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Lista Interativa – Universo Disney: Da Pior a Melhor Adaptação Live-action

Responsável por verdadeiros clássicos do cinema, o estúdio não somente realizou o primeiro longa-metragem em animação com Branca de Neve e os Sete Anões (recebendo um Oscar honorário pelo feito), como também é responsável pelo primeiro longa animado a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme (A Bela e a Fera)
Lista Interativa #3 – Universo Disney: Da Pior a Melhor Adaptação Live-action

Mais uma vez estamos aqui meus colegas Loucos por Filmes; no momento de revelar mais um resultado da coluna “Lista Interativa”. A enquete do mês de março celebrou a estreia da aguardada versão live-action de A Bela e a Fera, para conferir com vocês, nossos caros leitores, quais são as melhores, e piores, versões em “carne-e-osso” de um clássico da Disney lançados até hoje.

Desde o lançamento do clássico Branca de Neve e os Sete Anões em 1937 (uma obra-prima que demorou três anos para ser finalizada), a “The Walt Disney Company”, ou apenas Disney, cravou seu nome na indústria cinematográfica como o estúdio de animações mais importante, e mais famoso, da sétima arte. Mesmo que hoje em dia existam outros estúdios que demonstrem imenso talento no ofício, como a Pixar (que acabou sendo comprada pela Disney) e o Estúdio Ghibli (do icônico Hayao Miyazaki), é inegável que a Disney continua no imaginário popular sempre que se fala sobre desenhos e filmes animados.

Responsável por verdadeiros clássicos do cinema, o estúdio não somente realizou o primeiro longa-metragem em animação com Branca de Neve e os Sete Anões (recebendo um Oscar honorário pelo feito), como também é responsável pelo primeiro longa animado a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme (A Bela e a Fera). Além disso, o estúdio foi um o primeiro a realizar um longa com cenas quase totalmente feitas com efeitos visuais computadorizados (Tron – Uma Odisseia Eletrônica).

Quanto às versões live-action de suas animações clássicas, talvez o ponto mais fundamental tenha sido o sucesso absoluto de Alice no País das Maravilhas em 2010, arrecadando mais de US$1 bilhão ao redor do mundo. Claramente com intenções mercadológicas, a produtora logo providenciou o início do antigo projeto de um longa-metragem sobre Malévola, uma das personagens mais interessantes do estúdio. Totalmente ancorado na fama, e talento, de Angelina Jolie, Malévola foi outro enorme sucesso (mais de US$700 milhões de bilheteria mundial), fincando o filão de adaptações em “carne-e-osso” do estúdio.

Porém, as adaptações de animações da Disney já datam desde os anos 90. Em 1994 estreou O Livro da Selva, que transformava a história de Mogli – O Menino Lobo praticamente em uma versão asiática de Tarzan, com direito a uma nova versão de Jane na pele da própria Rainha Cersei, Lena Headey. Já em 1996 houve a estreia de 101 Dálmatas, que encabeçado pela GRANDE Glenn Close, foi um enorme sucesso de público em sua época.

E como a opinião do nosso público Louco por Filmes é muito importante para o site, decidimos utilizar as preferências de vocês para ranquear essas adaptações Disney de animações que tanto amamos. É importante frisar que os filmes considerados para a enquete são somente filmes que se baseiam literalmente em animações clássicas da Disney. Portanto, O Livro da Selva, 102 Dálmatas e Aprendiz de Feiticeiro não foram considerados por apostarem em liberdades criativas muito aquém da história original. Sem contar que filmes como Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu também não entraram na lista por não serem do estúdio Disney. Da mesma forma, live-action da Disney, inspirados por outras fontes, como Caminhos da Floresta, Oz: Mágico e Poderoso e Piratas do Caribe, não foram considerados.

A enquete contou com 3826 votos dos frequentadores do site. Para o desempate de filmes que receberam a mesma quantidade de votos, foi utilizada uma média das notas que os filmes receberam no “Rotten Tomatoes” e no “IMDb”.

Vamos lá!

7 - Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass, 2016) de James Bobin

8% dos votos.

Apesar da versão de Tim Burton sobre a icônica personagem Alice não ter agradado a crítica, o sucesso financeiro do filme de 2010 foi suficiente para que uma continuação fosse planejada. Burton saiu da direção, e entrou James Bobin, que já havia trabalhado com a Disney nos dois recentes, e divertidos, filmes d’Os Muppets. O mais irônico é que, à primeira vista, o estilo de Tim Burton cairia como uma luva para o universo fantasioso de Lewis Carroll, principalmente se considerarmos obras como Os Fantasmas se Divertem, Ed Wood e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. No entanto, a sequência comandada por Bobin se mostrou mais eficiente que o original.

Trazendo novamente o mesmo elenco do filme original, Alice Através do Espelho nos apresenta a uma Alice muito mais segura e determinada que a do filme anterior. Principalmente pela interpretação consideravelmente mais expressiva de Mia Wasikowska (fraca no filme anterior), a Alice dessa sequência já demonstra muita energia e força de vontade desde o início do filme, quando se apresenta no comando de uma situação tradicionalmente masculina. Mesmo ao conversar francamente com sua mãe, ou ao encarar um conselho homogeneamente machista (o corte seco que Bobin fornece no momento é uma boa gag), a nova Alice demonstra muito amadurecimento e convicção em seus ideais. E isso já agrega uma energia ao filme que faltava, e muito, no original.

A própria fotografia de Stuart Dryburgh (A Vida Secreta de Walter Mitty) já denuncia a mudança drástica de tom com o filme de Burton. Ao invés de apostarem em tons sombrios e soturnos que marcaram o longa de 2010 de forma desconjuntada, a equipe faz justiça ao universo “surtado” e fantasioso de Lewis Carroll com uma fotografia mais suava e cristalina, ressaltando todas as cores vibrantes que pertence àquele local (a cena do Tempo na mesa de chá do Chapelerio Louco, em especial, é quase um mosaico de aquarelas). Curiosamente, Dryburgh não “lava” as cores do mundo real, como o filme de Burton fez. Ao invés disso, alterna entre momentos que acentua o sufocamento dos personagens, como no tom quente da casa de Hamish; ou denota frieza ao apostar em tons azuis assépticos, como na passagem em um hospital psiquiátrico.

Já o design de produção de Dan Hennah (Trilogia O Hobbit) traz um pouco das fantasias exageradas de Terry Gilliam assim como o superior Oz: Mágico e Poderoso fez, embora ambos não cheguem aos pés das criações de Gilliam em Brazil: O Filme ou As Aventuras do Barão de Münchausen. Além de trazer uma paleta de cores muitas mais variada e inventiva para o País das Maravilhas (remetendo à animação original), Hennah também cria ambientes inventivos de acordo com a personalidade dos personagens. Portanto, enquanto a casa do Chapeleiro Maluco é idealmente no formato de um chapéu (com portas e janelas desconexas, denunciando sua loucura), o castelo do Tempo é imaginado como o centro de um grande relógio analógico clássico, todo em formato de ponteiros e pêndulos. E se o quarto da Rainha Vermelha se apresenta quase todo coberta com raízes de suas queridas roseiras vermelhas, o detalhe da sala de relógios “vivos” e “mortos” se diferencia, além da luz calar e escura, também pela distância com que os relógios estão pendurados do alto, ou seja, de acordo com o tempo de vida e morte. Um toque de gênio.

O diretor James Bobin, no entanto, realiza um trabalho razoável. Por um lado, ele é feliz em apostar em uma montagem mais dinâmica que favorece o ritmo do filme em muitos momentos, principalmente durante as viagens do tempo e no terceiro ato, quanto ele transita entre vários eventos ocorrendo em paralelo, acentuando mais a urgência da situação. Em outros momentos, Bobin gasta tempo demasiado retratando o passado de personagens que já se mostravam desinteressantes no filme anterior (Chapeleiro Maluco), depreciando a envolvência do espectador. Se ele e o montador Andrew Weisblum (O Fantástico Sr. Raposo) tivessem sido mais econômicos, o ritmo do filme teria sido mais regular. No entanto, é divertido ver o diretor brincar com a máquina do tempo desse filme, com um design parecido com o de A Máquina do Tempo (1960) e Um Século em 43 Minutos (1979).

Infelizmente, o roteiro de Linda Woolverton (também do filme anterior) é autoindulgente a ponto de expandir o segundo ato com uma subtrama entre as infantes Rainhas que não traz benefício nenhum ao desenrolar do filme. Porém, o figurino de Coleen Atwood continua a esbanjar criatividade fabulesca assim como em 2010; principalmente ao demonstrar a mente imaginativa e independente de Alice em um vestido chinês hiper colorido que remete ao seu mundo particular.

Em relação ao elenco não há muito o que se destacar. Além da melhora significativa de Mia Wasikowska, há a boa presença de Sacha Baron Cohen como o “vilão” Tempo, que aposta em um tom vilanesco caricatural com momentos de doçura e estupides agradável de acompanhar. Helena Bonham Carter e Anne Hathaway continuam a desempenhar bem seus papéis absurdos por evitarem a sutileza, enquanto Johnny Depp continua a desempenhar sem carisma um de seus personagens mais desinteressantes; já que a maior prova é que não nos importamos nenhum um pouco a doença ou a família do Chapeleiro Maluco.

Trazendo as mesmas mensagens feministas que engrandeceu o filme de 2010 (reparem no comentário de “histeria feminina” de um determinado médico), Alice Através do Espelho não é um bom filme. Porém, ao menos demonstra um apreço estético e temático maior pelo mundo maluco de Lewis Carroll que o longa anterior.

IMDb: 6,2/10. Rotten Tomatoes: 30%.


Dica de filme com “coisas” através do espelho
: O Espelho (Oculus, 2014) de Mike Flanagan

6 - 101 Dálmatas (101 Dalmatians, 1996) de Stephen Herek

8% dos votos.

101 Dálmatas tem um valor muito especial para mim, enquanto a animação era uma das “fitas” que eu mais gostava de alugar nas antigas locadoras, a versão live-action foi o primeiro filme que tive a oportunidade de assistir em uma sala de cinema. Portanto, a memória afetiva bate muito forte quando me lembro desse longa-metragem estrelado por Glenn Close. No entanto, à medida que fui crescendo, e analisando com “olhos de cinéfilo” a obra, diversos erros foram se revelando, apear de o filme ainda manter sua carga de diversão ingênua.

Bastante fiel à animação original, 101 Dálmatas apresenta um roteiro de John Hughes (sim, o mesmo John Hughes de clássicos adolescentes como O Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Gatinhas e Gatões). Desde o início dos anos 90, Hughes começou a trabalhar em muitos projetos de comédia para o público infantil, como Bethoven, o Magnífico, Dennis, o Pimentinha e, claro, Esqueceram de Mim.

Em 101 Dálmatas, Hughes transita pelo tom fabulesco com altos e baixos. O romance apressado entre Roger e Anita demanda uma boa-vontade MUITO grande por parte do público. Hughes, também não é muito feliz em alguns detalhes, como ao desenvolver a personalidade de Anita em contraste com seu local de trabalho. Afinal, porque Anita trabalha para Cruella se não concorda com seu estilo de moda? Pior ainda, é quando o roteirista pesa a mão nas trapalhadas da dupla de bandidos vividos por Hugh Laurie (ele mesmo, o Dr. House) e Mark Williams (o Arthur Weasley da franquia Harry Potter), tentando emular de forma infantil, e nada engraçada, a dinâmica autêntica dos “Bandidos Molhados” de Esqueceram de Mim.

Em contrapartida, o universo dos animais criado por Hughes se torna bastante encantador e engraçado. Ficando em um balanço ideal entre a natureza dos animais, e o caráter antropomórfico, Hughes cria boas soluções para substituir os diálogos entres esses personagens. Contando com a ajuda de um elenco animal INCRIVELMENTE expressivo (sem brincadeira nenhuma), Hughes consegue tornar as ações e estratégias dos animais em algo facilmente compreensível sem perder a carga emocional. Há momentos que vão do engraçado (como as ações de um pica-pau na porta de um antigo casarão), ao emotivo (as expressões de Pongo e Perdita ao verem um balaio vazio é de partir o coração), sem esquecer dos momentos de tensão (como ao registrar a reação dos filhotes ao perceberem a aproximação de Cruella em um galpão). Aliás, o filme sempre ganha mais força quando foca nas interações entre os animais, conseguindo demonstrar “fofura” sem cair para o lado piegas, justamente por investir na inteligência insuspeita daquelas figuras adoráveis.

Curiosamente, o filme é dirigido por um cineasta com talento insuspeito para comédias infantis, pelo menos até então. Stephen Herek havia estreado nos anos 80 com o divertido cult de terror Criaturas (basicamente, uma versão mais pobre de Gremlins). Posteriormente, o diretor foi responsável por outros dois filmes cult adolescentes, Bill & Ted – Uma Aventura Fantástica (aquele que Keanu Reeves e o “carinha” de Os Garotos Perdidos viajam no tempo em uma cabine telefônica) e Viva! A Babá Morreu. Mas foi com o sucesso da versão anos 90 de Os Três Mosqueteiros que o diretor ganhou uma “moral” na Disney.

O cineasta é hábil ao fazer claras homenagens ao tom cartunesco das animações. Além de aproveitar o teor cômico de algumas situações (como o atrapalhado primeiro encontro de Pongo e Perdita) para demonstrar ao público uma leveza necessária para contrabalancear as ações sombrias da vilã. Juntamente com a montadora Trudy Ship (com quem o diretor também trabalhou no bom Rock Star), Herek também consegue implementar muita energia e entusiasmo à medida que o filme vai chegando ao fim, justamente por criar fusões fluidas entre as detalhadas cenas que combinam as divertidas ações dos animais; além de aproveitar planos fechados do rosto, e expressões, de cada um, enriquecendo a comunicação entre eles. Sempre que me lembro do filme, a primeira coisa que me vem em mente é a cena do cãozinho explicando para outros animais de celeiro, por meio de gestos e movimentos, o que aconteceu com os filhotes de Pongo e Perdita.

O diretor também é bem-sucedido ao criar alguns enquadramentos que homenageiam momentos inesquecíveis do filme original, com destaque para o perfil demoníaco de Cruella ao dirigir seu carro; e a silhueta macabra da personagem, projetada por um relâmpago, à frente da porta de vidro da casa de Roger e Anita. Sem contar que o ambiente rural enevoado e noturno é aproveitado para dar uma atmosfera mais inquietante à produção do filme como em 1961; além de servir para o diretor criar planos belíssimos, como aquele do decrépito casarão no alto de uma colina onde os filhotes estão escondidos.

Jeff Daniels (recém-saído de Debi e Lóide) e Joely Richardson (Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres) demonstram muita química em conjunto, assim como Joan Plowright (Dennis, o Pimentinha) cria uma adorável senhorinha britânica. Porém, o filme realmente pertence a Glenn Close e sua temível Cruella De Vil. Apostando na caricatura escancarada para trazer humor a um personagem que, de outra forma, seria assustador DEMAIS para um filme infantil, Close aposta nas expressões exageradas e no tom de voz histérico que, diretamente, nos remetem à memorável vilã de 1961 (sua gargalhada maligna é impagável). Entre a ameaça e a trapalhada, Close exibe talento o suficiente para nos dar medo ao olhar “pecaminosamente” o esboço de Anita, ou nos fazer rir ao demonstrar um olhar raivoso por um cavalo que acabou de desprezá-la. Hoje em dia, é impossível pensar em Cruella De Vil e desvencilha-la a imagem de Glenn Close.

Com um figurino deslumbrante e inteligente (sempre denunciando a crueldade daquelas peças), o design de produção idealizado por Assheton Gorton (A Sombra do Vampiro, A Lenda) também deve ser muito valorizado. Desde a pequena casa calorosa e aconchegante de Roger e Anita (que Stephen Herek filma com planos mais fechados) até o ateliê de Cruella (com planos mais abertos e impessoais), tudo é digno de aplausos. O ateliê de Cruela principalmente, já que, apostando em tons monocromáticos frios (como a personalidade da vilã), também é inventivo ao criar um corredor mimetizando uma passarela de desfile de moda, por onde o diretor Herek registra idealmente os pés da personagem passando pelo local. Os manequins também são detalhes criativos, já que exibem formas metálicas estranhas e retorcidas que podem ser associadas à natureza cruel da personagem.

Embora não seja progressista como Malévola, ou tenha a emoções mais aprofundadas como Mogli – O Menino Lobo e Meu Amigo, o Dragão, 101 Dálmatas é um adaptação live-action simpática e divertida o bastante para não envergonhar o original. Além de eternizar a maravilhosa Glenn Close no papel de Cruella De Vil.

IMDb: 5,6/10. Rotten Tomatoes: 38%.


Dica de “filme de cachorrinho” realista: Deus Branco (Fehér Isten, 2014) de Kornél Mundruczó

5 - Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010) de Tim Burton

8% dos votos.

Alguma coisa me diz que Tim Burton somente aceitou participar de Alice no País das Maravilhas para ter a liberdade de trabalhar em sua querida animação Frankenweenie (baseada em um curta live-action do próprio diretor); focalizando toda sua energia na preparação desse último. Não consigo entender de outra maneira a falta de vivacidade patente dessa adaptação, que tinha um material de origem (dois livros de Lewis Carroll) cheio de temas caros ao cinema fantasioso do diretor.

Embora tenhas filmes narrativamente irregulares em sua carreira (Marte Ataca!, O Planeta dos Macacos, Sombras da Noite), ao menos Tim Burton sempre exibiu um apuro estético irrepreensível e marcante em seus filmes, com exceção para Grandes Olhos, que é bem ruim. Neste primeiro Alice, o diretor não demonstra estar afiado nem em relação à estética do filme, já que exibe um “País das Maravilhas” decepcionante na coerência entre visual e temas.

Explicando melhor. O roteiro de Linda Woolverton, que já havia trabalhado em clássicos anteriores da Disney, como O Rei Leão e A Bela e Fera, até começa bem, contextualizando os espectadores em um universo real onde a jovem-adulta Alice precisa encarar o mundo cruel em que as mulheres de sua época se veem quando chegam em determinada idade. Neste momento, é quando a direção de Burton também revela seu melhor. Além de explorar um design de produção que adota tons pastéis apáticos sugestivos para aquelas figuras frias e sem personalidades interessantes (reparem no figurino com formas opulentos, mas cores lavadas), Burton cria um humor digno de seus melhores filmes como Ed Wood e Peixe Grande. Os cortes secos que o diretor lança mão para mostrar a reação dos participantes da festa em situações constrangedoras é realmente divertido.

No entanto, ao contrário de filmes como Edward Mãos-de-Tesoura e A Noiva Cadáver, em que o “mundo alternativo” possui cores chamativas, formas inventivas baseadas em estética expressionista e desenhos animados, e uma visualidade INTENSA, o “País das Maravilhas” de Burton é tão sem graça quanto o mundo real. Na verdade, a fotografia de Darius Wolski (Prometheus, Piratas do Caribe) e o design de Robert Stromberg (diretor de Malévola) apostam em luzes baixas, cores escuras e sombrias, névoas e céu lúgubre que foge da proposta de Lewis Caroll, remetendo até o vilarejo soturno de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Lewsi Carroll, em Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho passa a clara ideia de um universo agridoce de sonhos e fantasias cheio de energia, digno de um filme de Terry Gilliam. O filme de Burton não segue a proposta do autor e transforma tudo em um mundo alternativo aborrecido e depressivo (a floresta de cogumelos, em especial, é inóspita), assim como a maquiagem clichê da personagem principal, que faz questão de apostar na palidez e nas olheiras marcantes, características aos personagens do diretor.

Até mesmo os efeitos visuais do filme são mal utilizados, já que os ambientes e as criaturas digitais são bastante artificiais (o “cão-de-guarda” da Rainha Vermelha, e os gêmeos Tweedledee & Tweedledum especialmente) e prejudicam nossa imersão naquele universo. Seria muito mais efetivo, e fiel à temática de sonhos, se Burton tivesse apostado em efeitos práticos como fez em Os Fantasmas se Divertem, e até o stop-motion que o diretor ajudou a ressuscitar produzindo O Estranho Mundo de Jack.

Mas tentar imaginar o “País das Maravilhas” dos sonhos de Tim Burton seria um exercício inútil, já que o roteiro erra novamente ao tirar toda a subjetividade e simbolismo da obra original ao fazer questão de mostrar que aquele mundo é real, inclusive, chamando-se “Underland” e não “Wonderland”. Em conseguinte, todas os personagens que nos intrigava no livro de Caroll e na animação original de 1951 se perdem.

Com exceção da estranha ironia do Gato de Cheshire (Stephen Fry, V de Vingança) e da preocupação latente do Coelho Branco (o excelente Michael Sheen, de Meia-Noite em Paris) o resto dos personagens fantásticos não conseguem encantar na versão de Burton. Os efeitos visuais de Tweedledee & Tweedledum (Matt Lucas, Missão Madrinha de Casamento) limitam completamente a animosidade e expressividade dos irmãos; enquanto a tediosa Lagarta Azul (falecido Alan Rickman) está muito longe do intrigante personagem da animação; muito por conta da dublagem “cansada” de Rickman, aliás.

Mas o pior é ver como a dupla Chapeleiro Maluco (Johnny Depp, com diastema à la Madonna) e Lebre (Paul Whitehouse, A Noiva Cadáver) não conseguem demonstrar um mínimo de energia insana que presenciamos na animação original. Enquanto a Lebre é apenas um personagem estranho e paranoico, o personagem de Depp é uma figura desinteressante com a língua presa e um visual exageradamente macabro (mais ainda que na encarnação de Willy Wonka em A Fantástica Fábrica de Chocolates). Esqueça as cenas malucas cheias de inventividade com os utensílios da mesa de chá, ou a química enérgica e hilária entre os dois personagens; não há nada disso no filme de Burton. Aliás, nem a montagem do parceiro habitual de Burton, Chris Lebenzon, faz um mínimo de esforço para demonstrar a interação dinâmica necessária entre a dupla, mantendo o ritmo sempre “chato”.

Da mesma forma, Mia Wasikowska, em seu primeiro grande papel em Hollywood, se apresenta sempre apática. Mesmo revisitando os locais fantásticos e as criaturas queridas, que tantas vezes ela sonhou, a Alice de Wasikowska não demonstra nenhuma emoção ou envolvimento com o ambiente; frustrante. Quando ela entra no buraco do Coelho Branco, nem parece que ela entrou em mundo de fantasia. Por outro lado, as rainhas interpretadas por Anne Hathaway e Helena Bonham Carter são muito mais bem-sucedidas em sua proposta divertidamente caricata. Enquanto Hathaway evoca o trabalho de Amy Adams em Encantada de uma forma estranhamente psicopata, a Rainha Vermelha de Carter é tão odiosa e exagerada quanto a Cruella De Vil de Glenn Close, sendo ainda beneficiada pelo inspirado detalhe de sua cabeça gigante.

Ao contrário da falta de tom do design de produção, os figurinos de Coleen Atwood (vencedora do Oscar) são realizados com bastante atenção aos detalhes e organicidade. Gosto especialmente do vestido da Rainha Branca, que praticamente a camufla em seu castelo, e também a gravata “viva” do Chapeleiro Maluco. Até mesmos nas mudanças de tamanho de Alice o figurino apresenta criatividade em suas soluções, em combinação com o simbolismo de seu cabelo solto e “livre” após entrar em “Underland”.

Algo que deve ser destacado no filme é a jornada interna que Alice passa para ganhar mais confiança em sua vida real. Dando um pontapé em uma onda de reconhecimento do feminismo na Disney que remete a Mulan, mas chegou com força total em Frozen e Malévola. A natureza da Alice de Tim Burton faz justiça à imaginação e curiosidade aflorada da protagonista da animação original, sendo um belo exemplo de coming-of-age empoderador para meninas.

Um dos filmes mais fracos de Tim Burton, Alice no País das Maravilhas apresenta pouca carga emocional e carece das metáforas da história original. Infelizmente, o tom sombrio dado pelo diretor não faz jus a natureza empolgante da história.

IMDb: 6,5/10. Rotten Tomatoes: 52%.


Dica de um bom filme “coming-of-age” com Mia Wasikowska: Segredos de Sangue (Stoker, 2013) de Park Chan-Wook.

4 - Meu Amigo, o Dragão (Pete’s Dragon, 2016) de David Lowery

8% dos votos.

Baseado no esquecido longa-metragem de 1997, dirigido por Don Chaffey, Meu Amigo, o Dragão, foi o menos visto dentre todos os filmes em versão live-action da Disney. Talvez possa ter sido a falta de familiarização das crianças com a história original, ou até o tipo de história que está sendo contado aqui, mais “simples” que as outras adaptações fantasiosas do estúdio. O que é uma pena, pois é justamente a simplicidade da história de Pete que torna esse filme o mais efetivo dentre todos.

A escolha do diretor David Lowery foi essencial para substituir o tom exageradamente infantilizado do filme de 1977 por camadas mais complexas de emoção. Experiente no meio independente (dirigiu Amor Fora da Lei e montou Upstream Color, por exemplo), Lowery demonstra uma sensibilidade incrível para desenvolver o pequeno protagonista da forma mais doce possível sem perder um tom de fatalismo. A primeira sequência do filme, por exemplo, mescla o tom fabulesco da história, ao mostrar o protagonista lendo uma história infantil, pouco antes de um acontecimento cruel. Esse equilíbrio de temas é perfeitamente simbolizado pela câmera fixa, em slow-motion, no rosto do garotinho, pois, mesmo se sabemos que acontecimentos terríveis estão acontecendo fora dali, o que interessa é a interpretação daquela figura acerca do acontecido.

Com o auxílio da doce e melancólica trilha sonora de Daniel Hart (parceiro habitual), Lowery também consegue dar uma atmosfera aconchegante àquele universo de Pete e Eliott (o dragão). Além de criar enquadramentos que conseguem juntar os dois personagens sempre no mesmo plano (denunciando a proximidade entre os dois), Lowery explora imagens de natureza esplendorosa e bucólicas da floresta em que se encontram; mesmo nos momentos noturnos, quando o diretor de fotografia Bojan Bazelli (de O Chamado) trabalho tons sombrios e enevoados que contrastam com o “lar” em tons quentes acolhedores dos dois amigos.

Além disso, os efeitos visuais do filme são tão impressionantes quanto em Mogli – O Menino Lobo, já que Eliott é bastante crível, apesar de sua figura obviamente cartunesca. Com formas arredondadas e “fofas”, o carismático dragão possui uma textura de pelame muito real, principalmente nos momentos em que Pete o abraça. Além disso, es expressões faciais do dragão, principalmente seus olhares, demonstram muitas emoções sem necessitar de nenhum diálogo. O maior exemplo disso é quando Lowery nos possibilita ver a dinâmica de Pete e seus novos amigos através de Eliott espiando por uma janela, demonstrando a solidão que o dragão se encontra (fora daquele ambiente) e a frustração e tristeza patente do personagem através do seu olhar. Sem contar que o rosto do dragão lembra um filhote absurdamente adorável, principalmente pelo detalhe da presa quebrada, que denota um ar de trapalhada.

De forma inteligente, o diretor muda a forma como filma o dragão de acordo com o personagem com que ele está contracenando. Portanto, Eliott ganha mais proximidade quando está com personagens que o entendem, lembrando o trabalho delicado que Steven Spielberg fez no similar E.T. – O Extraterrestre. Por outro lado, os planos detalhes de partes do seu corpo, e as imagens subjetivas ganham espaço quando humanos amedrontados o encaram, quase como num filme de monstro estilo King Kong.

O elenco homogeneamente eficaz também ajuda a intensificar o espírito cativante da história. Bryce Dallas Howard, com feições tenras e gestos delicados, é sempre hábil ao encarna uma personagem genuinamente doce, assim como em A Vila. Já Robert Redford, GRANDE ator, encanta com seu personagem sonhador ao mesmo tempo que traz peso e dignidade ao filme. E se Wes Bentley (Beleza Americana) cumpre de forma OK seu papel, Karl Urban (o juiz Dredd) acerta muito ao não demonizar seu personagem, denotando mais ignorância que crueldade.

Mas o filme pertence mesmo ao pequeno Oakes Fegley, que demonstra tanto carisma quanto o filme necessitaria. Mais expressivo que o pequeno Neel Sethi de Mogli, Fegley tem, consequentemente, mais credibilidade em nos fazer acreditar que aquele garotinho tenha vivido naquela situação por tanto tempo. A química de Fegley com Eliott ainda nos faz acreditar que aquele dragão exista, da mesma forma que as reações intensas e curiosas do protagonista nos convençam do amor que ele sinta pelo amigo. Afinal de contas, é de partir o coração o desespero dele ao acordar em um hospital e tentar retornar para a floresta que ele nem sabe onde fica.

Com um excelente ritmo que não perde o espectador em nenhum momento, Meu Amigo, o Dragão ainda tem a vantagem de saber ser comedido em sua duração, algo que a maioria dessas adaptações live-action da Disney não aprenderam.

Brilhantemente fluido entre o humor, a emoção e o drama, Meu Amigo, o Dragão, é um excelente exemplar de filme infantil. Consegue demonstrar doçura e ingenuidade sem perder a inteligência e bons personagens. Pessoalmente, o melhor dentre todos.

IMDb: 6,8/10. Rotten Tomatoes: 87%.


Dica de filme com outro dragão peludo: A História Sem Fim (The Neverending Story, 1984) de Wolfgang Petersen.

3 - Cinderela (Cinderella, 2015) de Kenneth Branagh

12% dos votos.

Independente se for em adaptações de William Shakespeare, como Henrique V (1989) e Hamlet (1996), ou filme claramente “pipoca”, como Thor ou Operação Sombra: Jack Ryan, Kenneth Branagh sempre entrega uma boa direção. Com Cinderela não foi diferente. Aliás, a direção de Branagh é o fator mais importante para o sucesso desse conto de fadas.

A sequência inicial já nos apresenta como Branagh domina o ritmo e o clima do filme. Enquanto apresenta a infância de Ella (Lily James), Branagh e seu montador Martin Walsh (V de Vingança, Chicago) trabalham os enquadramentos angulados românticos, as transições suaves entre cenas, os planos detalhes bem-humorados dos animais e o bom uso da fotografia cristalina de Haris Zambarloukos (lembrando seu trabalho em Mamma Mia!) para ditar o tom de ingenuidade fabulesca do filme.

Fundamental ao nos apresentar um universo de magia, Branagh não apenas faz questão de manter os personagens animais do filme original (1950), como ainda é capaz de fazer planos fechados em suas expressões doces e divertidas, e também por criar piadas caricaturais com essas situações, como as peripécias do gato Lúcifer. É sempre se mantendo entre esse tom de magia e comédia paródica que Branagh consegue manter nosso interesse por Cinderela.

Não apenas nos personagens mais fantasioso, mas também com os personagens humanos, é fácil de conferir esse sucesso. Enquanto a Cinderela de Lily James (que estará em Baby Driver, novo filme de Edgar Wright) é tão bondosa e carinhosa quanto poderíamos esperar, ela também exibe detalhes de humor insuspeito (como ao fazer uma careta ao ver sua meia-irmã cantando desengonçadamente). Já as irmãs Drisella e Anastasia (Sophie McShera e Holliday Grainger, respectivamente) criam caricaturas idealmente patéticas e humoradas cheia de química com o tom vilanesco de sua mãe, a Madrasta vivida por Cate Blanchett. Esta última, aliás, sempre rouba o filme quando aparece, já que é capaz de encarnar a figura clássica da animação através de expressões nada sutis e risada maquiavélica, por exemplo, ao mesmo tempo que demonstra camadas sentimentais mais complexas; com destaque para a expressiva cena em que observa Cinderela conversando sozinha com seu pai.

Sem deixar que criar os momentos dramáticos necessários para esse tipo de filme. Branagh é inteligente ao focar mais em suas imagens simbólicas que no literal para conseguir o feito. Reparem especialmente na cena em que Cinderela recebe a notícia da morte de seu pai, quando Branagh cria um lento zoom out que diminui a figura da personagem sobre um ambiente opressor (tática oriunda de Alfred Hitchock em A Sombra de Uma Dúvida).

Já nos momentos mais empolgantes, Branagh movimenta mais sua câmera, criando travellings, e aposta em uma montagem mais rápida e dinâmica que exibem um bom timming cômico (como na histericamente divertida cena da fada madrinha) e uma intensa fluidez com a trilha sonora enérgica e autocontemplativa de Patrick Doyle (Valente).

Assim como as demais adaptações live-action da Disney, o filme apresenta um design de produção IMPECÁVEL. O trabalho de Dante Ferreti (parceiro de Martin Scorsese) consegue se manter equilibrado entre o cartunesco e o real, com destaque para a idealizada fazenda da família de Cinderela, que possui um ar de aconchego e clima familiar (reparem no adorável galinheiro) ao mesmo tempo que possui uma escadaria sombria que é digna de masmorras de animações. Já o castelo do vilarejo consegue nos remeter aos extensos campos, escadarias, corredores do filme original, com um trabalho detalhado de entalhes, obras de arte e objetos de ouro ideias para o local.

Os figurinos de Sandy Powell, além de lindamente realizados conseguem falar muito sobre os personagens. Desde o sapatinho azul da pequena Ella, até seus vestidos de camponesa com detalhes da mesma cor, já criam uma expectativa sobre o seu vestido do baile. Já a Madrasta de Cate Blanchett se baseia em cores verde escuro, que denuncia sua personalidade triste e sombria. Já suas filhas, transitam entre o amarelo e pink gritantes que contrastam adequadamente com simplicidade de Ella, inclusive pela imponência de seus vestuários.

O filme ainda conta com uma participação engraçada de Helena Bonham Carter, que subverte completamente a imagem idealizada de fada madrinha sábia e suave; além de um Príncipe Encantado que não diminui o filme, interpretado por Richard Madden (Game of Thrones). Já os veteranos Stellan Skarsgard e Derek Jacobi cumprem bem seus pequenos papéis

Apesar de divertido e com bom ritmo, Cinderela perde pontos por não ousar e fazer justiça ao ideal progressista de Malévola. Mas, de qualquer forma, sempre se beneficiará do talento de Kenneth Branagh na direção.
IMDb: 7/10. Rotten Tomatoes: 83%.


Dica de filme de Kenneth Branagh baseado em conto clássico (sem ser William Shakespeare): Frankenstein de Mary Sheley (Idem, 1994).

2 - Malévola (Maleficent, 2014) de Robert Stromberg

27% dos votos.

Malévola é um filme de contrastes. Se por um lado esse conto de fadas traz uma direção irregular e um roteiro cheio de falhas, por outro traz uma atuação hipnotizante de Angelina Jolie e uma virada temática no universo de princesas da Disney que fincou de vez o feminismo de Alice no País das Maravilhas, Enrolados, Valente e Frozen – Uma Aventura Congelante.

O diretor Robert Stromberg estreou na função após uma carreira de sucesso em direção de arte e efeitos visuais, inclusive, ele já havia recebido dois Oscars por seu trabalho de arte de Alice no País das Maravilhas e Avatar. Desta forma, é notável a concepção visual do filme, revelando muita coerência com a narrativa. A floresta de seres encantados, por exemplo, aposta em um ambiente claro e bastante iluminado que enaltece as cores multi variadas daquele ambiente e daquelas figuras, no seguimento da infância de Malévola. Quando Malévola já está adulta, os ambientes se tornam obscuros e sombrios, trazendo uma inspiração no Expressionismo Alemão ao dar valor para formatos incongruentes e cheio de arestas, além de várias silhuetas e sombras. Os planos de Malévola espreitando Aurora no escuro são assustadores na medida certa, da mesma forma que a imponente cerca de espinhos não somente é um símbolo do terror e ameaça que tomou aquele local, como também o próprio coração da protagonista. O filme consegue dosar as imagens que remetem à fantasia leve juvenil e o tom gótico que marcou o belo longo original de 1959, A Bela Adormecida.

Em soma, o diretor ainda denota um bom olho para a beleza plástica de suas composições, como no plano em que Malévola está em cima de um cavalo à frente de um laranja crepuscular; e também para criar homenagens aos momentos mais icônicos do original, como ao reencenar a atmosférica cena do batizado de Aurora (com direito até às nostálgicas chamas esverdeadas da protagonista). Da mesma forma, o diretor ainda é inteligente ao criar algumas rimas visuais sutis. Prestem atenção em um breve momento de alívio de Malévola e Aurora, enquanto a última conhece algumas criaturas encantadas, dentre elas, algumas com luzes fluorescentes, que simbolizam o mundo iluminado que Malévola vivia antes de ser traída.

Infelizmente, o diretor não é tão bom em ditar o ritmo do filme. Enquanto os eventos que envolvem Malévola na floresta são sempre interessantes, os entrecortes no castelo do Rei Stefan são sempre aborrecidos e nada fluidos em comparação com o restante da narrativa; sempre quebrando o ritmo. O momento derradeiro da maldição de Aurora, da mesma forma, é muito apressado e exibe alguns comportamentos incompreensíveis por parte dos personagens, principalmente o Rei. Sem contar que as cenas de alívio cômico das três fadinhas que cuidam de Aurora na floresta não são nenhum pouco inspirados, e poderiam ter sido, em sua maioria, deixados de fora.

Em conseguinte, chegamos no problemático roteiro de Linda Woolverton, a mesma dos dois filmes de Alice. Apesar de se iniciar MUITO BEM ao reapresentar Malévola com uma versão alternativa, e infinitamente, mais tridimensional que no filme original, o roteiro de Woolverton apresenta uma boa parcela de erros. Um dos piores é justamente diminuir as personagens das fadinhas interpretadas por Imelda Staunton (veterana de filmes como Segredo de Vera Drake), Lesley Manville (Segredos e Mentiras) e Juno Temple (Killer Joe – Assassino de Aluguel). Obviamente, a intenção da roteirista era dar mais espaço, e intimidade, para a relação entre Malévola e Aurora em todas as fases da vida dessa última. Porém, a roteirista poderia ter feito isso sem transformas as fadas, tão emblemáticas no longa original, em apenas três criaturas absurdamente tolas e irresponsáveis.

O roteiro ainda traz outras incongruências que diminuem a boa vontade do espectador em adentrar naquele universo. Por exemplo: Como ninguém acha estranho a presença de Malévola no batizado se ela estava teoricamente morta? Qual o sentido de Malévola tratar mal as únicas criaturas que lhe servem de acalanto? Porque a personagem não usa suas poderosas magias no momento de confronto ao fim do filme? E ainda pior, porque, cargas d’água, o Rei Stefan manda Aurora para morar com as três fadinhas na própria floresta onde Malévola VIVE? Enfim, são questões aberta pela boa ideia de problematizar a história da personagem-título, e deveriam ter sido tratadas com mais cuidado.

Em contrabalanço, como já dito, a virada temática do longa é algo a se enaltecer, principalmente se considerarmos que é um filme infantil. A violência que Malévola sofre no primeiro ato do filme não somente choca pelo ato em si, como também por poder ser criado um paralelo com abusos sexuais tão (infelizmente) cometidos contra garotas e mulheres em colégios e universidades. A primeira coisa que me veio à cabeça ao vê-la acordando e se dando conta do que havia acontecido, foram histórias, que todos nós já ouvimos, sobre meninas que acordaram violadas após uma serem drogadas em uma festa, ou somente por terem exercido seu direito, de beberem um pouco além da conta. A atuação de Angelina Jolie nesse momento em questão, aliás, é de gelar a alma.

Além de ser uma crítica direta à mentalidade sexista em que os contos de fadas da época de A Bela Adormecida se baseavam, as ações que Malévola sofre ainda ganham um tom metafórico pela presença, e ausência, das “asas”. Analogia para liberdade, a ausência das asas prende Malévola em um mundo de sofrimento, depressão e angústia. Sentimentos que toda mulher abusada deve sentir após ser violentada.

Carregando o fardo de interpretar uma das mais famosas personagens da Disney, Angelina Jolie, faz isso com louvor, e leva o filme inteiro em seus ombros. Além de possuir uma beleza facial natural que evoca poder e imponência, Jolie é hábil ao criar expressões absurdamente ameaçadoras, como em seu cinismo falsamente ocultado na cena do batizado de Aurora. Além disso, a admirável atriz ainda consegue criar camadas cada vez mais interessantes e emotivas da personagem através da apatia forçada ao encarar Aurora, algo dificílimo de ser feito. Mesmo que force não demonstrar sentimentos por Aurora, a Malévola de Jolie consegue presentar um brilho cheio de ternura no olhar que denuncia seu verdadeiro “eu”. E ainda é fascinante como Jolie consegue encarnar temor e fragilidade no ato final, mesmo quando conhecemos sua força em momentos de ação anteriores.

Elle Fanning
, por sua vez, cria uma Aurora adorável e ingênua na medida certa; tendo o triunfo de não tornar sua personagem menos ativa justamente por essa ingenuidade. É um alívio que ela passe longa da passividade extrema da Aurora original. Enquanto as intérpretes das três fadas “tias” de Aurora não podem fazer muita coisa com o papel ingrato, o mesmo pode ser dito Sharlto Copley como Rei Stefan, que se apresenta unidimensional em demasia. Já Sam Riley (do regular Na Estrada) e Brenton Thwaites (do excelente terror O Espelho) ao menos podem brincar com os clichês de seus personagens.

Com um belo twist final que remonta ao de Frozen, Malévola é um filme que merece ser visto pelo caráter progressista com que retrata a vida de sua personagem e pela revalidação de sua imagem.

IMDb: 7/10. Rotten Tomatoes: 50%.


Dica de filme de justiça contra a misoginia: Acusados (The Accused, 1988) de Jonathan Kaplan.

1 - Mogli – O Menino Lobo (The Jungle Book, 2016) de Jon Favreau

31% dos votos.

Apesar de o excelente longa original (1967) não ser tão lembrado pelas audiências de hoje em dia; o primeiro lugar dessa lista não poderia ser outro. Afinal de contas, Mogli – O Menino Lobo foi o único filme da lista que fez um (ENORME) sucesso proporcional entre público e crítica.

Roteirizado por Justin Marks, que incompreensivelmente também foi responsável pelo roteiro de Street Fighter: A Lenda de Chun-Li, Mogli desenvolve o personagem-título, e os arcos dos animais de seu convívio, consideravelmente melhor que a animação de 1967. Aqui, Marks cria um elo emocional maior de Mogli pelos animais de seu convívio, sendo esse lado emocional o maior motivador de suas ações. Além disso, o roteirista consegue tornar a dinâmica particular daquela selva mais interessante justamente por trabalhar alguns conceitos próprios do local e suas interpretações, como a “Trégua da Água”, “Pedra da Paz” e “Flor Vermelha”. O roteirista também consegue fazer menções às passagens cartunescas do original como muito respeito, como ao retratar o valor que os elefantes possuem naquele universo.

Ainda como fator positivo, o roteiro trabalha a inadequação de Mogli naquele meio com soluções divertidas, como suas engenhocas para conseguir alimento. Funcionando como analogia do que nos torna diferentes do resto, o roteiro consegue apresentar de forma não maniqueísta, para crianças, como as diferenças podem parecer estranhas e inadequadas a início, apesar de sempre terem um valor agregado pela individualidade. Além de trazer uma bela mensagem sobre a unidade fortalecedora dos diferentes.

Desta forma, o vilão Shere Khan (Idris Elba, assustador) se transforma em uma das figuras mais complexas do longa, já que sua agressividade ganha contornos muito mais profundos à medida que entendemos seu temor de Mogli. Aliás, todos o elenco do filme engrandece ainda mais os queridos personagens. Lupita Nyong’o e Giancarlo Esposito expressam extremo ar de respeito e caráter como os símbolos materno e paterno de Mogli. Já o GRANDE Ben Kingsley traz a carga de sabedoria e nobreza ideal para o influente e confiável Bagheera (meu personagem favorito quando criança). E se Scarlett Johansson tem a voz suave estranhamente hipnotizante essencial para a serpente Kaa, não haveria ator melhor para interpretar o bon-vivant Baloo que o eterno Bill Murray, já que a persona do ator está sempre ligada a um tipo de malandragem bem-humorada que foi responsável por sucessos como Almôndegas, Clube dos Pilantras, Os Caça-Fantasmas e Feitiço do Tempo.

O pequeno Neel Sethi é carismático o suficiente para ganhar nossa simpatia, além de ter demonstrado incrível desenvoltura ao interagir com os personagens digitais. Apesar de não demonstrar sempre muita expressividade (como na sequência do templo do Rei Louie), é inegável sua intensa energia, já que ele corre com o mesmo entusiasmo de Tom Cruise em seus filmes de ação.

Dirigido pelo mesmo Jon Favreau de Homem de Ferro, Mogli traz de volta a mesma atmosfera de aventura infantil que o diretor usou no esquecido Zathura – Uma Ventura Espacial. Favreau consegue mesclar os momentos mais leves e divertidos (o seguimento em que Mogli vive com Baloo), com outros mais chocantes (Shere Kahn enfrentando Akela) com um equilíbrio admirável. E mesmo que o filme fatalmente adote uma estrutura episódica, já que é um road movie, na maior parte do tempo os acontecimentos surgem fluidos graças a transições sutis entre os núcleos.

Vencedor do Oscar de Melhores Efeitos Visuais, o filme realmente chama a atenção para o realismo como retrata seus personagens. Desde o pelame completamente palpável de Baloo, até a sugestiva córnea cicatrizada de Shere Kahn (passando pelos nós de pelo no corpo de Rei Louie), tudo é criado com incrível detalhismo. A cena de cantoria no riacho entre Mogli e Baloo, por exemplo, demonstra uma interação incrivelmente real entre as duas figuras; da mesma forma que as sutis mudanças de pigmentos na íris de Kaa é uma forma criativa de ilustrar a hipnose. A cor alva de Raksha, é um detalhe que gosto especialmente, já que simboliza a paz com que Mogli se sente quando está com ela.

Do mesmo modo, os ambientes digitais também são muito inventivos em sua concepção. Além da majestosa e densa selva onde Mogli vive, destaca-se a árvore retorcida e em meio à penumbra de Kaa, onde os galhos e cipós se confundem com a dimensão assustadora da criatura. O templo pedregoso de Rei Luie também é uma ótima sacada, já que, apesar de claramente vasto e opulento, parece ser diminuto quanto ao animal que o habita, que precisa se contorcer para caber completamente.

Mogli – O Menino Lobo perde um pouco da força por ser mais longo que precisaria ser, perdendo um ritmo essencial no fim do segundo ato. Mesmo assim, consegue ser sempre carismático; e melhor que o longa original em muitos quesitos.

IMDb: 7,5/10. Rotten Tomatoes: 95%.


Dica de filme infantil de John Favreau: Zathura: Uma Aventura Espacial (Zathura, 2005).

Divulgaí

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