morte” ostentoso. Da mesma forma, os ambientes áridos e inóspitos do planeta são lindamente fotografados em tons cinza e marrom tristes; chegando ao ápice no plano aéreo de uma ATERRORIZANTE tempestade de ventos e areia tomando conta do horizonte.

Enfim, por mais pretensioso que Ridley Scott possa ter sido em Prometheus, não há como negar que o diretor soube trazer, ao menos um pouco, da carga de apreensão amedrontadora do primeiro filme. Muito dessa tensão vem da trilha sonora atmosférica de Marc Streitenfeld (que também trabalhou em Gladiador), mas também no bom senso de ritmo que Scott implementa em sua montagem.

Scott, inclusive, se dá a liberdade de brincar com a memória afetiva dos fãs ao criar uma cena arrepiante que mostra o Space Jockey se preparando para ficar na posição que vimos no primeiro filme; apesar de no final não fazer sentido. E se a cena da “cesariana” é anatomicamente ridícula, ao menos o absurdo grotesco gera algumas risadas nervosas.

No entanto, a maior parte dos esforços estilísticos que o diretor quer dar ao seu filme são sabotados por um roteiro MUITO ruim. Assim como nos longas de David Fincher e Jean Pierre-Jeunet, Prometheus é cheio de personagens rasos que realizam ações equivocadamente estúpidas. Os, supostamente renomados, cientistas vistos no filme são burros a ponto de tirarem o capacete da roupa espacial indiscriminadamente, sem nenhuma análise dos possíveis patógenos presentes naquele planeta alienígena. Além disso, o biólogo do grupo é energúmeno o bastante para se aproximar de uma “serpente espacial” como se ela fosse um cachorrinho fofinho (!). Mas isso já seria até previsível, se formos considerar que o cientista responsável pelo mapeamento de uma estrutura é também o mesmo que se perde naquele ambiente (!!).

E ao contrário dos carismáticos personagens de Alien e Aliens, as figuras vistas aqui não ganham nossa empatia em nenhum momento. Nenhum deles se comporta como um verdadeiro cientista. A falta de inteligência emocional, e respeito mútuo, entre aqueles ”profissionais” é tão grande que em um momento um deles tem um piti digno de “prima dona” quando uma importante descoberta está sendo feita; e outro se joga ao alcoolismo adolescente frente a PRIMEIRA tentativa frustrada de pesquisa. Imaginem se Thomas Edison tivesse feito o mesmo. E isso que nós estamos falando sobre “A” grande descoberta de todos os tempos: de onde nós viemos.

Não bastasse isso, o roteiro ainda não consegue nem seguir as próprias regras impostas. Afinal de contas, porque Vickers (Charlize Theron) mata um dos tripulantes contaminados se eles podem, facilmente, fazer uma quarentena? E qual a verdadeira natureza e biologia daquelas criaturas alienígenas que contaminam os humanos? No primeiro filme a investigação científica é feito com um esmero admirável. Aqui em Prometheus, nada disso importa. Além disso, o roteiro é cheio de diálogos nada sutis, sendo o pior deles o momento dramático (sem efeito) em que Shawn (Noomi Rapace) diz que é estéril. Ora bolas, pelo escancaramento, a carga de surpresa que esse fator importante teria no futuro é completamente sabotado.

O próprio (talentoso) elenco não consegue se destacar com um roteiro ruim desses. Enquanto Noomi Rapace (a Lisbeth da versão sueca de Os Homens que Não Amavam as Mulheres) não tem a oportunidade de engrandecer sua personagem como Sigourney Weaver teve nos primeiros filmes, Charlize Theron é obrigada a ficar presa ao estereótipo de “mulher bem-sucedida, mas fria e sem vida pessoal”. Ao menos Theron é inteligente o bastante para trazer detalhes sutis à personalidade de Vickers, como ao ter uma postura sempre “dura” e desviar o olhar rancorosamente durante a projeção do holograma de Weyland (Guy Pearce). Falando nele, é incompreensível o motivo de terem chamado Pearce para o papel, já que sua versão jovem nunca aparece no corte final do filme e a maquiagem é bizarra, deixando o ator mais parecido com um Klingon, de Jornada nas Estrelas, em versão albina. O mesmo desperdício pode ser dito sobre o papel de Idris Elba (o futuro Pistoleiro de A Torre Negra), que ao menos nunca perde seu enorme carisma.

Mas há de se notar a GRANDE interpretação de Michael Fassbender, que assim como Ian Holm e Lance Henriksen antes dele, interpreta um androide fascinante. Fassbender adota uma postura enigmática até o último minuto de filme. Apesar de claramente admirador de algumas características humanas (o fascínio por Lawrence da Arábia é um bom toque), o androide é completamente ciente do que há de mais ruim nessa espécie. Sempre com trejeitos elegantes dignos de um mordomo inglês, Fassbender deixa os espectadores MUITO apreensivos pelo modo tranquilo, e quase cínico, com que age nos momentos mais urgentes. Além disso, é impossível não bater palmas para o ator durante os momentos em que ele tenta esconder raiva e frustração por sofrer insultos em relação a sua natureza (“Porque você vai colocar a roupa espacial? Você não respira”). Aliás, as melhores falas do filme são do personagem: “Eles lhes fazem muito parecido com a gente não!? – Espero que nem tanto”.

Mas se as questões filosóficas acerca do androide David são válidas, o mesmo não pode ser dito sobre os questionamentos que levam o filme adiante. Fica claro, só de ver o trailer, que o filme se propõe a explicar um tipo de origem para a humanidade, a partir de seres alienígenas que eles chamam de “engenheiros”. O problema é que os questionamentos são feitos, mas absolutamente NADA é respondido. Prometheus acaba se tornando uma experiência completamente frustrante pela total falta de consideração com o espectador e todo o interesse investido por ele. É como se na cena final Ridley Scott desse um tapinha nas nossas costas e dissesse: “Bom, quem sabe na sequência eu dê as respostas para as perguntas que eu fiz aqui”. Tudo acaba se tornando um total desperdício de tempo.

Diferente de obras como o já citado 2001: Uma Odisseia no Espaço, Blade Runner: O Caçador de Androides, Contato e até o recente A Chegada, Prometheus não tem inteligência o bastante para lidar com as questões existenciais e filosóficas que se propõe. É apenas um filminho pretensioso que não é nada do que pensa ser.

Se por um lado é melhor e mais atmosférico que os dois últimos capítulos da franquia, por outro, Prometheus não deixa de ser uma decepção. Talvez se Scott tivesse apostado na simplicidade do seu clássico de 1979, o resultado teria sido mais satisfatório.

E vocês caros leitores? O que acham dos filmes do monstro alienígena que sangra ácido? Qual é o seu preferido? Aproveitem o espaço de comentários para exporem suas opiniões!

Divulgaí

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