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Crítica: O Clã

Crítica: O Clã

O cinema sul-americano tem conquistado cada vez mais prestígio ao redor do mundo. Países como Argentina, Chile e também o Brasil - que está exportando vários talentos como atores e principalmente diretores para os grandes polos cinematográficos, como Hollywood - são bastante elogiados em festivais pela Europa e de vez em quando até figuram entre os cinco candidatos ao Oscar, que mesmo contestado, ainda é referência de reconhecimento através do mundo. No ano passado, por exemplo, tivemos como um dos competidores mais 'carismáticos' do público, o interessante 'Relatos Selvagens (2014)', da Argentina. Coincidência ou não, mais um filme dos mesmos produtores tem sido considerado um dos possíveis indicados para a próxima edição do prêmio, a biografia de uma família argentina dirigida por Pablo Trapero, "O Clã". 

Baseado em fatos reais, o filme conta a história da família Puccio, liderada pelo patriarca Arquímedes (Guillermo Francella), sua esposa e seus cinco filhos, sendo que um deles vive no exterior. O filho mais próximo de Arquímedes é Alejandro, ou Álex (Peter Lanzani). Ele é um grande jogador de Rugby, que atua pela equipe dos Pumas, como é conhecida a seleção da Agentina. A família Puccio é financeiramente estável, mas a situação que o país atravessa politicamente não é fácil. 

A história se passa nos anos 80, logo após a queda de um ditador no país. Arquímedes, aparentava ter ligações com a ditadura e já demonstrava certa 'resistência' ao que estava acontecendo com o país. Mas, a questão principal, e que torna a história tão incrível é que, por trás de um senhor muito distinto e preocupado com a família, estava o líder de um clã de sequestradores, que agia nos arredores do bairro onde ele morava, sendo que o cativeiro estava na sua própria casa. O objetivo era chantagear as famílias dos seus alvos muito bem escolhidos (e ricos), em quantias exorbitantes. O filme teve a melhor estréia da história de seu país e participou do tradicional Festival de Veneza, com o diretor Trapero levando o Leão de Prata de Melhor Diretor.

A abertura é feita sem pressa (dura uns 10 minutos), já em um clima de mistério que consegue aguçar a curiosidade do espectador. Depois do choque de conhecer a real natureza daquele senhor e de como a família leva uma rotina 'normal' mesmo tendo um refém em casa, começamos a perceber que o clã Puccio não é nada amador, mas uma família que é capaz de fazer o que for preciso para conseguir o que quer. O filme dá a entender que apenas a esposa e os filhos mais velhos sabiam de toda a situação, sendo que Álex ajudava diretamente o pai, extraindo informações sobre os alvos e participando do esquema na hora do sequestro. Entretanto, não dá para dizer que ele sabia de tudo o que acontecia, e ao longo do filme vamos descobrindo juntamente com ele.

A perícia de Trapero na direção faz com que ele consiga planos muito bem realizados. Há muitos closes que nos revelam as emoções e a intimidade da família e há um mini-plano sequência na cena do jantar dentro da casa que é feito com tanta paciência e naturalidade que causa uma agonia enorme em quem assiste, tal qual a frieza de Arquímedes. Tudo isso se deve também a excelente interpretação de Francella, na pele de um psicopata que assusta não com gritos ou violência, mas com um olhar penetrante e um jeito calmo de falar. 

Mas uma das melhores cenas do filme ainda estaria por vir. Como se fosse um grande 'aluno' de Quentin Tarantino, o diretor filma uma cena onde um sequestro dá errado e o resultado é fantástico. Tudo acontece muito rápido, uma sucessão de erros que comprometem o trabalho, e a reação dos personagens àquele imprevisto é magnífica. Afinal, para nós espectadores, o melhor dos crimes planejados é quando eles dão errado e as coisas saem do controle.

Merece um elogio individual a atuação monstruosa de Francella. O ator que era mais conhecido pelo papel coadjuvante de Sandoval em "O Segredo dos Seus Olhos", aqui é completamente protagonista. O ator sempre muito simpático em seus papéis, e que na TV argentina costuma participar de programas de humor, encara este difícil desafio e supera as expectativas com uma atuação que mostra toda sua capacidade dramática.

Mesmo que nem todos os personagens tenham tanto espaço para brilhar, Lanzani como Álex também vai bem, assim como o restante do elenco e é uma estratégia interessante dar destaque ao Rugby neste momento, haja vista que a seleção argentina tem crescido como nunca no esporte e obteve uma colocação fantástica para seu porte na última Copa do Mundo. O filme explora também a relação entre pai e filho, como os filhos as vezes são "forçados" a seguirem seus pais, e isto aparece na dificuldade de Álex deixar para trás sua família e na falta de comunicação com Arquímedes.

A trilha do filme contém músicas populares da época e são um show à parte. Conhecendo a classe do cinema argentino, falta mais dedicação artística, é tudo muito sóbrio, mas talvez tenha sido essa a intenção da produção, para reforçar a ideia de que, por mais absurda que pareça em alguns momentos, é uma história real. 

Apesar de não se preocupar em defender a moralidade e colocar em prática a questão do "crime e castigo", além de exigir um pouco mais de suspensão da descrença que o normal em alguns momentos (se há um refém na sua casa, morando lá dificilmente você não saberia, certo?), "O Clã" é um representante digno da Argentina para a disputa do próximo Oscar. Se irá ganhar é uma outra história, até porque tem um brazuca na disputa também, mas certamente é um filme que vale o ingresso. Com um final chocante e surpreendente e uma atuação de gala de Guillermo Francella, o filme é mais um acerto dos nossos hermanos e motivo de orgulho para o cinema sul-americano.


Divulgaí

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