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Crítica: Invocação do Mal 2

A direção de James Wan é a melhor coisa do filme. Sua variação de ângulos e planos, a forma como aumenta a perspectiva da cena explorando a profundidade de campo, especialmente entre os corredores da casa são incríveis.
Crítica: Invocação do Mal 2

Ed e Lorraine Warren foram um casal de investigadores paranormais, que ficaram bastante conhecidos por estudar vários casos sobrenaturais e defender através de seus métodos, a existência de forças ocultas. Um dos casos mais famosos de tragédia investigado por eles foi o de Amityville, que gerou vários filmes, incluindo um remake em 2005. Não conhece a história?

Em 1974, o filho problemático Ronald DeFeo Jr. matou seu pai, sua mãe, seus dois irmãos e suas duas irmãs, alegando ter ouvido vozes que o mandaram fazer aquilo. Defeo tinha problemas com a família, muito por conta do fato de ser um usuário de drogas. Após ser preso, foi condenado a seis prisões perpétuas e obviamente encontra-se preso até hoje, apesar de ter feito um pedido de condicional há alguns anos, que foi rejeitado.

Apenas um ano depois, a casa foi vendida para a família Lutz, que a princípio havia declarado que a história da casa não os incomodava, até fugirem de lá deixando tudo para trás apenas 28 dias depois da mudança. Os Lutz alegavam que surgiam enxames de moscas do nada, ouviam barulhos, sons de tiro e até mãos invisíveis os arranhavam durante a noite. A questão é que logo depois de fugirem, a família chamou um escritor para publicar a história, e foram vendidas mais de 3 milhões de cópias, logo isso aumentou o interesse das pessoas, gerando todo um circo midiático entre acusações de sensacionalismo e de que a família estaria se aproveitando da tragédia ocorrida no local, em busca de fama e dinheiro.

Poucos anos depois, no município de Enfield em Londres, ocorre um Poltergeist, onde uma mãe divorciada e seus quatro filhos são atormentados por barulhos e objetos se movendo misteriosamente pela casa. Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga) chegam até o local para ajudar a família, especialmente a garota Janet Hodgson (Madison Wolfe), o principal alvo do fantasma. Vale lembrar que na história real, muitos afirmam que Ed e Lorraine não foram convidados, estiveram lá por apenas um dia e criaram suas próprias teorias sobre o caso.

Comecei falando de Amityville porque é justamente o que o filme faz. A controvérsia da mídia e do sensacionalismo que envolveu o caso da família Lutz , iria servir como uma barreira (a descrença) a ser superada pelo casal e pela família Hodgson, aumentando a carga dramática do filme, mas que por outro lado é um elemento exaustivamente empregado em filmes sobrenaturais (quantas vezes a pessoa que está sendo atormentada precisa enfrentar a desconfiança de Deus e o mundo até que acreditem nela?). Eu diria que todo filme do gênero tem isso, e é bem cansativa essa repetição, falta criatividade na construção dos obstáculos a serem enfrentados. Em outras palavras, mesmo após todas as evidências colhidas pelo casal no filme anterior, como eles próprios podem permanecer céticos diante do mistério que acerca o caso?

Como 'Invocação do Mal' foi um sucesso absurdo de crítica e público, eu entendo a dificuldade em se fazer uma continuação que superasse o anterior. Isso talvez seja recorrente em todos os principais filmes do gênero. O Exorcista, Pânico, Atividade Paranormal, Jogos Mortais, A Hora do Pesadelo, Halloween, O Chamado, Tubarão, etc. Você consegue se lembrar de alguma continuação de filme de terror que tenha superado o original?

A produção deve ficar muito dividida entre fazer um filme de moldes bem semelhantes a formula que deu certo no anterior (mas que corre o risco de ficar repetitivo) ou arriscar algo totalmente novo e ficar a mercê de perder a identidade e não agradar o público. Um exemplo de franquia que arriscou bastante, mas mesmo assim conseguiu agradar foi o recente 'Cloverfield'. Entretanto, 'Invocação do Mal 2' não teve essa mesma ousadia, decidindo fazer um filme muito parecido com seu predecessor.

Crítica: Invocação do Mal 2


O filme tem aspectos muito bons, como a direção, por exemplo. James Wan sabe utilizar muito bem a câmera subjetiva durante o filme. Com isso, ele consegue fazer o espectador ter uma sensação bastante intimista do filme nos momentos mais tensos. E esse envolvimento é fundamental para surpreender ou chocar o espectador, pois o coloca na situação do personagem e consequentemente, em contato com o perigo representado. Apesar de não ser nenhuma estratégia revolucionária, filmando desta forma o diretor agrega um bom impacto dramático às cenas e obtém sucesso por não utilizar este recurso em excesso durante o filme.

Outra coisa que o diretor sabe fazer muito bem é uma escala de terror crescente. Ele dá algumas pistas do que vai ser importante mais à frente (como a cabaninha do menino), reverte a expectativa da platéia em alguns momentos, começa com uns sustos menores construindo a tensão até o clímax e resolução do filme, muito semelhante ao que fez no filme anterior. Mas, infelizmente os elogios são poucos.

O roteiro deixa a desejar na sua explicação para o porquê dos eventos sobrenaturais estarem acontecendo. Sabemos que a família passa por problemas financeiros, também pelo fato do final dos anos 70 terem sido um dos piores momentos para os londrinos (o filme até esboça desenvolver isso por meio do movimento punk crescendo, crianças fumando, mas não se aprofunda). Mas não sabemos por que Janet foi o alvo principal dos eventos - o filme dá uma leve motivação, através de uma tábua ouija, mas, de novo, não desenvolve isso muito bem.

Há uma tentativa de criar um desentendimento entre o casal por meio de algumas visões de Lorraine, mas também não é convincente a ponto de acreditarmos que realmente seja um problema sério dos personagens. Na maioria dos momentos em que o filme arrisca, ele não é bem-sucedido. A cena do interrogatório é bem interessante, mas em outros momentos, a direção utiliza alguns recursos imagéticos diferentes na tentativa de criar um personagem assustador, e o resultado acaba decepcionante, por conta dos efeitos visuais que não funcionam organicamente no filme. O resultado fica tão assustador quanto qualquer animação bizarra dirigida por Tim Burton.

O elenco mantém um nível aceitável dentro do que o roteiro e a rasa profundidade dos personagens lhe permite, mas os dois protagonistas parecem estar no automático, falta vontade de realmente estar naquela história. A trilha sonora é muito boa, e a ausência dela em alguns momentos é melhor ainda por causar mais apreensão no espectador. Destaque para a ótima captação e mixagem de áudio e para o visual do filme dentro da casa, realmente um trabalho muito bem feito da produção pela sensação labiríntica e de receio estabelecidos pela atmosfera visual do filme.

Sei que tudo o que foi dito aqui é importante, mas vocês devem estar se perguntando: e o filme, assusta? Para mim, as cenas de terror são pouco inspiradas, com exceção de um ou outro bom momento (como a cena da freira). Onde o filme tenta arriscar, não acerta tanto (como a criação do monstro que eu citei anteriormente) e algumas das soluções de roteiro são decepcionantes, como a resolução do filme, que fica super apressada e ocorre de uma forma bem aquém do esperado - vou colocar aqui de forma subjetiva, mas uma palavra muito importante para a história aparece no mínimo três vezes "escondida" durante o filme. Se era para ser um easter egg parece interessante, mas depois do filme você pensa: "nossa, era só isso?".

A direção de James Wan é a melhor coisa do filme. Sua variação de ângulos e planos, a forma como aumenta a perspectiva da cena explorando a profundidade de campo, especialmente entre os corredores da casa são incríveis. Há um mini plano sequencia apresentando a casa no inicio do filme, no qual a câmera vai passando por entre os cômodos, enquanto as crianças vão interagindo com o ambiente, que dá um resultado bem interessante pela sutileza e excelente execução. Mas a montagem não é boa, pois o filme tem 2 horas e 13 minutos de duração (o primeiro tinha 1 hora e 52 minutos) e acaba de uma forma bastante atropelada, com impacto bem menor que o anterior. Os conflitos que o filme tenta desenvolver, bem como o drama do casal também não funcionam. Ao presenciar a queda de qualidade do primeiro para o segundo filme, sugiro que deixem a franquia em paz, antes que ela se torne a nova "Atividade Paranormal" do cinema.


Divulgaí

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