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Especial Wolverine - Revisitando a Saga do Mutante “Lobo Solitário”

Não é exagero afirmar que Jackman seja o intérprete de super-herói do cinema atual mais querido pelos fãs; até mais que a encarnação de Robert Downey Jr. de Homem de Ferro
Especial Wolverine - Revisitando a Saga do Mutante “Lobo Solitário”

É chegada a hora. No início de março de 2017 estreia o (alegado) último filme do personagem Logan/Wolverine encarnado pelo astro australiano Hugh Jackman, na mais longeva série cinematográfica baseada em super-heróis (já se vão 17 anos desde que X-Men: O Filme estreou no ano 2000).

Não é exagero afirmar que Jackman seja o intérprete de super-herói do cinema atual mais querido pelos fãs; até mais que a encarnação de Robert Downey Jr. de Homem de Ferro. A verdade é que Jackman possui expressão e fisicalidade perfeitas para o papel do “baixinho raivoso” do universo dos mutantes; além de um carisma natural que fez os fãs se apaixonarem, também, pelo ator.

A responsabilidade de adaptar para “carne-e-osso” esse personagem não foi pequena. O canadense Logan apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em 1974, em uma edição de O Incrível Hulk. Desde então, a figura caiu nas graças dos fãs, tanto que é um personagem importante de grandes sagas das HQs da Marvel, como Queda dos Mutantes, Guerra Civil, A Era de Ultron e Dias de Um Futuro Esquecido; além de ser membro dos Vingadores e participar de histórias do Homem-Aranha e Hulk e possuir suas próprias sagas solo como Eu, Wolverine e Velho Logan.

Antes de Jackman ser contratado para o papel do primeiro filme, vários outros atores foram considerados. Tanto novatos como Edward Norton, Viggo Mortensen e Aaron Eckhart, como veteranos como Mel Gibson e até Jean-Claude Van Damme (!) foram sondados. Os preferidos do estúdio eram Keanu Reeves ou Gary Sinise. Quando o papel foi oferecido a Russel Crowe, o ator declinou, tendo sido contratado então Dougray Scott. Porém, Scott não conseguiria conciliar as gravações do filme com Missão: Impossível 2 (em que interpreta o vilão), dando preferência a este último (o que deve ser motivo de arrependimento até hoje). Vendo a situação, Russel Crowe resolveu indicar um amigo de sua terra natal, Hugh Jackman... o resto é história.

No início, o personagem seria apenas uma figura que criasse empatia no público e os guiasse por um universo desconhecido de forma igualitária (já que, tanto Logan/Wolverine, quanto os espectadores, estavam sendo introduzidos ao universo da organização mutante em X-Men: O Filme). No entanto, a encarnação de Hugh Jackman foi tão icônica e bem-sucedida que se tornou o verdadeiro protagonista da franquia (na trilogia inicial) e ganhou uma série de filmes solo (o único mutante a conseguir esse feito).

Além de se tornar produtor dos próprios filmes de mutantes que estrelou, Hugh Jackman concorreu a mais de 10 prêmios pelo papel de Logan/Wolverine (contando todos os filmes em que atuou como o personagem). As premiações envolvem MTV Movie Awards, Saturn Awards, Empire Awards, People’s Choice Awards e tantas outras.

Ao lado da trilogia do Cavaleiro das Trevas de Cristopher Nolan, os filmes X-Men podem ser considerados a série de longas mais homogeneamente satisfatórios do cinema. Já que, enquanto os filmes de Nolan elevaram o nível de filmes de super-herói a um patamar mais respeitável ao tratar o assunto com uma inteligência e assertividade pungentes (principalmente em dar o devido valor e complexidade aos personagens), os filmes dos mutantes sempre pautaram seu universo a um contexto sócio-político de preconceito e intolerância extremamente interessantes em suas metáforas. E mesmo os capítulos mais irregulares (O Confronto Final e Apocalipse) ainda possuem uma coerência belíssima no modo como tratam o desenvolvimento de seus personagens.

Infelizmente, os filmes solo de Logan/Wolverine nunca foram tão bem-sucedidos quanto os filmes dos X-Men. O próprio Jackman concorda que X-Men Origens: Wolverine foi um grande erro, principalmente pelo péssimo roteiro. Já Wolverine: Imortal foi um avanço em relação ao antecessor, principalmente por apostar em um clima de filme policial que pôde aproveitar um pouco mais as emoções do “maldito” personagem. No entanto, o longa de James Mangold também foi sabotado por um roteiro aquém de seu potencial.

Tudo nos indica que esse terceiro, e último, capítulo da saga solo desse amado personagem será um grande filme. Baseado na HQ Velho Logan, o filme sofrerá influências de clássicos do cinema noir (as imagens em preto e branco do filme denunciam isso), bem como westerns como Os Imperdoáveis (o western de redenção de Clint Eastwood). Além disso, parece que finalmente o filme conterá o nível de violência necessário para um filme do personagem.

Aliás, se levarmos em consideração a filmografia de James Mangold (mesmo pelo fraco resultado de Wolverine: Imortal), podemos ficar entusiasmados, já que o diretor foi o responsável por criar um bom estudo de personagem em Johnny e June (sobre a história e carreira de Johnny Cash) e um excelente faroeste em Os Indomáveis (refilmagem de Galante e Sanguinário). O primeiro trailer lançado, ao som da icônica Hurt de Johnny Cash, já é muito melhor que os dois primeiros filmes do personagem juntos.

Portanto, nada mais justo que façamos uma análise retrospectiva dos filmes que tiveram a participação de Logan/Wolverine. ATENÇÃO, essa não é uma matéria sobre o universo dos X-Men, e sim, sobre o personagem encarnado por Hugh Jackman. Portanto, não serão considerados na análise X-Men: Primeira Classe e X-Men: Apocalipse, já que são histórias que não possuem Logan/Wolverine como parte essencial.

1º X-Men: O Filme (X-Men, 1999) de Bryan Singer


Não é surpresa para ninguém que X-Men: O Filme foi um divisor de águas para o cinema de super-heróis, elevando o sucesso B de Blade – O Caçador de Vampiros para o gosto do grande público de forma intrigante e inovadora.

Inteligente ao discutir temáticas adultas e socialmente contundentes com um universo fantástico como alegoria, o roteiro de David Hayter (que mais tarde faria o roteiro do incompreendido Watchmen: O Filme) utiliza os mutantes adequadamente como símbolos para as minorias (étnicas, de identidade de gênero, de orientação sexual, de crenças religiosas). A ideia de contextualizar o pensamento radical do “vilão” Magneto (Ian McKellen) frente ao seu passado traumático é sábio ao tonar tridimensional sua personalidade e anseios; sendo muito mais que apenas uma “dominação do mundo”, e mais um temor que a história se repita, literalmente. Para fazer um paralelo, pensem em Saw Guerrera (Forest Whitaker) do recente Rogue One – Uma História Star Wars.

Apesar de a inspirada direção de Bryan Singer (que havia estourado após o inesquecível Os Suspeitos e o subestimado O Aprendiz) construir boas sequências de ação, os momentos dramáticos (principalmente da jovem e ingênua Vampira de Anna Paquin) e cerebrais (envolvendo mais o Professor X e Jean Grey) é que tornam o filme tão especial e interessante, mostrando que a tensão e o perigo podem vir muito mais intensamente do meio político e de influências de grandes chefias, que de vilões com poderes mutantes.

Patrick Stewart (que nessa época já era o Capitão Picard de Star Trek: A Nova Geração), sabe trabalhar as expressões doces e impassíveis simultâneas do elegante personagem para empoderá-lo na mesma medida que ficamos impressionados pela sua inteligência, e intrigados por sua dinâmica com Magneto. Este último, é incarnado com uma carga de complexidade e dignidade IMPRESSIONANTE por Ian McKellen. Aliás, a química dos dois é um dos grandes destaques de toda a saga.

Famke Janssen (que havia estourado após fazer uma Bond-girl em 007 Contra Goldeneye) também transparece muita racionalidade como Jean Grey, além de uma certa insegurança velada que faria rima com o destino de sua personagem nos próximos filmes. Infelizmente, Ciclope (James Marsden) e Tempestade (Halle Berry) não tiveram tanto destaque quanto os fãs gostariam. Da mesma forma, o único mutante “vilão” que realmente chama a atenção é Mística; encarnada por uma Rebecca Romijn completamente estonteante, poderosa, com forte presença física e um ar de mistério que é PERFEITO para a personagem. É estranho ver como Dentes-de-Sabre (Tyler Mane) é tão apagado no filme, já que é o maior rival de Wolverine, além de possuírem uma história pregressa. Porém, possivelmente não estavam imaginando que o personagem de Hugh Jackman faria tanto sucesso a ponto de darem destaque especial ao seu algoz.

Algo que foi muito criticado pelos fãs foram os figurinos à base de couro preto (possivelmente influência do sucesso de Matrix). A falta de fidelidade aos coloridos uniformes dos quadrinhos pode ser uma resposta ao fracasso colossal de Batman & Robin anos antes, já que o visual carnavalesco brega do longa de Joel Schumacher anos antes foi um dos maiores erros daquele longa. E algo que uma obra que queria “renascer” os super-heróis no universo do cinema deveria evitar, é comparações com os filmes de Schumacher.

Os efeitos visuais do filme, apesar de eficientes, ficaram um pouco datados com o passar dos anos. Porém, devemos lembrar que o filme era uma aposta arriscada para o estúdio, portanto, o orçamento do filme foi limitado a US$75 milhões, valor ínfimo se considerarmos os blockbusters de hoje em dia.

O maior destaque do filme, porém, é mesmo a intensa encarnação do querido Hugh Jackman como Wolverine. Com uma presença física enigmática e viril que ecoa tons do “Homem sem Nome” da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, Jackman trabalha a personalidade de Logan/Wolverine com várias interessantes camadas.

Um dos casos maior sucesso de ator que se adaptou perfeitamente a um personagem já famoso da cultura pop, Jackman é capaz de demonstrar sensibilidade e caridade mesmo por trás de uma expressão facial sisuda e um comportamento bruto; também deixando claro o peso das diversas experiências ruins que pode ter sofrido após tantos anos de existência. A questão de “adoção” de Vampira, além do comprometimento com as lutas da equipe do Professor Xavier, ecoam as jornadas de Max Rockatansky no mundo pós-apocalíptico de George Miller; sendo tocante a forma como Jackman demonstra, com singelos detalhes, o modo como se reconhece naquelas crianças e luta para não se inundar no idealismo daquela equipe, já que é ciente que se apegará àquelas figuras e sofrerá muito após alguma tragédia acontecer.

Além disso, Jackman é muito bem-sucedido ao tornar aquela figura cool para o grande público, conseguindo equilibrar a profundidade dos dramas pessoais de Logan/Wolverine com pequenos toques de humor sarcástico perfeitos para sua personalidade.

A verdade é que o carisma intenso de Jackman ganhou a simpatia do público do mundo inteiro. Fincando seu nome à persona do personagem e intensificando o sucesso desse primeiro filme dos mutantes.



2º X-Men 2 (X2: X-Men United, 2002) de Bryan Singer

X-Men 2 pode, facilmente, figurar naquele seleto grupo de sequências que supera o, já bom, filme original; o que não é incomum nos filmes de super-heróis: Batman – O Retorno, Blade II, Homem-Aranha 2, Batman – O Cavaleiro das Trevas, Capitão América 2: Soldado Invernal são alguns exemplos.

Novamente comandado pelo excelente Bryan Singer, o filme não somente apresenta uma melhora das cenas de ação, com uso criativo dos poderes dos mutantes (a abertura com Noturno, a cena dos tornados e a luta com Lady Letal são destaques), mas também na alegoria da contextualização sociopolítica e no desenvolvimento dos personagens.

O roteiro de Michael Dougherty, Zak Penn e David Hayter nos impressiona, principalmente, pela segurança como impõe seu ameaçador vilão. William Stryker (Brain Cox,o Ward Abbott da franquia Bourne) não é um mutante, muito menos anseia ter tais poderes. Porém, ele nem precisaria tê-lo para demonstrar uma grande ameaça aos nossos heróis. Stryker é um militar com influência política e um passado traumático, e familiar, acerca de poderes mutantes. O vilão foge da megalomania caricatural que, facilmente, os vilões de quadrinhos podem demonstrar; ele é um vilão pautado no mundo real, que poderia ter sido um militar nazista qualquer da época de Adolf Hitler. E é justamente isso que o torna ainda mais assustador.

Astuto e “político” em todos os instantes, Stryker é um vilão que prefere gastar muito mais tempo investigando e criando pequenas armadilhas insidiosamente, que partir para o ataque de forma abrupta. O modo como Stryker encontra para demonizar os heróis é tão sagaz em suas soluções sólidas que, mais uma vez, cria um elo com acontecimentos conflituosos do mundo real; principalmente em épocas de Donald Trump.

Daí vem um dos melhores twists do filme, e que seria reprisado satisfatoriamente em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido: a união de duas ideologias conflitantes frente a um inimigo comum (como não se lembrar da foto de duas crianças, uma judia e outra muçulmana, protestando juntas contra a intolerância de Trump?). Se beneficiando da química cheia de carinho, ironia e dor que Professor Xavier e Magneto já começaram a demonstrar no filme anterior, o filme os coloca para lutarem juntos contra o vilão, nunca se esquecendo que, mesmo que sintam imenso respeito um pelo outro (a cena que Magneto demonstra pesar pelas informações vazadas é triunfal), isso não anula a TENSÃO presente pela imprevisibilidade daquelas figuras, já que Xavier não se encontra disponível para intermediar as relações.

Aliás, por falar em Donald Trump, os roteiristas não esquecem de metaforizar a intolerância contra os mutantes com as minorias existentes na nossa sociedade. Em uma determinada cena, quando um mutante conta a seus pais que possui tal diferença, o momento poderia ser perfeitamente o mesmo se a palavra “mutante” fosse modificada por “gay” (- Você já tentou não ser mutante?).

E se a história do filme já nos impressiona pela inteligência, o mesmo pode ser dito pelo desenvolvimento dos personagens. Além dos ESTUPENDOS Ian Mckellen e Patrick Stewart, Famke Janssen continua a nos encantar com a sobriedade doce de Jean Grey, principalmente agora que luta para se manter lúcida frente a uma ameaça que desconhece. Já Allan Cumming (em seu melhor papel no cinema) cria um Noturno extremamente interessante, fundindo um humor desconcertado, uma personalidade humilde e uma crença religiosa patente para aprofundar os dilemas pelo qual passou em sua vida (o momento de dor e sabedoria com Tempestade é belíssimo).

Enquanto isso, Brian Cox aproveita o maravilhoso personagem que tem para trabalhar e finca suas expressões em uma postura sóbria e imponente justamente por demonstrar controle total. Os momentos em que Cox usa de ironia para intrigar Wolverine, ou mesmo quando demonstra um rancor poderoso por Professor Xavier, são hábeis ao nos fazer, simultaneamente, temer o vilão e querer conhece-lo mais.

Apesar disso, Ciclope (James Marsden) continua a ser negligenciado, assim como Tempestade (Halle Berry). Entretanto, o desenvolvimento do núcleo jovem formado por Vampira (Anna Paquin), Homem-de-Gelo (Shawn Ashmore) e Pyro (Aaron Stanford) desenvolve uma sensibilidade cara ao período da adolescência, já que o “florescer” dos poderes e a angústia de se aceitar naquela sociedade criam um paralelo interessante com o amadurecimento. Principalmente, devemos considerar o dom ingrato de Vampira desenvolvido de forma coerente com o filme anterior (o “beijo gelado” é um exemplo da limitação sofrida daquela relação).

Esteticamente muito bonito, o filme possui uma fotografia sóbria e com cores fortes que intensificam a aura sombria daquela situação. Há bons insights no figurino (como o vermelho Bordeaux das roupas de Jean) e na caracterização dos personagens (Vampira em preto e branco chapados e o cabelo vermelho de Jean); além de efeitos visuais e maquiagem bem resolvidos e orgânicos com a narrativa (as trocas de identidade de Mística são empolgantes); muito melhores que no anterior. A trilha sonora de John Ottman (parceiro habitual de Singer) também é um destaque positivo.

Mas, mais uma vez, o protagonista da aventura é Wolverine. Mesmo não precisando ser o elo direto com o público para apresentação daquele universo, mas sim, graças ao sucesso que fez com os fãs no filme anterior. Muitos mais à vontade no papel, Hugh Jackman volta a “vestir” o personagem com uma virilidade transbordante no mesmo nível de suas tiradas cômicas pontuais.

Jackman expressa de forma FORMIDÁVEL a animalidade do personagem através de sua fisicalidade imponente e credibilidade nas cenas de ação (reparem como ele sempre expressa a raiva extravasada vocalmente e com respiração intensa). Porém, mesmo em momentos de violência e agressividade, Jackman é hábil ao manter detalhes de olhar e expressões faciais que mantém seu lado humano em conflito. Daí vem um interessante paralelo que podemos fazer, entre o âmago selvagem, mas sentimental, de Wolverine com a casca culta e civilizada de Stryker, escondendo uma natureza desumana.

Bryan Singer ainda nos oferece a possibilidade de conhecer um pouco mais do passado nebuloso de Logan e aprofundar seus conflitos emocionais, também pela presença de Stryker.

Ao fim, X-Men 2 foi um filme que elevou os filmes de super-heróis a outro patamar. Um filme sóbrio, maduro, inteligente e que trouxe comentários contundentes sobre a humanidade. Sem esquecer de trazer um personagem condutor interessantíssimo como Wolverine.



3º X-Men – O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006) de Brett Ratner

O Confronto Final não consegue se manter no mesmo nível de qualidade do anterior, afinal de contas, não é exagero considerar X-Men 2 um dos melhores filmes de super-herói de todos os tempos. Porém, a continuidade temática, bem como o arco dramático dos personagens, segue com admirável coerência nesse terceiro longa.

Novamente trazendo ecos dos conflitos sociais vigentes, o roteiro do filme (de Zak Penn e Simon Kinberg) se baseia na tensão “racial” entre humanos e mutantes para criar uma rica discussão sobre as diferenças que nos fortalecem e a necessidade de adequação frente ao padrão da sociedade “normal”. Toda a polêmica da “cura mutante” gera conflitos que evocam cirurgias de clareamento de pele e até a famigerada “cura gay” de algumas igrejas; sendo que o roteiro tem a sensibilidade de mostrar os dois lados de opinião dos mutantes.

Brett Ratner, do ótimo Dragão Vermelho, não realiza um trabalho tão regular quanto Bryan Singer entregou nos filmes anteriores. O filme sofre de um timming cômico pedestre em alguns momentos, não se encaixando bem no clima sério e dramático de algumas cenas (a subtrama do grupo rebelde de Magneto é um exemplo disso). O excesso de personagens também é um problema, já que não há tempo suficiente de desenvolver a todos e torna-los minimamente interessantes – Anjo (Ben Foster) e Fanático (Vinnie Jones), por exemplo, são desperdiçados. Já outras soluções do filme são realmente indefensáveis, como o ingrato destino que delegam para a sempre interessante Mística (Rebecca Romijn).

Ratner também não se mostra tão inventivo para criar interações entre os poderes dos mutantes, principalmente no “confronto final”, já que muitos se limitam a lutar com golpes de seres humanos mesmo; além do mau uso de efeitos visuais (reparem como os personagens nos voos nem um pouco críveis dos personagens).

Apesar disso, a conclusão do arco dramático de Jean Grey/Fênix Negra é bem resolvido e realmente traz muita emoção; favorecido por um bom flashback e uma atuação intensa de Famke Janssen que consegue nos deixar aterrorizados e temerosos delas ações e destino de Jean. Inclusive, a criticada morte de dois personagens centrais é essencial para que a transição de Jean tenha maior urgência e dramaticidade. Enquanto isso, a Tempestade de Halle Berry tem oportunidade de crescer como líder, algo que não ocorreu nos dois filmes anteriores. Pena que o Ciclope de James Marsden nunca teve essa oportunidade.

Coerente também é a resolução do arco da personagem Vampira (Anna Paquim, mais uma vez, muito bem); que nos remete a um drama pessoal que pudemos acompanhar desde o filme inicial e traz alguns questionamentos interessantes sobre decisões de vida pessoal.

Mais uma vez, a franquia é beneficiada pelas atuações magistrais de Patrick Stewart e Ian Mckellen (reparem na expressão facial intrigante de Stewart em um determinado momento decisivo do Professor Xavier e na reação dúbia de Mckellen ao ato). A novidade fica pela boa presença de Kelsey Gramer na pele do Fera, uma atuação que traz a racionalidade, ternura e solidez que o personagem precisa.

Apesar de disputar o cargo de mutante destaque do filme com Jean Grey/Fênix Negra, o Logan/Wolverine de Hugh Jackman continua a ser um personagem carismático para todo o público. Além de estar abraçando de vez o cargo de instrutor dos jovens mutantes, o Wolverine desse terceiro filme passa por, pelo menos, dois dos momentos mais dramáticos da série, e que afetaria a vida dele para sempre. Em ambos os casos, ele precisaria lidar com a morte de forma inesperada: no primeiro, um grande amigo morre de tal forma que o obriga a liderar uma resistência; no segundo, ele precisa encarar o fato de que a morte é a única solução para retornar à paz.

Jackman demonstra a intensidade habitual de seu animalesco Wolverine como também despeja dramaticidade com os sentimentos de seu Logan. As rugas em seu rosto e sua carranca intransponível ganham novos contornos mais profundos a partir desse filme.

Apesar de irregular, O Confronto Final é interessante o bastante para fechar satisfatoriamente a “trilogia inicial” dos mutantes no cinema.

Rotten Tomatoes: 58%. IMDb: 6,7/10.



4º X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, 2009) de Gavin Hood

Após a conclusão da “trilogia inicial” dos mutantes, é claro que o estúdio não queria deixar de lado uma das mais bem-sucedidas franquias de super-heróis do cinema. Como forma de continuar a explorar esse universo, foi trabalhada a ideia de uma série de longas que explorassem a origem de determinados personagens, sendo que o filme inicial seria sobre Wolverine, enquanto havia planos para um filme sobre Magneto futuramente.

O problema é que o roteiro do regular David Benniof (de A Última Noite e episódios de Game of Thrones) e de Skip Woods (de filmes ruins como Hitman – Assassino 47 e Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer) não consegue tornar de Logan/Wolverine um personagem interessante o suficiente para carregar um filme sozinho sem as interessantes interações dos outros mutantes nos filmes anteriores. Todos os novos personagens do filme são mal desenvolvidos, se apresentando como figuras unidimensionais que se limitam apenas a seus poderes e a dicotomia do bem o do mal (portanto, esqueça conflitos inteligentes como os de Magneto nos filmes anteriores).

Recheado de momentos dramáticos superficiais (como a resolução do interesse amoroso de Logan), o roteiro também é recheado de frases de efeito e piadas imbecis que só irão agradar pré-adolescentes que gostam do cinema de Michael Bay (os diálogos entre os soldados do esquadrão de Stryker são difíceis de aturar). Além disso, o filme desperdiça personagens queridos pelos fãs, e com grade potencial: apesar da encarnação divertida de Gambit por Taylor Kitsch (o John Carter de Entre Dois Mundos), o Deadpool de Ryan Reynolds transita entre o chato Hannibal King de Blade: Trinity e uma versão tosca de Frankenstein.

Clichê do início ao fim, o filme de Gavin Hood ao menos possui uma excelente passagem, quando, durante os créditos iniciais, podemos acompanhar a jornada de Wolverine e Dentes-de-Sabre através de várias guerras. Aliás, Dentes-de-Sabre é outro desperdício, já que o filme o retrata apenas como uma figura vilanesca desinteressante, enquanto poderia ter se tornando um grande personagem dúbio (graças à dinâmica familiar com Logan) na pele do talentoso Liev Schreiber (que esteve no “oscarizado” Spotlight: Segredos Revelados, mas é mais conhecido pelo grande público pela franquia Pânico).

O diretor, aliás, não consegue suavizar o que há de ruim no roteiro, jogando a sutileza pela janela ao retratar a superficial relação amorosa de Logan com um tom romântico exagerado e até ao criar um elo dramático com Superman no momento em que Logan conhece o casal de senhores rancheiros. Além disso, os efeitos visuais do filme são incrivelmente ruins (repare na artificialidade das garras de Wolverine na cena do banheiro, ou mesmo na destruição do reator ao fim do filme).

Com roteiro tão ruim, e direção limitada, ficou difícil para Hugh Jackman nos impressionar com algo a mais além do que já havíamos presenciado do personagem. Infelizmente, Jackman não teve material suficiente para engrandecer o que já conhecíamos do personagem dos filmes anteriores, se limitando a vestir (com conforto) a persona do mutante e permanecer no piloto automático. Uma grande pena.

Sem a violência necessária para fazer justiça à natureza do personagem, X-Men Origens: Wolverine foi um fracasso criativo tão grande que, até hoje, é considerado o pior filme de mutantes pela crítica, além de acabar com a ideia da série de filmes de origem dos personagens. Até mesmo os próprios envolvidos, inclusive, Jackman, renegam esse péssimo longa-metragem.

Ao menos, com o sucesso de X-Men: Primeira Classe, os filmes dos mutantes ganharam um novo frescor genuíno; e os filmes solo de Logan/Wolverine ganharam uma nova direção mais digna do personagem.



5º Wolverine: Imortal (The Wolverine, 2013) de James Mangold

É inegável que Wolverine: Imortal seja um avanço em relação ao primeiro filme solo do personagem. Em contrapartida, isso não quer dizer muita coisa, já que não é muito difícil apresentar um trabalho melhor que aquele longa de 2009.

Desta vez houveram mudanças substanciais no foco da história: chega de ficar apresentando outros personagens mutantes apenas para criar um fan service barato, ou tentar ficar correlacionando os conflitos apresentados nesse filme com eventos anteriores (qual a necessidade de implementar Ciclope no filme anterior, afinal?). O foco do roteiro é pura e simplesmente Logan/Wolverine: como os acontecimentos de O Confronto Final afetaram sua vida e mente, e como ele será capaz de conviver com isso.

Seguindo essa linha, é interessante ver como, até o terceiro ato, o longa é dirigido por James Mangold como um filme policial de ação, sendo que a ambientação nipônica nos remeta a Chuva Negra de Ridley Scott. Apesar das cenas de ação com poderes mutantes, o filme poderia facilmente ocorrer com qualquer outro personagem “maldito” humano, e isso traz um tom de realismo que torna a experiência um pouco mais refrescante.

No entanto, o roteiro novamente apresenta sérios tropeços. Apesar da boa ambientação realista, toda a trama por trás daquela família japonesa ligada à Yakuza se torna desinteressante justamente por já prevermos facilmente os envolvimentos e reviravolta. Além disso, os personagens são novamente unidimensionais, sendo que Mariko (Tao Okamoto, de Batman V Superman – A Origem da Justiça) ganha um pouco mais de desenvolvimento, apesar da expressividade limitada de Okamoto. Já Yukio (Rila Fukushima, de Arrow) se revela uma personagem bem mais interessante, o que torna o envolvimento de Logan com Mariko ainda mais incompreensível, muito graças à química de Fukushima e Hugh Jackman.

Bacana ao trazer personagens femininas que são responsáveis por ações que interferem na vida (e morte) do herói de forma decisiva (apesar de trazer Jean Grey em um discutível baby dool), o filme ainda exibe uma boa direção de James Mangold em cenas de ação (a sequência no trem-bala é destaque). Além do diretor explorar bem os recursos técnicos para tornar algumas passagens mais elegantes (reparem no bom uso da iluminação para criar uma luta à contraluz azul), ele ainda cria alguns planos belíssimos (como aquele que mostra o protagonista preso a diversas flechas com cordas em um vilarejo nevado).

No entanto, em outros momentos o diretor perde muito o ritmo da narrativa, principalmente quando foca no envolvimento forçado de Logan e Mariko. Em contrapartida, é bom ver que, pela primeira vez, um pouco de sangue é visto nas garras de Wolverine, trazendo o tom de violência que é necessário ao personagem.

Descambando no péssimo terceiro ato, Wolverine: Imortal ainda traz a péssima vilã Víbora (Svetlana Khodchenkova, de O Espião que Sabia Demais). A atriz não demonstra um pingo de sutileza e inteligência ao encarnar a vilã, mostrando-a antipática e vilanesca logo de cara (quando ainda deveria demonstrar um certo mistério) e depois trazendo tons de Uma Thurman como Hera Venenosa em Batman & Robin (é impossível não fazer a comparação, principalmente por sua caracterização).

Com um pouco mais de conteúdo para trabalhar que no filme anterior, Hugh Jackman é feliz ao, inicialmente, encarnar Logan como um ermitão completamente raivoso, traumatizado e solitário. Progressivamente, com uma nova missão para trazer um pouco de sentido à sua vida (bem como Max Rockatansky, novamente), Jackman vai demonstrando progressivamente sutis vislumbres de delicadeza e emoção esquecidas pelo personagem (suas reações às aparições de Jean são genuínas). Um bom trabalho de atuação que dependeu mais do talento ator que do desenvolvimento do personagem, afinal de contas, a história de “amor tragicamente interrompido” não é nem um pouco novidade para funcionar de impulsionador para um filme do herói,

Ao fim, Wolverine: Imortal ainda não foi o filme solo do personagem que ele mesmo merecia, apesar de podermos afirmar que os realizadores parecem ter encontrado o rumo certo para o próximo longa.



6º X-Men – Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014) de Bryan Singer

Apesar do resultado modesto nas bilheterias mundiais, X-Men: Primeira Classe foi o maior sucesso de crítica que a franquia havia conseguido até então, equiparando-se a X-Men 2 como o melhor filme da franquia e um dos melhores filmes de super-heróis de todos os tempos.

O fato é que X-Men: Primeira Classe apostou em um roteiro que desenvolveu com inteligência e delicadeza a personalidade de dois dos principais personagens da franquia, Magneto e Xavier, tornando os filmes anteriores ainda mais fascinantes; se beneficiou de uma direção extremamente segura, elegante e divertida em seu estilo 007 anos 60 do talentoso Matthew Vaughn (dono de uma filmografia homogeneamente boa). Além de contar com um elenco simplesmente arrebatador que apresentou James McAvoy e Michael Fassbender impressionando a todos com as versões mais jovens de Xavier e Magneto, respectivamente; e Kevin Bacon encarnando um vilão tão ameaçador quanto o de Brian Cox em X-Men 2.

Talvez embalado pelo fracasso do primeiro filme solo de Wolverine, X-Men: Primeira Classe exclui o personagem da equação e resolveu investir nos demais personagens. O que foi uma escolha muito acertada, provando que um filme dos X-Men tem figuras icônicas, complexas e divertidas o bastante para sustentarem um filme sozinhas.

Já em Dias de um Futuro Esquecido, houve um retorno do que havia de melhor na “trilogia clássica” com o senso de renovação que Primeira Classe havia instaurado na franquia. Matthew Vaughn saiu da jogada para dirigir o excelente Kingsman: Serviço Secreto, e Bryan Singer retornou ao posto de direção após os fracassos de Superman: O Retorno e Operação: Valquíria.

Tematicamente coerente com o filme anterior, Dias de um Futuro Esquecido nos envolve em um roteiro de acontecimentos intrigantes que cerca o contexto político da época em que se passa e gera novas interpretações aos mesmos. Portanto, se em Primeira Classe a Crise dos Mísseis de Cuba sob a óptica interessante dos conflitos de intolerância e hegemonia de alguns mutantes, em Dias de um Futuro Esquecido acompanhamos a polvorosa política da época da Guerra do Vietnã, e da imoralidade que marcou a presidência de Richard Nixon nos EUA, para correlacionar a uma novo Holocausto futuro, desta vez, mutante.

Tão impactante quanto X-Men 2 e Primeira Classe, Dias de um Futuro Esquecido se beneficia da direção mais madura de Bryan Singer na franquia. O diretor, juntamente com os montadores John Ottman (também compositor) e Michael Louis Hill, consegue imprimir uma fluidez EXTREMAMENTE satisfatório ao filme, conseguindo transitar entre os tempos passados e futuro de uma forma rítmica e narrativamente contundente para a dramaticidade necessária (o clímax final em que rima a tensão do presente com a tragédia futura é sensacional).

Além disso, Singer demonstra como poucos a sabedoria de utilizar momentos de alívio cômico realmente engraçados sem interferir na atmosfera trágica que o filme necessita (os momentos com Mercúrio e as interações de Xavier jovem com Wolverine são os destaques).

Com a maior ameaça que os mutantes já enfrentaram no cinema (desde o início já sentimos o peso daquele universo ao vermos Xavier, Tempestade, Wolverine e Magneto lado a lado), Singer também cria um visual coerente para seu filme. O futuro do filme é trabalhado com uma fotografia que enaltece as cores fortes, e utiliza de efeitos visuais para criar ambientes aterradores em sua desolação poeirenta e destruição pessimista (possivelmente inspirado em O Exterminador do Futuro, que, por sua vez, se inspirou na HQ Dias de Um Futuro Esquecido). Já o passado é visto com uma fotografia ligeiramente dessaturada, que lembra os filmes “sujos” e realista da Nova Hollywood, e que é coerente com a realidade depressiva do jovem Xavier e da “peregrinação” fria de Mística.

Ademais, as cenas de ação são coreografadas com muita criatividade pelo modo como interagem os diferentes poderes dos mutantes, além de montadas com sabedoria para torna-las impactantes e compreensíveis em relação aos personagens e ambientes. Fora que Singer é inteligente ao criar cenas VERDADEIRAMENTE violentas envolvendo morte e mutilações de personagens para sempre manter o espectador na dúvida se os heróis realmente conseguirão sobreviver àquela situação.

Mais uma vez trazendo conflitos emocionais e profundos aos seus personagens, o filme coloca força principal no seu trio de protagonistas: Xavier, Magneto e Mística. Enquanto James McAvoy consegue explorar com intensidade um arco emocional que nos faz ver o “intocável” Xavier de uma forma extremamente dolorosa e humana, Michael Fassbender continua a fazer justiça com a dignidade de Ian McKellen ao nos convencer da obstinação em respeitar e preservar sua própria espécie, mas também de não se privar de atos violentos para que isso aconteça. No meio disso vem a Mística de Jennifer Lawrence. Sempre com um olhar pesaroso e exausto (emocionalmente), Lawrence fornece a Raven uma dualidade intrigante entre o moralmente correto e a busca por justiça, se tornando a figura mais importante daquele conflito.

Além da já icônica interpretação de Evan Peters (American Horror Story) como Mercúrio, o filme ainda nos traz as atuações secundários no mesmo tom de tristeza e desesperança que enaltece ainda mais aquela apocalíptica ameaça (reparem nos olhares sempre apreensivos dos integrantes mutantes do grupo de Kitty Pride, nos passando uma sensação de urgência sempre presente). Além disso, Peter Dinklage (dispensa apresentações) é inteligente ao encarnar Bolivar Trask com comedimento e lucidez reveladoras, o que acaba tornando aquele vilão mais real, e consequentemente, mais interessante.

O que nos traz a, claro, Wolverine. Se nos seus últimos dois filmes Hugh Jackman não tinha muito com o que trabalhar para engrandecer o personagem, aqui o herói ganha novos, e interessantes, contornos. Logan precisa servir como um “tutor” para o jovem Xavier em sua pior fase, sendo que Jackman é hábil ao encarnar uma maturidade necessária para tal, angariada por muitas tragédias e dor. Simultaneamente, Jackman ainda precisa demonstrar força o suficiente para se convencer, e aos outros personagens, que o devastador futuro que conhece pode ser transformado em algo melhor. Ademais, Jackman volta a trazer seu timming cômico irônico ao sempre surpreender os jovens personagens com características deles mesmos que nem eles conhecem ainda.

Com comentários sócio-políticos relevantes, cenas de ação estonteantes, rica recriação de época, trilha sonora envolvente e atuações homogêneas em sua excelência, Dias de Um Futuro Esquecido é o melhor filme dos X-Men ao lado de X-Men 2 e Primeira Classe. Além de finalmente trazer Logan/Wolverine de volta como um personagem interessante e emocionalmente bem trabalhado.



Torçamos para que a expectativa ao redor de Logan seja verdadeira e que tenhamos um fechamento do ciclo Hugh Jackman como o herói de forma digna e respeitosa (assim como foi sua breve reintrodução em X-Men – Apocalipse).

Aproveitem e escrevam no espaço de comentários os seus filmes preferidos desse querido personagem.


Divulgaí

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