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Crítica #2: Independence Day 2: O Ressurgimento

O alívio cômico não funciona e quanto ao elenco mais experiente, talvez o único destaque vai para Bill Pullman, por ter um personagem muito diferente do que nós vimos no primeiro filme
Crítica #2: Independence Day 2: O Ressurgimento

Duas décadas depois do sucesso astronômico de "Independence Day" - que custou $75 milhões e arrecadou ao redor do mundo US$ 800 milhões de dólares, sem falar nas várias exibições na televisão brasileira, se tornando um dos principais filmes dos bons tempos de "Sessão da Tarde" - a Fox enfim lançou uma continuação, intitulada "Independence Day 2: O Ressurgimento".

Nesta sequência, também dirigida pelo "rei" da catástrofe, o alemão Roland Emmerich, é como se a trama ocorresse paralelamente ao mundo "real", porque - assim como em nosso mundo - se passaram vinte anos da primeira invasão, ocorrida em 1996, mas em contrapartida, a civilização do filme alcançou um avanço tecnológico muito maior, como se a história se passasse bem no futuro. Isso se torna um atrativo muito interessante, pois a essência da ficção científica consiste justamente nesse tipo de coisa, em encontrar um "realismo" interno puramente imaginativo, ou seja, filmes dessa natureza despertam em nós a imaginação de um universo muito mais intrigante que o nosso, seja ele distópico ou não.

Infelizmente, não temos mais o Cap. Hiller de Will Smith, mas temos seu filho, Dylan (Jessie T. Usher), que praticamente "herdou" o antigo posto do pai (até porque o filme não introduz nenhuma missão bem sucedida do garoto, que poderia servir para demonstrar suas habilidades de liderança). Mas algumas peças do filme anterior estão de volta, como o agora ex-presidente Withmore (Bill Pullman), o cientista David Levinson (Jeff Goldblum) e a esposa do Cap. Hiller Jasmine (Vivica A. Fox). Somam-se a eles, personagens mais jovens, como Jake Morrison (Liam Hemsworth) e a filha do ex-presidente Patricia (Maika Monroe), mas também atores experientes, como a Presidente Lanford (Sela Ward) e o Gen. Adams (William Fichtner).

Neste segundo filme, basicamente temos a mesma estrutura do filme anterior. Novamente, o risco de uma invasão alienígena está pairando sobre a Terra, e se nós tivemos todo esse tempo para nos preparar, o lado invasor também teve. A questão que fica é aquela: quem levará a melhor neste novo confronto? O roteiro do filme, que anteriormente havia sido escrito pelo próprio Emmerich com Dean Devlin, desta vez recebeu a contribuição de nada menos que mais três roteiristas (mau sinal...).  Os filmes da franquia, apesar de muito simples, costumam abordar alguma questão política e ecológica. Mas "Independence Day 2" (ID2), vai um pouco mais além. Emmerich tenta introduzir temas relevantes para a nossa sociedade atual, como uma mulher à frente do país mais poderoso do mundo, há um relacionamento homoafetivo, um personagem africano que tem uma importância para a trama diferente da habitual e etc. Mas, honestamente, o diretor passa "anos luz" longe de saber como tocar nesses assuntos de forma significativa.

É bem verdade que qualquer espectador mais experiente, já sabe que vai encontrar nos filmes de Emmerich ("O Dia Depois de Amanhã", "10.000 A.C." ou "2012", por exemplo) muita destruição e pouco desenvolvimento de personagem, dando ênfase no visual dos seus filmes. Mas o espectador merece, além de tudo isso, uma história de qualidade, com personagens e situações, se não "reais", ao menos "plausíveis", com soluções para os problemas e temas levantados, apresentadas de forma realística dentro do universo do próprio filme. E é lamentável dizer que, mesmo após vinte anos, o diretor continue fazendo o mesmo tipo de filme, sem qualquer evolução narrativa. Alguns podem até argumentar algo do tipo: "se quer um filme diferente, contrate outro diretor", mas a verdade é que qualquer profissional pode (e deve) evoluir e melhorar naquilo que é pago para fazer. E é sim possível, nem todo mundo gosta ou sabe fazer um "A Origem (2010)", mas nós temos bons exemplos de sci-fi contemporâneos que não subestimam a inteligência do seu público, como "Distrito 9 (2009)", "No Limite do Amanhã (2014)" ou até a nova franquia de "Planeta dos Macacos". É essa preocupação com seu público que separa esses filmes mencionados de um "Sharknado (2013)", por exemplo.

"ID2" até tem alguns pontos positivos. Desta vez, a trama é mais concisa e vai direto ao ponto, sem fazer muito mistério em cima de algo que é bastante óbvio e que impulsiona toda a narrativa, ou seja, a chegada da nave-mãe à Terra. Os outros elogios ficam por conta da climática trilha sonora de Klose e Wanker, que lembra bastante a grandiosidade das trilhas de Hans Zimmer, gerando tensão em alguns momentos e com temas bastante "heroicos" em outros, o que é imprescindível neste tipo de filme. E também a boa utilização dos recursos digitais, que proporcionam cenas esteticamente muito bonitas e algumas sequências bem empolgantes (como a do alien gigante), além da fotografia bastante sombria de Markus Forderer, utilizando uma paleta escura que ao invés de mostrar, esconde, proporcionando momentos bem interessantes, especialmente dentro da nave inimiga. Mas tudo isso tornaria o filme muito mais divertido (e melhor) se o diretor soubesse exatamente como contar uma história, e o roteiro deste filme é uma das coisas mais absurdas do ano (não no bom sentido).

Para começar, o roteiro é completamente expositivo. De que adianta ter cinco roteiristas se nenhum deles conhece o manjado jargão do ramo: "não conte, mostre". Desde o primeiro minuto de filme, o espectador é bombardeado com diálogos excessivamente explicativos, forçando palavras nas bocas dos personagens para apresentar quem é quem no filme, em qual situação o planeta está ou o que eles vão fazer daqui a cinco minutos.

Crítica #2: Independence Day 2: O Ressurgimento


Se eles já vão fazer, para que falar antes? Isso é um problema muito grande, porque impede o espectador de imergir na história, ficar curioso pelo que vai acontecer - porque ao expor demais os diálogos, o filme condiciona o espectador a esperar pela informação, impedindo-o de participar ativamente do filme e compartilhar da mesma tensão que "supostamente" os personagens estão passando no momento. Durante os 120 minutos de filme, não há uma cena honesta e natural em que os seres humanos conversam e se comportam como pessoas de verdade.

Outro grande problema do filme é a "conveniência" da relação entre os personagens e situações que eles passam durante o filme. É exatamente como algumas novelas da década passada, onde só parecia haver uma clínica na cidade inteira e o mundo girava em torno daquelas pessoas, todas com algum tipo de ligação. No filme acontece basicamente isso, a filha de um é noiva de outro, que por sua vez é o maior inimigo do melhor amigo da noiva, sendo que o melhor amigo do noivo se apaixona pela filha de um dos chefes militares da base, sendo que ela também é piloto, assim como o melhor amigo dele... Enquanto isso, o pai de um está em um lugar (onde vai acontecer uma coisa importante), a mãe de outro vai estar em outro lugar (onde também vai acontecer uma coisa importante).

Sem falar de um que vai acordar do coma bem naquele momento e ainda tem um encontro (como o filme tenta sugerir) "surpreendente" entre dois personagens com uma ligação passada no "pequeno" continente da África. Sério, é bizarro de uma forma que só assistindo para entender. Sabemos que há pessoas que não vão ter problemas com isso. Muitas até gostam de ter tudo explicadinho, nos mínimos detalhes. Mas como já dizia o mestre professor de roteiro Robert Mckee, é muito mais interessante você levantar a curiosidade do espectador. Sem curiosidade, perde-se o interesse (e isso serve para tudo na vida, até para chupar uma bala, você tem que estar curioso para saber o gosto que ela tem).

Do elenco, o que mais se destaca é Liam Hemsworth, porque seu personagem tem mais personalidade, o que nos faz criar uma empatia maior por ele. Do elenco mais jovem, Maika Monroe é um desperdício, porque não é nada crível o drama que ela vai passar no filme, Jessie T. Usher é muito fraco para o peso que seu personagem tinha para o filme (se limita a ficar naquela de "Top Gun" com Hemsworth, só que sem carisma). O alívio cômico não funciona e quanto ao elenco mais experiente, talvez o único destaque vai para Bill Pullman, por ter um personagem muito diferente do que nós vimos no primeiro filme. Já os outros são completamente unidimensionais, o que me leva de volta a uma questão que eu mencionei anteriormente, a tentativa de Emmerich de tocar em temas relevantes para a sociedade atual, sendo que ele não desenvolve os personagens para dar credibilidade ao assunto.

Sela Ward como Presidente é completamente confusa. Se foi intenção da direção dar importância a uma personagem feminina, colocando-a em um papel importante, por que ela não toma nenhuma decisão, está sempre concordando com as ordens dos generais abaixo dela? Goldblum, Fichtner e até Brent Spiner são outros personagens subaproveitados, tão multifacetados quanto uma folha em branco. E como temer pela vida de alguém, que no momento mais tenso do filme, com todo ambiente e trilha construindo a atmosfera, estão dando risada e tirando onda (um dos personagens chega até a urinar nos Aliens...)?

Finalizando, eu considero "Independence Day 2: O Ressurgimento" um filme muito perigoso para o cinema. É divertido? Sim, em alguns momentos. Os fãs do primeiro filme vão gostar? Sim, vão adorar! O dinheiro é do estúdio e ele faz o que quiser com ele? É claro. Mas são filmes como este, que custam $165 milhões de dólares para serem feitos e que não têm a preocupação em entregar uma história de qualidade ao público (que vá muito além de explosões e tiradas engraçadas), que ao fazer grandes bilheterias, contribuem diretamente para esta mentalidade "Holywoodiana" de sequências e remakes sem fim. É engraçado que as mesmas pessoas que consomem e idolatram este tipo de filme e ainda torcem o nariz quando alguém aponta (de forma sensata, é óbvio) para os problemas claros que a história tem, são aquelas pessoas que depois de uma semana, quando esquecem totalmente o que assistiram, reclamam da indústria cinematográfica por reciclar obras que ainda são relevantes e contemporâneas, ou buscadas em outros continentes para releituras que perdem completamente a essência do original.

Quando se assume fazer um filme trash, despretensioso, ou completamente fora da nossa realidade, isso é um gênero e merece ser respeitado. Mas não venha me empurrar qualquer história goela abaixo (de ônibus cheios de criancinhas no meio do deserto, recém-nascidos em prédios, ou só porque eu sou africano eu uso duas espadas nas costas enquanto todo mundo carrega um fuzil a laser). Quando faço esse tipo de comentário, nada mais é do que pensando no bem do cinema, e acreditando que tanto pessoas como filmes, podem evoluir e se tornar algo cada vez melhor.


Divulgaí

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