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Crítica: Sicario: Terra de Ninguém


 Crítica: Sicario: Terra de Ninguém

Com o aumento da violência e todos os problemas decorrentes do trafico de drogas na fronteira EUA/México, o governo norte-americano cria uma espécie de força-tarefa para ir à perigosa Juarez, no México com o objetivo de erradicar um cartel de drogas e capturar um figurão do tráfico mexicano, Manuel Diaz. Nessa missão interdepartamental, eles enviam o responsável pela tarefa, focado apenas no sucesso da operação, Matt Graver (Josh Brolin) e uma agente - que logo revela seu caráter idealista e correto - do FBI chamada Kate Mace (Emily Blunt) para o local, mas não lhe dão muitos detalhes da operação. Ela aceita se voluntariar após saber que poderia ter a chance de capturar o principal responsável por um atentado à bomba que matou alguns membros da sua equipe, e por temer que esses atentados pudessem aumentar com o tempo. Ainda se juntaria à equipe Alejandro (Benício Del Toro), um agente “freelancer”, especialista em cartéis de drogas e nas formas de como obter informações e seguir pistas.

Sicario é um projeto bastante ambicioso, apesar de o filme ter uma atmosfera bastante “crua”, onde não há glamour em absolutamente nada do que aparece na tela, seja moral ou visualmente. Dirigido pelo talento já consolidado de Dennis Villeneuve, que surgiu como um diretor de grande personalidade com os controversos “Incêndios (2010)” e “O Homem Duplicado (2013)” e demonstrou saber agradar com maestria crítica e público com filmes de temas polêmicos, interpretados por grandes nomes de Hollywood, caso do excelente “Os Suspeitos (2013)”. Outra característica bem sustentada pelo diretor e presente em “Sicario” é levantar questões ambíguas, como ética e moral. 

Como mencionado no primeiro parágrafo, o filme aborda o tema do combate aos cartéis de drogas, especificamente na fronteira entre EUA e México. Além da questão óbvia que é a ilegalidade do comércio dos entorpecentes, este é um tema que abrange várias outras questões delicadas, como os imigrantes ilegais, a corrupção, o terrorismo e a impunidade. Isso sem falar na desumanidade cometida por esses assassinos, fazendo milhares de vítimas diretas e indiretas com estes crimes. Filmicamente falando, é quase impossível não se lembrar do premiadíssimo Traffic: Ninguém Sai Limpo (2000), também co-protagonizado por Benício Del Toro, e que deu uma nova visão (na época) sobre o combate às drogas na America. Naquela história, um juiz conservador que é nomeado o responsável pelo combate ao tráfico de drogas sente na pele o horror do vício quando sua própria filha se torna uma viciada. O filme também aborda a questão da ambigüidade do personagem de Del Toro, agindo na fronteira e mostra que muitas vezes a mudança começa de dentro para fora e não o inverso. O mais chocante nisso tudo é saber que passados 15 anos, esta luta ainda está muito longe de acabar.



Começarei falando da melhor parte, pois tecnicamente, Sicario beira à perfeição. A fotografia do mestre Roger Deakins mais uma vez está impecável, ambientando perfeitamente a história. As tomadas aéreas são impressionantes e o DP consegue transformar de forma magistral Juarez em quase que um deserto, como se estivéssemos realmente em um campo de guerra. Quando a personagem Kate está em ação, os enquadramentos e movimentos de câmera freqüentemente nos colocam no POV (ponto de vista) da agente, levando o espectador – que teoricamente partilha dos mesmos princípios idôneos da moça – a reagir da mesma forma que a personagem faz. Isto acaba sendo muito mais eficaz do que um plano médio qualquer ou até um close-up. Possivelmente o DP receberá mais uma indicação ao Oscar, lembrando que ele já foi indicado incríveis 12 vezes, sem ganhar nenhuma. O trabalho artístico do canadense Patrice Vermette, em conjunto com a fotografia, é simplesmente um dos melhores do ano, descrevendo visualmente o ritmo eletrizante do filme desde a cena de abertura. A trilha de Jóhann Johannsson (Vencedor do Globo de Ouro no ano passado) é bastante econômica, mas de uma forma positiva, servindo para pontuar os momentos de maior tensão do filme. Para a trilha de Sicario, o compositor islandês resgata a atmosfera tensa que tem tudo a ver com o tom do filme, semelhante ao que fez na trilha de Os Suspeitos (2013).

O roteiro assinado pelo estreante Taylor Sheridan usa um modelo que não é nenhuma novidade, mas ficou muito conhecido de um tempo pra cá pela sua utilização nas séries de TV: a antologia de histórias, ou seja, a utilização de tramas secundárias, cada uma com sua narrativa própria. Em Sicario, ficam bem claras três histórias: a operação em Juarez, a confrontação de Kate entre agir da forma que acredita ser o correto e as coisas que realmente precisa fazer e a história do misterioso Alejandro. Desta forma, o roteiro consegue tocar em diversos assuntos relevantes, mas convém dizer que conforme a história avança, ela deveria se aprofundar mais e, infelizmente não é o que acontece. O roteiro também não é nem um pouco sutil ao escolher um lado para "demonizar". Claramente ele coloca os norte-americanos como heróis, mesmo que façam o que for preciso para capturar os responsáveis pelos atentados (como se os fins justificassem os meios) e os mexicanos como os vilões, caracterizados - inclusive esteticamente, todos tatuados e com cara de mau - como verdadeiros terroristas, como os iraquianos que também ficaram estigmatizados nos filmes de guerra norte-americanos pós 11 de setembro. Portanto, podemos dizer que Sicario é a "guerra ao terror" no combate ao tráfico na fronteira EUA/México.

Vale lembrar que a expressão "Guerra ao Terror" foi atribuída ao ex-presidente George W. Bush (que inclusive já foi interpretado pelo mesmo Josh Brolin) como uma resposta ao atentado terrorista, mas que ganhou uma proporção gigantesca conforme o tempo passava. Entretanto, está idéia foi duramente criticada ao redor do mundo, pois se questionavam as reais intenções dos EUA em se envolver em conflitos armados no Oriente Médio e o pior: ao nomear a luta contra o terrorismo de "Guerra", isso permitiu (de uma forma bizarra) que grupos terroristas "defendessem" a legitimidade de seus atos, transformando assassinos em soldados. O filme poderia ter se expandido para os dois lados da história, mas ao encarar o problema do tráfico desta forma "simplória", ou seja, apenas o gato caçando o rato, o roteiro perde a oportunidade de se aprofundar em todas as vertentes que o assunto possibilita, deixando os enigmas mais interessantes para as subtramas, que são o dilema moral de Kate e o mistério de Alejandro.

Apesar deste deslize do roteiro, vamos voltar aos pontos positivos do filme. As atuações do trio principal são espetaculares. Embora não costume variar muito seus papéis e sua aparência, Josh Brolin entrega uma atuação muito convincente como Matt Graver, sério, implacável e focado, características que combinam muito com a personalidade do ator. Mas eu não vejo uma indicação para ele neste momento. Quem se destacam mesmo são Del Toro e Emily Blunt. O primeiro consegue manter o ar misterioso que compõe seu personagem, sendo que ao mesmo tempo que ajuda a agência parece ter uma motivação pessoal no caso. Já Emily é a que surpreende mais, a atriz de despe de sua sensualidade durante todo o filme, e apesar de (como eu mencionei anteriormente) o roteiro não se aprofundar como deveria no interior da sua personagem, pois como muitas vezes o espectador vê o filme do ponto de vista dela, não faria sentido ela explicar para si mesma o que está sentindo. Ou seja, o próprio roteiro nos impede de conhecê-la melhor - diferente por exemplo da agente Sterling (Jodie Foster), que no clássico "O Silêncio dos Inocentes (1991)" é instigada a se abrir para o Doutor Lecter. Como não há para Kate este interlocutor, sua personagem perde muita profundidade. Estes dois últimos citados podem ser indicados para o Oscar de Melhor Coadjuvante e Atriz, respectivamente, mas também não os apontaria como francos favoritos, apesar do ótimo trabalho.

Considerando o que foi dito, Sicario torna-se um filme imperdível pelo seu impecável trabalho técnico. O "tripé" de diretores desempenha um trabalho excepcional, e Villeneuve mostra mais uma vez sua capacidade em tirar o máximo do seu elenco. O diretor também obtém sucesso na sua proposta que é mostrar para o espectador que a fronteira "é apenas uma linha a se cruzar", ou seja, é a ponta do iceberg e há muito mais a se considerar e sacrificar para atingir o resultado desejado. O filme choca visualmente, as atuações em momento algum parecem artificiais, e segue alguns elementos que, segundo Aristóteles, todo bom filme de ação deve ter: um lugar específico onde a história deve acontecer - e Juarez tem um aspecto muito peculiar, idiossincrático; uma cadeia de incidentes com causa e efeito; começo, meio e fim bem claros. Apesar de mais uma vez o diretor deixar um gosto amargo na garganta do espectador ao final do filme (sim, mais uma vez ele deixa o final em aberto), o resultado é muito mais claro e compreensível que os finais enigmáticos de "O Homem Duplicado (2013)" e "Os Suspeitos (2013)". Sicario vem com força para ser indicado ao Oscar de Melhor Filme - e assim como seu diretor - corre por fora, na espera de alguma surpresa.
Divulgaí

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