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Crítica: Os Oito Odiados

No final das contas, com seu humor negro e violência gráfica, fico muito contente em dizer que Tarantino acertou mais uma vez.
Crítica: Os Oito Odiados

Em pleno inverno no estado do Wyoming, algum tempo após a Guerra Civil norte-americana ter acabado, dois caçadores de recompensa indo rumo a Red Rock - o local onde são pagos pelos criminosos que capturaram - se encontram e decidem dividir a viagem até o abrigo mais próximo, que é o armazém da Minnie e do Sweet Dave. Eles precisam parar lá para se proteger de uma terrível nevasca que se aproxima, mas ao chegarem, percebem que a casa está cheia e a noite vai ser longa, principalmente pelo fato da única prisioneira viva, a valente Daisy Domergue, ter uma recompensa por sua cabeça de 10 mil dólares, uma grana muito alta para a época.

Não sou especialista em história, e o pouco que sei sobre a Guerra da Secessão norte-americana (que ocorreu de 1861 a 1865) é que o lado Norte, industrializado, era contra a expansão da escravidão pelo território nacional enquanto o Sul, mais agrícola, desejava justamente o contrário. Há quem diga que a causa imediata desta Guerra foi a vitória de Abraham Lincoln como presidente, já que este defendia os interesses nortistas no impasse. Diálogos e algumas situações durante o filme sustentam essa versão, com a idolatria de alguns e o desprezo de outros pelo presidente. O saldo final da guerra foi de aproximadamente 600 mil mortos, sendo que a vitória ficou do lado Norte enquanto o Sul terminou devastado e obrigado a se render aos interesses políticos e econômicos do oponente. O filme dá a entender que os ânimos dos dois lados ainda estão meio 'aflorados'.

Apesar da locação das filmagens ter sido no estado do Colorado, que também é muito frio, a história se passa no Wyoming, estado onde já foi registrado uma incrível temperatura de - 54º C em fevereiro de 1933. O filme inicia e a primeira imagem nítida em meio a uma iminente nevasca é a do Messias. Não, não estou falando do 'messias do cinema', como os fãs consideram o diretor - o curioso é que apesar de Tarantino ser ateu, sempre cita a Bíblia ou insere algo religioso nos seus filmes -, mas sim de uma imagem do próprio Jesus Cristo crucificado. Entretanto, isto não quer dizer que o diretor não tenha operado um ou dois milagres durante o filme, como veremos um pouco mais à frente.

A forma como Tarantino expressa o espaço-tempo de sua história, remete a diegese de filmes como '12 Homens e Uma Sentença' (escrito por Reginald Rose) ou 'O Sucesso a Qualquer Preço' (de David Mamet), ou seja, filmes com poucos cenários, muitos personagens e prevalecendo os diálogos, como uma peça mesmo. Além disso, bons roteiristas como Tarantino e Mamet, são mestres na arte de dar pistas falsas ao espectador, o chamado 'McGuffin' no jargão da indústria, e certamente este elemento também está presente no filme.

O roteiro de 'Os Oito Odiados' é algo que nos divide um pouco. Não me entendam mal, a idéia traz a marca de Tarantino, que adora faroestes, e a escrita é inteligente, pois mesmo com diálogos longos o diretor mantém o interesse da platéia ao abranger de forma nada tediosa uma série de assuntos, como política, questões raciais, ética na guerra, justiça na sociedade e etc. Mas um roteirista precisa ter a disciplina de escolher algumas coisas e cortar, mesmo achando brilhantes, outras. Lembrando que tudo o que é colocado em um filme deve ser importante para elucidar, complicar temporariamente ou fazer avançar a história. É a chamada 'Lei da necessidade', portanto não é que o roteiro seja ruim, mas aqui peca um pouquinho pelo excesso.

Há também algumas 'barrigas' no filme, sequências que se fossem reduzidas, ou mostradas com mais dinamismo talvez pudessem ser mais benéficas para o saldo final, como a cena onde John recolhe as pistolas na Minnie's, ou quando Marquis incorpora o 'detetive', ou principalmente a chegada dos primeiros clientes ao armazém de Minnie, que eu considero o maior 'problema' do filme quanto à sua longa duração (aproximadamente 3 horas!). Como um ponto positivo, o background dos personagens principais é riquíssimo e quando as histórias começam a cruzar, ficam muito interessantes.

Lembram quando eu disse lá no início que Tarantino havia operado um ou outro milagre? Pois bem, o diretor ressuscitou não uma ou duas, mas talvez três carreiras em 'Os Oito Odiados'. Tim Roth e Kurt Russell, apesar de o primeiro conseguir manter uma série de TV durante 3 temporadas no ar e o segundo ter atingido seu auge ainda lá nos anos 80, já eram talentos esquecidos atualmente. Seja falando de 'Like a Virgin' ou de Royale com queijo, os diálogos de Tarantino prendem a atenção da platéia como poucos. E o Oswaldo Mobray de Roth, é responsável por algumas das frases mais interessantes do filme, como quando explica para John e Daisy o sentido de justiça para a sociedade da época.

Mas o principal destaque e talvez o maior talento 'adormecido' que o diretor resgata é Jennifer Jason Leigh, que com uma interpretação cheia de intensidade, charme e sarcasmo entrega, na minha humilde opinião, a melhor atuação de uma personagem coadjuvante no ano, merecendo aquela estatueta dourada. Samuel L. Jackson é outro com uma contribuição espetacular, desde o primeiro minuto que aparece em cena, magnetiza e atrai os olhares (e ouvidos) do espectador para o seu Major Marquis. O restante do elenco está muito bem, Tarantino mais uma vez tem méritos ao conseguir extrair atuações riquíssimas de todo seu elenco, sendo que quem mais surpreende positivamente é Walton Goggins e seu 'xerife' Chris Mannix. Bruce Dern na sua curta participação também é espetacular e o sotaque caipira de todos é hilário.

A trilha sonora do mestre Enio Morricone nunca esteve tão sombria, utilizando um tema inicial muito mais para o suspense do que para o faroeste 'spaghetti', que marcou o início da sua carreira e dava um tom de descontração e até humor à narrativa dos filmes de Sergio Leone. Aqui a intenção é que a trama se leve muito mais a sério, e Morricone logo cria para o espectador o clima de perigo, revelando uma tensão ainda não explícita na imagem. E o resultado é extremamente positivo, quem sabe pode render a Morricone seu primeiro Oscar por um trabalho específico. Mais uma vez fica claro que a contribuição do compositor com o trabalho de Tarantino sempre rende temas marcantes e há de fato, além da admiração, uma harmonia entre os dois.

Entretanto, a escolha de filmar em 70mm, de certa forma parece mais um 'capricho' do diretor ou uma homenagem ao faroeste 'de raiz' que Tarantino tanto admira, haja vista a grande quantidade de câmeras que poderiam tornar a fotografia do grande Robert Richardson ainda mais bonita e detalhada (uma discussão antiga que não vale a pena entrar). Mas como grande parte do filme se passa em um único local fechado (e pouco iluminado, diga-se), isto não chega a atrapalhar, mas só ressalta o grande trabalho da direção de arte, como a caracterização impecável e o ambiente rústico, que combinam totalmente com o tom e a época em que o filme se passa.

Mesmo quando a história do filme passa a ser repetitiva e explicativa - especialmente no terceiro ato, quando o diretor prepara o terreno para o 'banho de sangue' - Tarantino mostra seu talento como cineasta utilizando recursos cinematográficos variados para não entediar o espectador, como um plano plongê pelo armazém da Minnie, em outro momento filma a cena da porta quebrada de fora para dentro e posteriormente de dentro para fora, ou seja, variando os ângulos. A escolha de contar a história do ponto de vista do captor também foi muito interessante, apesar do diretor não resistir e mostrar o 'outro lado' da trama futuramente. Como eu havia dito, um bom cineasta precisa saber quando 'polir' o roteiro, mas isto não chega a necessariamente atrapalhar a experiência graças aos personagens muito bem concebidos, que sustentam o interesse.

Tal qual a imagem de Cristo que aparece no início do filme, todo esse desencadear de mortes e violência - sempre presente nos filmes do diretor - e ilustrado por uma frase dita pelo Major Marquis ao xerife Mannix ainda na diligência, que é normal pessoas morrerem na Guerra, deixe um significado que remete a um versículo bíblico: '...sem derramamento de sangue não há remissão'. Muito embora, remissão pareça ser uma palavra que não conste no vocabulário de nenhum desses oito odiados, mas como o final fica meio que em aberto, então só podemos conjeturar algumas possibilidades (como que alguém tenha sobrevivido).

'Os Oito Odiados' é um filme que vale muito a pena. Carrega a marca do diretor, tem atuações de primeira linha, um trabalho técnico fantástico e mesmo que não seja a história mais inspirada de Tarantino, ainda é muito superior a oitenta, noventa por cento dos thrillers ou filmes de ação e aventura que vemos por aí todos os anos. Por mais que não funcione completamente como drama, pois não há muita identificação com nenhum daqueles crápulas presos no armazém e, sendo assim, não há catarse pelas tragédias que ocorrem, o diretor trás de volta à tona aquele Tarantino de 'À Prova de Morte (2007)' ou dos seus 'aprendizes' Robert Rodriguez em 'Planeta Terror (2007)' e Eli Roth em 'O Albergue (2005)', ou seja, ao exibir tanta tortura e crueldade, somos convidados a sentir o 'prazer' através do sofrimento alheio e, os puritanos que me perdoem, há certa catarse também em recriar nossos medos ou pesadelos e vê-los liquidados bem diante dos nossos olhos. No final das contas, com seu humor negro e violência gráfica, fico muito contente em dizer que Tarantino acertou mais uma vez.
Divulgaí

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