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Crítica: Logan

A proposta de Logan se estabelece inicialmente em seu próprio nome, uma vez que sua trama central prioriza a humanidade de Wolverine, justificando a não escolha por seu codinome como título.
Crítica: Logan

Há um momento em Logan onde a força de um amor verdadeiro é manifestada sob o disfarce de um insulto. Um insulto proferido pelo personagem título à Xavier (Patrick Stewart), desconstruído, porém, intimamente no expressivo e desolado olhar de Hugh Jackman ao dizer aquelas palavras. Apostando exatamente no elo e afeto criado por seus personagens centrais, este capítulo alcança seus objetivos principais com segurança: emocionar e pontuar uma despedida à altura do gigante Jackman. E Logan é um filme estabelecido em diversos elementos, tanto harmonizados quanto opostos e contrastantes, tal como a expressão de um amor verdadeiro através de um insulto.

A proposta de Logan se estabelece inicialmente em seu próprio nome, uma vez que sua trama central prioriza a humanidade de Wolverine, justificando a não escolha por seu codinome como título. Wolverine é um mutante, um soldado, já Logan, um homem atormentado que não consegue se perdoar. E aqui reside o principal fator do desenvolvimento do protagonista: o contraste de sua selvageria com sua humanidade. E se o personagem de Jackman não consegue mais curar suas cicatrizes espalhadas pelo corpo com a mesma eficiência que uma vez já o fez, tampouco as feridas marcadas em sua vida o deixam em paz consigo. Cansado, intenso e internamente quebrado, são 3 fatores rigorosamente presentes na construção (e desconstrução) de Logan ao longo do filme, brilhantemente evidenciados por uma das mais densas atuações da carreira de Jackman.

Enquanto o Wolverine dos cinemas foi marcado por elementos de ódio e espírito de vingança ao longo de 17 anos, Mangold opta por um filme íntimo de mensagens com profundidade além de sua temática. Sim, há uma violência extrema que justifique sua classificação etária, ainda que uma violência utilizada a serviço do enredo, escapando de cair no gratuito e banal, mas Logan marcará muito mais por mergulhos profundos no sentimentalismo do arco de seus personagens. Exatamente onde reside seu maior e mais belo destaque. Inclusive, o peso altamente dramático se torna comedido em função de alívios moderados.

Enquanto Boyd Holbrook (Narcos) entrega peculiaridades cômicas a seu vilão, sua função é plausível dentro de um clima sarcástico a favor de um filme climaticamente lúgubre. O mesmo acontece com Xavier, vivido de forma majestosa por Stewart. Por mais que seu personagem divida com Logan o principal cargo dramático do filme, a delicadeza de Stewart alterna entre alívios e nuances melodramáticas, exercendo a difícil função de alavanca motivacional para Jackman. Por outro lado, o terceiro destaque vem da novata Dafne Keen, investindo uma intensidade madura e surpreendente em seus olhares, dando vida e agressividade, marcando a jovem X-23.

Aliás, se a ambição de Logan se apoia no afeto entre seus personagens centrais, há também um imersivo cuidado em apostar no elo criado com os espectadores, combinando elementos de despedida e nostalgia. E reforço: funciona ainda melhor no ponto de vista emocional. Entretanto, é importante dizer que Logan não se torna refém de sua base de fãs, pois há também investimento em uma obra independente, ainda que a familiaridade seja essencial para que os belos toques nostálgicos atinjam a audiência com seu propósito. Este sentimento é reforçado pelo tom estético da obra, refletido em uma fotografia delicadamente suja e polvorosa, proporcionando um mundo realista, cruel e abandonado, justificando novamente a violência retratada. Inclusive, a maturidade narrativa de Logan é bastante semelhante à de Wolverine: Imortal (sendo o maior acerto do filme de 2013).

É justamente em sua atmosfera dramática onde reside a sensação de perigo real. Tanto o senso de urgência estabelecido por uma montagem crua e isenta de lutas coreografadas (cada golpe é cruelmente sentido pelo espectador), quanto a escolha por priorizar sons diegéticos acima de trilhas de ação (novamente, os golpes se destacam da música) realçam a ideia de que ninguém está a salvo naquele mundo, nem mesmo os personagens que tanto nos cativam.

Mas se a sonoridade das garras de Wolverine e os gritos de agonia destacam a angústia de combates mortais, a trilha de Marco Beltrami (marcado pelo excelente Guerra ao Terror) caminha ao lado da história. É interessante como um filme inicialmente de ação é guiado principalmente por músicas que valorizam a sutileza de momentos mais sóbrios, buscando contribuir emocionalmente para a narrativa e o desenvolvimento das figuras que conduzem o caminho do enredo. E é (também) por isso que Logan se sobressai tão bem tendo seus personagens centrais como foco para o andamento da história, deixando claro que não há problemas em não evitar clichês ou manter um simples argumento. Afinal, acima de conflitos físicos e morais, a humanidade é essencial para impactar ainda mais uma despedida.

Entre tantos elementos metafóricos e nostálgicos, a maior estrela de Logan é, sem dúvidas, Hugh Jackman. Enquanto muitos atores enxergam a si mesmos em seus papeis mais marcantes, Jackman trata seu Wolverine como um velho amigo, como se quisesse aproveitar cada estágio de seus últimos momentos “juntos”, sabendo melhor que todos a sua importância para quem tanto aguardou o que se torna o filme definitivo de seu personagem mais marcante.

É tocante como consegue estabelecer seus sentimentos retorcidos através de seus olhares desgastados. Note como em nenhum momento Logan precisa de palavras para expressar o respeito e amor que sente por Xavier, sendo suficiente o modo como Jackman revela tanta ternura somente com a forma como o olha. Há uma cena espetacular entre os dois durante um jantar, guiada com bom humor, que representa a profunda importância sentimental de um para o outro. Mas se há um momento para exaltar a interpretação de Jackman, é quando Logan não encontra fôlego ou compreensão ao enterrar seus sentimentos, buscando palavras para se confortar por suas perdas ou se perdoar para deixa-las partir para sempre. A culpa e a angústia são expressadas com puro brilhantismo de Jackman, que coroa a cena de mãos dadas com tudo o que lhe resta naquele mundo.

Logan é um filme sobre humanidade e perdão, atravessando as prováveis limitações do gênero de super-herói, alcançando muito além por não se prender a fórmulas específicas. Um marco certeiro no catálogo que será lembrado para sempre, tornando-se referência ao lado do Cavaleiro das Trevas de Nolan. Vale frisar que Logan encerra seu ciclo de forma perfeita, tanto emocionalmente quanto simbolicamente. É um final duro e gratificante ao mesmo tempo, que só faz brilhar mais ao destacar o X antes dos créditos (entenderá quando assistir), créditos estes narrados por The Man Comes Around, de Johnny Cash: “E ouvi uma voz no meio das quatro bestas e olhei e contemplei: um cavalo pálido. E seu nome, que estava assentado nele, era Morte, e o inferno seguiu com ele”. Este é o Logan de Mangold. O Logan de Jackman.

Confira também a crítica em vídeo.

Divulgaí

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