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Crítica: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE


Um dos diretores mais criativos da atualidade oferece novamente um vislumbre sobre sua mente imaginativa, um universo pintado com cores vibrantes, mobiliado com objetos curiosos milimetricamente posicionados em combinações perfeitas, povoado pelas figuras mais excêntricas e interessantes vivendo empreitadas inusitadas.  Situado num período de conflito, O Grande Hotel Budapeste reafirma a sensibilidade de seu autor, que não se furta de adicionar aqui seu senso de humor cartunesco, mas também não se engana a cerca da verdadeira natureza da guerra.

A fabula da vez acompanha a história do excêntrico  Gerente do Grande Hotel Budapeste em seus tempos áureos. Mr. Gustave (Ralph Fiennes), que possui um particular gosto por senhoras idosas, é surpreendido pela  morte de uma de suas amadas Madame D (Tilda Swinton). Munido de seu fiel escudeiro e amigo Zero (Toni Revolori),  parte para o velório sem suspeitar que terá de lidar com as acusações da família da falecida, e a perseguição de seu terrível filho Dmitri (Adrien Brody) ajudado por seu  capanga sanguinário Jopling (Willem Dafoe).

Mr. Gustave corresponde ao típico protagonista de Anderson, cujo brio não permite perceber que está preso a um estilo de vida obsoleto, mas que do fundo de suas notáveis falhas de caráter transparece a sensibilidade de um gênio, somente para aqueles que sabem apreciar é claro. Sua busca é por um laço afetivo, parecido com o concebido entre pai e filho, algo difícil de se alcançar naturalmente ao associar-se somente com mulheres idosas. Assim, toma para si o papel de pai mentor e amigo do jovem mensageiro Zero, garoto que, também zerado em termos de família, não poderia receber tal tratamento de maneira negativa. Esse lampejo de vulnerabilidade, presente em toda filmografia de Anderson, permite que os personagens não sejam suplantados pelo estilo marcante do diretor. Isso, e também seus excepcionais roteiros.

 Mais do que sobre homens em buscas enviesadas por pais, filhos e amigos, os filmes de Anderson (ele próprio um exímio roteirista) são também sobre a excelência em contar histórias. Então, não por acaso o narrador de O Grande Hotel Budapeste é um escritor anônimo (Jude Law), que na verdade, está contando sua versão de uma história ouvida a muito tempo atrás, ou seja, uma história dentro da outra (Inception!), indício de que a intenção do diretor/roteirista era criar um fabuloso exercício da arte da escrita. O resultado é uma trama redonda, criativa, e porque não, poética, marcada principalmente pelo desenrolar inesperado, porém plausível (dentro da lógica do filme) dos fatos. Expressa a paixão quase palpável do  diretor/roteirista pelas surpresas súbitas e revelações que acrescentam novas camadas de significado aos acontecimento.

Paixão que se estende também para seus personagens pitorescos, interpretados com intenso comprometimento, mesmo nas pontas mais curtas, por atores do primeiro escalão. Ralph Fiennes personifica a fleuma britânica, que acentua o caráter quase patético de sua condição e contrasta positivamente com a passividade e condescendência do personagem Zero de Toni Revolori. Adrien Brody a despeito de sua cara de bom e bobinho, consegue um ótimo resultado com o maquiavélico playboy enquanto Willem Dafoe é beneficiado por sua aparência peculiar no papel do assassino sanguinário Jopling. Ainda em pontas menores mais prazerosas, temos Tilda Swinton, Edward Norton, Jeff Goldblum.

Do ponto de vista visual, a obra obedece a rígida cartilha do diretor, com todos os elementos que compõe sua inconfundível assinatura, enquadramentos impecavelmente simétricos, movimentos de câmera característicos (travelings, whip pans, etc), e uma lógica imagética própria,  que nesse caso, estabelece contraste entre o suntuoso interior do Hotel, onde há predominância de cores quentes e ambiente requintado e o exterior frio, uma cidade pobre, rústica, coberta por um tapete branco composto pela neve intermitente. O rosa e o azul intrometem-se nesses ambientes para acrescentar doçura pureza,e um pouco de ironia, enquanto o cinza e o preto aparecem respectivamente associados a instituições ( a cor do uniforme e da prisão), e a maldade. Nesse ínterim, o diretor reafirma sua paixão pelo retrô, inserindo passagens em stop motion, maquetes e fundos pintados a mão (matte painting).

O Grande Hotel Budapeste expressa também um paradoxo, por um lado é possivelmente a mais engraçada obra da filmografia do diretor, e por outro a mais sombria. Perto do final, o diretor dissipa seu mundo das belas cores que o pintavam até nos momentos mais tensos, para mostrar o que existe além de seu universo controlado, um mundo caótico assolado por uma força capaz de arrancar o final feliz que seus intrépidos personagens mereciam: a verdadeira guerra. Ela não compreende as regras da arte, não abre exceções para a ternura ou a civilidade, nem mesmo em uma história de Wes Anderson.

Divulgaí

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